segunda-feira, 7 de julho de 2008

Curtinhas – pura delicadeza

Apenas uma Vez (Once, Irlanda, 2006)
Dir: John Carney


A inspirada trilha sonora de Apenas Uma Vez vem sendo bastante elogiada e parece ser o grande trunfo de marketing da obra. Mas há de se dizer que por trás das belas canções (todas feitas para o filme) se esconde uma história singela a partir do encontro de dois corações jovens, ambos já marcados pelo passado. Nas ruas de Dublin, um homem toca e canta suas próprias canções a fim de ganhar um dinheirinho a mais, quando certo dia uma bela jovem se mostra interessada pelo seu talento, sendo ela própria uma ótima pianista. Desse encontra casual, surge uma forte amizade que, à medida que vai transformando em algo maior, esbarra nas cicatrizes do passado de cada um (aliás, essa estabilidade emocional é acentuada por uma câmera na mão bastante pertinente à história). Mas que pelo menos se concretiza no talento musical dos dois juntos; conseqüência disso são momentos inspiradíssimos, quando ele a ensina a tocar a música tema do filme, Falling Slowly (à propósito, uma das canções mais bonitas e tristes do mundo). Apesar de tudo, chega um momento em que o filme não tem muita coisa a dizer e joga toda a responsabilidade para a trilha sonora, o que se mostra uma opção bastante acertada. De qualquer modo, é uma história simples, melancólica, contada da forma mais pura e embalada pelo amor mais verdadeiro que pode surgir entre duas pessoas.


A Família Savage (The Savages, EUA, 2007)
Dir: Tamara Jenkis


Quando um irmão e uma irmã precisam voltar a morar juntos para cuidar do pai adoentado e já em claro estado de demência, eles não conseguirão fugir do embates emocionais que isso provoca. Na verdade, nunca tiveram uma boa relação com o pai; distantes, eles nem sequer se conhecem direito. É aquela velha história cujos personagens, passando por um momento delicado, vão se defrontar com problemas emocionais, nesse caso de forte teor familiar. Apesar disso, o filme em nenhum momento possui um tom de “lição de vida” e seu maior mérito é não transformar seus personagens em coitadinhos numa situação difícil, embora sofram como qualquer ser humano seria capaz (a cena do choro no banheiro é exemplar nesse sentido). Ou seja, somos capazes de nos emocionar com a história, mas nunca de forma piegas. Jon (Philip Seymour Hoffman) é um professor universitário e pretende escrever um livro enquanto Wendy (Laura Linney, linda) trabalha como dramaturga free lancer. Mas o drama de ter de cuidar do pai vai nos dizer muito mais sobre os dois personagens ao mesmo tempo em que ambos tentam dar um rumo em suas vidas desencaminhadas; de quebra, passam a se conhecer melhor. Nesse sentido, as atuações e a química da dupla de protagonista é um dos maiores méritos do filme, deixando claro que Seymour Hoffman e Linney são um dos melhores atores norte-americanos da atualidade.


Longe Dela (Far from Her, Canadá, 2007)
Dir: Sarah Polley


Arrumando normalmente os utensílios na cozinha, eis que a personagem principal guarda uma frigideira dentro do freezer; nesse momento começamos a perceber há algo de errado com ela. A expressão de infelicidade do marido, atento ao detalhe, não sugere boas notícias. É aí que o filme apresenta o drama de Fiona (Julie Christie), portadora do Mal de Alzheimer que vai definhando sua memória pouco a pouco. Mas o peso maior da situação reside no seu marido Grant (Gordon Pinset) que terá de suportar a situação, vendo um casamento de mais de vinte anos se perder no próprio apagar da memória de sua companheira. Interessante notar que aquela menininha de O Doce Amanhã é a mesma que dirigiu e adaptou esse drama, demonstrando uma delicadeza absurda na forma de construir e abordar o doloroso processo de mudança pelo qual passa seus personagens. O texto leve está longe do exagero e do sentimentalismo barato, coisa muito comum nesse tipo de produção; evita também que o espectador sinta pena da situação. As cenas parecem ser conduzidas com o mínimo de cuidado justamente para que esse controle nunca se perca. Mais inspirados ainda numa sensibilidade extremamente bem dosada estão os atores Julie Christie e Gordon Pinset (ele, excelente; ela, soberba). São atuações minimalistas que exploram ao máximo as ricas expressões de cada um. Um olhar vale muito aqui. Vale o brilho perdido de uma mente sem lembranças.

8 comentários:

Vinícius P. disse...

Todos filmes muito sensíveis e que sem dúvida estão entre os melhores desse ano, sendo "Apenas uma Vez" meu favorito - inclusive, os filmes estão na minha ordem de preferência, visto que o longa da Sarah Polley foi o que menos gostei (apesar de ser um belo trabalho de estréia).

Hélio disse...

"Apenas uma Vez" é bastante simpatico e gostei muito quando vi. Mas foi sumindo da minha memoria, ficando apenas a trilha sonora. Se nao tivesse ela, talvez so sobraria o carisma da protagonista.

Sobre a Familia Savage, voce ja viu o que escrevi no blog.

Agora, nao entendi pq falou so coisas boas de Longe Dela, mas uma nota nao tao "grandiosa". Eu achei bem melhor do que esperava, carga emocional alta e o Gordon Pinset é o grande nome do filme e que foi ignorado pelas premiações. Claro, Christie é uma deusa, mas pra mim o filme É ele. Enfim, a Sarah Polley mostrou ser, alem de otima e linda atriz, uma diretora de extrema sensibilidade.

Abraços!

Kamila disse...

Só não assisti ainda ao filme "A Família Savage". Acho "Apenas uma Vez" uma obra maravilhosa, simples, emocionante e que funciona por causa da química entre Glen Hansard e Marketa Irglova.

"Longe Dela" foi outro filme que me surpreendeu bastante. Adorei a estréia na direção da Sarah Polley. Ela demonstra sensibilidade, talento e um olhar muito maduro para a trama do filme. Vale destacar também as atuações de Gordon Pinsent e Julie Christie.

Gustavo H.R. disse...

Nenhum passou aqui, mas gostaria de ver todos. Seja pelo elenco ou pelo intimismo das tramas, uma pausa nos blockbusters usuais.

Rafael Carvalho disse...

Realmente ótimos filmes Vinícius, mas agora que você falou percebi que devia postar em ordem de preferência mesmo. Assim, depois de Apenas Uma Vez viria Longe Dela, por último A Família Savage.

Hélio, o Apenas Uma Vez teve o efeito contrário em mim. Gostei do filme quando vi, mas depois ele foi ganhando mais força e minha mente toda vez que eu pensava nele. E embora tenha gostado muito de Longe Dela, sinto que essa é a nota do filme. Não sei dizer bem o porquê.

E bom que você falou nessa química entre os dois atores de Apenas Uma Vez, Kamila, porque esse é um dos trunfos do filme. Inclusive acho a atuação da Marketa Irglová bem fraquinha, mas é bastante espontânea. Eles nem são atores, na verdade, são músicos mas mesmo assim trazem muita verdade ao filme.

E qualquer desses que passar por aí Gustavo, não deixe de conferir mesmo.

Iulo Almeida disse...

Once vence pela simplicidade, pela naturalidade e pela trilha, é claro.

Matheus Pannebecker disse...

Qualquer um desses três filmes é mais sincero e emocionante do que "Juno". Escolheram o filme independente errado pra idolatrar esse ano =/
Notas: Apenas Uma Vez = 8.0, Longe Dela = 8.5, A Família Savage = 8.5

Rafael Carvalho disse...

Com certeza Iulo, e faz isso logo de início.

E Matheus, tenho que discrodar de você. Todos esse filmes são bem sinceros, mas Juno tem uma atmosfera gostosíssima e uma protagonista incrível. Poderia muito bem entrar nessa seleção, mas dei preferência a outros alternativos que às vezes ficam esquecidos por aí.