sexta-feira, 16 de maio de 2008

Mais Curtinhas

Casa Vazia (Bin-jip, Coréia da Sul/Japão, 2004)
Dir: Kim Ki-duk


Muito se fala do diretor sul-coreano Kim Ki-duk (bem e mal) e tinha muita curiosidade de conhecer seu trabalho. Casa Vazia pode não ser um grande filme mas é uma experiência cinematográfica incrível, quase surreal, sem parecer fantástica. Um jovem tem como principal atividade invadir casas na ausência de seus moradores, mas nunca leva nada. Em uma dessas aventuras, ele se surpreenderá com a presença de uma mulher a qual passa a acompanhá-lo. Na realidade, o vazio me parece estar dentro desses personagens; são pessoas que, não tendo para onde ir (ela, fugindo de uma vida sofrida ao lado do marido violento), buscam refúgio em si mesmos, mas quando se descobrem passam a buscá-lo um no outro. O filme preza por uma linguagem a menos verbal possível, confiando na sugestão e na força da imagem, tornando a obra muitas vezes algo simbólico. Já perto do fim, a narrativa cai um pouco e o desfecho pode desagradar a muitos, mas é a forma encontrada para solucionar os problemas daqueles personagens, mesmo que isso pareça implausível. Mas o que interessa em Kim Ki-duk não é se aquilo pode ser verdadeiro ou não, se é crível, mas sim o que ele quer dizer com tudo isso. Com certeza, você nunca viu algo parecido.


Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera (Bom Yeorum Gaeul Gyeoul Geurigo Bom, Coréia do Sul, 2003)
Dir: Kim Ki-duk


É incrível como um filme que à primeira vista não prometa nada ao espectador vai se transformando numa bela parábola sobre a vida e suas fases, seus conflitos e principalmente sobre a busca de uma paz interior de espírito. O que no início possui ares de liçãozinha de moral se torna um belo retrato das fraquezas humanas e a possibilidade de vencê-las. Toda a ação se passa num pequeno monastério, no meio de um lago, onde vivem um velho monge e uma criança. Assim como passam as estações do ano, a vida de ambos segue calmamente, mas vão se deparar com situações diversas nesse percurso; e nunca serão a mesma. O filme (mais uma vez em sua filmografia) é pontuado de silêncios, e o diretor sempre encontra uma maneira de, através da força da imagem, transmitir alguma sensação. A locação é também um prato cheio para que o diretor crie imagens belíssimas, ajudado por uma fotografia naturalista, mas intensa. O cineasta sul coreano Kim Ki-duk vem se tornando uma surpresa para mim, principalmente porque existem várias pessoas que torcem o nariz para o seu cinema. Mas a mim ele tem conquistado.


Cada um com Seu Cinema (Chacun Son Cinemá, França, 2007)
Dir: Raymond Depardon*, Takeshi Kitano**, Théo Angelopoulos***, Andrei Konchalovsky*, Nanni Moretti**½, Hou Hsiao-hsien*½, Jean-Pierre e Luc Dardenne****, Alejandro González Iñárritu****, Zhang Yimou**, Amos Gitai*, Jane Champion*, Atom Egoyan*, Aki Kaurismäki*, Olivier Assayas***½, Youssef Chahine½, Tsai Ming Liang*, Lars Von Trier **, Raoul Ruiz*, Claude Lelouch***, Gus Van Sant*, Roman Polanski***½, Michael Cimino*, David Cronenberg**½, Wong Kar Wai*, Abbas Kiarostami**, Billie August***, Elia Suleiman**, Manoel de Oliveira*, Walter Salles ***, Win Wenders **½, Chen Kaige***, Ken Loach **½


O que mais impressiona nesse projeto é quantidade de diretores de peso que assumiram o controle dos curtas, mas o baixo nível da maioria dos trabalhos. De fato, esperava muito mais de vários deles. Se os Dardennes e Iñárritu se sobressaem com uma sensibilidade ímpar, há algumas belas decepções vindas de Gus Van Sant, Lars Von Trier e Wong Kar Wai. Ficam no meio termo o belissimamente fotografado curta de Chen Kaige, o triângulo amoroso de Olivier Assayas e a hilária piada de Roman Polanski. Walter Salles põe Castanha e Caju cantando embolada e interfere pouquíssimo, alcançando resultado interessante. O filme foi encomendado pelo presidente do Festival de Cannes por conta dos 60 anos de comemoração da premiação ano passado. Parece que faltou mais emoção e ousadia. Com certeza, talento não era o problema.


Os Donos da Noite (We Own the Night, EUA, 2007)
Dir: James Gray


Não entendi o porquê desse filme ter feito tanto sucesso por aí. Muitos apontaram como um dos melhores do ano passado, esteve na seleção oficial do Festival de Cannes de 2007 e parecia ter aura de cult movie. Mas achei a história frouxa, sem grandes atrativos e novidades além de fracamente atuado, salvo o excelente trabalho de Joaquim Phoenix. Na trama, o confronto entre dois irmãos: o policial Joseph (Mark Whalberg) e Bobby (Joaquin Phoenix), esse último que administra uma boate ponto de distribuição de drogas. Os negócios de Joseph passam a ser o alvo principal de uma investigação liderada justamente por seu irmão, criando assim um conflito entre os personagens, incluindo ainda o pai de ambos (vivido por um apagado Robet Duvall). O aspecto positivo da obra reside na aposta maior do drama entre os personagens do que propriamente na ação. O atentado contra um dos irmãos é um dos melhores momentos, assim como a cena final. Enfim, narrativa falha que deixou muito a desejar principalmente por aquilo que prometia.

8 comentários:

Rodrigo Fernandes disse...

Ae, Rafael! curto esses curtinhas que vc faz, pois atualizo minha lista de filmes para assistir..rs
fiquei interessado com a sinopse do casa vazia, o coimplicado é encontrar com facilidade tais filmes... dito isso é tbm o mesmo que acontece com o "Primavera, Verão, Outono..."
fiquei curioso desde que foi lançado para assistir esse "Cada um com Seu Cinema", a proposta foi mutio interessante e mesmo que não tenha gerado grandes audacias por parte dos nomes fortes, já deve ser uma boa aula de cinema...
eu não vi ainda esse "Os Donos da Noite" por preguiça mesmo.. tomra que encontre força para assisti-lo...rs
abraços!!!

Vinícius P. disse...

Também não gostei tanto de "Os Donos da Noite", achei bem fraco até - tirando a boa atuação do Joaquin Phoenix. Quero muito ver o "Cada um com Seu Cinema", apesar de dizerem que o segmento do Gus Van Sant é um dos piores - e como adoro o diretor... Abraço!

Hélio disse...

Poxa, Rafael, que pena que nao gostou de Os Donos da Noite. Eu ia até escrever sobre ele e Superbad, dois dos melhores filmes do ano passado e que infelizmente sao subestimados, mas nao to tendo muito tempo.

Escrever... pois é, resolvi entrar nessa de blog, mas ta dificil. Ate que rascunhei algumas coisas, inclusive sobre o Medo da Verdade, que voce comentou no post anterior. Nao tenho divulgado pra ninguem (ate pq raramente tenho ido la), mas se quiser dar uma espiada: http://cinefiliapontocom.blogspot.com/

Quanto ao Cada um com Seu Cinema, eu gostei da maioria dos curtas. Acho que esse tipo de proposta deveria ser realizada mais vezes. Os resultados sao sempre interessantes.

Abração!

Kamila disse...

Rafael, dos filmes resenhados, só assisti "Os Donos da Noite" e achei um trabalho fenomenal. Me lembrou os filmes policiais produzidos nos anos 70. O Joaquin Phoenix, realmente, está sensacional!

Bom final de semana!

Johnny Strangelove disse...

Kim Ki-duk pra mim já é mestre ...
mas reveja Casa Vazia ... muitas vezes uma revista com olhar a mais pode revelar surpresas ...

Primavera(...) foi um baque para mim ... fiquei dias pensando e pensando ... principalmente na sequencia do menino e da pedra ... me arrepio todo ... eheheheh


e Os Donos da Noite é cool ...
até bro!

Rafael Carvalho disse...

Rodrigo, que bom que você gosta dos curtinhas. Às vezes são muitos filmes vistos e não dá pra fazer textos longos sobre todos eles. Mas por outro lado, não queria deixar de dar uma palavrinha sobre algumas obras. E encontrar os filmes do Kim Ki-duk é um tanto complicado meesmo, mas quem sabe procurando numa vídeo locadora bacana você não acha? E mesmo que eu não tenha gostado de Os Donos da Noite, é um filme que dividiu demais a galera, corre um grande risco de você gostar.

Vinícius, passei a gostar do cinema do Gus Van Sant há pouco tempo, mas com certeza esse segmento dele para o projeto é muito aquém de seu talento. E pelo menos alguém concorda comigo quanto às deficiências de Os Donos da Noite.

Hélio, gostei muito de saber que resolveu criar um blog para comentar filmes e séries. Mas um para a lista de endereços obrigatórios. Seja bem-vindo à blogosfera. Esperarei para ler o texto sobre Os Donos da Noite, embora ache que esteja longe de ser um dos melhores do ano passado. Superbad ainda não vi. Sobre os filmes episódicos, parece que estão virando mania atualmente, mas nem sempre os resultados são animadores. Como deu pra perceber, a maioria dos curtas de Cada um Com Seu Cinema me desanimou muito, apesar de gostar de muitos diretores ali. Cada um com seu cinema, não?

É Kamila, dá para perceber que Os Donos da Noite tem aquele ar de década de 70, com grande influência do cinema noir. Mas o que me incomoda é mesmo o enredo mal contado e mal conduzido. Vendo de perto, tudo é solto demais.

Johnny, confesso que quando comecei a ver os filmes do Kim achava que não ia gostar dele, como muita gente. Mas o cara me pegou de jeito, realmente um grande realizador de nosso tempo.

E pelo visto, esse tal de Os Donos da Noite dividiu as opiniões mesmo.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Desses só vi Os Donos da Noite e tenho que discordar de vc: é um filmaço, onde não só o Phoenix, como também Mark Wahlberg, Robert Duvall e até Eva Mendes estão muito bem ! É um drama que consegue tornar uma trama batida em uma história complexa, e cheia de grandes cenas (especialmente a da perseguição na chuva). Para mim é um dos melhores do ano passado, além de ser muito melhor do que o filme anterior do James Gray, o fraquinho Caminho sem Volta.

Demas disse...

Gosto muito de "Casa vazia" e "Primavera, verão...". Aliás, sou fã do cinema de Ki-duk.
Abração