quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Imaginação rasa

Vermelho Como o Céu (Rosso Come il Cello, Itália, 2006)
Dir: Cristiano Bertone


Mirco (Luca Capriotti) é uma criança que, depois de um acidente com arma de fogo, começa a perder a visão. É mandando para um colégio interno específico para portadores da mesma deficiência. Lá ele conhece uma garota, moradora da casa ao lado (sem deficiência visual) e cria amizade com outros internos. Se antes Mirco gostava muito de ir ao cinema, agora, cego, ele vai encontrar uma outra maneira de imaginar e contar histórias. Existe um mundo inexplorado de sensações ao seu redor.

Mirco chega à escola contrariado com seu estado (só mais tarde ele vai perder completamente a visão). Mas quando ele descobre que pode, usando um gravador, reproduzir sons e, manipulando-os, construir uma narrativa fantasiosa, ele encontra uma atividade que lhe dá prazer e abrange essa descoberta aos colegas. Nesses momentos, o filme celebra o mais puro poder da imaginação como forma de escape. Além disso, a aproximação com a garotinha resulta nas melhores cenas, como o andar de bicicleta (ele é quem guia) e principalmente o início do “namoro” entre os dois.

Mas à parte isso, incomoda muito nessa produção italiana o simplismo com que carrega um tema tão difícil e cuidadoso. Existe sim uma sensibilidade que permeia grande parte das cenas, mas é carregado de um tratamento tão óbvio e raso que não passa da alcunha de filme “bonitinho”. A história não chega a ser piegas, mas é como se clamasse ao espectador para serem condescendentes com crianças cegas, algo bastante desnecessário. O tom do filme acaba soando panfletário. Os acordes musicais tristes soam nos momentos mais dramáticos.

O filme ainda sofrer pela fraca construção de seus personagens. O diretor da escola, também cego, incorpora o personagem inflexível, que não quer permitir brincadeiras fantasiosas entre os alunos. Nunca sabemos quais suas motivações e as razões de seu posicionamento repressor. Por outro lado, há o professor que vê naquela brincadeira uma forma dos garotos desenvolverem a criatividade e a imaginação e acaba sendo o apoiador dessa “causa”; em determinado momento, ele chega a dizer pelo corredor: “estão roubando dessas crianças o direito de sonhar”. Parecem personagens forjados para cumprir papéis antagônicos.

Mais emblemático ainda é saber que o filme se baseia numa história verídica, o que prende mais ainda o roteiro aos percursos do jovem (Mirco Mencacci) que inspirou o filme. Não que sua história não seja interessante, mas o grau de relevância não passa do possível estereótipo de quem tinha uma grande dificuldade na vida, mas conseguiu vencê-la. O cinema já está cheio disso. Interessante seria encontrar uma forma diferente de mostrar essas histórias (O Escafandro e a Borboleta é um ótimo exemplo). É a falta desse elemento que tanto minimiza Vermelho Como o Céu.

7 comentários:

Hélio disse...

Onde voce viu esse? Ja me perguntaram pelo filme, mas nao me venderam.

Abraços!

Hélio disse...

Ah, sim. Esqueci de responder um comentario seu la no blog: "Reis e Rainha" é um filme que foi lançado faz pouco tempo em dvd, mas por uma distribuidora que nao vende aqui na Bahia. Achei e comprei la em Sao Paulo. Ja na Canal.

Abraços!

Elizio disse...

É... há opiniões diferentes mesmo sobre uma mesmo filme!
Pra mim, inquestionável o roteiro e fotografia do filme.

Rafael Carvalho disse...

Então Hélio, esse eu vi no Janela Indiscreta, umas duas semanas atrás. E tenho a maior curiosidade em conhecer alguma coisa do Desplechin, com certeza irei locar Reis e Rainha.

Que bom que existem opiniões diferentes sobre um filme, Elizio, mas esse não me convenceu mesmo.

Kamila disse...

Achei a premissa do filme um tanto interessante, mas confesso que fiquei preocupada com os problemas que você citou em seu texto.

Bom final de semana!

Gustavo H.R. disse...

Esse filme passou no cinema antigo (especializado em obras de "arte") aqui da cidade, não vi mas parecia muito bom, pelo cartaz, pela premissa e pelo trailer.
Decepcionante saber que ele é decepcionante!

Rafael Carvalho disse...

De qualquer forma Kamila, o filme merece ser visto, talvez você goste mais do que eu.

Gustavo, eu realmente achei decepcionante, mas talvez não seja para todos. Meu amigo Elizio, que comentou aí em cima, por exemplo, adora o filme. E realmente, o lançamento dele foi específico para um circuito alternativo.