sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Contra a parede

Desde a manhã de ontem o tempinho frio tão característico de Vitória da Conquista já se prenunciava, mas foi o dia de hoje que amanheceu sob aquela chuvinha fina (e irritante). Mesmo assim, a sessão dessa tarde teve um público maior do que os outros dias nesse horário, por incrível que pareça. Um dos curtas exibidos, Meio Poeta, originário da cidade de Salvador, contou com a apresentação do próprio diretor, Caco Monteiro. O outro curta, Vida Fuleira (pode ser visto aqui), possui uma proposta mais experimental e irreverente. Nenhum dos dois preparava para a porrada que foi Nossa Vida Não Cabe Num Opala.


Vida Fuleira – Um Artista de Rua e a Bailarina (RJ/BR, 2007)
Dir: André Sampaio


Encontrar uma sinopse para esse curta é uma árdua tarefa já que desde o início (e até o fim) nos é jogado na tela sucessões de seqüências que inicialmente sugerem o surreal, mas logo vão se encaixando numa profusão de imagens que se pautam pela agilidade. O curta evoca o cinema mudo tanto na música enquanto guia narrativo quanto na fotografia envelhecida, mas bem caprichada. Mas há também algo de documental nas cenas em que artistas de rua fazem as mais variadas e loucas performances, como o senhor que coloca três batatas inteiras na boca. Sobra ainda lugar para o melodrama no romance entre um artista e uma bailarina, com direito a reviravolta digna de novela. O fato de saber que o diretor desse curta também conduziu Tira os Óculos e Recolhe o Homem, exibido ontem à tarde e resenhado mais abaixo, torna claro o uso de um ritmo frenético e irreverente. Chega a ser ingênuo, mas por isso mesmo agradável.


Meio Poeta (BA/BR, 2008)
Dir: Caco Monteiro


Em Salvador, logo após se casar, a mulher revela para a família que seu marido é “meio poeta”, já que recitou poemas para ela na noite de núpcias. Isso causa um desconforto enorme no pai da moça que procura intimidar o rapaz a esquecer sua habilidade de fazer poemas ao acaso. O filme é uma adaptação de um conto de Luís Fernando Veríssimo que, com bom-humor, mostra o quanto a denominação de “poeta” é tão rejeitada em nossa sociedade. Ao mesmo tempo, um mendigo de rua, em clara referência a SuperOutro, média-metragem clássico da filmografia baiana dirigido por Edgard Navarro, surge com sua poesia de escracho e denúncia, talvez uma forma de relevar o quanto a poesia pode estar presente em qualquer ambiente, seja da forma que for. Mas é o final que revela o quanto a poesia está dentro de cada um de nós.


Nossa Vida Não Cabe Num Opala (SP/BR, 2008)
Dir: Reinaldo Pinheiro


Mais um longa de um diretor estreante aporta na Mostra que vai revelando longas cada vez melhores nesse que é o penúltimo dia do evento. Vencedor do Cine PE deste ano, Nossa Vida Não Cabe Num Opala (título incomum) trouxe uma narrativa mais ágil e mais agressiva em sua proposta de voltar o olhar para uma família disfuncional e os dramas de seus componentes.

Os quatro irmãos da família Castilho vão se virando numa vida de marginalidade após a morte do patriarca (Paulo César Peréio). Monk (Leonardo Medeiros) é o mais velho, mais tranqüilo, e assume o comando da família; Lupa (Milhem Cortaz) faz o tipo ladrão-brutamontes-fuleiro enquanto o mais novo, Slide (Gabriel Pinheiro), se inclina para seguir os mesmos passos dos dois últimos, mesmo em conflito interior pela falta da mãe; Magali (Maria Manoella) é a única mulher, que se vê perdida naquele ambiente grotesco e do qual não parece encontrar saída. O surreal invade o filme à medida que o pai começa a aparecer, tentando dialogar com seus filhos e reparar os erros do passado.

O desarranjo de vida dos quatro irmãos parece ser resultado da própria experiência familiar. O pai lidava com roubo e desmanche de carros, numa vida de marginalidade embrutecida, algo que deixa de “herança” para os filhos. Monk e Lupa continuam os negócios do pai, relegando a todos o mesmo destino cruel e perverso. O filme é mais um estudo da disfuncionalidade familiar que retira o humano das pessoas e coloca pedras no lugar do coração. E é triste notar que nem sempre há volta.

A inclusão da personagem Sílvia (vivida por uma Maria Luísa Mendonça bastante expressiva) que seduz e leva os três irmãos homens para sua casa (um de cada vez), possui algo de grande afetuosidade já que em seu apartamento ela busca não só o sexo mas o carinho deles. Seria o grande contraponto em relação à rotina dura e bruta em que estão inseridos. Seu discurso sobre a solidão (não necessariamente explícito) é um dos grandes momentos do filme.

E se Milhem Cortaz arrasa em todas as cenas em que aparece, com seu jeito, cara e forma de pensar e agir de um marginal, é preciso dar destaque para todo o elenco que em conjunto funciona tão bem quanto em solo. Jonas Bloch precisa de muito pouco para imprimir a onipotência de seu personagem, o grotesco dono do negócio de desmanche, grande responsável pela vida desregulada e conseqüente morte do pai do quarteto. Marília Pêra fecha o time numa participação mínima, mas marcada por uma sensibilidade sem igual.

Com uma narrativa ágil e despojada, o filme talvez perca algum tempo em seqüências que soam mais como exercício de estilo (câmera em plongé giratório observa dois dos irmãos enquanto eles fumam e falam de drogas e mulheres; ou então uma edição entrecortada prevendo cenas que vão acontecer poucos minutos depois). Mesmo assim, é uma narrativa inventiva e cheia de originalidade. Talvez falte isso ao nosso cinema, coragem para ousar. Nesse caso, deu muito certo.

4 comentários:

Vinícius P. disse...

Muito curioso para ver "Nossa Vida Não Cabe Num Opala", ainda mais depois dessa crítica...

Indhira disse...

Nooossa, que filme bom! Você sai da exibição com milhares de idéias, e está aí a maravilha de um bom drama, bem amarrado, com conflitos tão reais e possíveis...
Destaque para as personagens femininas, que apesar de aparecerem em menor quantidade, deixam seus conflitos pessoais muito bem demarcados. Um filme que me tocou, enfim...e começa marcando muito bem desde o título curioso e bem planejado.

Beijos, Rafa!

Detalhes de mim... disse...

Gostei muito do filme. Fiquei imaginando como a história se desenrola no teatro( é claro rs) Ótimas atuações. Leonardo Medeiros está bem diferente de outros trabalhos que já vi dele, ótimo ator, sem falar em Jonas Bloch q vc definiu muito bem, ele tem uma excelente interpretação interna só pelo olhar ele transmite tudo o q o personagem é. As cenas de Maria Luisa Mendonça foi bem estilo Nelson Rodrigues mesmo, mas achei um pouco fraca diante do peso do roteiro, poderia ter sido melhor dirigida, o discurso dela sobre a solidão realmente foi marcante. Um filme q vale a pena!
Bjs!!

Rafael Carvalho disse...

Esse título também me deixou muito curioso, Vinícius. E não sabia nada sobre o filme antes d vê-lo. Uma grata surpresa.

Indhy, foi justamente isso que aconteceu, o filme nos fez fazer reflexões interessantes sobre aquelio que tinhamos acabado de assistir. Esse é o resultado de um bom filme. Tod0os os personagens são muito interessantes.

Patty, que filmaço, hein! E você sempre pensando nos filmes para o teatro. Mas ficaria interessante mesmo. E o elenco é mesmo um caso à parte. Estava achando as cenas com a Maria Luisa Mendoça um pouco deslocadas (e mais para o fim se tornam um tanto repetitivas), mas é esse discurso dela que me pareceu tão importante e pertinente.