terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Voltando com os Curtinhas

Depois do Casamento (Efter Brylluppet, Dinamarca/Suécia, 2006)
Dir: Susanne Bier


O que seria uma viagem de negócios, torna-se para Joacob (Mads Mikkelsen) um confronto com assuntos do passado, marcado por uma grande descoberta e a necessidade de encarar uma situação que mudará os rumos de sua vida. Depois do Casamento começa como uma interessante crítica social sobre esse homem dinamarquês que mantém um orfanato na Índia. Mas vai ganhando proporções devastadoras a partir do momento em que ele volta ao seu país de origem a fim de conseguir recursos para sua causa social junto ao arrogante dono de uma grande empresa; ele acaba reencontrando sua ex-mulher casada com o tal proprietário. Encanta no filme o fato de Susanne Bier filmar todos os personagens com muito carinho, todos bem desenvolvidos pelo roteiro; não existe o vilão e o mocinho, à revelia do que se configura no início. A câmera se aproxima de cada detalhe do corpo daquelas pessoas (olhos em potencial) à procura de sensações à flor da pele. Uma narrativa ágil dá conta de desenvolver muitas reviravoltas e boas surpresas, ao passo que todos os personagens passam por mudanças drásticas em suas vidas.


Estamos Bem Mesmo Sem Você (Anche Libero Va Biene, Itália, 2006)
Dir: Kim Rossi Stuat


Essa produção italiana começa de forma bem sucinta, nos apresentando a uma família de pai e um casal de filhos. A mãe dos garotos está ausente há vários anos e parece ter abandonado a família sem maiores explicações. Mesmo assim eles vivem bem, apesar dos apertos financeiros do pai e de sua correria para criar sozinho os dois filhos. Tommi (o ótimo ator mirim Alessandro Morace), o filho mais novo, é o personagem central do filme e sob seu olhar se desenrola a história, embalada por uma banda sonora melancólica. Tudo parece bem calmo até o momento em que a mãe dos garotos aparece para voltar à família. Nesse momento, inesperadamente, o filme avança para um turbilhão emocional explosivo, tal a resistência do pai em aceitar a mulher de volta. Tommi não se mostra muito confortável com a situação pois sabe que a volta da mãe pode não durar muito, como ela já fez antes. Enquanto isso, o garoto vai vivendo sua juventude com a descoberta de novas amizades, a aproximação com garotas da escola e o campeonato de natação. O mais interessante disso tudo é perceber o quanto a instável presença da mãe mexe com o emocional de cada um dos três. Ainda assim ainda há uma disposição em seguir em frente (e Tommi parece ser o mais consciente dessa necessidade), tendo na união familiar sua força motriz. Apesar de tudo, eles estão indo bem.


[Rec] (Idem, Espanha, 2007)
Dir: Jaume Balagueró e Paco Plaza


Todo filmado em câmera subjetiva, [Rec] é o típico filme “experiência”. Quando a sensação de suspense toma conta do espectador, ela permanece conosco até o fim. O filme é apresentado como a gravação de um programa de TV (bem sensacionalista, diga-se de passagem) que vai passar uma noite no quartel dos bombeiros e os acompanhará em algum caso que aparecer na noite. Mal sabem eles que o primeiro chamado a um prédio levará a uma senhora descontrolada, toda coberta de sangue, que ataca um dos policiais. Quando tentam fugir, percebem que o prédio está interditado pela polícia e ninguém pode sair do local. Sem saber muita coisa (e nós também), outros ataques vão surgindo e ao que tudo indica algo está infectando as pessoas, as transformando em monstros assassinos. O filme possui bastantes semelhanças com o recente Cloverfield, principalmente na utilização da câmera (todos crias de A Bruxa de Blair), embora essa produção espanhola tenha sido rodada anteriormente. Incrível como o filme consegue transmitir tanta veracidade nos ataques e possui uma noção de espaço perfeita, se aproveitando de todos os ambientes do local. O descontrole da câmera, a sensação de medo diante do desconhecido, a intensidade dos ataques, acompanhados pelos vários sustos, criam um filme angustiante e aterrador. Tudo isso minimiza o clichê dos recortes de jornal ao fim do filme que tenta explicar a situação e alguns momentos forçados em que os personagens conseguem fugir dos infectados. Mesmo assim, acho que eu nunca saí do cinema tão espantado.


Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada (Dan in Real Life, EUA, 2007)
Dir: Peter Hedges


Comédias românticas com um título desses não prometem muita coisa. Mas antes de ver o nome do filme, eu me detive no elenco, mais precisamente no nome de Juliette Binoche, que me parecia o atestado de qualidade para o longa. Mas havia também a presença de Steve Carell que nunca me desanimou em um filme do gênero. Fui ver sem medo. Não me arrependi nem um pouco. A história pode ser batida: homem de meia idade, viúvo e pai de três filhas, se apaixona pela namorada do irmão, sem saber desse detalhe. Com a família toda passando um final de semana juntos, ele vai tentar lutar contra esse sentimento. O filme funciona bem como comédia (a cena da aula de dança é hilária, principalmente pela gag corporal de Carell), tendo na relação amorosa entre os membros daquela família um dos pontos mais legais. Mas o filme também surge como um drama que não precisa exagerar na intensidade, dando conta de um personagem melancólico pela vida insossa de pai solteiro; a relação conflituosa dele com as filhas - mais por sua culpa - também cativa e nunca soa artificial. O grande destaque aqui é a presença de Carell que faz muito por seu personagem numa atuação nunca acima do tom de chacota nem de melancolia. Na verdade, é a presença dele o atestado de qualidade do filme.


Queime Depois de Ler (Burn After Reading, EUA/Inglaterra/França, 2008)
Dir: Joel e Ehan Coen


Depois do denso e pesado Onde os Fracos Não Têm Vez, os irmãos Coen voltam à comédia de humor negro, gênero que os marcou. Queime Depois de Ler nada mais é do que uma paródia sobre os filmes de espionagem coroado pelo texto ácido dos diretores-roteiristas. Um CD contendo informações secretas da CIA vai parar nas mãos de Linda (Frances McDormand) e Chad (Brad Pitt), instrutores de uma academia de ginástica, que passam a chantagear o dono do material confidencial, Osbourne Cox (John Malkovich). Para complicar, entra na história Harry (George Clooney), o amante de Katie Cox (Tilda Swinton), que é esposa de Osbourne. São esses personagens que farão parte dos desencontros da narrativa, num roteiro intricado que não parece ter um protagonista definido. As atitudes idiotas de seus personagens não são por acaso, pois é o típico personagem dos Coen, em última análise uma representação do povo norte-americano. E são eles que conferem as situações mais engraçadas (a cena da cadeira é de rachar de rir), tendo em Chad a construção mais hilária, afetado e atabalhoadamente irresponsável, assim como o inseguro e bon vivant Harry de George Clooney. Mesmo assim, é preciso destacar todo o elenco que funciona tão bem em conjunto como solo. Porém, por mais que o texto possua fluidez narrativa e tiradas bastante originais, ainda me ficou a sensação de rapidez em terminar logo o filme. Falta também um tratamento respeitoso a seus personagens, por mais idiotas que sejam (não gosto da forma como se lida com o destino de Chad). De qualquer forma, os Coen mais uma vez surpreendem, sem cair na obviedade. E é preciso apreciar muito isso no cinema atual.


007 - Quantum of Solace (Idem, EUA, 2008)
Dir: Marc Forster


Quantum of Solace perde e muito em relação ao filme anterior da série: não tem um pingo do charme narrativo e das situações inteligentes de Cassino Royale. A continuação não parece fazer sentido pois tudo soa forçado e pretexto para mais explosões e correrias. A própria aposta em cenas de ação em maior quantidade é frustrada pela forma como elas são filmadas. São frenéticas e suntuosas, mas isso que poderia ser uma qualidade se transforma em defeito porque uma edição relâmpago faz com que o espectador, em muitos momentos, não consiga identificar como essas cenas se desenrolam (algo que não acontecia no filme anterior). Sem contar com alguns furos de roteiro aqui ou ali. Sei que muita gente pode dizer que não é esse o tipo de coisa a se esperar num filme de ação, mas chega um ponto em que esses defeitos tornam o público em espectadores que se contentam com qualquer cena, contanto que existam explosões e tiros. Existe uma tentativa de encaixar um subtexto sobre a necessidade de Bond em ser menos egocêntrico, e pôr menos pessoas em risco, mas soa somente como pretexto pois o filme não leva isso muito a sério. Por incrível que pareça num filme como esse, o que salva é um elenco afiadíssimo. Daniel Craig entende muito bem o que é ser um agente 00; Judi Dench e sua personagem são cortantes como uma navalha; Mathieu Amalric, como o vilão da vez, surge com uma expressividade na medida certa (algo já esperado); e a nova bongirl Olga Kurylenko não faz feio, embora sua personagem seja muito clichê. Mas pelo menos, o filme fecha com uma ótima seqüência, numa cena que relembra a entrada triunfal do velho James Bond.

7 comentários:

Vinícius P. disse...

Sem dúvida "Depois do Casamento" é um grande filme, mas acho que minha preferência aqui vai para "Queime Depois de Ler", um filme bem melhor do que "Onde os Fracos Não Têm Vez" na minha opinião. E quero muito ver "Dan in Real Life", do qual todos estão falando super bem! Um ótimo Natal!

Vulgo Dudu disse...

Cara, acabei de baixar Dan in real life - muito bem recomendado por uma grande amiga. Depois volto aqui para batermos impressões!

No mais, um 2009 incrível para você!

Abs!

Alex Gonçalves disse...

Rafael, li os resumos dos filmes que já conferi ("Queime Depois de Ler", "Eu, Meu Irmão e a Nossa Namorada" e "[REC]") e as minhas impressões conferem com as suas em alguns aspectos, como a pouca importância que os Coen parecem apresentar por seus personagens em "Queime Depois de Ler", a interpretação de Steve Carrell em "Eu, Meu Irmão e a Nossa Namorada" ou mesmo todo o espanto que "[REC]" é capaz de nos causar. Só acho que este terceiro merecia uma avaliação melhor, assim como não acho todos aqueles recordes e gravações que nos revelam o grande mistério do horror espanhol um clichê. Muito pelo contrário, fiquei desesperado pela cena. A de se destacar também o impressionante desempenho de Manuela Velasco.

Abraços, excelente natal!

Gustavo H.R. disse...

Que vontade de conferir DEPOIS DO CASAMENTO; Mikkelsen, inclusive, causou boa impressão em CASSINO ROYALE e deve ser bom vê-lo em seu hábitat natural.
Já quanto ao filem dos Coen, o bom mesmo é ver Malkovich em ação. Hilário.

Cumps.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Acho Queime Depois de Ler uma pequena pérola, que não chega ao brilhatismo de um Onde os Fracos Não Têm Vez, mas que é mais uma prova do talento único dos Coen. Quanto ao destino do Chad, acho uma pena mesmo, pq ele é o melhor personagem do filme, mas a maneira como a coisa acontece é um dos melhores momentos de Queime Depois de Ler. E gosto do final, com os comentários dos analistas da CIA, que sintetizam bem o espírito do filme.
Gosto de Quantum of Solace, mas é inegável sua inferioridade em comparação ao excelente Cassino Royale. Mas gosto desse Bond brutal.
De resto, quero assistir Dan in Real Life e REC.
Abraço !

Will disse...

Fala Rafael, tudo bom?

Resolvi aparecer! rsrs
Agora acabou meus vestibulares, voltarei atualizar no Eco Social (inclusive já atualizei hoje)!
Bom, desses eu quero assitir muito a Rec e Queime depois de ler. Esse ano não vi muitos filmes, falta de tempo mesmo, estudos e tal. Tem uma imensidão de coisas pra ver.
Gostei do post, cheio de comentários bacanas sobre filmes diferentes!
Abraço

Rafael Carvalho disse...

Nossa Vinícius, você sabe que pra mim Onde os FRacos Não Têm Vez é a obra-prima do ano, mas gosto também de Queime Depois de Ler. Sobre o Depois do casamento, fiquei fã da Susanne Bier depois desse único filme dela que eu vi.

Então Dudu, me diga o que achou do filme com o Steve Carrel, acredito que você vai gostar muito.


Então Alex, sobre Rec ainda não consigo ver um filme de suspense tão excepcional, mas confere ótimos momentos. E nem acho a atuação da Veslaco tão boa assim. De qualquer forma, bom ue voc~e gostou do filme.

Gustavo, não só o Mikelsen está ótimo no filme, como todo o elenco. Confira assim que puder. Já do filme dos Coen, meus preferidos são Brad Pitt e um impagável George Clooney.

Realmente Wallace, depois de uma obra-prima, os Coen não precisam fazer um filme na mesma proporção, mas somente o talento para escrever bons roteiros já é bastante válido. Fiquei muito decepcionado com esse novo 007. E veja esses dois filmes que você quer, são boas pdidas.

Grande Will, bom ter você de volta cara, comentando nos blogs. Depois passo lá no seu espaço.

Abração galera!!