quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Abaixo da média

Baixio das Bestas (PE/BR, 2007)
Dir: Cláudio Assis


Estava com certa expectativa em relação a Baixio das Bestas que não sei se atrapalhou na apreciação do filme. Sei que o resultado me pareceu um tanto pretensioso e até certo ponto vazio em sua atmosfera carregada. De forma bastante crua e visceral, o diretor Cláudio Assis expõe a exploração sexual da mulher tendo como ambiente a região canavieira da Zona da Mata pernambucana.


Aí que se desenrolam as estórias paralelas. Enquanto Auxiliadora (Mariah Teixeira) é usada à força por seu avô para ganhar dinheiro com a venda de seu corpo de menina, um trio de prostitutas (Dira Paes, Hermila Guedes e Marcélia Cartaxo) servem os homens do local entre eles um jovem mimado (Caio Blat) e o lunático Everardo (Matheus Nachtergaele), além dos que trabalham no canavial.

Diante disso, os personagens surgem com uma ferocidade dramática que se acentua nas constantes cenas de sexo/estupro/orgia. Mas o grande problema é que esse tipo de situação satura o filme, pois elas se repetem até o fim. O filme todo se compõe de momentos em que as personagens são abusadas o que leva a um discurso praticamente vazio, embora a discussão sobre a exploração da figura feminina esteja lá. Acredito que os realizadores perderam uma ótima oportunidade de discutir o tema a fundo.

A iluminação do filme traz um tom escuro que acentua a perversidade e a sujeira de toda aquela situação. Mas uma coisa que me agradou bastante foi o comportamento da câmera. Composto de planos-sequência estáticos, a história se desenvolve como se fossemos meros observadores daquela situação enquanto nos é cuspido uma bruta realidade.

Baixio das Bestas é um retrato cru de uma situação que não parece ter solução, como indica a própria cena final, e seria muito complexo tentar chegar a uma solução. Seu maior mérito é mostrar o quanto o ser humano pode ser bestial ao revelar seu instinto mais animalesco. Em determinado momento do filme, um personagem reclama do cheiro fétido do lugar, e seu companheiro diz se tratar do cheiro do engenho, ao que o outro responde: “Que nada, isso aí é a podridão do mundo”.

3 comentários:

Kamila disse...

Rafael, parabéns pelo texto. Você resumiu bem o que eu senti assistindo "Baixio das Bestas". A tentativa de chocar demais com essas cenas de exposição do corpo nu jogam contra o filme. O melhor foi a discussão entre o que é moral e o imoral.

Ailton disse...

apesar do vazio deixado pelo filme, o conflito que o diretor (não)expõe é com o espectador, que - muitas vezes - conhece a realidade retratada mas é como o avô moralista do filme, em que seus atos contrapõe suas ideologias

Rafael Carvalho disse...

Senti muito isso, Kamila. Chocar pelo siples prazer de chocar. Algumas cenas não me parecem ter importância, mas elas estão lá como se somente para chamar atenção. Aí fica vazio, embora sejam filmadas com muita naturalidade. O filme conta com um time de atores de primeira linha.

E é como você falou Chu, a bronca dele é com o espectador. É em nós que ele quer mexer, fazer extrair alguma sensação, seja de repulsa ou indignação. Mas isso ele já fazia com poucos minutos de duração. No resto do filme, as situações só se repetem. Ao fim, dá aquela sensação de "só isso?".