terça-feira, 24 de março de 2009

Chegadas e partidas

O Visitante (The Visitor, EUA, 2008)
Dir: Thomas McCarthy


O Visitante é o tipo de filme indie que ameaça desabar a qualquer momento, mas por conta de um roteiro seguro e uma direção correta, procurar se esquivar dos clichês possíveis e da facilidade de parecer condescendente com seus personagens. Um trabalho seguro do diretor-roteirista Thomas McCarthy em seu segundo filme (possui também uma carreira como ator de TV).

Walter (Richard Jenkins) é um professor universitário de 62 anos que encontra dois imigrantes ilegais morando em seu apartamento na cidade de Nova Iorque da qual esteve longe há muito tempo: o sírio Tarek (Haaz Sleiman) e sua namorada senegalesa Zainab (Danai Jekesai Gurira). Como eles não têm outro lugar para morar, Walter os deixa ficar no apartamento.

A partir daí, ao mesmo tempo em que o filme aborda a situação dos imigrantes ilegais no país, faz um estudo da vida de seu protagonista, esse senhor carrancudo e fechado, ainda marcado pela perda da esposa. Seu apego à música parece ser a coisa mais afetiva que traz consigo, a despeito do distanciamento para com os colegas e antigos conhecidos.

Mas a relação com Tarak, músico que toca uma espécie de tambor africano, vai fazê-lo entrar em contato com um mundo novo em sons e sensações, inclusive quando ele próprio aprender a tocar o instrumento. É no mínimo inusitado ver esse professor de terno e gravata batucando um tambor; ou mesmo quando prefere tocar percussão junto com outros imigrantes, ao invés de estar cumprindo sua função burocrática de palestrante universitário.

O filme constrói essa relação aos poucos, bruscamente interrompida pela prisão de Tarak, agora sob o risco de ser deportado. Aqui, o filme toma outro rumo pois surge em cena Mouna (Hiam Abbas), mãe de Tarak, surpreendida pela situação do filho. Os dois tentarão livrar Tarek já que Zainab pouco pode fazer por seu namorado. Começa aí outra relação, desta vez com nuances amorosas, mas que tem os pés no chão e nunca descamba para o melodrama (infelizmente, a trilha instrumental é o único elemento que insiste nesse caminho). Não buscando saídas fáceis, o filme ganha em sinceridade.

Acompanhado por um ótimo elenco ao redor, é do minimalismo que Richard Jenkins extrai grande parte de sua excelente performance, marcada por forte expressividade. Seus olhares calmos e diretos dizem muito do que seu personagem pensa e sente. Todos os outros atores são naturais e calorosos, em especial Hiam Abbas em sua dor materna.

Quando um sopro de vida bate na porta de Walter, ele experimenta uma sensação de renovação, muito embora as coisas não se apresentem de forma fácil, tendo ele plena noção disso. A narrativa sabe ser dura e sem concessões a seus personagens. Mas sabe também fazê-los seguir adiante.

10 comentários:

Wallace Andrioli Guedes disse...

Minha relação com os indies americanos é curiosa, pois apesar de quase sempre ter uma preguiça imensa de ver seus novos exemplares, por achá-los todos muito parecidos, sempre também acabo encontrando algo de bom neles. Foi assim com os recentes The Savages, Miss Sunshine e Juno. E acho que vai ser assim também com esse O Visitante, especialmente pelo Jenkins.

Caio Guip disse...

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Vulgo Dudu disse...

Eu bem gosto de filmes assim minimalistas. Vou pegar assim que der tempo! E esses mosaicos étnicos são realmente interessantes.

Abs!

Diego Rodrigues disse...

É bom o filme então? Vou tentar conferir esta semana ainda!

fabiana disse...

Uma resenha boa para um filme que eu nunca me interessei em ver...

Rafael Carvalho disse...

Esse é um grande problema dos filmes indie norte-americanos, Wallace, eles já possuem clichês próprios e desgastados. Mas você consegue encontar exemplares que possuem coração. É o caso desse O Visitante. Jenkins está fenomenal!

Beleza Caio, vou linkar seu blog aqui. E me interessei por essa promoção, vou passar lá no seu espaço para saber mais. Valeu!!

Dudu, nesse caso o mosaico étnico existe, mas o filme não força essas diferenças. É mais um estudo do comportamento do personagem em contato com pessoas de outras culturas. Não deixa de ter aquela pitada de "exótico", mas é bem legal.

Veja mesmo Diego, e diga se gostou.

Ah Fabiana, dá uma chance para o filme, vai!

Hélio disse...

Nossa, achei esse filme pavoroso. Nao ha sutileza nenhuma. A forma como o estrangeiro é tratado parece piada. Tudo inacreditavelmente bom, puro e ingenuo. Cabe ao americano sisudo mudar perante tanta beleza do outro.

Me poupe. So nao foi o pior do ano, porque Slumdog Millionaire é muito mais traiçoeiro e perigoso.

Abços!

Rafael Carvalho disse...

Sabia que você ia soltar os cachorros em cima do filme, Hélio. Pois eu vejo muita sutileza no filme, principalmente no personagem do Jenkins. O tratamento "coitadinho" dado aos imigrantes realmente pode ser um tanto apelativo, mas nada que tenha me incomodado. Acho que o foco do filme é justamente as transformações pelas quais Walter vai passar; o confronto de sua sisudez em contato com pessoas tão abertas e dispostas, e tão diversas. Gostei mesmo.

Filipe Machado disse...

Já faz parte da minha lista de prioridades!

Rafael Carvalho disse...

E vale a pena, Filipe!