sexta-feira, 23 de maio de 2008

Rebelde sem véu

Persépolis (Idem, França/EUA, 2007)
Dir: Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud


O cinema de animação está muito ligado ao entretenimento e costuma se aproximar muito do público infanto-juvenil. Mas existe um segmento desse cinema voltado para as produções adultas, que para tanto possuem uma complexidade maior em suas histórias. A Viagem de Chihiro, As Bicicletas de Belleville, Valsa com Bashir (atualmente apresentado em Cannes), O Túmulo dos Vaga-lumes são alguns exemplos (nenhum deles realizado nos Estados Unidos e todos feitos em 2D). A produção francesa Persépolis se junta ao time como uma obra extremamente fresca e cheia de criatividade para, através da história de um personagem, contar um pouco da história de um país: o Irã.
O filme é baseado na graphic novel autobiográfica da iraniana Marjane Satrapi e acompanha os anos de sua infância e juventude em meio às transformações políticas no Irã. Quando criança, ela viu surgir em seu país a Revolução Islâmica impondo leis severas e conservadoras à população, como a obrigatoriedade do uso do véu para as mulheres e a submissão delas aos homens da família. Quando a guerra entre Irã e Iraque se intensifica, Marjane terá de sair do país para viver e estudar em Viena, onde seu contato com o mundo ocidental aumenta ainda mais.

Apesar de todo esse viés político, o roteiro leve e despudorado nunca deixa o filme soar pesado; basta para isso o preto-e-branco da imagem. Interessante são as várias referências à cultura ocidental presentes principalmente no rock’n roll do qual Marjane é fã assumida (daí referências que vão desde os Bee Gees ao Iron Maiden, passando pela música punk).

O texto também não se rende ao puritanismo e passa uma sensação de despudor em vários momentos, por exemplo quando a avó dá a sua receita para deixar os seios durinhos, acentuando assim um certo atrevimento vindo daquelas personagens, principalmente das femininas, tão fortes e determinadas (vide o destemor que Marjane apresenta desde pequena).

Característico da animação, as imagens sempre encontram uma forma dinâmica de abordar certos assuntos, principalmente os mais pesados; e também para representar a condição emocional dos personagens.

No entanto, se o filme começa muito bem, ele quase se perde no final com uma trajetória cansativa ao focar os sucessivos desenlances amorosos da personagem principal. Escorregões à parte, Persépolis é um filme delicioso e desde já fortíssimo candidato a melhor animação do ano.

5 comentários:

Viníciuss P. disse...

Essa fase atual de animações tradicionais estrangeiras me agrada bastante, pois quase sempre tem a qualidade que não vemos em muitas produções americanas. "Persépolis" foi um dos mais bem sucedidos nesse sentido e como você mesmo disse, deve ser a grande animação do ano. Abraço!

Johnny Strangelove disse...

roubaram o Oscar do filme ... fato ...
Fico é com pena com um dos piores erros crassos da história da academia ... uma pena mesmo ...


e o filme ... impecavel na forma mais pura.

Hélio disse...

Em resposta ao johnny strangelove aí em cima, realmente acho o Persepolis uma graça, mas ele perdeu o Oscar para Ratatouille, que é muito mais brilhante.

O Persepolis eu acho "engraçadinho", esperto e criativo na parte tecnica, mas escorrega direto no discurso político fácil e clichê. Sou mais o rato!

Rafael Carvalho disse...

Vinícius, o que falta nas animações norte-americanas (e elas não deixam de fazer parte do cinema comercial de entretenimento) é um pouco mais de coragem e inovação, tanto nos temas a serem tratados quanto na própria estrutura da animação. Uma exceção a isso é O Homem Duplo ou mesmo Waking Life, do Richard Linklater. Podem não ser das melhores animações, mas com certeza são inovadoras e diferentes daquilo que costumamos ver.

Johnny, também acho que Persépolis merecia o Oscar mais que Ratatouille, mas nunca que a academia ia dar o prêmio a uma animação francesa, 2D e ainda por cima quase toda em preto-e-branco. Além disso, as aventuras do ratinho Remy fizeram bastante sucesso na terra do Tio Sam; era inevitável.

Hélio, por mais que eu goste de Ratatouille, ainda prefiro Persépolis pela inovação de trabalhar uma animação em 2D, com alto teor político, mas de forma leve e verdadeira. Complementando aquilo que eu falei aí acima para o Vinícius, gosto muito da qualidade das animações norte-americanas, mas elas vem se repetindo muito ultimamente e por mais que as histórias sejam interessantes (como é a de Ratatouille), não existem muita coisa nova nesse tipo de cinema. Sou mais a menina contra o véu.

mi do carmo. disse...

Eu amei os dois. Ratauille é inocente, despretensioso e fofo. Mas Persepolis acho de uma criatividade emocionante e forte, e apesar de concondar com Hélio do teor político clichê, acho que isso foi colocado de forma muito divertida e original. Indico pra todo mundo.
Senti uma empatia muito maior com Marjane...