domingo, 18 de abril de 2010

Sede demais ao pote

Sede de Sangue (Bakjwi, Coreia do Sul, 2009)
Dir: Park Chan-wook


A ótima fase pela qual passa o cinema sulcoreano é bastante coerente com a qualidade geral de seus filmes. Park Chan-wook foi o primeiro cineasta desse país que eu descobri e que me maravilhou com a obra-prima Oldboy. Uma pena que seu mais novo filme se atrapalhe tanto ao abraçar questionamentos religiosos, sexuais, éticos e estéticos.

Talvez a tentativa de integrar estilização e bizarrice fez com que o cineasta buscasse um tom mais ágil, que se confundiu com atropelo (algo perceptível também no longa anterior do cineasta, o ainda inédito no país I’m a Cyborg, But That’s Ok). O argumento, no entanto, é ótimo: padre recebe transfusão de sangue contaminado e se torna um vampiro; sangue humano é seu alimento e sem isso, ele morre.

O universo vampiresco é abraçado pelo filme em grande parte respeitando sua mitologia, mas interessa muito mais ao diretor falar de questões relacionadas ao comportamento de seu protagonista. As motivações iniciais do padre apontam para a caridade e a ajuda ao próximo. Quando o experimento como cobaia num projeto médico dá errado, o personagem precisa lidar com sua nova forma de vida e sobrevivência.

O que começou com a intenção de ajudar o outro, agora significa roubar do outro para sua própria sobrevivência. Mas agregado a isso, surge um interessante subtexto sexual. A satisfação dele por sangue acaba se tornando algo como um desejo reprimido pelo prazer carnal. O fato dele ser padre torna tudo mais controverso. Talvez essa seja uma das melhores sacadas do longa.

No entanto, falta em alguns momentos do filme certo tino para organizar todos os detalhes de uma história que avança numa profusão de situações bizarras e que nem sempre acrescentam algo à narrativa. Quando nos damos conta, detalhes já passaram e não voltam mais. Às vezes nem nos damos conta. Por mais que existam aqui e ali ótimos momentos, uma edição mais concisa faria muito bem ao filme.

Song Kang-ho equilibra bem o dilema do protagonista, mas a atriz Kim Ok-bin é o grande destaque, cuja personagem evolui da vítima em busca de prazer para a algoz vingativa, cheia de ódio contra o mundo, a partir de uma reviravolta que reforça bastante o grande cerne do filme: o que fazer quando sua sobrevivência depende da “destruição” do outro e como controlar um desejo interior?

8 comentários:

Leandro Afonso Guimarães disse...

Olhe, confesso que não li o texto, pelo simples fato de, invariavelmente (e muitas vezes sem a intenção), escrever sobre um filme de Park é cair em algum semi-spoiler.
Ainda assim, admito que adoro OLDBOY, acho o LADY VINGANÇA irregular demais e não consegui terminar de ver o CIBORGUE, etc - em parte porque estava cansado, em parte porque filme não bateu.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Ruim demais. Era meu filme mais aguardado do último Festival do Rio, e foi a grande decepção... até agora não entendi o que o Park quis fazer...

Alex Gonçalves disse...

Rafael, acho a premissa desse filme bem interessante, mas tenho receios em ver o filme por notar através de alguns comentários, a exemplo do seu, que há uma mistura não muito bem orquestrada de vários temas ou situações. Mas assistirei de qualquer forma, foi sou muito fraco para rejeitar um filme sobre vampirismo, rs.

Gustavo disse...

Diante disso, acho que vou escolher outra fita para me iniciar no cinema de Chan-wook.

Gustavo disse...

Pô, esse ator Kang-ho é o mesmo que trabalha com Bong Joon-ho, né? O cara é bom...

Fred Burle disse...

Não sei se é porque eu estava com sono quando vi Oldboy, mas não gostei muito daquele filme. Este aí ainda não estreou em Brasília, mas não tenho muita expectativa não...

cinematranscendental disse...

filme de premissa boa mas de resultado pífio.

Rafael Carvalho disse...

É Leandro, tento não escrever nenhum spoiler nos textos. E tenho as mesmas impressões que você sobre os outros filmes, embora eu tenha terminado de ver o Ciborgue, com a impressão final de "e dái?". Pena que esse Sede de Sangue seja tão fraco.

Wallace, diante do que o Park já fez (Oldboy, Sr. Vngança, Zona de Risco) esse filme é mesmo uma vergonha. Da seleção de Cannes, era um dos que eu mais tinha curiosidade. Eu consigo enxergar certo propósito no filme, só acho que ele nunca encontra o tom certo para se expressar.

Então Alex, muita gente tem falado mal (e com razão). Essa impressão de confusão é mesmo bastante forte no longa. Mas veja para tirar a prova.

Gustavo, quer começar com um filmaço do Park? Só digo isso: Oldboy!!! E o Song Kang-ho fez O Hospedeiro e Memórias de um Assassino, do Bong Joon-ho. Bom ator mesmo.

Nossa, sério, Fred? Pois eu acho Oldboy uma obra-prima, sem exageros. Mas enfim, uma pena que o Park tem perdido a mão ultimamente

Cinematranscendental, concordo. É uma bagunça, só.