quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Casca e essência

A Pele que Habito (La Piel que Habito, Espanha, 2011)
Dir: Pedro Almodóvar



Existem alguns cineastas que já alcançaram uma maturidade segura em seu ofício, não só ao dominar os recursos cinematográficos com propriedade, mas também solidificando um estilo bastante peculiar. Pedro Almodóvar certamente é um desses (rol em que podem ser incluídos os irmãos Coen ou os irmãos Dardenne ou um Martin Scorsese, por exemplo), principalmente depois do reconhecimento conquistado pela trinca formada por Carne Trêmula, Tudo Sobre Minha Mãe e Fale com Ela.

Dito isso, é muito bom ver que seu novo trabalho, A Pele que Habito, segue por caminhos um tanto distintos, mesmo que dialogue com o universo temático do diretor aqui e ali. O namoro com o noir visto em tantos outros filmes surge com mais força, reforçado por uma trilha sonora pontual e sombria, desbancando inclusive o habitual colorido do cineasta. Não que não exista aqui, mas é menos berrante e kitch. Temos, portanto, um Almodóvar mais dark, principalmente na dimensão obsessiva que o protagonista da história tomará para si.

Robert Ledgard (Antonio Banderas) é um cirurgião plástico obcecado pela fabricação de uma pele sintética ultrarresistente, motivação essa que surge depois de um acidente de carro deixar sua esposa com o corpo todo queimado. Encontramos Robert mantendo a bela Vera (Elena Anaya) como sua prisioneira em domicílio, em quem realiza, de forma anti-ética e com sucesso, os experimentos de troca de pele. Fica no ar também uma tensão sexual entre os dois, para além dos testes científicos, o que deixa tudo ainda mais suspeito. Mas essa é só a ponta de uma narrativa cheia de complexidade.

De certa forma, o diretor se distancia do melodrama que marca mais especificamente seus últimos trabalhos (Abraços Partidos e Volver), assim como reserva menos espaço para o humor e o escracho, abraçando uma história de viés misterioso que, enquanto se desdobra, deixa mais dúvidas do que necessariamente respostas para o espectador. O filme nos obriga a um envolvimento atencioso porque em determinados momentos parece seguir por caminhos duvidosos, nos fazendo questionar a direção que o enredo vai tomando.

E talvez aí o filme encontre um entrave. Apesar de manter a atenção a todo instante, a história parece apostar mais no “segredo” que o filme esconde do que necessariamente num clima de apreensão constante. Enquanto isso, vai construindo as peças do quebra-cabeças muitas vezes sem muita emoção ou verdadeiro apreço por elas e pelos seus personagens. É como se houvesse um frieza ali enquanto ele vai montando seu mosaico. Situações como a invasão da casa pelo filho desequilibrado da governanta (Marisa Paredes em mais uma parceria com o diretor), por exemplo, e a relação que se descobre entre ele e Robert soam forçadas e pouco originais.

Mas o filme vai se beneficiar muito com a sensação de estranheza decorrente do revelar final, filmado sem grandes alardes. Quando as situações que antes pareciam desencontradas passam a convergir para uma resolução redonda e das mais inusitadas, o filme ganha novo ar porque as peças fazem todo o sentido, além da grande força dramática que o desfecho carrega. Mesmo assim, se assemelha ao tipo de bizarrice comumente encontrada nos filmes do diretor.

Nesse sentido, é importante notar a dimensão de crueldade que a obstinação de Robert possui. Ele seria um vilão com motivações passionais, composto com imensa tranquilidade por um Antonio Banderas bastante sóbrio. Afasta-se completamente da figura do cientista louco, embora, no fundo, seja essa sua melhor definição, sem nenhum traço dos tiques que esse tipo de personagem possui (e não deixa de ser curioso pensar que a última vez que ator e diretor trabalharam juntos foi em Áta-me, em que seu personagem sequestra uma mulher, mantendo-a no cárcere até que se apaixone por ele).

Elena Anaya também não fica atrás, tendo de compor uma personagem difícil por conta das transformações (em múltiplos sentidos) pelas quais vai passar. Seu autocontrole deixa muitas dúvidas sobre essa prisioneira que se entrega ao sequestrador. Mas seu melhor momento se encontra nos minutos finais, quando a emotividade do diretor vem à tona, na cena mais desconcertante do filme.

Para quem costuma acusar Almodóvar de sempre filmar mais do mesmo (muito embora quando faz isso acerta muitas vezes, justamente pelo domínio que possui de sua arte), A Pele que Habito representa um belo desafio em sua carreira, sem que ele precise recusar as marcas de seu próprio cinema. Perde um pouco a mão quando aposta na crueza para montar os acontecimentos em jogo, no puro e simples encaixar de engrenagens que fazem girar a narrativa. Mas ainda assim se sobressai com o belo exemplar de estudo sobre uma mente obsessiva.


PS: Texto originalmente publicado no site Coisa de Cinema.

4 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Belo filme. Fiquei surpreendido.

O Falcão Maltês

Elton Telles disse...

Gostei do texto, embora divergimos de algumas constatações. Também considero "A Pele que Habito" o projeto mais dark de Almodóvar, mas ele não fui muito longe para recuperar sua bizarrice. Acho que o filme dialoga muito com "O Matador" e "A Lei do Desejo", por exemplo, duas películas sombrias e eróticas por natureza.

Fiquei muito surpreendido com o filme. A história já é bizarra e instigante, mas o diretor ainda injeta muitas de suas peculiaridades e converte a adaptação do livro "Tarântula" em um legítimo produto de sua filmografia anti-melodrama, e sim, optando pelo perverso do início de sua carreira. Um dos melhores do ano pra mim.

abs!

Matheus Pannebecker disse...

Adorei "A Pele Que Habito". O que mais gosto no filme é esse Almodóvar ousado e diferente, fugindo daquela mesmice que apresentou em "Abraços Partidos". Um dos melhores do ano!

Rafael Carvalho disse...

Antonio, acho que a surpresa é geral porque tem aquele momento chave de descoberta da história que pega qualquer um de jeito. Mesmo assim, ainda vejo um pouco de frieza no filme, coisa que não se costuma associar com o diretor.

Então Elton, por isso não vejo nada de muito "inovador" nesse novo filme do diretor. Muita coisa que ele usa aqui já estava contida em outros projetos dele. Gosto do filme, mesmo, mas não tanto para considerá-lo um dos melhores do ano.

Matheus, pois eu gosto um tanto mais de Abraços Partidos do que desse aqui. Não vejo problema nenhum naquele melodrama bom que ele sabe fazer, sem tentar "inovar" muito, mas impregnado do estilo peculiar dele.