quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Pássaro engaiolado

Amor Sem Escalas (Up in the Air, EUA, 2009)
Dir: Jason Reitman


De Juno, filminho independente que deu uma bela alavancada na carreira de Jason Reitman, a seu atual Amor Sem Escalas, parece haver uma diferença muito grande de qualidade. No entanto, esse voo mais alto (infame trocadilho) parece ter diminuído o talento de Reitman em construir dramas mais consistentes.

Ao mesmo tempo que falta sutileza na história, o filme parece querer imprimir uma certa atmosfera de pesar, mas tentando ser engraçadinho. Interessante que esse tom está ali na tela, mas carece de uma força maior para nos importarmos com aqueles personagens e suas situações. O fato do filme ser um dos grandes candidatos ao Oscar de Roteiro Adaptado complica ainda mais a situação.

Ryan Bingham (George Clooney) tem uma profissão ingrata: ele é pago para demitir os funcionários de grandes empresas dos EUA. Passa todo o tempo viajando. Mas seu emprego fica em xeque quando seu chefe contrata Natalie Keener (Anna Kendrick), que pretende implantar um sistema de demissão via videoconferência. Ele então passa a levá-la em suas viagens para que ela sinta o verdadeiro sentido de seu ofício.

Por mais que se esforce, o filme parece bastante frágil já nesse argumento. A questão da demissão, e suas consequências devastadoras, não parecem importar tanto, apesar de pontuar algumas observações sobre o tema, que podia ser muito mais explorado. Mas Amor Sem Escalas se debruça mais sobre esse homem que dispensa laços afetivos, amorosos ou familiares. Ao ensaiar uma nova forma de ver a vida, o filme só reforça o tom de lição de moral, muito embora o final consiga, felizmente, fugir desse desmérito.

George Clooney mantém sua presença marcante, como sempre. A mais prejudicada no elenco, entretanto, é Anna Kendrick, atriz fraquíssima, dona de uma personagem mal desenvolvida que parece estar no filme somente para desencadear as dúvidas e questionamento de Ryan.

Vera Farmiga, por sua vez, é o grande nome do filme, uma espécie de aventura amorosa que Ryan encontra em suas viagens. Numa atuação rica de nuances e muito segura de sua personagem, ela representa a própria frieza do homem globalizado, refém e cúmplice do atual sistema. É através dela que Ryan descobre ser um homem que voa, mas está constantemente preso numa gaiola.

5 comentários:

Vulgo Dudu disse...

FINALMENTE! Uma resenha bem escrita que bate exatamente com a minha. Temos a mesma opinião, Rafael. Onde eu assino?

Abs!

Kamila disse...

Publiquei minha resenha sobre este filme hoje e posso dizer que adorei esse longa. Me identifiquei profundamente com a personagem da Anna Kendrick e não esperava me emocionar da forma como me emocionei vendo "Amor sem Escalas".

Rafael Carvalho disse...

Valeu Dudu! Incrível como tem tanta gente elogiando o filme. Não senti tanta simpatia pelos personagens e suas situações.

Kamila, o meu grande problema foi justo o contrário do que aconteceu contigo: não consegui me identificar com os personages e seus dramas, tudo parece muito superficial. Acho que faltou maior profundidade. E me desculpe, mas a Anna Kendrick tem a pior atuação e a pior personagem do filme. Visões opostas, né!

João Daniel Oliveira disse...

Rafael, vocênão vai acreditar. Fui ver essefilme no cinema aqui em Itabuna,elápro meio da projeção percebi que o filme tava passando com O ROLO TROCADO, kkkk (rir, pra não chorar...)

Percebi quando a Kendrick começa a chorar e é apresentada a Vera Farmiga, sendo que muitas cenas antes já tinha passado a cena deles na convenção de Informática. Que horror!Rs

Bom, depois que o meu choque passou, e antes de eu passar na administração do Shopping pra soltar os cachorros, eu até que gostei do que vi,só não sei se entendi!

A minha "sorte"é que tenho há tempos o filme baixado aqui em casa, em breve vou assistir direito. Mas já dá pra dizer que

- é uma evolução e tanto depois de Juno

- o Reitman tem uma direção meio inane, seca, não sei bem o que me incomoda nele.Um dia descubro

- Kendrick tá ótima no filme, mas não merece nem de longe tanta indicação aprêmios. Mas gosto da figura

- Farmiga é uma das atrizes mais subestimadas, ainda bem que ela foi "promovida" aqui

- "Can, sir"? (há quem diga que está é umadica, que o personagem do Clooney tá prestes a bater as botas)

Rafael Carvalho disse...

Nossa João, que loucura assitir um filme desse jeito. Mas quem sabe ele não ficava melhor, né! Huahuaha. Mas se você gostou da história, tudo bem!

Bom, ainda acho Juno o melhor filme do Reitman, de longe. E a direção dele não é lá muita coisa, viu! Acho que Juno é o que é muito por conta do roteiro da Cody. Ninguém me convence que a Kendrick está bem nesse filme. Farmiga é uma deusa. E essa coisa do câncer não me convenceu muito, não. Mas é uma interpretação interessante, eu diria!