sábado, 17 de outubro de 2009

Ingenuidade atrevida

Beijo na Boca, Não! (Pas Sur la Bouche, França/Suiça, 2003)
Dir: Alain Resnais

É incrível o descaso das distribuidoras brasileiras com filmes de cineastas tão consagrados e respeitados, como é o caso de Alain Resnais, um dos precursores da Nouvelle Vague e mestre incondicional. Já em seu primeiro filme, Hiroshima, Meu Amor, ele revolucionava a linguagem cinematográfica ao quebrar os limites do tempo e do espaço, numa obra sobre o amor, a paz e, sobretudo, sobre os meandros da memória.

Beijo na Boca, Não!, de 2003, só foi chegar ao Brasil este ano, lançado restritamente, sendo o filme anterior dele, Medos Privados em Lugares Públicos, de 2006, e só estreou aqui ano retrasado. Além disso, esse tipo de distribuição priva muita gente dessa beleza que é Beijo na Boca, Não!, deliciosa narrativa de desencontros amorosos, em forma de filme musical de época.

A história se passa na Paris de 1925 e tem gosto de tempos áureos, muitíssimo bem acompanhada por uma impecável direção de arte e ótimos figurinos no melhor estilo “isto é a aristocracia”. Gilberte (Sabine Azéma) é casada com o industrial Georges (Pierre Arditi), que acredita ter sido o primeiro marido de sua esposa. Mal sabe ele que o estrangeiro Eric Thompson (Lambert Wilson), com quem assinará um negócio milionário, foi casado rapidamente com Gilberte nos EUA anos antes. O motivo da separação? Ele não suportava beijo na boca!

Está armado o circo que ainda inclui na ciranda de desenlances amorosos outros personagens íntimos da família. Todos ganham destaque para defender seus personagens e, dessa forma, contribuem para os mal-entendidos e as reviravoltas da narrativa, tão ágil como os diálogos cantados.

Com leveza imensa, Resnais ganha o espectador de início com facilidade e ainda aproveita para brincar de metalinguagem pondo os personagens para falar diretamente com o espectador ou os fazendo notar a presença da câmera. É o tipo de direção de quem já possui afinidade com o fazer cinematográfico e filma com total segurança e certeza do que quer; quase como uma brincadeira.

As desventuras amorosas dos personagens continuam a interessar o cineasta que flerta com o gênero musical (vide o renovador Amores Parisienses), adotando um modelo não-clássico e seguindo a tradição francesa de fazer seus atores cantarem como se estivessem conversando entre si. Dessa forma, Beijo na Boca, Não! se revela um filme gracioso, leve, despretensioso, quase ingênuo (como sugere o título) e, mesmo assim, um grande espetáculo. É o tipo de simplicidade que nas mãos dos mestres se elevam a níveis de sofisticação das quais nunca nos arrependeremos de conferir. Além de fazer um bem danado.

7 comentários:

Hélio disse...

Lindo filme. Mas o Amores Parisienses me encantou mais.

É incrivel esse descaso das distribuidoras brasileiras. O Medos Privados ainda está em cartaz num cinema em SP (ha mais de um ano!) e isso nao foi suficiente pra esse anterior do Resnais ter chegado antes. Frances musical seria tao inviavel assim?

Abços!

Gustavo disse...

Poxa, vi meu primeiro Resnais anteontem (MARIENBAD) e estava à procura de recomendações sobre outras obras dele. Seu post caiu como uma luva!

Wallace Andrioli Guedes disse...

Cara, eu definitivamente preciso ver mais filmes do Resnais!!! Até hoje só vi HIROSHIMA, MON AMOUR (e mesmo assim já faz um tempinho), e amei. Não me entendo então, por não ter visto mais nada... rs. MARIENBAD tá eternamente na minha lista de filmes que precisam ser vistos, mas acho que os próximos serão mesmo MEDOS PRIVADOS e AMORES PARISIENSES, que já localizei em locadoras da minha cidade...

Diego Rodrigues disse...

Gosto muito do cinema de Resnais. Vou ver assim que conseguir este Beijo na Boca, Não!

Rafael Carvalho disse...

Hélio, adoro o Amores Parisienses, mas esse aqui tem uma leveza sem igual. Me pegou de jeito! E "musical francês" parece sim uma boa pedida, mas tenho a impressão de que o público aqui no Brsil não curte muito o gênero.

Que coincidência, Gustavo. Por falar em Marienbad, preciso muito rever esse filme, é louco demais, mas muito gracioso. E não deixe de ver Hiroshima, Meu Amor, pra mim a maior obra-prima dele e um dos filmes de minha vida. Acho soberbo!!

Então Wallace, Hiroshima, Meu Amor pra mim é uma das maiores pérolas do cinema, acho soberbo, mas tem muita coisa boa do Resnais por aí. E o melhor é que os filmes atuais dele são de uma frescor impressionante. Veja mais coisas mesmo, vale muito a pena!

Então Diego, o cara fez uma obra-prima em seu primeiro filme (Hiroshima, Meu Amor), lá em 1959, e ainda hoje filma com um frescor invejável. Acho isso louvável. Não deixe de ver esse, não!

Cristiano Contreiras disse...

Este deve ser delicioso!

Rafael Carvalho disse...

Essa é a palavra, Cristiano, delicioso. Filme dos mais memoráveis, com lançamento extremamente restrito. Uma pena.