domingo, 21 de setembro de 2008

Cúmplices da tortura

Violência Gratuita (Funny Games U.S., EUA, 2008)
Dir: Michael Haneke


Assistindo novamente ao Violência Gratuita feito em 1997 pelo mesmo diretor descobri um gosto muito maior pelo filme do que quando vi pela primeira vez; essa versão atualizada (copiada, na realidade), sendo exatamente igual a primeira, possui as mesmas qualidades. Só peca por ser algo já visto, sem novidade alguma. Mas Michael Haneke continua um grande provocador e nesse(s) projeto(s) leva o espectador a um estado de tensão poucas vezes alcançado.

Ao passar as férias na casa de campo, uma família se vê ameaçada por dois jovens que aparecem misteriosamente na propriedade. O que inicialmente se mostra uma aproximação amigável, vai tomando ares de intimidação até chegar ao ponto da mais pura humilhação e tortura física. Tudo gratuitamente.

Por isso mesmo gosto bastante do título em português que considera toda a violência como algo sem propósito (nunca sabemos os reais motivos por que aqueles dois fazem aquilo). Seria uma crítica à banalização da violência que vai mais adiante ao criar com o espectador uma relação de cumplicidade. Num jogo metalingüístico, os agressores olham diretamente para a câmera e conversam com o público, como se fossemos coniventes com tudo aquilo e a sede do espectador por violência fosse o alimento da continuidade dos atos dos personagens.

Ao mesmo tempo, a idéia de funny games (jogos engraçados, do título original) entrega toda aquela situação como uma brincadeira perversa. Os níveis de tensão aumentam a cada situação opressora, mas não é isso que vemos como qualidade? Além disso, o título entrega o próprio filme como um truque, uma armação, do qual também somos coniventes (estamos assistindo a uma ficção, mas não deixamos de nos envolver emocionalmente com a estória). Numa cena espetacular, um dos jovens, depois de um acontecimento que o desagrada muito, pega um controle remoto, faz voltar a ação (o filme retrocede imediatamente) para desfazer o ato. Esse é o jogo e são eles que o controlam.

Embora Haneke copie cena a cena seu filme anterior, fica evidente uma direção segura e visivelmente bem planejada em todos os momentos. E mesmo que o filme se utilize da violência para discuti-la, ela nunca é usada como forma de promoção do filme já que as cenas mais pesadas nunca são mostradas. O filme apela para a memória coletiva do público que já viu e foi exposta a várias cenas de violência e tortura (principalmente no cinema). Talvez esse seja um dos maiores acertos do diretor.

Além disso, um elenco de peso faz jus a todos os atores do filme anterior. Tim Roth e Noimi Watts interpretam o casal, ambos marcados pela sutileza de seus personagens que mais tarde dão lugar a um desgaste físico impressionante. Mesmo o ator mirim Devon Gearhart, como o filho do casal, surge com uma expressividade ímpar. Já Michael Pitt e Brady Cobert são de um cinismo absurdo, nunca soando exagerados como os “vilões” da história. Mas se a história possui mesmo um vilão, não seria ela a exposição à/da violência?

5 comentários:

Vinícius P. disse...

Engraçado que ainda nem vi o original, mas tenho grande curiosidade em relação a essa nova versão. Gosto do título nacional também, mas até que o original...

Társis Valentim disse...

Rafa,
e qual foi a explicação do diretor pra fazer essa refilmagem?

não é estranho gastar tempo e dinheiro contanto a mesminha história?

Wallace Andrioli Guedes disse...

O Funny Games original é genial, mas o fato de essa ser uma refilmagem quadro-a-quadro me dá um certo desânimo de assisti-la. Mas o Haneke sempre merece ser assistido, não é mesmo ?

cineresenhas disse...

Rafael, existe em seu texto um ponto de vista admirável, que diz tudo sobre o filme: somos cúmplices de toda a violência da fita. São os vilões de branco que a comete, mas resistimos até o final para ver o que vai acontecer, mesmo que alertado pela dupla assassina. O mesmo acontece com qualquer outro filme com violência para lá de gratuita. Na atualidade a violência se tornou algo comum, especialmente nos cinemas. E esta atualização concebida por Haneke com base no filme realizado por ele mesmo dez anos atrás, apesar de ser refilmada quadro a quadro, nos mostra que não podemos continuar investindo e se acomodando neste comportamento – ao menos foi algo que pude extrair da fita de 1997, que é sensacional.

Rafael Carvalho disse...

Então Vinícius, embora essa seja uma refilmagem quadro a quadro, eu gosto mais do primeiro pela originalidade e por ter sido a primeiroa experiência com a história. O impacto de ver essa refilmagem é menor sabendo o que vai acontecer. Mas recomendo muito o original. E também gosto muito do título em português.

Társis, eu realmente não li nada a respeito de uma justificativa do diretor para essa refilmagem. E é uma pena mesmo que um cineasta tão provocativo e original tenha passado um tempão num projeto que nada acrescenta ao original. POdia estar fazendo uma coisa mais interessante. Dinheiro não era problema, eram os norte-americanos que estavam pagando. Agora, por outro lado, é muito melhor que o próprio diretor faça a refilmagem do que se ela fosse parar nas mãos de qualquer um em Hollywood. Já pensou um Uwe Boll dirigindo uma material daquele? Deus não permita!!!

Realmente Walace, Haneke merece sim ser sempre assistido. Um cineasta inventivo e provocador como poucos atualmente.

Obrigado por ter gostado do texto Alex. E o Haneke acerta de novo ao colocar o próprio espectador em xeque com essa reflexão sobre a cumplicidade da violência. Será que nós, seres humanos, vamos conseguir conviver com isso até quando? Essa realmente é uma ótima questão. E difícil também.

Abraços rapaziada!!!