domingo, 14 de novembro de 2010

A queda do herói

Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro (Idem, Brasil, 2010)
Dir: José Padilha



A continuação de um filme de sucesso é visto muitas vezes como forma de duplicar o rendimento com um trabalho similar. Pouco são os projetos que realmente têm algo mais a dizer, caso desse Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro, que reúne mais uma vez José Padilha na direção e no roteiro que divide com Bráulio Mantovani, os mesmos responsáveis (juntamente com o ex-capitão do Bote, Rodrigo Pimentel, no primeiro filme) pelo alto nível de discussão que Tropa de Elite trouxe sobre a violência no Rio de Janeiro e uma séries de fatores que isso envolve.

De volta, a dupla lança um olhar sobre o mesmo problema da violência e seus meandros, mas dessa vez incluindo com mais ênfase o ponto de vista político, dando outros ares ao filme. Ao mesmo tempo, o argumento da história procura desconstruir uma ideia feita sobre o Capitão Nascimento, visto por muitos como um herói em sua implacabilidade contra o crime (daí as acusações, errôneas, a meu ver, do filme ser fascista).

Se eu já gostava muito do primeiro trabalho, esse segundo se mostrou bem mais redondo, completo, dentro daquilo a que se dispõe discutir. O desencanto do Capitão Nascimento pelo próprio Bope enquanto instituição que estaria destinada a lutar infinitamente contra o tráfico se transfere agora para a esfera política da qual ele fará parte. Encontramos o personagem como subsecretário de segurança pública do Rio de Janeiro, contra sua vontade. A partir disso, ele fará um autoestudo de seus atos no batalhão e, dentro do novo sistema, vai mostrar o quanto ele é podre e corroído. Ou seja, está cercado de inimigos.

O subtítulo do filme, O Inimigo Agora é Outro, só reforça essa ideia de inadequação dentro do poder. E um dos maiores exemplos dentro do filme é de como as milícias estão intrinsecamente ligadas ao poder público, gerando ondas de corrupção que poucos conhecem. Da mesma forma, a mídia, usando a favor seu poder de persuasão e tomando para si a alcunha de “voz do povo”, apoia, sem o nosso conhecimento, esse mesmo sistema de corrupção que ninguém parece ver por estar tão por baixo do pano (e que a narrativa do filme se empenha em denunciar).

Curioso que a película comece com uma mensagem de que a narrativa é pura ficção. Parece até brincadeira porque tudo que o filme expõe está tão presente na nossa sociedade, seja na polícia, na política, no jornalismo, enfim, no nosso dia-a-dia, que “real” é a palavra que logo vem à mente, essa impressão de que o filme é muito próximo de nós, daquilo que nos é muito fácil entender que acontece nos bastidores do poder.

Se Wagner Moura, mais uma vez, reprisa uma performance cheia de vigor, todo o resto do elenco continua em total sintonia, ganhando ótimos reforços. Irandhir Santos talvez seja o melhor deles, trazendo força e ao mesmo tempo e equilíbrio a um personagem importantíssimo, o aspirante a deputado Fraga que funciona no filme como um sopro de renovação dentro da política.

Interessante pensar no encontro entre esses dois personagens, que se dá não só na esfera política, mas também dentro de um contexto familiar bastante importante no filme, uma vez que Fraga se encontra casado com a ex-mulher de Nascimento e quase ocupando o papel de pai do filho do ex-casal. Esse núcleo é importante para aproximar e criar um estudo maior dos personagens, num roteiro que equilibra (melhor que no primeiro filme) esses dois âmbitos.

Tecnicamente, só basta dizer que a competência do filme anterior retorna aqui com o mesmo apuro, talvez somente com uma trilha sonora mesmo impactante e uma fotografia menos pesada, mas da mesma forma eficiente. Sobressai um trabalho de montagem primoroso e uma qualidade da banda sonora que só traz orgulho para o nosso cinema. O mesmo tipo de orgulho por saber é que é possível, no Brasil, se realizar um filme importante não só pelo seu conteúdo, mas também pelo primor técnico. Tropa de Elite 2 merece todo o sucesso que vem alcançando. E o povo brasileiro precisa de mais filmes assim.

10 comentários:

Elizio disse...

Reforço, do ponto de vista cinematográfico prefiro o primeiro Tropa de elite. Mas, sou voto vencido nesse sentido.

Particularmente, deste gosto da abordagem menos facista (sim, acho o primeiro facista) e mais socio-histórica.

Stella Halley disse...

Rafael, depois desta postagem fiquei com a certeza de que vou me arrepender de não assistir Tropa de Elite 2 no cinema. Espero que esteja levando quando voltar de viagem... Concordo 100%. Precisamos de mais filmes brasileiros assim!

Gustavo disse...

Quando é que temos a oportunidade de dizer que um filme nacional é experiência cultural/de entretenimento/artística ESSENCIAL para nós, enquanto BRASILEIROS? Raramente.
Mal posso esperar para ver.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Acho o filme uma obra-prima, muito superior ao primeiro (que já era um grande trabalho). O olhar de Padilha aqui está muito mais amadurecido, o desenvolvimento da trama e dos personagens é bem mais complexo.

Pedro Henrique disse...

Por essas e outras que é muito melhor que o primeiro.

Rafael Carvalho disse...

Elizio, não se sinta só, conheço outras pessoas que também preferem o primeiro. Mas, cinematograficamente, acho essa continuação mais redonda, mais bem acabada, principalmente no roteiro. E, realmente, não consigo enxergar os filmes com essa visão fascista. Acho que o que ajuda a dar essa ideia é que a história é narrada sob o ponto de vista do Capitão Nascimento, e ele senta a mão mesmo, o que não quer dizer que essa seja a perspectiva do filme. É preciso separar essa visão do personagem fora da visão do filme todo.

Stella, mas com o sucesso do filme nas bilheterias provavelmete vai ficar em cartaz por um bom tempo. Oportunidades você vai ter de ver, com certeza.

Gustavo, a produção nacional é bem interesse e um tanto rica culturalmente, mas concordo contigo que Tropa de Elite (1 e 2) é realmente necessário para todos nós.

Wallace, eu já gostava muito do primeiro filme, mas o segundo é bem mais redondo. Bem perto da obra-prima. E essa complexidade não só da situação abordada, mas também dos personagens, é um grande valor do filme.

Pedro Henrique, não diria que é muito melhor que o primeiro, mas perto desse, o anterior parece perder um pouco de sua força.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Irandhir Santos é uma grande revelação!
Abraços,

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

Matheus Pannebecker disse...

Eu nem tinha expectativas com essa continuação de "Tropa de Elite" (acho o primeiro apenas um bom filme), mas depois de tantos elogios para esse segundo, quero muito ver!

Película Criativa disse...

Ainda prefiro o primeiro filme de Tropa de elite, mas a continuação não deixou a desejar.

parabéns pelo blog :D

Rafael Carvalho disse...

Pois é, Antonio. E esse ano o Irandhir ainda apareceu em A Morte de Quincas Berro D'Água e fazendo a voz do protagonista de Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo. O cara tem futuro.

Matheus, veja mesmo, cara. O filme consegue a proeza de ser melhor que o primeiro, e se você nao gostou do anterior, pode se encantar com essa continuaçao.

Película, acho que os dois filmes têm perspectivas diferentes, ambos muito bem realizados. Mas, por uma pontinha, ainda gosto mais do segundo. E que bom que você gostou do blog. Volte sempre!!