domingo, 19 de dezembro de 2010

Senna eterno

Senna (Idem, Reino Unido, 2010)
Dir: Asif Kapadia


Longe dos heróis de quadrinhos difundidos pela cultura norte-america, Ayrton Senna é aquele de carne e osso que saiu dos rincões do Brasil para acumular vitórias e reconhecimento nas pistas de corrida do mundo. Mas possui essa denominação não só pelo talento em dirigir, mas pela grande humanidade e simplicidade que carregava consigo.

O documentário Senna, produção do Reino Unido, surge para fazer justiça a essa personalidade que tanta comoção causou com sua morte em 1994 num acidente em plena pista. Por mais que conte com uma série de depoimentos de pessoas próximas, uma das vantagens do documentário é de nunca tentar endeusar o documentado, o que causaria uma estranha sensação de puxa-saquismo desnecessário.

(Se eu que não sou dos maiores fãs de automobilismo, nem tinha idade suficiente para compreender quem era Ayrton Senna e o que ele representava no momento em que estava no auge compreendo o verdadeiro sentimento – recompensado – de nacionalismo que ele legou ao povo brasileiro, imagine aqueles que esperavam sempre por mais uma vitória em cada corrida de domingo pela manhã, torcendo com orgulho pelo então maior ídolo do Brasil!)

O diretor Asif Kapadia prefere construir seu filme de forma linear, preenchendo a tela com um vasto material de imagens antigas resgatadas (muitas delas de sua vida pessoal), fazendo um apanhado geral dos passos de Ayrton e, principalmente, construindo a imagem do grande homem que ele demonstrou ser. E isso por dois motivos.

Primeiro, porque ele estava inserido num esporte em que as regras políticas e decisões da alta administração sempre foram mais fortes que o simples talento e interferiram (e interferem até hoje) muito nos resultados finais. E foi contra isso que Senna sempre lutou bravamente, desafiando chefões e seus “afilhados” mais evidentes (caso singular é o de Alain Prost que de companheiro de equipe, tornou-se inimigo de Ayrton – todo herói precisa de seus vilões!).

E depois porque, num Brasil arrasado socialmente, penando para se restabelecer após um governo militar, assolado pela miséria e desemprego, as vitórias daquele brasileiro, que defendia o nome de seu país no mundo (por mais que as equipes fossem todas internacionais), sempre foram motivos de orgulho por todos. Talvez por isso, as imagens de sua vitória no campeonato em Interlagos, no Brasil, seja um dos momentos mais emocionantes do filme porque expõe toda uma sensação de nacionalidade e orgulho patriota que ele era capaz de despertar.

9 comentários:

lematinee disse...

Adorei esse documentario porque Kapadia conseguiu transmitir atraves de um documentario um roteiro que trazia começo, meio e fim, e em nenhum momento traz imagens atuais, como se todos os takes que ele tivesse já fossem capaz de transmitir tudo necessario para um documentario emocionante. E conseguiu ne?

E na parte do acidente, ter o angulo da camera interna como se tivessemos juntos com Senna na hora da batida foi de uma sensibilização perfeita.

Linkei seu blog la no meu!

Abs!

Kamila disse...

Perfeito o texto. Como fã de Senna, foi muito emocionante para mim assistir a este documentário. Acho que você pegou os pontos principais da obra. E eu destacaria outro: em nenhum momento, Senna é endeusado. E isso é excelente!!! O diretor somente reforça as características que ele tinha e que o transformaram no grande esportista que ele foi.

Por que você faz poema? disse...

Creio que faltou imparcialidade da direção, o tom é ufanista demais.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Cara, nem sou muito fã de Fórmula 1, apesar de também não desgostar, mas tenho muita vontade de ver esse filme. Tanto pelos muitos elogios que vem recebendo quanto pela memória carinhosa da minha infância que tenho do Senna, da família reunida nas manhãs de domingo torcendo por ele...

Vulgo Dudu disse...

Curioso... Eu vi o trailer e fiquei com a impressão de que vou detestar o filme. Não gostava tanto assim do Senna, nem curto F1. Talvez seja por isso: eu gostaria de ver um doc menos sentimentalista, mais realista. Porém, acho essa aura de herói que o Senna carrega meio indissociável.

Rafael, um feliz 2011 pra vc, com muito cinema!

Abs!

fabiana disse...

Tô esperando a lista dos melhores da década, para comentários!]

Grata!

;)

Rafael Carvalho disse...

Natália, o trabalho do Kapadia é muito bom, principalmente por se preocupar em contar bem sua história, num documentário bem realizado e emocionante. Por mais que existam várias outras histórias envolvendo o Senna, acho que o projeto conseguiu sintetizar bem o espírito heroico do cara. Obrigado pelo link.

Kamila, é impossível ver esse filme e não se tornar fã do cara. Ele possui todas as características de um herói, e o melhor, de carne e osso. Que bom que gostou do texto.

Você acha mesmo Herculano? Pois eu penso que o diretor consegue fugir de um tom exagerado, mas é meio que impossível fazer um filme sobre o Senna e não vangloriar sua personalidade, talento e carisma. E que se dane a imparcialidade, isso não é materia jornalística. rsrs

Wallace, eu também nem ligo a mínima para Fórmula 1, mas o filme é bom demais porque o documentado é um cara sensacional, a própria personificação do herói. E o roteiro é muito bem desenvolvido pelo diretor. E minha memória afetiva conta muito também, embora ela seja bem borrada.

Dudu, acho difícil para o filme fugir dessa aura mais afetiva, levando em consideração tudo que o Senna representou. E o filme é bastante bem desenvolvido. Feliz 2011 pra ti também, cara. Sucesso, saúde e muitos filmes!!!

Fabiana, minha lista de melhores da década já foi postada anteriormente. Dê uma olhada! A de melhores do ano postei recentemente.

Rodrigo Keke disse...

Rafael meu caro, entrei no site para ver tua resenha de 'O Hobbit' (ótima, por sinal) e olhando na lista de filmes, trombei com 'Senna'.

Eu, como entusiasta de automobilismo e espectador de F1 de longa data, fiquei bem contente com o trabalho do Kapadia. O ponto que me incomodou foi apenas o que considero como uma excessiva focalização da rivalidade com o Alain Prost como principal fio condutor do documentário. Claro, foi o período mais impactante da carreira dele, e também da história da F1, mas o diretor, no afã de contar essa grande passagem, acaba cometendo algumas, digamos, injustiças com o vilão da história. Um pouco de imprecisão histórica, por assim dizer. Mas no geral, é um ótimo trabalho, melhor ainda por sair do território comum dos documentários esportivos, e adentrar no terreno do espectador comum de cinema - que não necessariamente assistem F1.

Rafael Carvalho disse...

Nada melhor do que um entendido no assunto para conseguir identificar esses deslizes históricos, Rodrigo. Não vejo problemas no foco de uma passagem específica da carreira dele porque acaba sendo uma escolha narrativa que o diretor faz. Como ela dá certo, pelo parra mim, me parece puramente cinematográfica. No geral, acho o filme extremamente emocionante porque trata-se de um herói de carne e osso que faz parte da nossa história e que está na consciência coletiva do brasileiro. Precisou que um cineasta de fora viesse nos presentear com olhar tão terno. Esse filme foi uma grande surpresa pra mim.