quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

O caça-níqueis

O Caçador de Pipas (The Kite Runner, EUA, 2007)
Dir: Marc Forster


É sempre assim. Toda vez que um livro faz bastante sucesso, logo Hollywood se apressa para adaptar para a telona. Sei que esse tipo de comparação – livro/filme - é injusta, existem particularidades em cada linguagem, mas é aí que reside todo o problema: será que a adaptação é mesmo verdadeira (os responsáveis têm apreço pela história e acham que daria um bom filme) ou é só para pegar carona no sucesso da obra original (money, money, money!)? O Caçador de Pipas, infelizmente, me parece pertencer a esse segundo grupo. Infelizmente porque o livro é ótimo, singelo mas nunca cai no dramalhão (as páginas finais são excelentes).

No filme, temos a história do garoto afegão Amir, que possui uma forte amizade com o filho do empregado da casa de sua rica família, o fiel Hassan, e será responsável por um ato de “covardia” que vai abalar a amizade de ambos. Anos depois, refugiado nos EUA e com uma promissora carreira de escritor, surge uma oportunidade de Amir se redimir. A história revela mais reviravoltas do que isso, e seria estragar as surpresas se eu contasse mais.

Igualmente a O Amor nos Tempos do Cólera, outra adaptação de uma obra literária, o que mais senti falta em O Caçador de Pipas foi de um realizador com personalidade para adaptar o material. “Esquemático” é um adjetivo que se adequa aos dois filmes. Marc Forster até que faz bons filmes, mas são trabalhos bastante destoantes entre si e ele não conseguiu deixar uma marca ainda. Dessa forma, o filme cai no melodrama fácil, de forma fria e distante, soando maniqueísta às vezes. Não consegui me identificar com o drama dos personagens, embora seja algo forte.

Falado quase totalmente em árabe (algo que poucas vezes se respeita em Hollywood quando um filme se passa num país de outro idioma), O Caçador de Pipas pelo menos tenta recriar com fidelidade o Afeganistão ainda livre do terrível regime do taliban. A música de Alberto Iglesias (recentemente indicada ao Oscar) ajuda bastante nesse sentido. Uma pena que com uma história tão emocionalmente carregada nas mãos, Forster tenha se rendido ao dramalhão.

6 comentários:

Luciano Lima disse...

Poxa, Rafael. Tenho uma impressão completamente diferente da sua, quanto ao filme, sua reclamação quanto a caça-níqueis de adaptações foi muito boa.

Para mim o dramalhão de O Caçador de Pipas ficou nas páginas do Khaled Hosseini. A narração dramática dele dá um tom de melodrama numa história que por si já é carregada demais. O que Marc Foster fez foi passar para a tela apenas a emoção dos personagens de forma crua (abandonou até o uso de um narrador - o que foi ótimo), sem entregar de bandeja os sentimentos dos personagens.

Quanto aos trabalhos do diretor, sou muito fã do estilo versátil de direção dele. A marca de Foster para mim fica na aura fantasiosa que a maioria de seus trabalhos tem, até mesmo A Passagem é assim.

Enfim, para mim, o Caçador de Pipas é um filme muito bom (poderia ter mais uma meia hora...), longe de bombas como O Código DaVinci e O Amor nos Tempos do Cólera (que perdeu ainda mais crédito comigo depois de uma segunda conferida).

Até o/

Wallace Andrioli Guedes disse...

Bem, ainda não vi O Caçador de Pipas (e nem li o livro), mas estou vendo as opiniões na internet se dividirem drasticamente: uns amam e outros odeiam. Confesso que, quando um livro se torna moda igual esse se tornou, crio uma certa resistência a sua história, por isso, provavelmente irei ao filme com um certo preconceito. Mas ainda assim, quem sabe eu não gosto ? Acho o Marc Forster um bom diretor (e apenas isso), que tem uma obra-prima na carreira (A Última Ceia) e depois fez bons filmes e alguns nem tanto. Mas, de qualquer forma, pretendo assistir O Caçador de Pipas e espero que pelo menos não seja tão ruim quanto O Amor nos Tempos do Cólera.
Tem várias coisas novas lá no blog: um texto sobre o Heath Ledger, um sobre Sombras de Goya e dois sobre os filmes que vi em dezembro. Dá uma olhada lá ...
Abraço !

Vinícius P. disse...

Gostei do filme, mas não tanto quanto esperava - achei até decepcionante, para falar a verdade. Isso é lamentável, especialmente porque adoro os trabalhos do Marc Forster - só não concordo que seja um dramalhão, muito pelo contrário, acho que o diretor tem medo de ser piegas e acaba errando.

Rodrigo Fernandes disse...

caraca, primeiro comentário negatvo que leio sobre esse filme... estou ansioso para ve-lo nos cinemas, mas só tenho lido coisas ótimas sobre ele até o momento... li o livro e tbm concordo com o Luciano... o livro realmente têm um tom pesado, um dramalhão... mas que de nada é exagerado, aepnas no tom certo pelo tema tbm ser pesado... não vejo nada de errado no filme tbm ter seguido todo esse dramalhão dos personagens... o qeu de fato, o tema proporciona...

Rafael Carvalho disse...

Veja aí Luciano, como as opiniões são divergentes, hein. Continuo achando que o livro tem menos de dramalhão que o filme pela forma direta e nunca forçada com que foi escrito. A opção de não usar narrador foi bem-vinda, sim, mas faltou um pouco mais de personalidade na direção. E mesmo que eu tenha criticado um pouco os trabalhos do Forster, gosto de alguns de seus filmes, principalmente A Última Ceia e Mais Estranho que a Ficção. A Passagem achei um pouco fraquinho.

Wallace, também acho a carreira do Forster irregular, e o filme tem causado opiniões diversas mesmo. Depende da forma como cada um sente e recebe o filme, não? Pode deixar que dou uma passada lá no seu blog.

Vinícius, já eu achei um pouco piegas, sim. Mas olhando bem, não é tão exagerado assim. De qualquer forma, faltou personalidade na direção.

E Rodrigo, eu tenho visto comentários tanto positivos quanto negativos em relação ao filme. Vai de cada um analizar a obra. E o livro pra mim ainda continua dando de 10 a 0 no filme.

Abraço galera!!!!

Andros Renatus disse...

Acho que forster fez um bom trabalho justamente por ter feito um filme "esquemático". O livro é uma narrativa mais esquemática do que qualquer coisa... Neste caso, seja por personalidade, seja por livre e espontânea pressão da produtora, Forster trouxe para o filme o bom e o ruim do livro...