sábado, 7 de agosto de 2010

Curtinhas

A Bela da Tarde (La Belle de Jour, França, 1967)
Dir: Luis Buñuel


Luis Buñuel adorava espinafrar a classe burguesa, esse era um deus principais temas e preocupações. Em A Bela da Tarde ele utiliza o tema da perversão sexual, de uma mulher casada, para esse intento, tentativa bem-sucedida de bater de frente com o conservadorismo de uma classe alta tão cheia de “princípios” em plenos anos 60. Embora esteja longe de ser um dos meus favoritos do diretor, A Bela da Tarde vale muito por mexer, de forma sóbria e ao mesmo tempo complexa (porque aborda a psicologia e a sexualidade humanas), com aquele estilo direto do diretor.

Catherine Deneuve, poucos anos depois de interpretar a frígida protagonista de Repulsa ao Sexo, do Polanski, personifica essa mulher que, um tanto infeliz no casamento, procura satisfazer seus desejos indo trabalhar num bordel de luxo; mas ela só pode à tarde, ninguém deve suspeitar disso. Buñuel, nunca escandaloso, não possui intenção nenhuma de chocar para chamar atenção para o filme. Sua veia surrealista surge nas divagações sexuais da protagonista, e ainda prega peças no espectador pois muitas vezes não conseguimos distinguir se aquilo acontece no plano psicológico ou não. Mais um belo jogo proporcionado pela mente humana e pelo mestre espanhol.


Sempre Bela (Belle Toujours, França/Portugal, 2006)
Dir: Manoel de Oliveira


Quanta elegância, Sr. de Oliveira. A idade avançada do realizador perece ser o principal fator para tamanho talento e segurança na condução de um filme. Ao mesmo tempo, é tarefa arriscadíssima assumir a continuação de um clássico absoluto do cultuado cineasta Luis Buñuel em sua fase francesa surreal. Oliveira, espertíssimo, soube resgatar a história da mulher casada que passava as tardes num bordel para satisfazer seus desejos. Mas agora o foco do filme não é mais a mulher, ou pelo menos não é a protagonista, lugar esse ocupado por Henri Husson (Michel Piccoli, reprisando seu papel no filme anterior), que reencontra Séverine (agora vivida por Bulle Ogier) depois de muito tempo.

Longe de copiar a escrita direta e pontuada de surrealidade de Buñuel, Oliveira faz jus a seu próprio estilo de filmar: nada transcorre apressadamente, os planos são longos e fixos, o texto é conciso, tudo é econômico. É também um filme sobre uma busca pois Henri, ao ver Séverine num teatro, perde-a de vista e passa a rondar Paris à busca da mulher de seu amigo que, outrora, sob indicação sua, foi trabalhar no bordel. Portanto, conhece o segredo daquela mulher. Nesse caminho, o personagem mantém diálogos interessantes com outras pessoas num bar, como o barman e duas velhas prostitutas; falam sobre amor, tempo, juventude, assuntos que poderiam soar ocasionais se não dissessem tanto sobre os personagens. A direção de arte também faz um belo trabalho, em especial na sequência final do jantar, em que, aí sim, Oliveira evoca Buñuel na dúvida que permanece.


Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, EUA, 2010)
Dir: Tim Burton


Esse filme de Tim Burton soa estranhamente como uma continuação de algum filme anterior que pouca gente parece ter visto. Esse “filme” anterior parece ser o próprio livro homônimo de Lewis Carol que é a base de toda a história. Mas aqui, Alice já está crescida e retorna ao mundo da fantasia depois de já ter estado por lá. Agora, surge como a “escolhida” para derrotar as forças do mal e devolver o poder ao lado do bem (o que me lembrou estranhamente As Crônicas de Nárnia, numa referência pouco positiva).

Parece que Tim Burton não quis fazer mais um filme sobre a menininha curiosa e de mente completamente fértil que adentra um lugar misterioso, muito embora talvez isso fosse bem mais fiel ao universo cinematográfico do diretor. Desde o início eu estava achando estranho o tom de aventuresco do longa e é assim que ele se apresenta. Dessa forma, a obra perde todo o subtexto do poder da imaginação, deixando para trás o misto de encantamento e estranheza de sua protagonista, apostando numa história que se quer épica. Alem disso, a roupagem visual é carregada demais. A fantasia perdeu o encanto.


O Escritor Fantasma (The Ghost Writer, Reino Unido/França/ Alemanha, 2010)
Dir: Roman Polanski


Polanski continua afiadíssimo. Seu mais novo projeto, finalizado pouco antes da reviravolta que o levou à prisão recentemente, é um thriller de competentíssimo apresentado da forma mais clássica possível, adotando aquele ar de puro mistério, recheado de intrigas e suspeitas que podem vir de qualquer parte. No fim das contas, a narrativa é muito simples, nada de grandes surpresas ou reviravoltas megalomaníacas, mas é a partir daí que ele leva seu protagonista, o escritor por encomenda vivido por Ewan McGregor a adentrar o mundo sombrio de Adam Lang (Pierce Brosnam, em ótima performance), um político de rabo preso recentemente sob a mira da mídia por seus negócios escusos.

Polanski tem um ótimo roteiro em mãos e faz com que a narrativa evolua mantendo sempre o interesse na história, à medida em que cresce a tensão, ajudada muito por uma fotografia carregada num tom de azul sombrio. O filme parece reviver os bons tempos de Chinatown ou mesmo do mais recente Busca Frenética, para apostar em momentos de pura tensão. A cena do bilhete passando de pessoa a pessoa (numa última revelação importante) só não é melhor que a cena final, um lembrete de que as consequências pela descoberta da verdade podem ser gravíssimas.

7 comentários:

Kamila disse...

Dos filmes resenhados, só assisti "Alice no País das Maravilhas". O filme vale pela estética, mas curiosamente, uma história ousada com um diretor que é ousado, geralmente, mas aqui não teve a coragem de colocar a obscuridade que esta história pedia. Uma pena! Esperava mais do Burton!

Matheus Pannebecker disse...

Concordamos quanto "Alice no País das Maravilhas" e "O Escritor Fantasma". O primeiro é uma decepção, ao passo que o segundo é um filme muito competente!

Gustavo disse...

Sem nada a acrescentar, exceto o desejo de vê-los todos.

Rafael Carvalho disse...

É Kamila, e ainda tem isso, a história podia ser mais obscura do que se pinta aqui e o Burton é um mestre nisso.

Exato Matheus. Por mais que eu goste do cinema do Burton, é difíci achar alguma validade em Alice, o visual acabou sufocando o filme, tipo de coisa que o Burton consegue equilibrar tão bem em seus filmes. E O Escritor Fantasma talvez tem sido um tanto supervalorizado, embora seja um ótimo filme.

Gustavo, vá e veja!!

Vulgo Dudu disse...

Rapaz, a bela da tarde tem um dos desfechos mais maldosos e brilhantes da história do cinema! É aquele coisa da cosquinha que o sexo provoca X o sofrimento que a cosquinha pode causar.

Abs!

Wallace Andrioli Guedes disse...

Gosto muito de A BELA DA TARDE, apesar de tê-lo visto há um bom tempo. Acho que, do pouco que conheço do Buñuel, é o trabalho dele que mais gosto. Até por isso, quero muito ver SEMPRE BELA, mas acho que vou ter que esperar um pouquinho...
ALICE é mesmo uma grande decepção. É um filme sem razão de ser. Um dos piores do ano e da carreira do Burton.
Já O ESCRITOR FANTASMA é uma grata surpresa. Polanski, a essa altura da vida, fazendo um thriller pungente, tenso, angustiante. E com um final memorável. Acho que quase chega no nível de CHINATOWN, e está muito acima de BUSCA FRENÉTICA.

Rafael Carvalho disse...

Hahauauhauha. Boa definição essa da cosquinha, Dudu. E realmente, o desfecho, mesmo enigmático, de A Bela da Tarde é muito bom.

Wallace, acho que o melhor do Buñuel, para mim, até então, é Nazarin. E, se você gosta do cinema contemplativo do Oliveira, vai gostar do Sempre Bela, eu espero. E também não vejo muita razão de ser no Alice, parece coisa de cineasta mimado e ultraesquisito. Sei que você não gosta muito de Busca Frenética, mas acho que O Escritor Fantasma se aproxima muito desse filme pela sensação de suspense constante, e ambos foram filmados com muita segurança.