domingo, 4 de novembro de 2007

Elite da morte

Tropa de Elite (Idem, Brasil, 2007)
Dir: José Padilha


São pouquíssimos os filmes brasileiros que conseguem criar um retrato da violência das grandes cidades, principalmente aqueles gerado pelo tráfico de drogas, quanto o primeiro trabalho de longa metragem de ficção de José Padilha. Além de Cidade de Deus, um outro exemplo que vem à mente é o excelente documentário Ônibus 174 do mesmo diretor. Agora, de posse de um elenco afiado, um aparato técnico invejável e um ótimo roteiro (adaptado do livro Elite da Tropa escrito a seis mãos pelos integrantes do batalhão André Batista e o ex-capitão Rodrigo Pimentel juntamente com o antropólogo Luiz Eduardo Soares), Tropa de Elite é uma análise triste, realista e pesada a partir da visão de dentro do próprio BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais), facção da Polícia Militar responsável por ações mais pesadas e de alto risco, principalmente no quesito "subir o morro".

Já no documentário Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles e Kátia Lund lançado em 1999, o então capitão do BOPE Rodrigo Pimentel (um dos roteiristas do filme junto com Padilha e Bráulio Mantovani) faz um depoimento alarmante dizendo estar cansado de tanta violência e de nunca a situação se resolver ou minimizar: "Eu estou participando de uma guerra, acontece que eu tô voltando pra casa todo dia" (Veja aqui). Afirma ainda não ver uma solução para aquilo (Aqui).

Assim, acompanhamos a história do Capitão Nascimento (Wagner Moura) que, ao mesmo tempo em que é obrigado a participar de uma operação da qual não acredita no sucesso, procura um substituto para deixar o batalhão, pressionado por sua mulher grávida e pelos problemas de saúde pelos quais está passando. Dois dos possíveis substitutos, Neto (Caio Junqueira) e Matias (André Ramiro) tentam passar pelo rigoroso e duro treinamento, mas a sua honestidade e senso de justiça passam por uma incompatibilidade dentro do sistema policial.

Cada um ali precisa preservar e aceitar as normas de conduta ilícitas como algo normal, até porque possuem um superior que conta com a cooperação de todos para que nada saia do "controle". O meio condiciona as ações das pessoas que se vêem cercados por um sistema corrompido e nem se dão conta do momento em que começam a comungar integralmente com aquilo (assim como acontece muitas vezes na política). Ou entra na roda ou sai da brincadeira.

Se a corrupção dentro da própria polícia é um dos motivos apontados como geradores dessa situação alarmante (já no início presenciamos PMs passando armas pesadas aos traficantes), o filme não poupa críticas à própria classe média, sendo uma das grandes financiadoras do tráfico de drogas e por conseqüência da violência da qual ela mesma é vítima, criando assim um círculo vicioso que parece nunca ter fim. Essa situação gera uma das melhores cenas do filme: quando um traficante é morto pelos policiais do BOPE, pergunta-se para um dos consumidores pegos em flagrante quem era o responsável pela morte, e este responde "vocês" (o BOPE). Ao que o Cap. Nascimento, apontando uma arma para sua cabeça, o desmente e o responsabiliza pelo ocorrido.

Intensamente atuado, o filme conta com um time de atores que se entregam totalmente aos seus personagens, inclusive fisicamente. Wagner Moura se destaca pela força e onipotência que confere a seu personagem, em contraponto aos momentos de reservada fragilidade. Tecnicamente, o filme também possui grandes méritos. A câmera na mão transmite intranqüilidade e tensão o tempo todo, auxiliando no mal estar de presenciarmos situações tão desagradáveis. A fotografia ganha cores quentes e fortes sempre que as ações acontecem dentro da favela e a trilha ao mesmo tempo em que ambienta o espectador, confere força e agressividade às situações.

Só não me perguntem cadê a solução, essa está cada vez mais difícil de se encontrar. As instituições que deveriam nos proteger também são aquelas das quais precisamos nos defender. Osso duro de roer mesmo.

PS: Hoje, dia 5 de novembro, é comemorado o Dia do Cinema Brasileiro. Nada melhor do que festejar essa data felicitando um dos melhores filmes nacionais do ano. Inclusive, que ano bom para o nosso cinema. Tivemos ainda O Cheiro do Ralo, Saneamento Básico, Antônia, Batismo de Sangue, Cão Sem Dono e tantos outros. Que continuemos assim.

10 comentários:

Wiliam Domingos disse...

Legal o levantamento q tu fez..não ficou só na técnica do filme, considerou o sentido e o colocou na situação que realmente existe, não que Tropa de Elite seja a ficção nessa história! Pelo contrário...é o caminho mais claro da verdade, da vergonha realidade!
Um dos melhores filmes do ano...mto bom!
aBraço!

Andressa Cangussú disse...

Oi rafa!!!
O senhor é um fanfarrão seu rafa!
Fez um texto muito bom!!!
Adorei a relação entre os filmes que nos tranmitem esse recorte da realidade e, mais do que onibus 174, tropa de elipe me remeteu diretamente a Notícias de uma guerra...e o mais chocante disso é que o tempo passa, os filmes vão ficando antigos, mas nunca ultrapassados já que a realidade não muda.

Abraços!

Cassia disse...

Olá Rafa!!
Até que enfim eu aqui!
Muito bom o texto, viu (tbm ficou lendo Ruy Castro... rsrsr.
Muito bom considerar mais do que a técnica ou a linguagem do filme, mas entendê-lo por sua "pegada sociológica". Pena o tema abordado com maestria por Padilha não ser uma mera ficção...
Grande Rafa!!

Wanderley Teixeira disse...

Eu gostei de Tropa de Elite, mas tenho cá minhas predileções no cinema nacional, ainda q pelo modismo de Tropa de Elite(q tenho profundo respeito) ele seje mais comentado do q outros q admiro mais.Não acho o Padilha tão diretor quanto o Meirelles ou o Walter Salles, principalmente este último de quem sou fã.Abril despedaçado e Central do Brasil são meus preferidos.

Kamila disse...

O ano tem sido bom para o cinema brasileiro. Temos tido lançamentos bem interessantes. Até agora, o melhor de todos é "Tropa de Elite". Um filme tecnicamente perfeito, com ótimas atuações e com um roteiro que toca nos maiores problemas de nossa sociedade: a corrupção e a violência.

Filmes como "Tropa de Elite", que refletem e fazem refletir, deveriam ser maioria em nosso cinema.

Johnny Strangelove disse...

Diz rapaz
tudo tranquilo ...
vendo Tropa de Elite muito antes do furor funcionou como um belo exemplar de filme de ação e drama. mas com a sociedade sempre questionando sobre a questão ética dos orgãos publicos, o filme se tornou objeto de estudo de sociologicos e de estudantes de direito sobre como podemos melhorar a sociedade ...

mas antes deveriam ver Visitor Q para aprender uma coisa ... questione a si mesmo para questionar os outros ...

e sim ... 5 de novembro ... o dia do cinema brasileiro ... deveria ser todo dia com preços acessiveis e filme bons (quando digo filme bom não é essas merdas da globo filmes faz) e se tivesse isso ... poderemos ter a certeza ... o cinema nacional vai pra frente.

José disse...

pronto, comentei.

Rafael Carvalho disse...

Obrigado Andressa, Wiliam e Cássia pelo elogio ao texto, é quase impossível falar de Tropa de Elite e não consideerar toda a discussão que o filme sucita.

E Wanderley, se Tropa de Elite é um dos melhores filmes brasileiros do ano isso não quer dizer que o Padilha pode ser comparado com o Meirelles e principalmente o Walter Salles que é o diretor brasileiro que eu mais adimiro.

Bem colocado Kamila, filmes que fazem refletir não são tão comuns no nosso cinema. Mas este tem crescido muito, e o ano foi bastante proveitoso nesse ponto.

Tranquilo Johnny, não vi ainda Visitor Q mas questionar a sociedade não seria questionarmos a nós mesmo, já que a compomos? E temos muitos filmes bons, falta espaço para eles.

Volte sempre que quiser Cassinha. E de qualquer forma, obrigado pela presença seu Zé. Abraço a todos!!

Gustavo H.R. disse...

Sua resenha ecoa meus pensamentos sobre o filme.
Padilha soube direcionar seu olhar para as diversas mazelas que enfraquecem o sistema, não se esquecendo inclusive de apontar o dedo para a própria sociedade. É uma obra forte, mas nunca gratuitamente agressiva. Entretém e toca aspectos sensíveis de nossa sociedade.

Ailton disse...

muito bom o texto
demorei pra assistir ao filme, pensei q me decepcionaria, mas não... é um bom filme
a câmera na mão foi uma ótima sacada
e nos poupar de algumas imagens também... grande abraço rafa