quinta-feira, 17 de março de 2011

Diário de bordo

Bruna Surfistinha (Idem, Brasil, 2011)
Dir: Marcus Baldini


O fato de Bruna Surfistinha ser um filme melhor do que se podia esperar dele já é uma grande vantagem se considerarmos algumas irregularidades no projeto. Mas o trio de roteiristas que se debruçou sobre o livro autobiográfico O Doce Veneno do Escorpião, escrito pela ex-prostituta Raquel Pacheco, transformou o material num filme bastante correto e nada vulgar, o que parecia ser o maior receio em torno do projeto.

Pois o longa retrata com muita sinceridade os rumos tomados pela menina (ela saiu de casa aos 17 anos de idade) de classe média paulista na vida de prostituta. Ela conheceu o sucesso quando passou a relatar em seu blog os detalhes dos programas que fazia. Ao mesmo tempo que ganhou fama e dinheiro, se afundou nas drogas.

Apesar de um final um tanto abrupto e um começo um tanto desnorteado (nunca sabemos, de fato, qual o real motivo dela ter saído de casa e porque seu relacionamento com a família era tão frio), o filme dá consistência a essa personagem que queria ser alguém na vida e conseguiu vendendo o corpo.

Mas ao tomar partido da personagem, como não podia ser diferente, o filme não apresenta nenhum tipo de julgamento para seus atos, mesmo quando ela começa a se afundar em seu próprio sucesso, e essa é a melhor qualidade do longa. Da espelunca em que trabalhava, onde tinha que atender todo tipo de homem, até o serviço de luxo que criou em sua própria casa, passamos a torcer pelo sucesso de Bruna.

Nesse mesmo sentido, as cenas de sexo são todas muito boas, realistas na medida do possível (nada explícito), mas também nada tão vergonhoso que pareça mal realizado. Nesse ponto, Deborah Secco merece elogios por sua corajosa entrega à personagem, embora no geral sua atuação seja apenas mediana.

Mas, ao menos, existe um esforço visível dela para apresentar uma atuação decente, o que chega a acontecer algumas vezes, como numa das melhores cenas do filme em que Bruna faz o seu primeiro programa. Em meio à dor e ainda despreparada naquele ofício, a atriz encara a câmera numa atitude imponente e resistente. Acaba se tornando uma cena chave no filme pois é naquele momento em que a personagem sente na pele os sacrifícios que aquela ocupação exige, mas ao mesmo tempo busca força de vontade para se decidir que é aquilo mesmo que quer fazer a partir de então.

E vale lembrar a aparição cheia de vigor de Drica Morais, como a cafetina de Bruna, e também de Cássio Gabus Mendes, o cliente que se apaixona por ela, personagem que acaba revelando um tipo clássico de homens carentes que procuram carinho nas prostitutas.

Se nos quesitos técnicos poucas coisas se destacam (talvez um trabalho de figurino interessante), chama atenção a trilha sonora que tem na música They Don’t Make Mistakes, da dupla Tejo Damasceno e Andre Lucarelli, um chicletinho bom.

Assim, Bruna Surfistinha é um relato nada glamourizado da vida de uma garota de programa. Apesar dos tropeços e da pouco experiência do diretor Marcus Baldini, o filme passa como um olhar sem censuras e nunca barato sobre um assunto, na maior parte das vezes, tão discriminado no Brasil.

13 comentários:

Cine Mosaico disse...

Você definiu muito bem: "é um filme melhor do que se podia esperar dele". O fato de eu não ter criado expectativa alguma ao ir assisti-lo, acabou me surpreendendo positivamente. Cenas bem feitas, boas atuações (não só de Deborah Secco), etc. A trilha sonora foi o que me incomodou, fora isso, o fato de que em alguns momentos ele se torna a coitadinha na história.

:: João Linno ::

Kamila disse...

É unânime o fato de as pessoas dizerem que este é um filme melhor do que prometia ser. E é verdade, isso. A direção realista e a performance da Deborah Secco ajudam muito nesse sentido. O que me incomodou mesmo foi a desculpa simplória dada para a entrada da Bruna na vida da prostituição... Não cola comigo!

Dilberto L. Rosa disse...

Acho que devo fiar com as mesmas impressões quando finalmente assistir a este filme, meu caro: foram essas mesmas as minhas primeiras impressões ao ver algumas cenas aqui no PC (virei 'hacker' de filmes depois que minha neném nasceu e não pude mais ir aos cinemas...)!

Sobre os demais posts: concordo parcialmente contigo quanto a "127 horas" e "Origem", acrescentando que o primeiro tem, sim, bons momentos de edição (ainda que aquela edição apapagaiada à MTV!) e o segundo, apesar de competente em seu ritmo, acabou sendo uma colcha de retalhos de outros filmes melhores (como "Matrix" e "brilho eterno de uma mente sem lembranças", sem contar com "Hora do Pesadelo", né?!)!

Sobre "O Mágico": onde posso conseguir baixar este filme?! Estou seco para vê-lo desde que vi outro trabalho do mesmo diretor, "As Bicicletas de Belleville"!

Excelente blogue: já o lincando por lá! No meu você encontra Cinema dentre outras coisas, não sendo a base como o seu (a terceira postagem na tela apontará para minhas observações sobre o Oscar)! Abração e apareça!

Wallace Andrioli Guedes disse...

Bom filme, boa cinebiografia, no mesmo nível de outras como CAZUZA e MEU NOME NÃO É JOHNNY. E que tem o mérito, como disse em meu texto sobre o filme no blog, de trazer o sexo de volta ao cinemão brasileiro. E gostei da atuação da Deborah Secco.

Rafael Carvalho disse...

Cine Mosaico, acho que o filme acabou surpreendendo muita gente que não esperava tanto dele. E sabe que eu gostei muito da trilha sonora? Talvez uma das melhores coisas do filme.

De fato, Kamila, esse é um tropeço do roteiro que nunca consegue explicar o motivo da decisão da personagem. E esse é um detalhe super importante pois é a razão de ser do filme. Quando ela encontra o irmão no privê descobrimos que ela é filha adotaiva, mas isso não resolve a questão, mas senti que foi a "saída" encontrada pelos roteiristas.

Dilberto, Bruna Surfistinha vale mesmo ser visto, sem preconceitos. A edição de 127 Horas acho toda muito ruim. E muito legal essa sua lembrança de A Hora do Pesadelo em referência a A Origem, não havia me passado isso pela cabeça. Já O Mágico dá pra conseguir via torrent baixando pelo Making Off, conhece o site? Que bom que gostou aqui do blog, pode deixar que aparecerei lá no seu espaço. E volte sempre aqui.

Exato, Wallace, não é nada maravilhoso, mas mantém um bom nível (principalmente em sua primeira metade) como vários outros filmes nacionais. Talvez o sexo nunca deixou o cinemão nacional, mas dessa vez vem com mais razão de ser e qualidade, sem moralismos. Deborah Secco está bem, mas nada demais, né!

fabiana disse...

Cara, eu não encaro a Déborah Secco jamais!

Rafael Carvalho disse...

Ah, Fabiana, eu encarava demais. Brincadeiras à parte, o trabalho dela surpreende porque deve ser a melhor coisa que ela já fez. Não é maravilhoso, mas ela se esforça bastante e o resultado é bom, apesar de alguns tropeços.

Lara Ely disse...

Olá, gostaria de republicar os textos de seu blog em um novo portal sobre cinema brasileiro. Você teria um email que pode me passar para eu entrar em contato e enviar um convite? Meu email é lara.ely@boxbrazil.tv.br. Por favor, entre em contato se tiver interesse. Obrigada.

Rafael Carvalho disse...

Interessante a ideia, Lara. Te mandei um email.

Matheus Pannebecker disse...

Como muita gente, não esperava muita coisa de "Bruna Surfistinha" e me surpreendi. Mais do que um ótimo desempenho da Deborah Secco, é um filme que sabe dosar muito bem a dramaticidade. Em momento algum o filme fica apelativo!

Rafael Carvalho disse...

Matheus, realmente, nã há apelação no filme nem aquele tom de autoimportância e "coragem" por ser tão desenibido. Secco é a maior das surpresas.

Alexandre Carlomagno disse...

Finalmente, Rafael, alguém que concorda comigo: o início é desnorteado e o final, abrupto.

Mas, no final das contas, é um bom filme. Fiquei com vontade de revê-lo - mas isso só em DVD.

Abração!

Rafael Carvalho disse...

Sim Alexandre, o filme tem lá seus pecados (principalmente no início e final), mas não é de todo ruim.