terça-feira, 18 de novembro de 2008

O herói em nós

Corpo Fechado (Unbreakable, EUA, 2000)
Dir: M. Night Shyamalan



Já disse aqui no blog o quanto o cinema do Shyamalan é sempre baseado numa alegoria, geralmente de cunho fantástico ou sobrenatural, para com isso falar de algo maior e humano. Corpo Fechado é mais um exemplo desse projeto de cinema que carrega o talento de seu autor para criar a atmosfera desejada e ainda se beneficia da onda de criatividade de seus primeiros projetos, já que o cineasta indiano parece ter perdido a mão em seus trabalhos mais recentes.

David Dunn (Bruce Willis) trabalha como segurança e num acidente catastrófico que mata centenas de pessoas, ele é o único sobrevivente; sai totalmente ileso. Depois desse incidente, ele conhece Elijah Price (Samuel L. Jackson), um aficionado por revistas em quadrinhos e possuidor de uma doença genética rara que torna todos os ossos de seu corpo tão frágeis a ponto de se partirem ao menor impacto. Elijah tenta convencer David de que há algo especial nele, um homem que em toda sua vida nunca se feriu gravemente e sempre sobrevive a outros acidentes graves.

A abertura do filme traz várias informações sobre revistas em quadrinhos e sendo a figura do super-herói a mais comum numa HQ, vamos descobrir aonde Elijah quer chegar. Se David possui um “dom”, ele não pode ser uma pessoa qualquer. Mas essa idéia não é aceita facilmente por ele, um homem cujo relacionamento com a esposa passa por um momento delicado. A partir disso, ele ainda entra em conflito com o próprio filho, que não consegue se ver espelhado na figura paterna. O caminho da aceitação de David é o próprio percurso do filme.

Com Shyamalan, é sempre preciso comprar uma idéia, vê-la de forma plausível e aceitá-la como metáfora de algo. Feito isso, basta aproveitar o talento do cara para se impressionar com cenas carregadas de tensão. Nesse filme, a narrativa se desenvolve lentamente, sempre num tom carregado e com um texto bastante verdadeiro e elegante. Descobrimos e nos impressionamos junto com David com o desenrolar dos acontecimentos. Essa talvez seja a melhor direção do Shyamalan, com um domínio total sobre cada plano e seqüência de seu filme.

São vários os bons exemplos disso, como a cena de abertura na qual um médico se mostra estupefato com a criança recém-nascida (Elijah) de braços e pernas quebrados. Ou então o momento impressionante quando o filho de David aponta uma arma para ele e ameaça atirar para provar que o pai é imortal. Evocando Hitchcock, há toda uma seqüência em que David impede um assassino de cometer mais crimes, culminando numa bela e imponente cena na piscina.

Mais incrível ainda é seu talento para dirigir atores, indo de um Samuel L. Jackson que, cheio de talento, nem precisa de tanto esforço para criar um vilão ao mesmo tempo imperativo e frágil (tanto física como emocionalmente), até um Bruce Willis numa composição totalmente minimalista, dono de um personagem que cresce muito ao decorrer do filme e vai tomando consciência de suas “habilidades”. Além disso, mesmo em pequenos momentos, a mulher de David e a mãe de Elijah surgem com uma força dramática impressionante na tela.

O filme ainda possui ótimas surpresas ao fim. O conflito pessoal de David consigo próprio como alguém que possui dons especiais se resolve de forma plena, digna dos melhores momentos de uma super-herói e a mais emocionante possível, aliado a sua aproximação com a mulher e o filho. O filme podia acabar aí, mas ainda existe uma outra virada que torna Elijah o triste (anti-)vilão da história. Nesse momento, o filme abre possibilidade para pensarmos no tipo de herói que cada um de nós pode ser, qual “poder” especial nós temos e o que isso significa para quem está a nossa volta.

10 comentários:

fabiana disse...

Só agora me dei conta que nunca vi Corpo Fechado...

Cosmunicando disse...

oi Rafael!
obrigada, fiquei contente com sua visita. Seu blog também é ótimo, uma referência pros cinéfilos :-)
abração, e seja sempre bem vindo lá.

Johnny Strangelove disse...

Obra Prima Máxima do Shyamalan

Um dos filmes que eu tenho orgulho de ter visto no cinema e todos se surpreenderam com um otimo filme e o final mais pqp que já vi.

Não sei se você percebesse, mas acho que ele conseguiu influenciar uma penca de filmes de quadrinhos ou foi uma observação um pouco fora de alcance?

Abraços

Vulgo Dudu disse...

Eu não gosto nem um pouco do Shyamalan. Acho que ele joga fora bons argumentos, com sustinhos baratos e reviravoltas mirabolantes. Enfim, questão de gosto. E não nego que o argumento desse aí também soa bem interessante!

Abs!

Wallace Andrioli Guedes disse...

Completa essa quinta estrela aí que Corpo Fechado é obra-prima ! Continua sendo, 8 anos depois, o melhor filme de Shyamalan (seguido de perto pelo brilhante A Vila). E é triste ver que esse é o mesmo sujeito que acaba de fazer aquela bobagem chamada Fim dos Tempos ...

O Cara da LOcadora disse...

É um dos melhores dele, senão o melhor (é que tem o Sexto Sentido, rs)... Acho o Shymalan muito incompreendido, e gostei de todos que vi (não vi aina o Fim dos Tempos)... To doido pra ver, rs...

Hélio disse...

Vi no cinema, achei interessante. Revi uns 5 meses atras e achei uma obra-prima. Nao sei se é o melhor de Shyamalan, pq tem certas coisas que nao se comparam. E fã absoluto de tudo o que ele faz, prefiro me abster de preferencias.

Mas Corpo Fechado tem esse dominio de camera q vc cita e que é absurdo. Toda a parte inicial, da introduçao com o nascimento de Elijah até o momento em que David recebe a esposa e o filho no hospital, é das coisas mais lindas que ja vi em execuçao, uso de som e expressividade por meio de movimentos de camera. E o melhor: todo o resto do filme nao fica atras.

Um dos muitos aspectos elogiosos da mise-en-scene de Corpo Fechado diz respeito a dualidade entre David e Elijah, as duas faces da mesma moeda. Ambos sao sempre enquadrados com perfeita simetria, as cores que representam as trajetorias de cada um sao diretamente inversas, etc. Ha uma infinidade de detalhes que mostra nao so dominio, mas perfeita compreensao da linguagem de cinema por parte do mestre.

Abraços!

Vinícius P. disse...

Sou grande fã do Shyamalan e mesmo não considerando "Corpo Fechado" sua obra-prima (que para mim ainda é "O Sexto Sentido", seguido por "A Dama na Água"), sem dúvida é um belo trabalho do diretor.

Gustavo H.R. disse...

Na mosca!
Um filme que, tenho certeza, merece ser estudado quadro-a-quadro, tamanha a riqueza de sua encenação e de seus temas subjacentes, assim como em seus demais filmes.

Cumps.

Rafael Carvalho disse...

Fabiana, se você gostou dos filmes iniciais do Shyamalan, essa é uma boa pedida. O cara está num de seus melhores momentos.

Obrigado a você, Padma, pela visita ao blog e por aqueles textos incríveis que você deixa no seu espaço. Não irei perdê-lo de vista.

Johnny, não sei se chegou a ter essa influência, até porque Corpo Fechado não é um filme de super-herói. É muito mais que isso. Para mim, é sobre se reconhecer como alguém importante para a vida de outra pessoa. No cinema, deve ser show.

Dudu, essa opinião eu tenho sobre o Shyamalan atual. Mas os primeiros filmes dele são fodaços!!

Wallace, as quatros estrelas e meia estão boas para mim, e esse aí só perde para O Sexto Sentido se pegarmos os filmes dele. Fim dos Tempos é mesmo um cocô.

Realmente Cara da Locadora, tem O Sexto Sentido que rivaliza com esse aqui como o melhor Shyamalan. Mas são filmes de grande valor, nem precisa ficar comparando. E veja Fim dos Tempos, mas vá preparado para uma decepção.

Então Hélio, mexer com fã é fogo, mas esse filme também estaria entre os melhores momentos do cara. O filme mantém uma atmosfera de tensão o tempo todo, com um domínio de narração fantástico mesmo. Isso que você fala da dualidade entre os dois personagens é bem interessante, nem notei tanto assim. E nesse filme o Shyamalan realmente é mestre, mas em outros...

Que coisa interessante Vinícius, muitos filmes do Shyamalan são bem elogiados (como O Sexto Sentido) e outros bem rechaçados (como A Dama na Água). Você gosta dos dois. Prefiro mil vezes o primeiro. Mas sei que preciso rever vários filmes do cara.

Gustavo, realmente um filme rico em detalhes. Dá pra babar em várias cenas tão grande é o domínio narrativo que ele possui. Filmão! E nem esperava tanto assim.

Abraços galera!!!