quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Encerrando Godard no Semcine


O Desprezo (Le Mépris, França/Itália, 1963)
Dir: Jean-Luc Godard



Assim como o primeiro Godard visto no Semcine, o último é mais uma pérola. Depois de tanto Godard na cabeça, O Desprezo soa como uma obra incomum em sua filmografia porque a narrativa é extremamente lenta e plácida, no melhor sentido; é um filme de personagens em que a ação é mais psicológica do que tudo.

Nada de cortes secos, de edição fragmentada, de arroubos estilísticos. Importa no filme a relação entre marido e esposa a partir do momento em que o escritor Paul (Michel Piccoli) começa a desconfiar que sua mulher Camille (Brigitte Bardot, lindíssima) não o ama mais.

Assim, o filme parece pegar emprestada a melancolia de Paul e adota uma postura mais cândida ao registrar, sem pressa, o desmantelo desse relacionamento. Camille, inicialmente despreza Paul por ele se vender aos estúdios de cinema já que foi contratado para reescrever algumas partes do roteiro de uma adaptação do clássico Odisséia (que já está sendo rodado). A intenção de Paul é conseguir dinheiro para dar conforto a Camille, por isso não compreende a atitude da esposa, ainda mais quando ela conhecer e começar a se envolver com o todo-poderoso produtor Jeremy Prokosch (Jack Palance).

O filme traz, então, uma grande preocupação do cineasta, mais uma vez exposta diretamente em sua obra: falar de cinema, mais especificamente do processo de realização cinematográfico. Nesse sentido, é bastante pertinente que o filme dentro do filme, rodado em Roma, seja dirigido por ninguém menos que Fritz Lang (interpretando a si mesmo), cineasta alemão que escapou do país natal nazista, buscando refúgio inicialmente na França, depois no cinema norte-americano (onde realizou grandes obras).

(Interessante pensar nessa questão da feitura dos filmes porque foi essa razão do grande racha entre Godard e Truffaut. Godard não gostou nada, nada quando o amigo fez A Noite Americana, de certa forma uma glamourização do fazer cinema, enquanto ele quis acentuar as dificuldades dos verdadeiros artistas em lutar e se manter no mainstream cinematográfico controlado pelos grandes estúdios. Duas visões distintas do fazer cinematográfico, que distanciaram dois dos maiores expoentes da Nouvelle Vague).

De fato, O Desprezo é uma obra singular na filmografia de Godard pelo tratamento sereno, mas também catalisador de uma crise conjugal. Ao mesmo tempo é doce ao captar toda a beleza e mistério de Bardot, a dor de Piccoli, a melancolia de Lang e, sobretudo, a paixão por um cinema de alto nível.

8 comentários:

Hélio disse...

Esse eu nao vi ainda. Lançaram uns filmes do cara em DVD recentemente, mas a empresa nao preza pela qualidade. To esperando um lançamento pela Versatil, mas ta dificil...

Ah, vc comentou la no meu blog que só deus sabe quando vc veria Se Nada Mais Der Certo e Aquele Querido Mês de Agosto. Pois a boa noticia é que sao titulos praticamente certos na Mostra de Conquista.

Enqto isso, la na locadora chegaram Pickpocket, Va e Veja, O Conformista. Pra amanha ou segunda-feira: Felizes Juntos, O Discreto Charme da Burguesia, Stroszek, Saudações (primeiro filme do DePalma!), Os Amantes do Circulo Polar, O Homem Que Virou Suco, O Quinze e Do Luto à Luta. Semana que vem ainda deve ter Grey Gardens e outros que nao to lembrando agora.

Abços!

Íris disse...

O desprezo é realmente maravilhoso, principalmente a cena inicial da Bardot com o Piccoli na cama.
Leio sempre o seu blog e resolvi comentar ;)
Beijos

Wallace Andrioli Guedes disse...

Esse é um do Godard que tem em dvd aqui em JF, que já estive várias vezes para alugar, mas que sempre acabei deixando pra depois... acho que esse texto vai me animar a alugá-lo o mais rápido possível.

Kamila disse...

Vi quase nada do Godard!!! E queria que tivesse um seminário desse tipo aqui em Natal!

Leandro Afonso Guimarães disse...

como se não bastasse tudo isto, ainda existe a trilha de georges delerue e a fotografia de raoul coutard, dois dos maiores em dois de seus melhores momentos. saudade daquele godard...

Rafael Carvalho disse...

Hélio, essa empresa descarada seria a Continental? Tem cara, viu! Mas o filme é fabuloso, vale muito a pena. E essa boa notícia nem é tão boa assim porque esse ano eu tô trabalhando na equipe de assessoria de imprensa da Mostra e provavelmente não vou assistir a filme nenhum !?!. Infelizmente. Sobre os filmes que chegaram na locadora, farei o possível para ir conferindo aos poucos, mas confesso que Vá e Veja fura a fila de qualquer um. E faz um tempão também que quero ver O Conformista. Nossa, é coisa demais.

Ei Íris, porque não comentou antes, mulher. É ótimo saber que outras pessoas leem o blog. E você citou uma cena sensacional do filme, a câmera do Godard nesse momento parece que tá comendo e bebendo o corpo da Bardot, é incrível.

Tomara que te instigue mesmo Wallace, vale muito a pena. Só me andaram dizendo que a edição em DVD não é das melhores. Mas é melhor que nada.

Pois é Kamila, quem sabe não aparece uma oportunidade dessas aí! Mas eu recomendo que você vá atrás dos filmes dele o quanto antes. Ele tem coisas grandiosas.

Pois é Leandro, são dois trabalhos incríveis, aquela música plácida e a fotografia luminosa do gênio que é o Raoul Coutard. Bem lembrado. E aquele Godard dá saudade mesmo, porque depois...

Gustavo H.R. disse...

Meu primeiro Godard. Não sabia que era um exemplar pouco característico dele. Lendo as impressões de quem o conhece melhor, estou tendo uma melhor contextualização da obra.

Rafael Carvalho disse...

Opa, começou bem Gustavo, mas de fato não é o tipo de filme que exemplifica o cinema dele, ou pelo menos não representa essa primeira fase.