quinta-feira, 3 de julho de 2008

Sobre sentimentos e circuitos

Wall-E (Idem, EUA, 2008)
Dir: Andrew Stanton


Se a Pixar já possui aquele selo de qualidade no que se refere à técnica de animação 3D, pode também ser louvada como o estúdio de animação que mais se importa com o conteúdo dos seus filmes. Na verdade, o cinema de animação deixou de ser feito somente para entreter crianças, servindo também como algo de interessante para qualquer adulto com alma jovem. Mas aí entra o trunfo da Pixar em seu mais novo projeto: Wall-E consegue ser mais do que isso; é uma obra que usa do amor de uma máquina por outra para evocar o que de mais humano existe dentro de nós, além do grande libelo contra o consumo e o descuidado com o planeta. E tudo isso da forma mais tocante e inteligente possível. Taí uma obra-prima da animação.

Para tanto, foi preciso que diretor e roteiristas nos apresentassem a um robozinho 700 anos à frente no tempo que, solitário num planeta Terra devastado e poluído, tem como função compactar todo o lixo que encontra pelo caminho (lixo esse que empilhado alcança alturas maiores do que um arranha-céu). A chegada de Eva, uma robô tecnologicamente superior ao nosso personagem-título, vai mexer com seus sentimentos. Sim, ele possui, ou aprendeu a tê-los, o que faz de Wall-E o personagem mais adorável que surgiu nos últimos tempos. Um robô que consegue demonstrar carinho e amor. Simples assim.

Se a idéia já é original em si, ela vai ganhando contornos mais fascinantes ao longo do filme, engrandecendo a narrativa a cada nova seqüência. Sem diálogos, o início da película nos apresenta a Wall-E e sua função mecânica, para logo depois introduzir Eva como sendo uma espécie de visitante naquele planeta, pela qual Wall-E vai se apaixonar. A descoberta de uma pequena planta alerta Eva e a leva embora, mas não querendo perder sua amada, Wall-E arranja uma maneira de ir com ela. Numa grande nave espacial milhares de anos-luz da Terra, vamos descobrir o que foi feito da raça humana. Nesse estágio, o filme ganha contornos mais incríveis ainda ao nos mostrar o modo de vida dos humanos que ainda sobrevivem e o que aquela pequena plantinha pode representar para eles.

Os humanos, que vão aparecer mais adiante no filme, são vistos em algumas conversas, mas como todo o filme se apega mais aos robôs e máquinas, é de se louvar o nível de comunicação entre eles e mais ainda entre o filme e o espectador já que em momento algum a história se torna cansativa. A excelente trilha sonora ajuda muito nesse sentido, e nunca soa grandiosa demais, mas é bastante rica em temas de acordo com cada nova situação. E é bem tocante todas as vezes que Wall-E se mostra interessado em demonstrar seus sentimentos a Eva, seguido de um desapontamento doído após a rejeição dela. Aqui é impressionante como através do olhar e do tom de voz ele consegue ser tão expressivo.

E não posso deixar de falar da forma como os seres humanos são mostrados pelo filme. Num ambiente totalmente consumista (não à-toa todos são gordinhos), individualista e desprovido de contato uns com os outros, as relações humanas na verdade não existem. Eu posso estar do seu lado, mas é preferível conversar com você através de um visor; se a moda é usar azul, todos vão gostar de usar azul. Não existe mais raciocínio ou vontade própria, isso cabe às maquinas que regem a vida de todos. E se isso é tão cômodo, para que mudar? Infelizmente, não é algo tão distante assim de nosso tempo.

O filme é um grito de desespero ao mundo do capital e do consumo, das relações virtuais que impedem o toque de uma mão à outra, ao mundo da total dependência das máquinas. Mas que no fundo ainda confia (ou precisa confiar) no humano (afinal, quem poderia consertar tudo isso aí?). Ou então, de forma mais simples ainda, Wall-E é a mais pura celebração do amor, por entre bytes, circuitos e placas de metal.

14 comentários:

Iulo Almeida disse...

Pela primeira vez eu vejo 5 estrelas aqui. Caralho! Ouvi falar muito bem desse filme na terça, mas nem dei confiança porque animação nunca me surpreende, mesmo sabendo - e achando - que a Pixar faz as melhores animações. Agora considerando sua nota pra ele, já to doido pra ver hahaha. Adorei a última frase, meu filho: "é a mais pura celebração do amor, por entre bytes, circuitos e placas de metal".

Elizio disse...

"Wall-E é a mais pura celebração do amor, por entre bytes, circuitos e placas de metal. "

Descrição excelente!

Elizio disse...

"Wall-E é a mais pura celebração do amor, por entre bytes, circuitos e placas de metal. "

Descrição excelente!

Matheus Pannebecker disse...

Melhor filme do ano!

that's all.

mi do carmo. disse...

Opa! Critica completa! Por tudo isso que vc escreveu eu me acebei de chorar naquela sessão...

Também escrevi sobre Wall-E, olha lá depois. Beijos!

contra-regra disse...

Todo mundo está falando de Wall-e. A animação do ano! Obrigado, Pixar, por mais uma vez nos dar a honra de presenciar um espetáculo animado. Acho difícil alguém esse ano bater o robozinho (será como Ratatouille).

Discutir a Mídia?
http://robertoqueiroz.wordpress.com

Rafael Carvalho disse...

Tá vendo Iulo, agora o papo é outro: "vai pro cinema moço, é baratinho". Mas de verdade, vale muito a pena e só o fato de se ver uma pérola dessas dentro de uma sala de cinema é uma sensação incrível. E o último filme 5estrelas que apareceu por aqui foi Onde os Fracos Não Têm Vez, que mesmo depois dessa força toda que é Wall-E, ainda é para mim o melhor filme do ano. Ou será que não? Tô confuso!

E na tentativa de descrever de uma forma bem simples o filme, Elizio e Iulo, (se isso é possível) saiu essa frase aí.

Eu diria segundo Matheus, porque ainda fico impressionado com Onde os Fracos Não Têm Vez. Mas Wall-E tem moral suficiente para ocupar esse posto. Quem sabe até o fim do ano eu não mude de opinião??

Lágrimas muito bem derramadas Michele. Não cheguei a chorar de fato (e eu sou um chorão no cinema), mas o filme toca fundo. Vou visitar seu blog sim. Beijos!

Definiu bem Roberto: um espetáculo animado. E apesar de gostar muito de Ratatouille, prefiro mil vezes o Wall-E. A Pixar já pode ser canonizada.

Hélio disse...

Rafael, vou responder aqui alguns comentarios que voce fez la no blog:

A questao nos filmes do Reygadas é complicada... é inegavel o talento do cara em filmar, mas me parece tao exibicionista que eu nao sei se ele tem algum proposito maior para os personagens.

O Orfanato definitivamente nao desce. Nao consegui visualizar o tal clima de suspense que tanto falam.

Sobre Wall-E, acabei de postar la no blog.

Abraços!

Wiliam Domingos disse...

Ousadia técnica e narrativa inteligente, um marco para o Cinema!
Abraço

Wallace Andrioli Guedes disse...

A cada crítica extremamente elogiosa a Wall-E que leio, como a sua, sinto mais vontade de ver o filme ... vamos ver se faço isso durante essa semana.

Rafael Carvalho disse...

De fato William, e um marco maior ainda para o cinema de animação norte-americano.

Pois então Wallace, acredito que se você continuar visitando os blogs e sites de cinema só vai encontrar elogios ao filme! assista o mais rápido que puder!

Chu disse...

a crítica está do nível do filme!!! bom mesmo rafa!

Rafael Carvalho disse...

Que bom que você gostou do texto, Chu. Abraço!!

Dedê disse...

Rafa, que filme é esse?!?!?!!?
Faz tempo que eu não via um filme assim (você bem sabe que tenho me deparado com muitos ruins, rs), mas Wall-E Superou todas as expectativas que já eram boas.
Melhor filme do ano pra mim disparado!
Sabe quando você sai do cinema meio bobo? Meio flutuando? Meio se sentindo mudado? Com os olhos brilhando? Nossa... didícil de explicar.
Não saberia escrever uma crítica...
Mas adorei a sua!
O blog, como sempre, tá dando show!
Beijos colega!!!

PS: assisti wall-e e Kong-fu Panta na mesma semana...que diferença! A temática realmente tem sido um forte da Pixar.

PS2: Adorei também aquela animação do coleho que foi exibida antes de Wall-E!´