sexta-feira, 22 de maio de 2009

Chance desperdiçada

Milagre em Sta. Anna (Miracle at Sta. Anna, EUA/Itália, 2008)
Dir: Spike Lee


É bastante estimulante quando um cineasta se mostra tão militante a um tema do qual é tão próximo. Spike Lee é um grande exemplo disso, pois sendo um dos poucos diretores negros norte-americanos, sabe discutir o racismo com propriedade, energia contestadora, conhecimento de causa e também talento cinematográfico. Num país que vive uma segregação racial potente, discutir essa questão é mais complexo do que pode parecer e são filmes como Faça a Coisa Certa, Febre da Selva e Irmãos de Sangue, dentre outros, em que o talento de Lee se mostra bastante evidente.

Mesmo assim, isso nunca foi garantia de sucesso freqüente. Eis que Lee resolve sair do subúrbio norte-americano, dos bairros de maioria negra, para tratar do mesmo racismo. Milagre em Sta. Anna acompanha um destacamento do exército estadunidense, todo composto por soldados negros, defendendo a pátria na Toscana, Itália, em plena Segunda Guerra. Dentre quatros sobreviventes, um deles vai salvar um garoto italiano com o qual passará a manter uma relação de amizade.

Os equívocos do filme vão se sucedendo durante suas quase três horas de duração. De início, a narrativa não parece ter tato para iniciar a história com o assassinato a sangue frio de um homem por um funcionário negro, ex-combatente de guerra, que fica evidente quando, em flashback no campo de batalha, vamos entender seu ato.

Mais adiante, a narrativa cospe o discurso forçado e “auto-importante” sobre racismo numa cena constrangedora quando os soldados, em campo aberto de batalha, ouvem por autofalantes uma mensagem das forças alemãs tentando alertá-los sobre o desprezo dos ocupantes das altas patentes do exército para com os soldados negros. Fica claro aí que essa fala pertence a um alterego do cineasta, tornando tudo ainda mais artificial.

Como se não bastasse, a relação paternal-filial do garotinho Ângelo (Matteo Sciabordi) com o grandalhão Bishop (Michael Ealy) pretende ganhar o espectador pela graça, principalmente quando o pequeno abre a boca para dizer coisas ingênuas (ele chama o soldado de “gigante de chocolate”), evidenciando seu olhar infantil diante do horror da guerra.

Além disso (e me parece algo bastante inusitado na filmografia de Spike Lee), a história ainda conta com requintes fantásticos, traduzido pela cabeça de uma estátua que Bishop carrega consigo e crer ser uma fonte de milagres que sempre o protege (o que reforça ainda mais o tom de “ingenuidade” da situação). Acredito que nem preciso dizer como a trilha sonora se aproveita disso para soar o tempo todo “emocionante”.

A frustração pelo filme não vem nem tanto dos tropeços narrativos, mas principalmente pela oportunidade renovadora que Lee teve nas mãos para fazer um filme de guerra com teor antirracista. Ele continua filmando bem e não faz feio em retratar conflitos armados em um campo de batalha, mas acaba perdendo o tato quando a questão é ser pertinente sobre um tema em que ele mesmo já foi tão a fundo e com excelentes resultados. Dessa vez, ele fez a coisa errada.

10 comentários:

Fred Burle disse...

3 horas de filme arrastado? Não dá.
"...a narrativa cospe o discurso forçado e 'auto-importante' sobre racismo..." Lição de moral explícita é muito chato. Dessa você já me livrou.

Rafael Carvalho disse...

Calma Fred, a ideia não é fazer com que ninguém desista de ver o filme. Vai que você encontra alguma coisa de valor na obra! Veja e depois diga o que achou!

Kamila disse...

Que pena que Spike Lee não soube aproveitar a história que tinha em mãos. Eu que queria assistir "Milagre em Sta. Ana", depois de ler seu texto, tirei o longa de minha lista de prioridades.

Vulgo Dudu disse...

Eu acho que Spike Lee deu uma boa amadurecida no seu cinema. Mas como não vi esse aí (e perdi a sessão para imprensa...), não posso comentar. Ainda.

Abs!

Wallace Andrioli Guedes disse...

Gosto muito do Spike Lee, mas parece que esse filme é mesmo um equívoco ... pelo que li até agora, o diretor exagerou na sacarose ...

Rafael Carvalho disse...

Pera aí Kamila, só porque eu não gostei, você não precisa tirar ele de sua lista de prioridades. Vai que você gosta mais do filme? Mas eu bem que me decepcionei com seu mais novo trabalho.

Dudu, não sei julgar se o Lee amadureceu porque me falat ver algumas coisas importantes dele, mas meu filme preferido que ele dirigiu é Faça a Coisa Certa, de 1989, eu acho.

Também costumo gostar bastante do Lee, Wallace, mas não diria que o filme é açucarado demais, mas é bem simplista e tem umas cenas totalmente descartáveis.

Diego Rodrigues disse...

Tô com um pé atrás com esse Milagre em Sta. Anna. Desde que anunciaram o projeto. Não vou procurar por ele nos cinemas, correndo.

Rafael Carvalho disse...

Diego, pois eu estava com muita vontade de ver o filme, gosto pra caramba do Spike Lee, mas esse foi uma grande decepção. Nunca vi um filme dele tão ruim (na verdade, nem vi tanta coisa assim).

Anônimo disse...

Acredito qiue um filme médio de um bom diretor ainda é melhor do que a maioria do que se vê por aí.

O Milagre de Sta. Anna tem uma boa abertura e alguns lances interessantes. Se perde no que o Rafael explicou. Mas, assistindo em casa, com uma galera amiga, as expectativas caem, quem sabe vocês se divertem? Acho que sempre devemos conferir as obras dos diretores competentes.

Rafael Carvalho disse...

Sim Anônimo, também acho que a gente não deve deixar de conferir os filmes dos grandes diretores, nem mesmo os filmes considerados "menores". Mas isso não quer dizer que a gente precisa gostar deles porque são dirigidos por certos cineastas. Se você assiste e não gostou, paciência. O filme pode ser de quem for, não dá pra acertar sempre, né! E o Spike Lee, que já tem umas boas obras-primas no currículo, pode se dar a esse luxo.