sexta-feira, 13 de maio de 2011

Confrontando o luto

Reencontrando a Felicidade (Rabbit Hole, EUA, 2010)
Dir: John Cameron Mitchell


Se o título brasileiro “Reencontrando a Felicidade” parecia trazer a ideia (ou mesmo um spoiler!) de certa resolução para o drama que se apresenta no filme (no caso, o luto pela morte de um filho), as coisas parecem muito mais complexas do que possam soar. Esse gerúndio do reencontrando, indicativo da ação em andamento, acaba fazendo muito sentido, pois a busca por uma paz interior é tudo que aqueles protagonistas desejam, a despeito das várias pedras que surgem nesse percurso.

Além disso, a narrativa apresenta uma série de questões pertinentes e plausíveis que envolvem a situação dos personagens, acrescentando muitas camadas dramáticas ao filme, o que sempre complexifica as coisas, nunca buscando saídas fáceis e, principalmente, decisivas. Quando o filme começa, já se passaram oito meses desde que o filho de quatro anos de Becca (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Eckhart) foi atropelado acidentalmente na rua de casa. A dificuldade de retomar a vida continua presente.

Nesse sentido, acabam aflorando da trama questões como a dificuldade de Becca em participar da terapia de grupo com outros pais em situações semelhantes, e por sua vez, a proximidade entre Howie e outra integrante do grupo (vivida por uma ótima Sandra Oh), a notícia da gravidez da irmã de Becca, o fato da mãe delas também ter perdido um filho (mas em situação bastante diversa) e, a que me parece a mais interessante de todas, o encontro entre Becca e o garoto, menor de idade, que dirigia o carro gerando o acidente fatal.

Todas essas questões, coerentes e potentes nesse tipo de situação, são muito bem desenvolvidas pelo roteiro; não existe nada de tão diferente assim do que podíamos esperar, mas tudo é tratado com sensibilidade suficiente para se tornarem relevantes. Além disso, há um cuidado para que as informações nos sejam apresentadas de forma paulatina e, muitas vezes, surpreendentemente, apostando na maturidade e calma do espectador, e nunca forçadas pelo roteiro.

John Cameron Mitchell na direção me parecia uma escolha duvidosa, muito por conta da estranheza de um filme tão particular (para ficar num adjetivo ameno) como seu anterior Shortbus. Mas demonstra competência suficiente em dar a dimensão dolorosa tão inerente a essa história e dar forma a esse roteiro que exige uma sensibilidade visível. Passa muito bem no teste.

Assim como o ótimo elenco, encabeçado por uma Nicole Kidman que retorna das cinzas numa performance que exige muito de seu talento como atriz para dimensionar a dor e a sensatez de uma personagem em situação tão complicada. Mas há de se louvar também as atuações de Eckhart e Dianne Wiest (como a mãe); todos eles apresentam trabalhos de força dramática sempre nos tons ideais, levando em conta que todos possuem cenas fortes e contundentes durante o filme.

Enquanto o filme vai caminhando para um final mais doloroso ainda de rupturas entre os personagens, o que poderia soar como uma fragilidade, vemos que as coisas possuem muito mais nuances escondidas e que, apesar da situação, os personagens apresentam também sensatez. Mesmo Becca, que bem mais do Howie precisa sair do luto, entende que a felicidade é uma busca que precisa ser perseguida, imprescindivelmente, com a ajuda da família e amigos. Para isso, alguma coisa tem de mudar, mesmo que aos poucos, com a dor ainda se fazendo presente. Essa não parece ir embora nunca.

3 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Nunca imaginei o Mitchell contido, Rafael.
Um belo filme, com excelente atuação de Kidman.
Abração e apareça,

O Falcão Maltês

Gustavo disse...

Não assisti aos filmes anteriores de Mitchell, mas sei que o luto não é um tema fácil de trabalhar no cinema. Boas obras a respeito são AL IBERDADE É AZUL e BIRTH, então se esse filme nuançado seguir a tradição de qualidade, já estará de bom tamanho.

Rafael Carvalho disse...

Antonio, como eu só tinha visto o filme anterior dele, também me pareceu uma grande mudança para esse filme. E o resultado é mesmo muito bom.

Gustavo, claro que Reencontrando nem se compara ao Kieslowski (esse Birth não conheço), e mesmo que não traga algo necessariamente novo ao tema, a condução é ótima, com propriedade e sensibilidade.