terça-feira, 29 de junho de 2010

Meandros da loucura

Ilha do Medo (Shutter Island, EUA, 2010)
Dir: Martin Scorsese



Ilha do Medo é Scorsese puro. Não que seja esse um dos melhores filmes do diretor, mas porque o roteiro se baseia num material tão frágil e possui um final tão rasteiro, que a grande diferença aqui é a condução firme e cheia de referências do mestre Scorsese.

De Paixões que Alucinam, dirigido por Samuel Füller, a O Iluminado, do Kubrick, as referências são muitas para contar a história de um detetive federal (Leonardo DiCaprio) e seu parceiro (Mark Ruffalo) que viajam a uma ilha totalmente isolada onde funciona uma prisão-asilo para doentes mentais que cometeram crimes perversos. Eles investigam a fuga inexplicável de uma de suas detentas, desaparecida até então.

A atmosfera de suspense é logo introduzida assim que os personagens chegam à ilha. Trilha sonora carregada e em alto som é o primeiro desses indícios, conferindo desde já certo peso e opressão ao ambiente. Soma-se a isso o aspecto de estranha calmaria dos pacientes, como parece ser característica dos loucos mais perigosos.

Há ainda uma atmosfera bastante forte no cenário pois o próprio aspecto de isolamento da ilha, por sua dimensão, confere já esse tom de “tome cuidado”. E essa ambientação é essencial para o filme, pois é assim que Scorsese prende a atenção e prima pelo suspense mais genuíno.


Scorsese, bastante fiel ao gênero policial (e aqui o cineasta busca se aproximar bastante do clima noir), aproveita a história para acrescentar também momentos de psicologismos pois o protagonista busca, paralelamente, encontrar o assassino da esposa e dos filhos, podendo o criminoso estar na ilha. À medida que a narrativa avança, muitas perguntas vão ficando no ar, garantindo a atenção redobrada do espectador em busca de soluções plausíveis.

Interessante notar como o uso dos efeitos especiais no filme parecem tão perceptíveis (como se fizessem questão de serem notados), dando a impressão de artificialidade que, no fundo, é bastante propício à história, principalmente em relação a um desfecho que, se em determinados momentos pode nos parecer previsível, revela sua carga de curiosidade.

E por mais que as respostas cheguem em momento oportuno, numa reviravolta simplória, mas necessária, o filme, por tudo que apresentou, funciona muito mais como suporte para sensações angustiantes e assombrosas durante a projeção. Resta ao fim, porém, ainda uma outra leva de questionamentos sobre a loucura e um método de curá-la, o que talvez seja impossível.

3 comentários:

Vulgo Dudu disse...

As referências são ótimas, mas vou lhe confessar que há muito tempo ando com um pé atrás com o Sr. Scorses. Acho que ele vem perdendo a punjança, em detrimento de um cinema cada vez mais academicista. Não vi Ilha do Medo, ainda não posso confirmar minha teoria. Mas tenho receio, apesar de você muito bem cotá-lo. Vou fazer o tira-teima, com certeza.

Abs!

Dr Johnny Strangelove disse...

Bem, sabe aquele tipo de filme que sabemos o que vai acontecer no final e acertar o mesmo e mesmo assim babar pelo seu conjunto ... bem A Ilha do Medo é assim.

Maravilhoso a sua maneira, por enquanto consegue ser uma das melhores estreias do ano. Claro que chegará filmes melhores ... mas sinto que pelo menos esse conseguiu deixar a respiração do espectador mais dolorida possivel ...

abraços!

Rafael Carvalho disse...

Dudu, não acho que o Scorsese tenha pedido o tino, mas talvez o cinema dele ainda pereça preso a um formato muito tradicional. Mas a maturidade do cara tem garantido bons filmes nos últimos anos. Não consegui desgostar de nenhum.

Pois é, Johnny, também compartilho da mesma opinião e acho que Scorsese é um dos poucos hoje que pode fazer isso, mas o faz com propriedade, porque apesar dos filmes parecerem presos a um modelo antigo, o cara sabe dirigir muito bem.