domingo, 27 de novembro de 2011

7º Festival Internacional de Cinema de Salvador – Parte 1

Pouquíssima coisa eu pude conferir desse festival promovido pelo circuito Sala de Arte, que trouxe para a cidade filmes recentes e inéditos, além de uma bela retrospectiva do cinema de Andrzej Wajda. Aqui, um primeiro post sobre alguns filmes que conferi.


Budrus (Idem, EUA/Israel/ Palestina, 2010)
Dir: Julia Bacha



Quando a cidade de Budrus, entre a Cisjordânia e Israel, passa a ser alvo das intenções israelenses de delimitação de fronteiras com a construção do Muro da Separação, que passaria por uma importante região da cidade, seus moradores resolveram não ficar calados. Sob a liderança de Ayed Morrar, começam uma manifestação de caráter popular que vai crescendo e ganhando apoio, inclusive, do Fatah e do Hamas, facções palestinas rivais, e também de israelenses sensíveis à situação dos moradores locais.

É esse contexto de enfrentamento que a diretora brasileira Julia Bacha, radicada nos Estados Unidos, documenta em seu filme, tendo a bandeira da manifestação pacífica daquele povo como grande particularidade da história. Os moradores querem impedir que suas oliveiras (árvore sagrada para os palestinos e de onde vem o sustento da região com a comercialização de azeitonas) sejam destruídas. Mas como em todo o confronto, a violência não demora a aparecer, pelo próprio tensionamento dos conflitos, muito embora não seja intenção pegar em armas.

Mas é muito impactante ver civis, dentre eles mulheres e crianças, peitando soldados israelenses e impedindo o trabalho dos tratores que tentam aterrar o lugar por onde passaria o muro. É essa tensão, filmada como puro registro documental in loco, uma das grandes forças do filme.

Ao mesmo tempo, por mais que fique claro o posicionamento pró-manifestantes, o documentário procura ouvir os dois lados da questão, desde os moradores até os militares israelenses, os mesmos que aparecem em confronto direto nas imagens, conferindo nuances necessárias a essa história que se junta a tantas outras que marcam os conflitos no Oriente Médio e sua complexa rede política, social e econômica.


O Moinho e a Cruz (The Mill and the Cross, Polônia/Suécia, 2011)
Dir: Lech Majewski



Numa tomada de licença poética das mais corajosas e belas, o cineasta polonês Lech Majewski usa a pintura A Procissão para o Calvário, do artista flamengo Pieter Bruegel, O Velho, para compor esse seu filme que se concentra na própria feitura do quadro pelo artista (interpretado por Rutger Hauer).

A vida cotidiana de um povoado em Flandres, atual Bélgica, dominada pelos espanhóis no século XVI, é descortinada para compor a ambientação retratada na figura, tendo os próprios moradores locais como modelos. Bruegel observa a todos e parece se apropriar do olhar do filme que invade a vida daqueles “figurantes” e seu dia a dia para dotar de naturalidade sua criação. O filme tem pouquíssimos diálogos e prefere observar o movimento daquelas pessoas no quadro.

Com isso, Majeswki dá a dimensão de humildade e sofrimento que cerca a vida daquelas pessoas, acentuada ainda pela dominação estrangeira que inflige ao povo severos castigos sem motivo aparente. Essa noção de martírio é intensificada, principalmente, na crucificação do filho de Maria (personagem de Charlotte Rampling), simulando assim a paixão de Cristo.

Numa época em que tanto se celebra a tecnologia do 3D, O Moinho e a Cruz tridimensionaliza o espaço somente ao contrapor atores em movimento à frente de imagens ora pintadas à mão, ora compostas de grandiosas paisagens reais ou mesmo criadas virtualmente, mas que simulam as da pintura original, criando um efeito espetacular de composição. Com isso, dota o filme de imensa beleza plástica que se contrapõe ao peso da aflição que ronda essa história.


Triângulo Amoroso (Drei, Alemanha, 2011)
Dir: Tom Tykwer



Os relacionamentos extraconjugais ganham aqui ares inusitados e polêmicos. Isso porque o casal Hanna (Sophie Rois) e Simon (Sebastian Schipper) começam um affair, em separado, com o mesmo homem, Adam (Devid Striesow). Tykwer compõe o relacionamento de um casal em crise ao mesmo tempo em que eles buscam em outra pessoa um pouco mais de emoção em suas vidas.

Mesmo com a pitada singular desse relacionamento triplo, o filme demora demais em estabelecer essas conexões, algumas vezes se detendo em assuntos que pouco contribuem para história (como o caso de câncer sofrido pela mãe de Simon). Talvez a tradução do filme para “triângulo amoroso” dê uma falsa ideia de que essa relação seja o grande foco da história, mas o filme ensaia mais que isso até que ela se concretize.

Tom Tykwer, depois de uma carreira internacional que conta com o ótimo Perfume – A História de um Assassino e o thriller Intriga Internacional, volta a sua Alemanha natal depois do sucesso feito com Corra, Lola, Corra (que acabou lhe abrindo as portas do mercado mundial).

Mas não deixa de ser um retorno um tanto frio. O filme tem umas boas pitadas de humor (na verdade, está sendo vendido como comédia romântica!), mas nem sempre funcionam. Há também boas cenas, como a inicial com os fios dos postes, ou a dança com os bailarinos que representam a relação tripla dos personagens. Porém o recheio demora a engatar. O final deixa tudo mais soft ao investir numa virada que parece coisa de novela mexicana, além de uma resolução fácil demais de engolir.

6 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Filmes super interessantes!

O Falcão Maltês

Amanda Aouad disse...

Adoraria poder ter visto mesmo que fosse esse pouquinho, mas não deu. :(

Gustavo disse...

Muito interessante O Moinho e a Cruz. Parece um genuíno filme 'de arte'.

Rafael Carvalho disse...

Antonio, interessantes mesmo. Principalmente os que eu perdi, hehe. Tomara que mais filmes da programação entrem no circuito comercial.

Amanda, também queria ter visto mais, mas final de semestre tá matando a gente. hehe

Gustavo, tem essa pegada mesmo, embora não seja legal tachar os filmes assim. E visto no cinema é uma maravilha para os olhos e ouvidos!

Astroterapia Junguiana disse...

Maravilhosa a descrição que fez dos filmes, abç Cy.

Rafael Carvalho disse...

Obrigado, Cynthia. Volte sempre.