A
Memória que Me Contam,
(Idem, Brasil/Itália/França, 2012)
Dir:
Lúcia Murat

É
um prato cheio para que o filme (a diretora?), através das falas de seus personagens, possa
disparar lições de moral e ensinamentos sobre a guerrilha, o sofrimento dos que
foram torturados, a ideologia comunista, sobre como os militares eram cruéis. Tudo
isso é muito nobre e importante, claro, mas há um maneirismo chato como se a obra quisesse educar o público, principalmente o mais jovem, sobre essas questões.
Só não é um desastre maior porque equilibra seu discurso também
apertando o calo dos próprios militantes, apontando erros e questões polêmicas
entre eles (como a delação e atendados mal sucedidos).
Há ainda em A Memória que Me Contam um
malabarismo narrativo que tenta tornar o filme mais dinâmico e interessante. A
mulher à beira da morte surge em sua versão mais jovem (vivida por Simone Spoladore),
interagindo principalmente com a personagem de Irene Ravache, uma cineasta que
seria um alter-ego da própria Murat, reprisando seu papel em Que Bom Te Ver Viva, um dos primeiros
trabalho da diretora. Seria um sopro de vitalidade, caso o filme não insistisse em
usar esses momentos para proferir as mesmas frases de/(sem) efeito de antes,
voltando ao mesmo problema.
É
incrível como todos os atores parecem orientados a soarem forçados, falando
de forma impostada. Esse tipo de encenação quebra uma certa naturalidade, torna
o tema desinteressante e parece mais afastar o espectador de um filme com tanto
potencial. Se as marcas deixadas pela Ditadura ainda são feridas com as quais o
Brasil tem uma imensa dificuldade de lidar, esse tipo de cinema pouco ajuda
também.
O
Cordeiro (Behold the Lamb, Reino Unido, 2011)
Dir: John McIlduf
Dir: John McIlduf

Se o
filme tenta se equilibrar entre as duas marcas, o cômico aqui é bem mais
eficiente, apesar de alguns cenas sempre mais exageradas de graça sem muita
graça, com preferência por idiotizar demais seus personagens. Mas há momentos
de boas risadas, e a química entre os dois atores principais é fundamental para
o êxito do filme.
Como road movie barato (em termos de
orçamento, diga-se), busca-se uma estética mais crua, embora a cópia exibida na
Mostra estivesse péssima. Mas O Cordeiro
tem seu equilíbrio enquanto dramédia, embora a parte final se entregue a dar
conta dos dramas pessoais dos personagens, sem tentar solucioná-los. Acaba não
conseguindo dar tanta substância a isso, ou então não quer sujar as mãos. Os
bons momentos de risadas já valeram.
O Gebo e a
Sombra
(Idem, Portugal, 2012)
Dir:
Manoel de Oliveira

Michael
Lonsdale é o Gebo do título, um velho contador que vive com a esposa (o mito
Claudia Cardinale) e a nora (Leonor Silveira) à espera que o filho (Ricardo
Trêpa) retorne à casa. Sabemos que ele é um ladrãozinho vagabundo, vida que a
mãe preocupada nem pode sonhar em ter conhecimento. Nessa espera, o filme cria
toda uma atmosfera de tristeza e pesar por esse jovem perdido, deixando a todos
aprisionados, enquanto os rancores e desgostos vão surgindo.
Do
que à primeira vista parece muito teatral na encenação do filme (no melhor dos sentidos já que é
baseado numa peça de teatro do português Raúl Brandão), O Gebo e a Sombra ganha muito em cinematografia por conta da mão certeira de Oliveira em compor o quadro, alongar
o plano, dispor os atores, ajudado por um trabalho de luz belíssimo. É como se
narrativa fosse a mais simples e discreta possível para fazer prevalecer o
texto.
É
quando entra em cena o talento de seus atores, juntando-se ao time a impagável
bisbilhoteira vivida com graça por Jeanne Moreau e o amigo da família de Luís
Miguel Cintra. Ao redor da mesa, sob o teto aconchegante da humilde casa,
desenrola praticamente toda a história que aos poucos vai desenhando seu tom
trágico até o impacto da exata cena final (algo parecido com o que ele já havia
feito no desfecho do ótimo Um Filme
Falado). Manoel de Oliveira, aos 104 anos, continua em boa forma.
Super
Nada (Idem,
Brasil, 2012)
Dir:
Rubens Rewald

Daí
que Super Nada é um filme tristíssimo
na forma como equilibra o cômico e o dia-a-dia pouco engraçado do protagonista,
afogado em dívidas e problemas no relacionamento com a namorada (Clarissa Kiste).
Através da comédia, revela a vida sem grandes perspectivas de um artista
querendo ser maior. É também um filme que evidencia o corpo enquanto linguagem,
mas também como sustento. É como uma versão masculina do ótimo Riscado.
Mas
o filme não se limita a acompanhar essa rotina de sobrevivência e ganha em complexidade
à medida em que o personagem entra num turbilhão de erros e desvios de caminho,
sempre tentando fazer o melhor, mas trocando os pés pelas mãos. Mesmo assim, Rubens
Rewald não cai na tragédia pura; pelo contrário, faz um filme hilário, enquanto
Descartes revela uma desenvoltura corporal incrível. Jair Rodrigues, como o protagonista
do programa Super Nada, é uma presença luminosa, dono das melhores tiradas do
filme.
Entre
o real e o fingimento, Super Nada é
um brinde à comédia, à performance do corpo, mas também filma com desenvoltura um
personagem na corda bamba, fazendo os outros rirem enquanto ele mesmo tenta se sustentar
para não cair.
2 comentários:
Nada de interessante. A Lúcia Murat nunca me convenceu. Ela só temboas intenções. Nada mais.
O Falcão Maltês
Antonio, eu só fui ver esse filme da Murat porque teve sessão cancelada e esse era o único que encaixava. Me arrependi, de fato ela tem boas ideias, mas a execução dos filmes é sempre muito fraca.
Postar um comentário