sábado, 15 de maio de 2010

Curtinhas

Entre Irmãos (Brothers, EUA, 2009)
Dir: Jim Sheridan


Talvez meu erro foi ter visto esse filme depois de conferir o longa original do qual foi adaptado. O filme dinamarquês de Susanne Bier (que realizou o excelente Depois do Casamento) é um bom trabalho somente, mas possui um ótimo material que a versão norte-americana copia descaradamente, numa adaptação vazia e sem emoção. O tipo de trabalho mecânico que é filmar uma mesma história de um mesmo jeito. O irlandês Jim Sheridan podia muito bem não ter manchado sua filmografia com esse trabalho.

A história gira em torno de uma mulher (Natalie Portman) cujo marido (Tobey Maguire) é mandado para uma missão no Afeganistão como líder de uma equipe militar, mas acaba sofrendo um atentado e é dado como morto. Assim, sua esposa acaba se aproximando do cunhado (Jake Gyllenhaal), recém-saído da cadeia. Mesmo que a adaptação seja bastante fiel, fica explícita a falta de intimidade com o material original porque os personagens são todos complexos, mas o filme parece não saber o que fazer com eles e com as situações nas quais esbarram. Tudo soa frio e distante demais.

PS: num ano em que vimos Werner Herzog se apropriar de um filme para fazer uma versão totalmente pessoal e pertinente a seu projeto de cinema, Entre Irmãos é mais uma vergonha da onda de remakes atual.


Mary e Max – Uma Amizade Diferente (Mary and Max, EUA/Austrália, 2009)
Dir: Adam Elliot


No longa Nunca Te Vi, Sempre Te Amei, Anne Bancroft e Anthony Hopkins, ela nos Estados Unidos, ele na Inglaterra, travam uma longa amizade através de cartas. É justamente essa a premissa de Mary e Max, animação australiana, esnobada no Oscar, sem motivo aparente. O tom do longa é um tanto diferente, mas traz um roteiro tão gostoso e, ao mesmo tempo, complexo na construção de seus personagens, que é, desde então, uma das grandes produções do ano.Mary é uma garotinha australiana solitária que por acaso resolve escrever para alguém nos EUA.

Esse alguém é o problemático e sociofóbico Max. A troca de correspondências entre os dois serve não só para que eles “desabafem” suas preocupações um com o outro, mas também para que o espectador passe a conhecê-los melhor. A riqueza de características, bem como seus medos, anseios e angústias diante do mundo, são revelados através de boas doses de humor. Mas o filme nunca pesa a mão no drama nem na comédia. O trabalho de direção de arte é primoroso em detalhes, caracterizando bem o estilo de vida dos dois. No fundo, são duas pessoas que mostram o quanto precisamos uns dos outros. Mas não de qualquer um.


Tulpan (Idem, Casaquistão/Alemanha/Suíça/Polônia/Rússia, 2008)
Dir: Sergei Dvortsevoy


Filme que fez enorme sucesso na Mostra de São Paulo em 2008 (depois de ter vencido o prêmio no Um Certain Regard, no Festival de Cannes), chegou aos cinemas brasileiros sem muito alarde. A própria narrativa do longa é mais contemplativa e sem clímaxes ou arroubos dramáticos. Mas é uma grata surpresa vinda, inesperadamente, do Cazaquistão, país de pouca tradição cinematográfica. A aridez dos desertos e as famílias pobres que vivem no meio do nada dão conteúdo para acompanharmos a história de Asa (Ashkat Kuchencherekov), jovem recém-chegado da guerra e que busca uma esposa. Mas a única pretendente do local, a Tulpan do título, lhe esnoba por causa das enormes orelhas que ele tem.

O filme possui aquele ritmo lento e atmosfera de contemplação, uma vez que praticamente nada acontece naquelas bandas. O filme segue como observação de um certo tipo de vida parada no tempo, mesmo que o protagonista esteja à procura de um rumo para sua vida (ele mora com a família da irmã, sob o olhar mal-humorado do cunhado). Mesmo assim, o filme nunca assume um viés panfletário de crítica social pedante, muito embora deixe espaço para esse tipo de indagação, a cargo do espectador (o mesmo tipo de sensação causada pelo documentário Camelos Também Choram). Mais vale ao filme acompanhar os descaminhos de Asa em busca dessa promessa de felicidade.


Import/Export (Idem, Áustria, 2007)
Dir: Ulrich Seidl


Merece um prêmio a pessoa que conseguir assistir a esse filme todinho de uma só vez. Import/Export passa como obra autoimportante para denunciar como os imigrantes europeus passam por maus bocados longe de seus países natais, na tentativa de conseguir vida melhor, mas só encontram humilhação e desprezo. O problema é que a gente já sabe disso há muito tempo e o filme acaba por se tornar um apanhado de lugares-comuns, filmado com uma câmera estática que valoriza longos planos como se isso fosse uma comprovação de uma certa estética para esse tipo de produto.

A ideia de importar/exportar pessoas, como se fossem mercadorias, é interessante, mas passa batido devido à falta de um mínimo de complexidade para os personagens. Cenas pornôs tentam conferir potência (e polêmica) ao filme, agregadas a uma sensação de humilhação, mas tudo soa raso demais. O filme de pouco mais de duas horas de duração parece ter cinco, tão maçante que é.

9 comentários:

Wallace Andrioli Guedes disse...

Só vi Tulpan. E achei belíssimo...

Elizio disse...

Finalmente atualizando...
Gostei dos comentários sobre Mary e Max - Não de qualquer um - . Me deu vontade de ver esse "nunca te vi, sempre te amei", que você compara.

Os outros não vi!

Vulgo Dudu disse...

Caramba, não vi nenhum desses filmes que você comentou! Mas o último, por mais polêmico e tedioso que possa ser, me chamou a atenção. Nem que seja pra depois dizer que é uma merda, deu vontade de conferir.

Abs!

Rafael Carvalho disse...

Concordo, Wallace. E a beleza de Tulpan não é aquela exótica que se beneficia da paisagem, mas a beleza melancólia da busca por uma certa felicidade possível em meio àquela realidade. Muito bom!

Elizio, da mesma forma que Mary e Max é sua cara, esse outro filme também pode te agradar muito. Recomendo. Dos outros filmes, Tulpan pode ser um boa dica, apesar de uma certa lentidão na narrativa. Mas é um belo filme e bastante sincero.

Dudu, Import/Export, para valer a pena, precisaria se desvencilhar de um certo quê de denuncismo ultrapassado para ter alguma validade maior. Mas veja o filme para tirar a prova. Só espero que consiga chegar até o final.

Matheus Pannebecker disse...

"Entre Irmãos" é muito decepcionante. Além do roteiro problemático, considero o elenco muito mal escalado!

Quando a "Mary e Max", achei muito legal! É uma animação que merece ser descoberta.

Gustavo H.R. disse...

Estou acostumado a não me decepcionar com Sheridan, por isso, quando pegar BORTHERS, vou assistir com as anteninhas ligadas para evitar expectativas altas demais...

Rafael Carvalho disse...

Matheus, não acho o elenco mal escalado, mas mal direcionado. Parece que nenhum deles sabia o que fazer, não havia consistência nas atuações (como em todo o longa). A impressão é que eles se acomodaram no material original, sem tentar oferecer nada de novo. E Mary e Max precisa mesmo ser decoberto porque está passando batido por muita gente. O filme é sensacional.

Tomara, Gustavo. Também gosto do Sheridan, mas esse remake não me desceu.

Cristiano Contreiras disse...

Eu discordo, acho Entre Irmãos bem dirigido - principalmente o elenco infantil, muito bem e natural - e há boas cenas.

abraço

Rafael Carvalho disse...

Sério, Cristiano? O filme realmente não me desce. Mas concordo em relação à naturalidade do elenco infantil. Mas isso é bem pouco diante da inanição total do filme.