segunda-feira, 13 de junho de 2011

Festival Varilux (parte I): Pais e mães


O Pai dos Meus Filhos (Le Père de Mes Enfants, França/Alemanha, 2009)
Dir: Mia Hansen-Løve



Grégoire Canvel (Louis-Do de Lencquesaing) é o produtor de cinema que todo diretor gostaria de ter: ele defende com muito afinco os poucos e alternativos projetos que tem nas mãos, muito embora uma crise financeira violenta esteja cada vez mais perto de arruinar todo o negócio.

E por mais que isso represente um gravíssimo problema que o consome noite e dia, Grégoire tenta ao máximo manter uma tranquilidade no seu cotidiano através de uma postura sempre positiva em relação à resolução de seus problemas, mesmo que por dentro ele esteja destroçado.

Mas isso só parece se revelar na metade do filme quando uma reviravolta inesperada toma de assalto a narrativa. Enquanto isso, e mesmo depois, Mia-Hansen-Løve nos conta sua história com uma naturalidade e complacência invejáveis, desenhando seus personagens na medida em que eles vão ganhando mais espaço em tela. Como é o caso da filha mais velha que vai descobrir alguns segredos escusos do pai.

E por falar em filhas, a relação de Grégoire com as três meninas, em especial com as duas mais novas e adoráveis, transborda carinho, e em nenhum momento duvidamos de seu amor por elas e pela esposa. E esse tom família enriquece ainda mais o filme e, principalmente, seu protagonista. Existe, na verdade, um grande carisma por ele, parece uma unanimidade para todos que o conhecem.

Um filme marcadamente intimista pelo olhar fresco e atento às relações humanas. Numa sequencia curta e muito objetiva, a luz em toda a vizinhança vai embora; eles não desanimam e decidem sair na rua para olhar as estrelas, quando a luz logo retorna e acaba a festa; é quando uma das meninas lamenta: “é a vida”. Vida que segue, apesar dos percalços.


Copacabana (Idem, França/Bélgica, 2010)
Dir: Marc Fitoussi



Quem diria, Isabelle Huppert é boa fazendo comédia também. A atriz empresta sua forte presença a uma personagem improvável, uma mãe temperamental e expansiva, tentando reconquistar a consideração da filha que vai se casar, mas não quer a mãe presente na festa porque teme passar vergonha (e lhe diz isso pessoalmente). Quando ela se atrasa uma hora e meia para uma entrevista de trabalho numa confeitaria e a dona a despensa por isso, ela simplesmente derruba vários doces das prateleiras no chão. Daí se nota o tipo da peça.

Ela é tão estranha que não gosta de seu nome de batismo, Elisabeth (segundo ela, soa muito “rainha da Inglaterra”), e prefere ser chamada de Babou. Sua persona incomoda pela excentricidade e um comportamento na maioria das vezes sem noção, como aparecer num jantar vestida de indiana ou o breve relacionamento com um homem que trata como um mero objeto sexual. É de momentos assim que o filme tira sua graça, às vezes um pouco caricata (porque a personagem, por si só já é exagerada), mas nunca ridicularizante.

Babou encontra na atriz francesa (uma das melhores na atualidade) uma intérprete que equilibra muitíssimo bem o caricatural e o racional, numa personagem que vai se revelar muito mais do que uma mulher simplesmente inoportuna. Apesar de tudo, há um bom coração ali.

As referências ao Brasil surgem porque Babou é fascinada pelo país, principalmente por sua música, embora ela nunca tenha estado na terra da bossa nova, ritmo esse que toma conta da gostosa trilha sonora do filme (e uma das coisas mais engraçadas aqui é ver Isabelle Huppert dançando ao som do ritmo brasileiro da forma mais desajeitada possível; uma determinada sequência no final é impagável nesse sentido).

Apesar de Huppert elevar bastante o filme com sua presença marcante, Copacabana é uma comédia irregular, principalmente quando acrescenta outros personagens que pouco contribuem para a história. Mas diverte bem, e por isso só já vale o ingresso.


4 comentários:

Amanda Aouad disse...

Vergonha, não fui nem um dia ainda, mas essa semana foi complicado, quero ir na quarta ver O Pai dos Meus Filhos, pelo menos.

Rafael Carvalho disse...

Mas ainda tá em tempo, Amanda. Quero muito ver Vênus Negra e Potiche. O que vier a mais é lucro.

Victor Nassar disse...

Uma delícia de festival! Assisti hoje Xeque-Mate e já recomendo! Quero ver ainda Os Nomes do Amor e Doce Mentira.

Rafael Carvalho disse...

Interessante mesmo Victor, mas confesso que a programação em geral não me agradou tanto. Esses que você citou foram justamente os que eu menos gostei, Os Nomes do Amor é uma verdadeira bomba. Minhas recomendações vão para O Pai dos Meus Filhos, Vênus Negra e Potiche, nessa ordem de preferência.