quinta-feira, 3 de março de 2011

Real nostalgia

O Mágico (L’Illusionnist, França, 2010)
Dir: Sylvain Chomet



Com O Mágico, o animador Sylvain Chomet realiza a feliz tarefa de reviver o espírito do cineasta e comediante francês Jacques Tati junto com as principais características de sua obra, talvez uma das mais coesas da história do cinema. A animação é baseada num roteiro não filmado deixado por Tati.

A história gira em torno de um mágico tradicional que vê seu trabalho cada vez mais desprezado por platéias como um todo. Ao conhecer uma humilde jovem que ainda vê os números de ilusionismo com admiração, o mágico persiste em seu ofício, tentando ganhar o sustento e leva a garota a morar com ela numa cidade maior. Nas entrelinhas, um subtexto autobiográfico evidencia uma relação conturbada entre Tati e sua filha Sofia, (a quem o filme é dedicado).

Seria um problema maior, talvez, e pelo qual o filme tem sido atacado, o fato de Chomet abusar um tanto da melancolia que, se em Tati é quase uma consequência final presente em seus filmes, depois das trapalhadas de seu personagem, em Chomet é parte integrante da narrativa.

Está ali desde o início, literalmente, pois o filme começa em preto-e-branco, dotando a obra de um tom de tristeza latente. E isso aproxima bastante esse O Mágico da obra-prima As Bicicletas de Belleville, conto anterior de Chomet, mais do que a qualquer outro filme de Tati (mesmo que o próprio filme referencie explicitamente Meu Tio, um dos mais aclamados filmes de Tati, que é visto num momento em que o mágico entra por acaso em um cinema).

Mesmo assim, a alma do cineasta francês morto em 1982 está lá, seja no personagem reproduzido do conhecidíssimo Sr. Hulot, na narrativa em forma de esquetes, na ausência de diálogos, na nostalgia impregnada. Chomet faz uma grande referência ao gênio tatiniano, mas sabe incluir seu próprio estilo ao filme, a começar pelo recurso óbvio da animação com um traço bonito e bastante tradicional.

Em meio a toda essa melancolia empregada, o filme traz também seus momentos cômicos, como não poderia faltar num roteiro escrito por quem foi. O melhor é que as gags apostam na inteligência do espectador para que sejam compreendidas e, por se tratar de um filme muito discreto em suas pretensões, elas nunca são explosivas; querem mais é despertar aquela risada leve, mas ainda assim prazerosa.

Da mesma forma, existem várias sutilezas e detalhes durante todo o filme que sempre se tornam agradáveis quando descobertos. Além disso, o filme faz mostrar que os shows de mágica são tão tradicionais como a própria animação feita à mão. E que ambos ainda conseguem encantar as pessoas com sua beleza mais do que comprovada.

5 comentários:

Elizio disse...

Tive vontade de assistir ao filme agora.

Stella Halley disse...

Rafael, é a primeira vez que leio sobre esse desenho. Nada como visitar os blogs amigos! Sou fã do Jacques Tati desde pequena e espero encontrar O Mágico na minha locadora, mesmo sendo melancólico. A lista dos filmes a esperar em 2011 está crescendo...

bruno knott disse...

Quero muito ver este filme. Também considero As Bicicletas de Belleville uma obra-prima, então acho que vou gostar.

Abraços!

Kahlil Affonso disse...

grande filme... escrevi sobre ele no meu blog

http://filme-do-dia.blogspot.com/

Rafael Carvalho disse...

Elizio, claro, se o filme tem um tom nostálgico, é a sua cara, parece feito pra você. rsrs. Mas tem potecial para você adorar.

Stella, se você é fã do Tati, então com certeza você vai gostar desse filme. O espírito do cineasta está lá presente durante todo o longa, embora exista muito do estilo do próprio Chomet no filme. Mas não acredito que vá se decepcionar.

Bruno, o filme segue muito o estilo melancólico e sem pressa do filme anterior do Chomet, então corre pra ver.

Kahlil, eu diria que é um filminho desses que a gente pode considerar grande, justamente por seu minimalismo. Massa, né?