quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O monstro homem

O Nevoeiro (The Mist, EUA, 2007)
Dir: Frank Darabont



Frank Darabont adaptando Stephen King. Essa receita é certa. Quando se utilizou dos textos de King anteriormente, Darabont nos presenteou com duas pérolas: o tocante (e às vezes piegas) À Espera de um Milagre e o surpreendente Um Sonho de Liberdade. E o mais interessante é que ambos não flertam com o suspense, gênero em que King é mais reconhecido. Mas chegou a vez dos sustos. O Nevoeiro não é só um bom suspense como também se distancia dos demais exemplares do gênero por uma abordagem distinta, aliada a um estudo interessante de personagens que se tornam mais complexos quando colocados em situações-limite.

Uma névoa misteriosa invade uma cidade deixando vários habitantes presos dentro de um supermercado. Dentre eles o poster designer David Drayton (Thomas Jane), seu pequeno filho Billy, um vizinho com quem David possui problemas de relacionamento (Andre Braugher), além da fervorosa religiosa Sra. Carmody (Marcia Gay Harden). Logo vão descobrir que criaturas monstruosas saem da névoa para atacar os humanos.

Se o suspense pode ser alcançado através da sugestão (como na seqüência em determinado personagem, amarrado a uma corda, sai no nevoeiro e é atacado enquanto só vemos a reação de todos dentro do supermercado), também surge a partir do mais puro exploitation, quando criaturas saem de dentro do corpo de um homem. Muito embora os efeitos especiais estejam longe de ser exemplares, o que sempre cria distanciamento, as situações são tensas o bastante para deixar o espectador impressionado.

Se a maior parte do elenco cumpre muito bem seus papéis, o grande destaque vai exclusivamente para Marcia Gay Harden que, a despeito de estar num filme de monstro, é a personagem mais assustadora da história, conferindo à Sra. Carmody uma frieza no limite da loucura. Sua caracterização vai do medo até uma postura de liderança pautada na crença de ser a escolhida para a função de guia religiosa a caminho da salvação. Poderia ser um tanto caricatural sua encarnação da religiosa que vê naquela circunstância um castigo de Deus aos homens. Mas é a partir do excesso que Gay Harden encontra o tom certo (e odioso) de sua personagem.

Porque o problema não é se apegar à palavra de Deus para encontrar força e defesa contra o mal, mas se utilizar dela para, num processo inverso, causar danos e pavor nas pessoas, imbuído numa noção de castigo que precisa ser imposto aos “culpados”. Nesse sentido, momentos de mais puro horror surgem a partir da pregação fundamentalista de Carmody para um grupo de seguidores que ela arrebanha no local e termina com a execução de um dos personagens. Uma das seqüências mais tensas, sem que nenhum monstro apareça na tela; o ser humano pode ser tão tenebroso quanto.

Mas o melhor está reservado para os minutos finais mais assustadores e impressionantes do ano. Darabont se utiliza da tragédia mais dura e triste para alcançar a plenitude e ainda provar que essa coisa conhecida por esperança não deve ser abandonada nunca. Porque pode ser tarde demais para desfazer os erros cometidos nos momentos de desespero.

13 comentários:

Vinícius P. disse...

Sem dúvida o desfecho da trama é um dos melhores que já vi, realmente não esperava por aquilo. "O Nevoeiro" é uma excelente fita de horror e fico feliz que tenha recebido o reconhecimento merecido perante os blogueiros.

Kamila disse...

"O Nevoeiro" é o grande filme de suspense de 2008, até agora. Como você bem diz no início do texto, Frank Darabont adaptando Stephen King é uma receita certa! O filme lança um olhar interessante sobre as nossas reações diante de situações de pressão e concordo com o Vinícius de que o desfecho é um dos melhores que já vi.

Bom final de semana!

Wallace Andrioli Guedes disse...

É muito bom ver tantos blogueiros elogiando O Nevoeiro. É de fato um dos filmes do ano, uma das melhores obras adaptadas de King e um dos grandes filmes da carreira de Darabont. É daqueles filmes inesquecíveis, que, depois de entregar um final como aquele, nos deixa por um bom tempo com ele na cabeça.

Rafael Carvalho disse...

Vinícius, fiquei chapado com aquele final também, além de totalmente inesperado é super triste. Uma porrada. E o filme tem recebido mesmo um reconhecimento merecido.

Kamila, tá certo que o Nevoeiro é um grande filme de suspense, mas não sei se é o melhor do ano porque gostei imensamente de O Orfanato. Preciso inclusive revê-lo para tirar a prova. Mas ainda acho O Orfanato um tantinho melhor. Mas são dois bons exemplares de terror.

Um ótimo filme Wallace, só não sei se um dos melhores do ano, mas tem potencial para isso. Uma história de suspense como há muito não se via no cinema norte-americano, com tanto impacto nos minutos finais.

Gustavo H.R. disse...

Darabont parece ter feito um horror corajoso e forte. Talvez tenha sido por isso que o filme não estourou nas bilheterias. A cada crítica (invariavelmente positiva) a vontade de ver aumenta, mas o filme nem chegou aqui na cidade, infelizmente.

Rafael Carvalho disse...

Realmente, uma obra corajosa (principalmente em relação ao final). E ainda não vi ninguém falando mal do filme, e como disse o Vinícius, conseguiu um reconhecimento enorme entre os blogueiros.

Red Dust disse...

O fecho é mesmo forte e cruel, mas toda a construção da trama que acaba por apresentar dois infernos (dentro e fora da loja) foi feita para se estar em sentido. Claro que o destaque nas interpretações vai para Marcia Gay Harden, tão exímia quanto... irritante!!!!!

Abraço.

Rafael Carvalho disse...

Então Red Dust o desfecho é incrível mesmo, fiquei pasmado. E a Marcia Gay Harden é uma das melhores coadjuvantes do ano, a caracterização dela é incrível e totalmente irritante. E me arrisco em dizer que o inferno dentro do supermercado é bem mais assustador porque é feito por humanos e não monstros irracionais. Filmaço!

André Renato disse...

Parece ser um filme com alma! Estou para vê-lo há tempos...

Rafael Carvalho disse...

De fato André Renato, um filme com alma de quem sabe o que está fazendo e acredita na força de sua história. Um verdadeiro espanto!

Johnny Strangelove disse...

Curti muito não ... uma pena ...

Rafael Carvalho disse...

Sério velho? Diz aí porque!

Cine Ôba! disse...

A maior supresa que tive nesse ano foi com esse filme. Acho difícil ser pego por outro filme. O miolo do filme é muito bom e mostra que a fé cega mata mas o final é pancada...a esperança, esperança...
Mob