segunda-feira, 19 de julho de 2010

Pura adrenalina

À Prova de Morte (Death Proof, EUA, 2007)
Dir: Quentin Tarantino




A história é bem conhecida. Os amigos Quentin Tarantino e Robert Rodriguez resolveram fazer um filme em homenagem às grindhouses, cinemas norte-americanos que exibiam sessões duplas de películas trash. Os filmes deviam ter o mesmo espírito e tom exploitations dos que eram exibidos nesses lugares. Cada qual ia fazer um média-metragem para compor o projeto.

Mas aí eles filmaram demais e o filme ficou enorme. Foi lançado nos EUA com fracasso (o segmento do Tarantino fazia sempre muito mais sucesso, inclusive sendo selecionado para a mostra principal em Cannes). Daí o estúdio resolveu lançar os dois filmes em separado. Acontece que Planeta Terror, o ótimo filme do Rodriguez, foi lançado logo no Brasil enquanto que À Prova de Morte chega a nossos cinemas agora, passados três anos de lançamento do projeto.

E é bem difícil entender isso porque Tarantino é um nome de respeito, o filme tem um bom apelo comercial e, melhor de tudo, trata-se de um grande filme, adrenalina pura. É tmbém um dos trabalhos menos pretensiosos do cineasta, quase que feito pelo simples prazer de fazê-lo, repleto daqueles diálogos nonsense, personagens interessantíssimos e cenas maravilhosas, embora ele pareça aqui menos formalista na construção das cenas.

A narrativa se divide em duas partes, ambas recheadas de mulheres falando animadamente sobre relacionamentos, sexo, drogas, curtição, no melhor estilo feel good. É onde a moral é não ter moral nenhuma. Ao mesmo tempo não consigo entender porque tanta gente acusa o filme de misógino, pois as personagens femininas do filme, em sua liberdade jovial, cheias de saúde, são quase como que reverenciadas pelo diretor, na forma como elas dominam exuberantemente o filme. É só lembrar da dancinha erótica que uma delas realiza em determinado momento. É de ficar enebriado com aquilo.
Mas eis que entra na balança o senso de adrenalina do diretor, talvez mais aguçado do que nunca, personificado na figura do Dublê Mike, personagem de Kurt Russel, o vilão que vem para assustar a todas. O pesonagem está presente nas duas metades do filme, seu elo de ligação, evoluindo muito bem em sua torpeza. Seu carro, à prova de morte, é o mais assutador no filme. O final das duas metades são estonteantes.

Resta ainda todo o aspecto visual retrô deliciosíssimo, que encontra no trabalho de fotografia a estilização perfeita do “filme b”, com a tela cheia de arranhões, deliciosamente cheirando a antigo (na primeira parte). Soma-se a isso a já esperada trilha sonora super cool e a série de referências que ele adora enchertar aqui e ali. Talvez seja esse o Tarantino mais puro, o mais saudosista, o mais despreocupado, o mais de coração.

5 comentários:

Wallace Andrioli Guedes disse...

"Delicioso" é um termo que define À PROVA DE MORTE muito bem. Assisti pela segunda vez, e gostei ainda mais. Kurt Russell está genial, e todas as meninas são ótimas.
Quanto ao atraso no lançamento do filme, eu também não consegui ainda entender. Na sessão onde estava, por exemplo, o público entrou totalmente no filme, rindo horrores dos diálogos geniais, e vivendo a tensão das cenas de perseguição (especialmente da espetacular sequência final). É o típico filme com bom potencial de bilheteria, mas, enfim, nem todos parecem achar isso...
Também escrevi sobre À PROVA DE MORTE lá no blog. Ou melhor, republiquei, com algumas alterações, o texto que escrevi quando o assisti pela primeira vez, em janeiro desse ano...

pseudo-autor disse...

Hoje eu assisto sem falta. Ficar sem ver o Tarantino nos tempos atuais é praticamente um crime!

Matheus Pannebecker disse...

Eu acho que "À Prova de Morte" só começa a funcionar de verdade depois da metade... Até então, achei meio monótono. Ainda assim, é bem superior a "Planeta Terror".

Vulgo Dudu disse...

Opa, bom ver outra pessoa que adorou o filme! Na boa: é meu filme predileto do Tarantino, porque presta homenagens a um dos meus filmes preferidos, o "Faster, pussycat! Kill! Kill!", do mestre Russ Meyer. Foi ele quem ditou os enquadramentos de perseguições automobilísticas, e explorou a maldade feminina. Tanto que o subtítulo do filme é "an ode to the violence in women". E ainda cita outro clássico, o fantástico "Vanishing Point". É uma preferência eletiva, movida por essa queda que eu tenho pelo exploitation.

Abs!

Rafael Carvalho disse...

Wallace, também revi o filme e a sensação é das melhores, me parece um dos filmes menos pretenciosos do Tarantino, com um senso de diversão e adrenalina nas alturas. Um filme genuinamente tarantinesco, no melhor dos sentidos.

De fato, Roberto. E é um filmaço, não deixe de ver mesmo. Para quem gosta do etilo inconfundível do cara, não há de se arrepender.

Matheus, acho as duas partes do filme muito, muito boas. Talvez a monotonia que você cita se deva ao fato de haver muitos diálogos no filme, mas os diálogos do Tarantino são legas demais, despretensiosos e cheios de referências.

Dudu, pode não ser meu filme preferido do Tarantino (quem ocupa esse lugar é Kill Bill), mas traz todas as características do cinema dele fazendo uma bela homenagem a esses filmes exploitation. Uma delícia.