sábado, 28 de março de 2009

Esperança ao nascer do sol

Aurora (Sunrise: A Song of Two Humans, EUA, 1927)
Dir: Friedrich W. Murnau


Pode parecer um grande exagero ou então conversa para promover a obra, mas Aurora é um dos filmes de minha vida, obra-prima do cinema mudo e espetáculo fascinante em preto-e-branco. Da simples e universal história de amor, o filme alcança a grandeza das melhores obras do cinema mundial.

Um homem (George O’Brien) e sua bela esposa (Janet Gaynor) vivem numa fazenda, quando ele se vê perdidamente apaixonado por uma mulher da cidade (Margaret Livingston) que passa uns dias no campo. Malignamente, ela tenta convencê-lo a matar a mulher e fugir com ela para a cidade, onde teriam uma vida melhor.

Num primeiro momento, o homem vive num dilema, pois ao mesmo tempo que ama a esposa, parece estar fatigado daquela vida comum. A cidade representa a tentativa de mudança, de crescimento, embora a paixão repentina pela estranha seja um fator de extrema relevância para essa crença cega.

Nesses momentos, o filme ganha um tom de crescente suspense, nos transmitindo um sentimento de apreensão pela disposição dele em cometer o crime. No momento em que o coração falar mais alto, a narrativa ganhará ares amorosos e cativantes, acompanhando a paixão entre dois personagens da forma mais despretensiosa possível. Aqui, o filme se eleva a um estágio de pura leveza e graça, parecendo estampar em cada fotograma a palavra A-M-O-R (quase escrita na testa dos personagens). Ao fim, mais uma vez, o suspense surge através de um incidente que coloca em risco a atmosfera de felicidade; e nos coloca em total estado de inquietação.

É evidente o domínio técnico que Murnau possui no filme, seja na utilização de longos planos ou nos movimentos de câmera rebuscados, como na cena do encontro entre o homem e a amante em que, num mesmo plano, a câmera o segue, se torna subjetiva (ou seja, toma o lugar do personagem) para depois revelar sua figura no quadro novamente.

Esse é o primeiro filme dirigido por Murnau nos EUA, egresso do Expressionismo alemão. Logo de início dá para notar o clima de suspense, característico do cinema noir (introduzido no cinema americano justamente por cineastas alemães que lá irão fazer carreira), muito reforçado também pelo cinema mudo que exigia atuações viscerais do elenco. E se a expressão dura de George O’Brien vai do desespero ao arrependimento, a doce face de Janet Gaynor transita do descrédito à paixão plena.

O filme ainda é hábil em pregar peças no espectador. A cidade, local que marcaria a vida próspera do homem com a amante, acaba se tornando o local em que ele e a esposa aprenderão a se reapaixonar. A morte por afogamento, premeditada, acaba se tornando morte por acidente, desesperadora. A pilha de junco que seria a salvação de um, acaba sendo a salvação de outro. Tudo encaixado num roteiro que amarra todos os detalhes da trama.

Há também no contexto da obra um interessante conflito entre a vida no campo e na cidade. O primeiro é o lugar da calmaria, da simplicidade; a segunda representa oportunidades de prosperidade (sem esquecer que na década de 20 os centros urbanos dos EUA estão em crescente ascensão). Mas ao longo da obra, ambos os lugares poderão ser vistos como propícios à realização.

Num único filme, Aurora consegue ser, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre amor, traição, culpa e redenção. É o filme sobre amor, traição, culpa e redenção mais lindo que eu já vi.

8 comentários:

Hélio disse...

Que coincidencia. Assisti a Aurora, pela primeira vez, ha umas duas semanas.

Vendo o filme, e totalmente maravilhado, fiquei pensando pq diabos perco tanto tempo vendo filmes mais novos, quando ha perolas e mais perolas a serem descobertas em mais de 100 anos de cinema.

Filme lindo mesmo, e se me sobrar um tempinho, ainda escrevo sobre ele.

Abços!

Kamila disse...

Ainda não assisti "Aurora". Apesar de já ter ouvido falar tanto sobre como ela foi uma influência para vários dos grandes cineastas que conhecemos. Parabéns pelo texto!

Wallace Andrioli Guedes disse...

Pra ser sincero, tenho uma certeza dificuldade em apreciar devidamente o cinema mudo, o que acaba me impedindo de ver muitos exemplares desse tipo, como Aurora. Mas esse é, com certeza, um que reconhecço a necessidade de assiti-lo. E seu texto aumentou minha vontade nesse sentido.

Vulgo Dudu disse...

Não lembro onde, li que esse era um dos filmes mais importantes do século passado. Bem bacana ler a sua opinião, me incitou a querer dar um confere o mais breve possível.

Abs!

Diego Rodrigues disse...

O filme mais bonito da História do Cinema. Simples assim!

Rafael Carvalho disse...

Pois é Hálio, resgatar obras antigas muitas vezes proporcionam momentos sublimes. Quando eu vi esse filme pela primeira vez não dava nada por ele. Também fiquei maravilhado! Vou esperar você escrever sobre ele.

Com certeza Kamila, uma grande influência, e um filme belíssimo. Veja assim que puder!

Ita Wallace, tem que acabar com esse bloqueio. A gente encontra filmes preciosos da fase muda. Tomara que eu tenha te empolgado mesmo para ver Aurora.

Então Dudu, muita gente diz isso mesmo. E vendo a beleza de todo o filme, a forma magistral e simples com que foi construído, dá para perceber o quanto ele foi influente. Veja assim que puder.

Realmente Diego. Poucos filmes consegue transmitir tanto o sentimento de paixão redescoberta como esse filme. Tudo nele é perfeito.

fabiana disse...

Lindo!
Lindo!
Lindo!

Rafael Carvalho disse...

Muito, muito, muito, Fabi!