segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Panorama Coisa de Cinema – Parte IV


Depois de terminado o Panorama e com os vencedores dos júris devidamente escolhidos (podem ser conferidos aqui), é hora de falar sobre os longas-metragens que foram exibidos na competição nacional. Uma parte deles aqui:


O Céu Sobre os Ombros (Idem, MG/BR, 2010)
Dir: Sérgio Borges


Se, de longe, pode parecer muito simplista identificar O Céu Sobre os Ombros como um filme de personagens, basta assistir ao filme para entender a riqueza de tipos humanos que o diretor estreante Sérgio Borges escolhe para compor sua estreia. O longa apresenta três pessoas que passam a ser filmadas em seu cotidiano, sem grandes acontecimentos. A força disso se encontra justamente naquilo que eles já são.

Temos o jovem Bogus, praticante da seita Hare Krishna, cozinheiro de restaurante natural, atendente de telemarketing e também líder da torcida organizada do Atlético Mineiro; o angolano radicado no Brasil Lwei, aspirante a escritor, dono de um discurso aparentemente sem nexo, e pai de um filho deficiente; e, talvez o mais interessante de todos eles, a transexual Evelyn, formada em psicologia, doutoranda, professora universitária e prostituta por opção.

Visto assim, parecem personagens criados por uma mente fértil de roteirista. Mas são figuras reais com quem o diretor teve contato; e mais ainda, os convidou a interpretarem a si mesmos diante das câmeras. Para além do mérito de por em cheque a relação conflituosa (mas por vezes complementar) entre documentário e ficção (pois o filme não só registra, como também recria situações da vida deles), o cineasta toma o cuidado para filmar com câmera estática a vida daquelas pessoas, sem tentar forçar nenhuma conexão entre eles. Mais interessa o peso do mundo que paira por sobre essas figuras tridimensionais e, por isso mesmo, tão impressionantes.


Laura (Idem, SP/BR, 2010)
Dir: Fellipe Gamarano


Laura é o retrato de decadência. A decadência social da personagem título, uma brasileira radicada em Nova York há mais de 25 anos. A câmera do longa persegue essa mulher de meia idade, longe de se deixar expor totalmente para o filme. E aí reside um dos maiores mérito da obra: Laura, por mais que seja foco de observação concedida, nem sempre vai facilitar o trabalho de desvendamento de si mesma. Uma figura misteriosa, portanto.

O tema da decadência surge por um discurso dela própria de se colocar como pessoa influente nos círculos mais glamorosos e sofisticados da vida badalada de astros e estrelas de cinema, como mulher poderosa de acesso fácil às festas e eventos do mainstream estelar. Mas o que vemos nas entrelinhas do filme é justamente o lugar deslocado dessa personagem que já pertenceu (ou sempre sonhou pertencer e nunca conseguiu) a esse grupo seleto.

E por mais que esse tipo de figura possa facilmente cair na chacota, chama atenção o tom sempre respeitoso que o filme confere a ela, que nunca a destrata ou desmente. O diretor Fellipe Gamarano respeita seu objeto de observação, ao mesmo tempo em que bate de frente com ele, dada a personalidade forte de Laura que chega, muitas vezes, a confrontar o diretor e equipe de filmagens, impondo limites e regras. Ganha com isso o próprio filme que se constrói como um working in progress (e o próprio diretor está trabalhando numa versão maior do projeto) e também como retrato que tenta desvendar uma personagem ímpar.


Avenida Brasília Formosa (Idem, PE/BR, 2010)
Dir: Gabriel Mascaro


No bairro recifense de Brasília Teimosa, moradores que viviam nas palafitas sobre o mar tiveram de deixar suas casas por conta dos riscos de vida e foram alojados na recém construída Avenida Brasília Formosa. É partindo desse espaço que Gabriel Mascaro irá mirar personagens tão distintos: o garçom e cinegrafista Fábio, a manicure Débora que tenta uma vaga para participar do Big Brother Brasil, o pescador Pirambu e o menino Cauã, de 5 anos de idade.

A câmera assume o registro da vida cotidiana daqueles personagens, o que aproxima bastante esse filme de O Céu Sobre os Ombros, muito embora a cidade não apareça no filme mineiro com a mesma importância que tem nesse aqui. Na verdade, o espaço geográfico tem uma presença enorme no filme porque é naquele lugar que o diretor trabalha as questões de sobrevivência que uma classe média baixa enfrenta no seu dia a dia.

Gabriel Mascaro já havia lançado um olhar sobre a questão da moradia no seu filme anterior Um Lugar ao Sol (exibido ano passado no Panorama), mas que focava nos moradores de classe alta que residiam nas coberturas dos apartamentos mais caros de Recife. Assim, Avenida Brasília Formosa representa o outro lado do espelho. Uma pena que seu filme ofereça tão pouco. Depois de apresentar seus personagens, pouco mais tem a acrescentar num filme que parece dar voltas em torno de si mesmo. A intenção de filmar o cotidiano daquela comunidade já se solidifica na metade do filme. O que vem a seguir é só reiteração, o que não desmerece o valor documental e a sinceridade que seu filme possui.


A Alegria (Idem, RJ/BR, 2010)
Dir: Felipe Bragança e Marina Meliande


A Alegria tem provocado cisão. Há quem despreze totalmente, há os que veem nele um grande passo para um cinema inovador e longe de amarras e pasteurizações, essas que acometem o cinema brasileiro atual. Parte da chamada trilogia Coração no Fogo (formada pelo anterior A Fuga da Mulher Gorila e posteriormente por Desassossego (Filme das Maravilhas), esse último um trabalho coletivo), A Alegria aposta numa narrativa calcada no anti-naturalismo para falar da militância de um estado de espírito.

Nesse sentido, é mesmo um filme de ruptura, pois exige uma postura diferente ao encará-lo. E é talvez isso que falte à muita gente que tem execrado o filme. Porque é preciso ver a narrativa sob outro estado de abstração, totalmente metafórico e extremamente lúdico, dialogando com o gênero fantasioso, para adentrar a grande metáfora do medo que precisa ser combatido pela defesa da alegria.

Encontramos a jovem Luisa (Tainá Medina) de 16 anos que tem um primo baleado e passa a se refugiar em sua casa no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, a jovem toma pra si, em companhia de seus amigos, e talvez de forma inconsciente, a necessidade de enfrentar certo estado de aprisionamento, consequência da violência e barbárie carioca dos últimos anos. Existem no filme ecos de Apichatpong Weerasethakul e do M. Night Shyamalan de Corpo Fechado, principalmente deste último que parece ser uma evocação forte ao fim de A Alegria e da própria concepção de super-heróis, grande apologia àquilo que devemos buscar nos tornar para enfrentar o mal do temor.

2 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Fica a pergunta: como vê-los?

O Falcão Maltês

Rafael Carvalho disse...

Olha Antonio, A Alegria estava em cartaz há um tempo, não se passou aí em Natal. Avenida Brasília Formosa também entrou em cartaz semana passada, se não me angano. O Céu Sobre os Ombros está marcado para estrear no próximo mês, eu acredito. Só Laura que não tenho notícias. E mesmo assim a gente sabe como os filmes nacionais são mal distribuídos no próprio país. Mas preste atenção às estreias, talvez eles surjam por aí.