quinta-feira, 19 de março de 2009

Curtinhas

Climas (Iklimler, Turquia/França, 2008)
Dir: Nuri Bilge Ceylan


Esse é meu primeiro contato com o cinema de Nuri Bilge Ceylan, diretor turco cultuado em festivais, principalmente Cannes. E é uma ótima surpresa. Climas é a simples história da desintegração do casamento de Isa (Nuri Bilge Ceylan – sim, o próprio diretor) e Bahar (Ebru Ceylan – esposa do diretor na vida real), ele um professor universitário, ela uma produtora de TV. Através de longos planos e câmera estática, o cineasta confere ao filme uma atmosfera estanque, como a própria vida de seus protagonistas os quais não conseguem mais o mínimo de contato entre si. O filme é seco como a relação dos dois, mas ao mesmo tempo existe uma dor na quebra do relacionamento, algo que os personagens se esforçam para nunca demonstrar, alimentada também por decepções do passado. Tudo isso é bem sugerido por um filme que consegue tocar o espectador pela simples presença dos atores em tela, marcados pela persistência da solidão e do sofrimento em suas expressões (o filme não possui um acorde de trilha sonora). Mais do que diálogos, a narrativa se comunica através da força física dos protagonistas, principalmente da bela esposa do diretor. O final, bastante sóbrio e sem concessões, sabe deixar a situação em aberto, algo sempre agradável.


3 Macacos (Üç Maymum, Turquia/França/Itália, 2008)
Dir: Nuri Bilge Ceylan


Depois do ótimo Climas, é uma decepção que Ceylan em seu mais novo filme se importe tão menos com o desenvolvimento de seus personagens em prol de uma estética que parece querer afirmar como ele é um ótimo cineasta. A tática deu certo pois o filme saiu de Cannes o ano passado laureado com o prêmio de Melhor Diretor. Talvez seja o prêmio certo para o filme errado porque Ceylan é um cineasta com personalidade, mas aqui toda sua direção está mais voltada para o exercício de estilo; beira o exibicionismo. Eyüp (Yavuz Bingol) assume a culpa de um acidente causado por seu chefe em troca de uma bela quantia em dinheiro, deixando só em casa a esposa Hacer (Astice Aslan) e o filho Ismail (Rifat Sungar). Depois de apresentada essa situação, o filme se acomoda em acompanhar os erros posteriores dos personagens sem o mínimo de aprofundamento sobre a vida de cada um. Existe também um fator surreal na aparição do fantasma do filho mais novo da família (provavelmente morto por afogamento) que surge como se quisesse lembrar a todos da tragédia do passado. Mas o recurso se mostra totalmente desperdiçado pois nunca passamos a conhecer essa história, nem muita coisa pertinente àquela família. Mas se há algo impecável no filme é uma fotografia que sabe ser representativa a partir dos dilemas morais dos personagens. Mãe e filho conversam na mesa do café da manhã, local propício à interação familiar, mas é tomado por uma escuridão tal, que só reforça o quanto de obscuridade existe naquela relação. Ou mesmo na constante presença de um céu carregado de nuvens negras (retocadas em computador, é verdade) que parece prestes a desabar sobre os personagens. É uma pena que essa estética não esteja aí para reafirmar uma história mais aprofundada como merecia.


Frost/Nixon (Idem, EUA/Inglaterra/França, 2008)
Dir: Ron Howard


Esse filme tem duas ótimas qualidades e uma surpresa: baseado numa peça de teatro, o filme é tão dinâmico que nunca lembra os palcos; parece soar cansativamente político (por se tratar de uma entrevista), mas é sobre a realização dessa entrevista, alcançando seu discurso político no momento certo. A surpresa é que a direção ficou por conta de Ron Howard, cujos últimos filmes foram os péssimos O Código Da Vinci e A Luta pela Esperança. Mas há de se fazer jus ao roteiro adaptado de Peter Morgan (o mesmo de A Rainha) a partir de seu próprio texto para o teatro e um elenco que ajuda bastante. O apresentador meia-boca de talkshows David Frost (Michael Sheen) resolve tentar a primeira entrevista com o ex-presidente Richard Nixon (Frank Langella) depois de sua renúncia por conta do escândalo Watergate, três anos antes. O que parecia um embate simples vai se mostrando bem mais interessante, e duro também. Ao mesmo tempo em que Frost é mostrado como esse apresentador mais interessado no sucesso do que na importância daquela entrevista, o Nixon do filme ainda é um homem marcado pelo caso Watergate, ranzinza e preocupado com a imagem. O embate final entre os dois é sensacional, com direito a momento emblemático de um Nixon sem resposta. Frank Langella sustenta o personagem com talento e vigor, dono completo do personagem; Michael Sheen não faz feio e consegue muitas vezes alcançar o nível de atuação de Langella, batendo de igual para igual. De todos os concorrentes ao Oscar da categoria principal, Frost/Nixon era meu favorito.


Sicko – $.O.$. Saúde (Sicko, EUA, 2007)
Dir: Michael Moore


Michael Moore se glorifica como o “americano perspicaz que sabe criticar seu próprio país”, se idolatra bastante, sabe fazer teatrinho, se utiliza do maniqueísmo para compor seus filmes e criar identificação com o público, principalmente fora dos EUA, e utiliza sempre uma abordagem parcial. Muita gente vê nisso uma rica propensão ao humor irônico, à necessidade de incomodar para mostrar a verdade. O método não deixa de ser manipulador, mas é com ele que consegue desmascarar muita coisa. E por si só já é válido. Dessa vez, Moore aponta sua mira para o sistema de saúde norte-americano, com especial preocupação em cutucar os planos de saúde caríssimos do País e sua arbitrariedade em socorrer as pessoas que precisam de tratamentos caros, mas, simplesmente, são recusados (!?!). Chama atenção na abordagem feita por Moore em não comparar o sistema de saúde norte-americano com o de algum país do terceiro mundo ou mesmo um país intermediário, mas sim com nações bem desenvolvidas como o vizinho Canadá e a Inglaterra. E aí as diferenças da qualidade dos serviços saltam aos olhos, revelando grandes dicotomias. Um pouco mais de imparcialidade não faria falta alguma ao documentarista, mas seus filmes são assim, discutíveis, porém pertinentes.

8 comentários:

Wallace Andrioli Guedes disse...

Hmmm ... não conheço o cinema desse turco, mas vinha me interessando por esse 3 Macacos, desde o sucesso em Cannes. Vamos ver se chega por aqui ...
Quero muito ver Frost/Nixon, mas estou desconfiado de que sou vou conseguir fazê-lo em dvd. Vamos torcer pelo contrário.
Gosto do Moore, e, apesar de achar que imparcialidade, mesmo em documentário, é ilusão, concordo que ele às vezes exagera nos truques para nos convencer de sua visão. Mas é inegável seu talento, e é ótimo vê-lo tirando sarro dos norte-americanos, levando heróis do 11/9 para serem tratados em Cuba ...

Cosmunicando disse...

adorei as curtinhas, valeu as dicas =)

Filipe Machado disse...

Boas curtas, obrigado pelas dicas!

Indhira disse...

Aaaaah, que legal! Tomou vergonha na cara, mudou de assunto e colocou os blogs de amigos que tanto te prestigiam no blog! kkkkkkk
Ainda não vi Frost/Nixon. Passo pra dar meu relato em breve.

Bjo, Rafa!!!

Kamila disse...

Não assisti a nenhum dos filmes do post, mas quero muito ver "3 Macacos" e "Frost/Nixon". Os dois longas possuem uma temática que me agrada e foi bom ler seus comentários sobre as obras.

Rafael Carvalho disse...

Meu interesse pelo Bilge Ceylan, Wallace, surgiu também por conta do Festoival de Cannes, mas daí aproveitei para ver um outro filme anterior dele. O cara é bem cultuado, vale a pena procurar trabalhos antigos dele. Sobre o tema da imparcialidade, também concordo que é ilusão, em qualquer formato. Mas um pouco menos de sesnsação e aquele ar pretencioso de quem quer ser o porta-voz da verdade, não fariam falta ao filme do Moore.

Padma e Filipe, confira alguns dos filmes resenhados e depois volte aqui para dizer o que acharam.

Então Indhy, há tempos que queria fazer essa lista de blogs amigos que sempre visito. E dar outros ares para assuntos diversos. Faz um tempinho que tá aí, viu!! E acho que você vai gostar de Frost/Nixon.

Ok Kamila, mas não vá com muita fome para ver 3 Macacos porque não parece o tipo de filme para agradar a todos. Eu mesmo tenho várias restrições a ele, mas confesso que a história é atraente.

Vulgo Dudu disse...

Rapaz, nunca havia escutado falar neste diretor Nuri Bilge Ceylan. Fiquei bastante curioso. Foi fácil de arrumar?

Abs!

Rafael Carvalho disse...

Pois então cara, o Bilge Ceylan eu descobri através da cobertura do Festival de Cannes, ele é um queridinho por lá. Me parece que quase nada dele tem nas locadoras ainda, acho bem difícil de achar. Mas para quem faz download pelo Making Off, é fácil arranjar. Tu conhece o site?