sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ótima digestão

E foi no terceiro dia de Mostra que o nível de qualidade cresceu. Por outro lado, nem a censura de 18 anos impediu que a platéia reagisse às cenas de teor sexual numa mistura de surpresa (???) e riso (???). Incrível como esse tipo de coisa ainda causa estranheza na maioria das pessoas, muito pela falta de maturidade. O último curta, Trópico das Cabras, o melhor até então, demorou inclusive um pouco para ser aplaudido. Mas o tom cômico de Estômago agradou bastante o público. O Centro de Cultura mais uma vez se encheu e na saída a satisfação pela programação da noite pareceu bem ampla.


A Cauda do Dinossauro (SP/BR, 2007)
Dir: Francisco Garcia


Mais uma vez, o universo do cartunista Angeli aparece num curta da Mostra este ano. Antes de mais nada, A Cauda do Dinossauro é uma bela adaptação que nos situa em uma cidade futurista e decadente onde o desejo e o sexo são proibidos e desconhecidos. Uma mulher, no entanto, procurar conhecer essa tal realização sexual. Num quarto imundo, ela encontra um homem que irá satisfazê-la. Tudo parece um tanto exagerado, do texto excessivamente apelativo e forte à exploração dos corpos (ela masturba ele, ele acaricia as genitálias dela), até o ápice do ato em si. Mas é reservado ao final um desdobramento fantástico que dá todo o sentido à história. O “ser” que ele representa e que guarda a possibilidade do sexo e de transmitir a outro essa mesma possibilidade, transforma o sexo em algo próximo do sagrado. Vale destacar uma direção de arte que compõe a sujeira daquele ambiente como reflexo da própria condição que o ato sexual ganha no filme, e que se concretiza naquele local.


Trópico das Cabras (SP/BR, 2007)
Dir: Fernando Coimbra


Quando um casal entra em crise, eles resolvem fazer uma viagem para tentar salvar o relacionamento. Depois que o homem apresenta, em off, essa premissa, o filme todo se constrói através de silêncios que acompanham os atos dos personagens, apostando mais na força da imagem. É aí que a história ganha atmosfera intimista (e íntimo) na procura pelo desejo, acompanhado de cenas bem despudoradas. O atrevimento da mulher em buscar prazer com outros homens, bem à vista do marido, é aceito porque esse é o jogo, mas ele também não ficará para trás. Fernando Coimbra dirige com exatidão e confere o tempo certo de cada seqüência, filmada com todo o cuidado de movimentar a câmera e enquadrar sempre da melhor forma. A fotografia granulada confere um tom de reminiscência muito pertinente à narrativa que termina de forma enigmática, mas cheia de significados. É ainda uma forma de mostrar o quanto um homem e uma mulher, há tanto tempo juntos, podem ser tão estranhos uns com os outros. E de que nem tudo pode estar perdido num relacionamento a dois.


Estômago (PR/BR, 2007)
Dir: Marcos Jorge


Estômago se assume como uma comédia das mais engraçadas, mesmo que muitas vezes se utilize das piadas de teor sexual e do escracho em cenas desavergonhadas. Poderia muito bem cair na tentativa de fazer denúncia social a favor dos imigrantes nordestinos ou contra o sistema penitenciário brasileiro. Mas está mais preocupado com o desenvolvimento da narrativa e da trajetória de seu rico personagem.

O matuto Raimundo Nonato (João Miguel) chega na cidade grande sem destino e passa a trabalhar como um exemplar cozinheiro num bar de esquina. Lá ele conhece a comilona e fogosa prostituta Iria (Fabiula Nascimento) por quem logo se apaixona. Mas é também descoberto por Giovanni (Carlo Briani), dono de um restaurante italiano, para quem passa a trabalhar. Paralelamente, um outro foco narrativo cronologicamente posterior mostra Raimundo na cadeia, onde ganhará a confiança dos companheiros de cela quando passar a apresentar seus dotes culinários. As duas ações se intercalam durante o filme inteiro, a partir de uma dinâmica de edição bastante competente.

Mesmo assim, o filme ainda sofre de alguns excessos. Cenas de sexo desnecessárias, corpos nus, palavrões demais, tudo isso torna a narrativa por vezes cansativa. Mas uma seqüência assim exagerada é seguida por outras bem divertidas, balanceando a equação. Um texto em nada apelativo, que retira humor do mais inusitado, sem forçar a piada, possui um frescor de originalidade que por si só é um grande atrativo. Os presidiários, as prostitutas, os donos do bar e do restaurante poderiam muito bem cair na caricatura, mas são todos personagens multifacetados e nunca unidimensionais.

E pelo visto, onde quer que João Miguel apareça, ele consegue roubar a cena. Aquele olhar de nordestino desconfiado e ingênuo parece ser algo peculiar ao ator baiano. Mas mesmo o tom de voz e os trejeitos corporais encontram riqueza em sua caracterização. Fabiula Nascimento também se destaca como a glutona prostituta Iria, numa entrega total à sua personagem. Mas é com Carlo Briani, vivendo o dono do restaurante italiano, que os dois atores encontram o timing cômico perfeito.

O filme nos deixa em dúvida sobre a razão pela qual Raimundo Nonato foi parar na cadeia, que só termina nos momentos finais do filme. Final esse que ainda revela um processo de mudança do próprio personagem. Um desfecho nada convencional é uma surpresa ao mesmo tempo assustadora e agradabilíssima.

6 comentários:

Vinícius P. disse...

Muito curioso para ver "Estômago", até pelo fato de que parece um dos melhores nacionais nessa temporada não muito boa para o cinema brasileiro.

Rafael Carvalho disse...

Esse ano tá sendo é difícil assistir aos filmes brasileiros, Vinícius, mas muita coisa interesante tem sido lançada nos cinemas. Estômago é um bom exemplo de ótima produção que destoa bastante daquilo se produz por aí. Uma comédia de qualidade.

Fernando Coimbra disse...

Oi Rafael,
obrigado pelas palavras. Que bom que você embarcou nessa viagem e gostou do filme.
Bom, repondendo as tuas perguntas:
O filme foi todo rodado no estado de São Paulo e de Minas Gerais. Apenas o ator é argentino. Quando encontrei o Victor, ache ele tão perfeito pro papel que transformei o personagem em um estrangeiro (o que aumenta a sensação de deslocamento, de não pertencer àqueles lugares) e assumi a narração em espanhol. Mas om filme se passa e é todo rodado no Brasil.
Quanto a mulher do fim, é a mesma sim. Eles se reencontram e começam um novo jogo.
Parabéns pelo blog, são muito bons os textos!
Abração
Fernando

iulo almeida disse...

Porra, o próprio Coimbra comentando aqui. Parabéns, Rafão

Rafael Carvalho disse...

Fernando, obrigado pelos esclarecimentos e pelo elogio ao blog. Essa idéia do deslocamento pelo personagem ser estrangeiro foi uma grande sacada. Sucesso em sua carreira e espero vê-lo na condução de um longa. Abraço!

Contatos, Iulo, contatos! Na verdade, encontrei o blog que o Fernando fez para divulgar o filme e aproveitei para fazer algumas perguntas e elogiá-lo pelo ótimo curta.

iulo almeida disse...

É, eu vi o blog dele e seu comentário e perguntas lá