sábado, 9 de julho de 2011

Curtinhas

Namorados para Sempre (Blue Valentine, EUA, 2010)
Derek Cianfrance


Para além do marketing totalmente equivocado do filme para o Dia dos Namorados (cartaz, trailer, título traduzido e data de estreia), Namorados para Sempre se revela, desde o início, muito mais do que uma história de amor. O roteiro intercala dois momentos distintos da vida de Dean (o sempre bom Ryan Goslin) e Cindy (Michelle Williams, ótima aqui): as dificuldades de relacionamento depois de casados e já com uma filha pequena, e antes disso quando eles se conhecem. A história, nem um pouco romantizada (no sentido idealista), se forma a partir de uma série de controvérsias e conflitos de vida de ambos, carregando desde já uma dificuldade de vencer esses obstáculos.

Os protagonistas são desenhados de forma crua porque são cheios de defeitos, embora a atração deles seja evidente. Imaturo é outro adjetivo que se aplica bem a ambos pela própria formação pessoal e atitudes cotidianas (ele muito brincalhão, ela facilmente influenciável), não parecem ter segurança do rumo a tomar e por isso se tornarão um casal frustrado; existe mais atração na relação deles do que uma consciência emocional do amor que eles nutrem reciprocamente. A própria estética do filme acentua essas questões, como a fotografia granulada e a câmera na mão que vacila a todo o momento. Vacila como os próprios personagens vacilam naquilo que eles querem em contraponto àquilo que eles realmente conseguem fazer de suas vidas, encontrando um no outro amparo mútuo.


Singularidades de uma Rapariga Loura (Idem, Portugal/França, 2009)
Dir: Manoel de Oliveira


Mais um filme rasteiro, mais uma obra marcada pela concisão e destreza em contar pequenas e potentes histórias. Centenário, Manoel de Oliveira parece ter feito uma promessa de nunca perder a vitalidade criativa e narrativa. Em Singularidades de uma Rapariga Loura ao mesmo tempo em que o diretor é muito contemplativo (o filme tem 60 minutos cravados), sabe também ser direto e incisivo nos momentos certos. Nos traz a história de paixão incondicional de Macário (Ricardo Trêpa) pela bela Luísa (Catarina Wallenstein) assim que a vê na janela segurando um leque, quase que incutindo no jovem um estado de hipnose.

Isso porque o rosto dessa mulher fica marcado, pois é altamente misterioso, parecendo nos dizer (a nós, expectadores, porque Macário está cego de amor e só enxerga beleza) que existe algo de perigoso ali. Macário, no entanto, vai fazer de tudo para consegui-la como esposa, afundando sua própria vida. Estamos no campo das paixões platônicas, mas não podemos esquecer que se trata aqui de uma adaptação de um conto de Eça de Queiroz. Bom realista que é, guarda sua cartada fatal para os últimos minutos. O filme parte de uma história de amor incondicional para ganhar contornos de conto moral ao se revelar emocionalmente devastador para seu protagonista (algo que ele já demonstra desde o início quando conta sua história no trem). É também uma forma de mostrar como uma “singularidade”, um detalhe de personalidade nos afasta (ou atrai) em alguém. E de como um cinema tão singular como o desse senhor português pode nos fascinar tanto.


Um Homem com uma Câmera (Chelovek s Kino-apparatom, União Soviética, 1929)
Dir: Dziga Vertov


Se a década de 20 no cinema russo foi altamente marcada pelo experimentalismo e, principalmente, pelas inovações do recurso de montagem, elevado-a ao grau máximo da poética cinematográfica, Um Homem com uma Câmera pode ser considerado o filme síntese desse conceito, um dos primeiros e mais felizes experimentos do cinema sobre sua própria linguagem, naquele momento em alta expansão. O filme parece reunir as noções da montagem dialética desenvolvida e teorizada por Eisenstein (embora existisse certas rixas entre ele e Vertov) e os experimentos pioneiros de Kulechov. Mas existe claro no filme a consciência de incluir o cinema como artifício de representação da vida social, para além de uma pura metalinguagem. O homem filmando com a câmera ou a montagem na ilha de edição aparecem no filme como a própria realidade retratada.

Temos essa câmera que percorre uma cidade captando momentos os mais variados e comuns da rotina cotidiana, ao mesmo tempo que experimenta os mais diversos recursos da linguagem fílmica, sejam ângulos diversos, fusões, cortes secos e rápidos, divisões de tela, capazes de deixar muita gente hoje em dia de queixo caído com tamanha experimentação e inventividade para um filme daquela época. Há todo um vigor formal que pensa o cinema e suas potencialidades como um olho que enxerga o mundo ao redor. Talvez seja uma ideia simples, mas isso aí é cinema puro.


Homens e Deuses (Des Hommes et des Dieux, França, 2010)
Dir: Xavier Beauvois


Não consigo entender como tanta gente vem superestimando tanto essa produção francesa. Homens e Deuses não é só correto em sua abordagem, mas bastante sóbrio e preciso naquilo que quer narrar (ajudado por uma bela fotografia naturalista), revelando total respeito pela história dos monges católicos que, vivendo num mosteiro na Argélia e se dedicando a ajudar a população pobre local, foram ameaçados, sequestrados e mortos por fundamentalistas islâmicos em meados dos anos 90. Um bom filme, mas não vejo maravilhas. Acho que tem vencido pela simplicidade e força de sua história sem nunca impor isso em sua narrativa. O diretor Xavier Beauvois filma tudo com muita calma e complacência, revelando o dia-a-dia daqueles homens dedicados à vida sacra e seu ofício humanitário.

Mas há também muita coisa não dita que se apreende nas entrelinhas do filme, da mesma forma que a história não se preocupa em se aprofundar as relações sociais e políticas que cercam a formação e ação daqueles grupos islâmicos que criam uma onda de terror e intimidação nas pessoas da região. Existe ainda um contraponto interessante que o filme trabalha muito bem: o cotidiano pacato da vida no mosteiro e a tensão trazida com a ameaça terrorista. A cena do jantar ao som de O Lago dos Cisnes é linda, bastante comentada, mas me toca mais o momento em que todos os monges estão orando na capela, ouvem o som de um helicóptero, pressentem o pior, e se abraçam, entoando um cântico sacro. A solenidade é de deuses, mas a materialidade é dos homens. Homens de fé, mas principalmente de coragem.

PS: Confira aqui a ótima entrevista com Jean-Pierre Schumacher, um dos dois monges que se salvaram do sequestro, falando publicamente pela primeira vez 15 anos depois do trágico episódio.

5 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

UM HOMEM COM UMA CÂMARA é bom demais. Obra-prima.

O Falcão Maltês

bruno knott disse...

Estou prestes a postar um comentário sobre Blue Vallentine no meu blog e eu ia falar justamente sobre este pífio marketing em cima do filme. É um filme sobre relacionamentos que ninguém quer no dia dos namorados, isso é certo.

Também cheguei a essa conclusão: houve a união por motivos errados (ela desesperada com a situação em que se encontrava, ele querendo se apaixonar a primeira vista) e deu no que deu.

Um filme extremamente forte e que adiciona originalidade para o tema!

Sobre Homens e Deuses é um filme que quero muito assistir. Vou tentar ficar atento as entrelinhas.

Abraços.

Natalia Xavier disse...

Namorados para Sempre foi uma ruptura atual no idealismo de amores que forçam pra dar certo no cinema. Gostei!

Abs!

Alex Gonçalves disse...

Não conferi nenhum filme aqui comentando, mas vamos lá:

"Namorados Para Sempre" provavelmente foi vítima de uma campanha equivocada mesmo, mas se foi o meio de atrair público para um filme independente, que seja. Mas Ryan Gosling definitivamente não me desce. Já "Singularidades de Uma Rapariga Loura" provavelmente assistirei, pois conhece pouco, quase nada, do seu cinema. No caso de "Um Homem com uma Câmera" pude assistir alguns trechos na oficina de videoarte que cursei no ano passado. Este filme é um marco na história do cinema pois, como sua opinião pontuou, há nele um experimentalismo que talvez não tenha sido conferido em qualquer outro filme que o precede. Por fim, não sabia até agora do que se tratava "Homens e Deuses". Que história interessante, assistirei.

Rafael Carvalho disse...

Antonio, é um espetáculo de filme, incrível que tenha sido feito naquela época.

Bruno, o pior disso tudo é que o público vai esperando uma coisa do filme e sai detestando porque o que encontrou foi outra coisa, bem mais amarga do que o imaginado. E acabam perdendo um ótimo trabalho. Homens e Deuses é bem bom, não deixe de ver.

Natalia, não sei se chega a ser uma ruptura, mas é um grande estudo de personagens e de um relacionamento sem idealismos e muito mais marcado pela dor e pela necessidade de ter um ao outro.

Alex, acho o Ryan Goslin um dos melhores atores norte-americanos que surgiram nos últimos anos. O trabalho do cara é de primeira. Singularidades de uma Rapariga Loura faz parte de um cinema muito pessoal do Manoel de Oliveira, bom ir com calma, mas é muito interessante.