sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Rastro de sangue

Ondes os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men, EUA, 2007)
Dir: Joel e Ethan Coen


Não sou dos grandes conhecedores do trabalho dos irmãos Joel e Ethan Coen. O único filme deles que tinha visto foi Fargo, o qual não me agradou muito na época (por favor, não me apedrejem, sei que Fargo é adorado por muitos). Mas eis que o excelente Onde os Fracos Não Têm Vez – tradução péssima, diga-se logo – desfez a má impressão. Os Coen me ganharam com esse filme e mal posso esperar para me debruçar sobre sua filmografia.

Quando o solador aposentado e ex-combatente da Guerra do Vietnã, Llewelyn Moss (vivido por Josh Brolin) encontra uma maleta cheia de dinheiro em meio a uma carnificina no meio do deserto do Texas, ele resolve ficar com a grana. Entretanto isso implica em fugir do local, mas vai deixar para trás um rastro de sangue, já que o violento psicopata Anton Chigurh (magistralmente caracterizado pelo ator espanhol Javier Bardem) está atrás da maleta. Munido de um tubo de ar comprimido, Chigurh não vacila em matar com a pistola de gás qualquer um que ultrapasse seu caminho, se revelando um assassino frio e impiedoso.

Vendo assim, imagina-se de pronto grandes cenas de ação e perseguições mirabolantes, mas os Coen privilegiam mais a construção da narrativa, nunca facilitando a vida do espectador mastigando a trama e entregando-a de bandeja. É preciso estar atento aos diálogos e detalhes de cena para ligar as pontas soltas e contribui muito para isso o roteiro enxuto, baseado no livro de Cormac McCarthy. Lenta e gradualmente, o roteiro constrói uma atmosfera minimalista, tensa e repleta de suspense, dando bastante importância aos silêncios (a trilha sonora é ausente no filme) e aumentando, assim, o tom sombrio do filme. Tudo isso não deixa de revelar a direção segura dos dois irmãos.

Belo tratamento também é dado os personagens, lembrando que o filme é destituído de um protagonista e repleto de ótimas atuações. Llewlyn é o cara que vê a chance de ficar rico e abraça a oportunidade com vigor, vivido por um Brolin seguro de seu personagem. Já Javier Bardem inspira perigo com um simples mas penetrante olhar, e toda a sua expressividade ajuda a dar consistência a seu cruel e calculista personagem. E quando digo cruel não estou exagerando, basta ver que ele não faz a mínima cerimônia de assassinar qualquer um. E só um grande ator como o Bardem (provável ganhador do Oscar de coadjuvante deste ano) para não exagerar na caracterização e buscar a frieza nos detalhes mais minimalistas de suas ações.

E falta ainda falar da grata participação de Tommy Lee Jones como o policial encarregado do caso, numa atuação cheia de nuances. É ele quem abre o filme num discurso que revela o desânimo de seu personagem diante dos níveis de violência a qual somos testemunhas nos dias atuais, mesmo sendo ele um oficial experiente. Isso faz do filme um lamento à violência, cada vez mais assombrosa, e nunca sendo utilizada para promover a própria história.

É de Lee Jones ainda a última cena da película, que acaba de supetão e desagradou muita gente. Mas é esse cinema atípico que os Coen praticam e que me surpreendeu muito pelo vigor e também pela quantidade de indicações ao Oscar. Definitivamente, um filme narrativamente tão subversivo como esse não tem cara de Oscar. Quem sabe esse ano a Academia não dá o braço a torcer? Eu ainda fico com um pé atrás, mas que Onde os Fracos Não Têm Vez merece, disso eu não tenho dúvida.

6 comentários:

Rodrigo Fernandes disse...

esse filme, junto com os irmãos coen são os meus favoritos ao oscar desse ano... e o engraçado é que ainda não assiti ao filme.. também, ainda não cosnegui assistir a ennyum que foi indicado nas cateogrias princpais...rs...mas de fato curto os trabalhos dos Coen e estou certo de que é um grande filme...
esqpero qeu ao mesmo chegue na minha terrinha...
ahaha, também odeio esas traduções que fazem para os títulos em português... tem umas perolas que são memoraveis...rs

Wiliam Domingos disse...

Assistirei ainda esta semana!
ushasushu

Muito rico seu texto!
Se o Oscar continuar com suas surpresas, quem sabe deixa Desejo e Reparação de lado...Nada contra, pelo contrário! Mas não gosto de favoritismo!
Abraço!

Hélio disse...

Rafael, ja que esse filmaço dos Coen te motivou a ver mais filmes deles, sugiro que comece por Gosto de Sangue e Arizona Nunca Mais (ambos disponiveis na Canal 3, claro, naquela seção de Diretores que ta precisando de uma arrumada urgente).

Gosto de Sangue é o primeiro deles, e alem de um baita filmao noir, mostra a preocupaçao dos caras com um roteiro redondinho e tecnica impecavel (eles voltam ao estilo com O Homem Que Nao Estava Lá, mas esse é o unico filme dos caras q eu nao gosto).

Ja Arizona... mostra o que é uma constante na filmografia deles: enquadramentos inusitados, humor bizarro e um interesse enorme nas raizes americanas (o caipira, o linguajar, os costumes).

Gostando desses dois (francamente, nao tem como nao gostar), dê uma revisada no Fargo, que ainda é um dos meus prediletos, "E Aí, Meu Irmao, Cade Voce?", que eu acho delicioso e "O Grande Lebowski", igualmente hilario. Depois va direto para o Barton Fink, o mais denso dos filmes dos Coen.

Por ultimo, os filmes mais fracos deles, "O Amor Custa Caro" e "Matadores de Velhinha", que mesmo assim tem seus momentos de genialidade.

Da filmografia deles, infelizmente nao temos dois deles: "A Roda da Fortuna", uma loucura que lembro muito pouco (vi ha uns 12 anos) e "Ajuste Final", que preciso adquirir urgente, pq é uma obra-prima.

Abraços

André Renato disse...

É esse cinema atípico e com vigor que é o melhor dos Coen... Isso é raro hoje em dia!

Elizio disse...

Nada clichê e de final inesperado. Precisa dizer o que achei?

Ah, excelente texto sobre o filme!

Rafael Carvalho disse...

Então somos dois Rodrigo, esse e Sangue Negro são meus favoritos tbm no Oscar, mas o dos Coen leva uma pequena vantagem. Desejo e reparação tbm n fica pra tras. E assista aos filmes indicados, a seleção desse ano é realmente ótima. Melhor que a do ano passado.

Então William, tbm não gosto de favoritismos e desde que vi o filme dos Coen fiquei bastante intrigado e não se leva não. desejo tem mais cara de premiação. Enfim, ano difícil de apostar.

Opa Hélio, já tinha dado uma fuçada lá na Canal 3 acerca dos filmes do Coen e só não comecei a assisti-los porque tive problema e tive que estar aqui em Salvadro. Mas assim que voltar vou começar essa peregrinação. Pretendo fazer um apanhado cronológico mesmo, embora nunca consiga fazer isso direito. Começarei mesmo por Gosto de Sangue e prometo uma revisão de Fargo. Valeu pelas dicas!

Raríssimo André. Os Coen são uma benção para o cinema norte-americano. São típicos autores.

Sabia que vc ia gostar, Dr. Justamente pelo final inesperado. Só espero que não tenha ficado algumas noites em claro. rsrsrsrsr.

Abraço a todos!!