terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mostra Cinema Conquista – Diário #7


Sala de Milagres
(BA/BR, 2011)
Dir: Cláudio Marques e Marília Hughes


A romaria de Bom Jesus da Lapa, tradicional no interior da Bahia e um das maiores festas católicos do Brasil, é o tema de Sala de Milagres, que documenta um dia na cidade durante o evento religioso. E seu maior trunfo é revelar as várias facetas que ali se encontram, sejam elas sagradas ou profanas. Talvez por isso, faça tanto sentido que Edgard Navarro (diretor de O Homem que Não Dormia) abra o filme, olhando diretamente para a câmera, e seja o narrador das cartas em que os fiéis pedem e agradecem a Deus as dádivas.

O filme é todo marcado pela leitura de algumas dessas cartas com a voz doce de um Navarro apaziguador, já que existe muita sinceridade nas palavras dos fiéis. O filme mostra desde a aglomeração das pessoas nas grutas e nas ruas, vindo em busca de graça divina, até as atrações que acontecem ao entorno, como os banhos de rio, o encontro nos bares ao som do arrocha e do pagode característicos do interior baiano e as casas noturnas. O filme observa calmamente aquela realidade, sem grandes interferências (não entrevista ninguém), pois crê, felizmente, na força de suas imagens. Elas dizem muita coisa sobre a fé e a realização pessoal e a busca por isso.


Cavalo (SP/BR, 2010)
Dir: Joana Mariani


A animalização do ser humano a partir da perspectiva da exploração. Cavalo é um retrato amargo de um morador de rua e aparentemente um doente mental (vivido por Milhem Cortaz) que é usado por um homem como burro de carga para levar seu carrinho enquanto ele cata papel. O homem é tratado como um cavalo, brutalizado e pouco cuidado, sua condição é de miséria humana.

E se o explorador pode ser facilmente acusado e vilanizado, o filme vai conseguir criar uma complexidade para seus atos, mas sem nunca redimi-lo. Esse tipo de cuidado com os personagens e sua dimensão dramática só reforça o grau de humanidade da história, para além de ser bem fotografado e filmado. No entanto, existe uma tentativa de criar uma sensação de liberdade no momento final que parece apontar para uma solução muito simples de uma situação bem mais complicada. É aí que o filme perde pontos.


Elvis e Madona (RJ/BR, 2010)
Dir: Marcelo Laffitte



A maior ousadia e originalidade de Elvis e Madona se encontra em sua sinopse: travesti se apaixona por lésbica. Acaba por aí. O longa-metragem de estreia de Marcelo Laffitte chega a ser vergonhoso na forma caricatural com que trata seus personagens. Mas o maior pecado do filme é um roteiro completamente mal cuidado, com péssimos diálogos e escolhas narrativas equivocadas, claramente falseadas para compor determinados climas que a história precisava.

Mesmo assim, a reação do público presente no Centro de Cultura era de empolgação e divertimento (chegando a aplaudir três vezes em cena aberta), muito embora outras tantas pessoas saíram indagando como um filme, que mais parece saído de um sitcom televisivo (ouvi isso de umas quatro pessoas), foi parar na seleção da Mostra, fora os que abandonaram a sessão antes de terminar, constrangidos.

Se existe uma luta, não só no Brasil, no sentido de combate ao preconceito sexual, Elvis e Madona tenta dar um passo a frente ao assumir como protagonistas um casal tão insólito quanto este. A travesti Madona (Igor Cotrim) conhece por acaso a motoboy e fotógrafa nas horas vagas Elvis (Simone Spolidoro). A química entre eles é imediata, um relacionamento próximo é inevitável. Pena que a narrativa siga caminhos tão ridículos, colocando muito dessa “coragem” a perder.

Madona, por exemplo, começa o filme sendo assaltada em casa pelo explorador e seu antigo affair João Tripé (Sérgio Bezerra). No outro dia, chega ao salão de beleza onde trabalha e quando conta a todos o ocorrido, eles resolvem fechar o salão para dar um banho de produção em Madona. Pronto, ela parece já ter esquecido que Tripé roubou todas as economias que ela estava guardando para um esperado espetáculo musical que sonha em produzir e estrelar.

É esse tipo de detalhe que tanto enfraquece a narrativa, o que só revela as fragilidades de um roteiro que insiste em criar situações que soam falsas. Exemplo claro é quando Elvis apresenta Madona a sua família. A mãe dela (Maitê Proença), em especial, se revela uma megera retrógrada, para na cena final do encontro, como que por passe de mágica, se revelar orgulhosa da filha (!?!). O então a atmosfera policialesca decorrente das ameaças de Tripé que, além de encerrar o filme da forma mais lugar-comum possível, pouco convence.

A narrativa tenta ainda se engajar num discurso social uma vez que Elvis vende suas fotografias tiradas nas ruas para um jornal (e Tripé não vai demorar em aparecer em uma delas, envolvido com tráfico de drogas). Mas o pior mesmo é quando Elvis chega a dizer que ela quer ser fotojornalista para “mostrar a realidade do país pra ver se muda alguma coisa”. Basta só saber se esse tipo de simplismo é fruto da ingenuidade do roteirista (o próprio Laffitte) ou não passa mesmo de ignorância. O problema é que o próprio discurso fílmico parece endossar essa perspectiva idealizada do jornalismo (e o filme vai mostrar isso da forma mais sensacionalista quando Elvis conseguir um “furo de reportagem” fotográfico).

Sendo uma das grandes atrizes hoje no cinema nacional, é difícil entender o que Simone Spoladore faz num filme desses (na verdade, do ano passado pra cá ela já entrou em outras furadas, como nos péssimos Insolação e Não Se Pode Viver sem Amor). Poucas vezes ela consegue driblar o texto ruim, mas se esforça. Igor Cotrim nem isso consegue, criando sua Madona com os trejeitos mais clichês possíveis, todo caras e bocas. Elvis e Madona parece dar tiros no próprio pé a todo instante. Sabota um projeto que tinha muito de coragem, mas não passa de uma boa ideia inicial.

6 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Também não entendo o que Spoladore faz nesse filme... é muito ruim... mas gosto de INSOLAÇÃO.

O Falcão Maltês

Rafael Carvalho disse...

É terrível, Antonio. A gente quer gostar do cinema brasileiro, mas como esse tipo de exemplar fica muito difícil. E Isolação é outro mau exemplo porque tem aquele ranço de "filme de arte", mas é chato, pretensioso, insosso, metido a grande cinema. O cinema nacional não precisa desses tipos de filmes.

Anônimo disse...

Concordo Plenamente. Estava tentando entender os elogios ao Cotrim, sendo que fez uma atuação tão lugar comum e esdruxula quanto se vêem na televisão nos programas de humor. O filme, na minha opinião, é uma bomba geral.

Rafael Carvalho disse...

Anônimo, o Cotrim é uma vergonha no filme, e ainda tem contra ele o fato do personagem ser desenhado pelo roteiro de forma totalmente caricata. Dá vexame.

Soy Sofia Maror disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Soy Sofia Maror disse...

Muito boa seleção, mas a última opção é o meu favorito. É uma história curiosa, considerando os tempos, este estreante fita de Marcelo Laffitte poderia ser enquadrada mais como uma comédia romântica do que drama. Fiquei surpreso ao ver no elenco Simone Spoladore que está estrelando uma série altamente controversa chamada Magnífica 70, finalmente, voltar para o elenco deve dizer foram chave para o sucesso deste filme. Elvis & Madona é uma grata surpresa e faz jus aos prêmios que tem recebido. Conta uma boa história de amor possível (com seus percalços) e é ousado, abusado e angraçado. Não subestima a inteligência do espectador e muito menos provoca qualquer constrangimento sexo-sócio-cultural.