quarta-feira, 20 de julho de 2011

Curtinhas – John Cassavetes

Câmera na mão, orçamento reduzidíssimo, atores desconhecidos e amigos, poucas locações, muitos diálogos. Com isso, John Cassavetes realizou aquilo a que chamamos de cinema independente, sendo considerado então o “pai” dessa forma de fazer cinema sem o apoio dos grandes estúdios. Mas longe de ser uma limitação, Cassavetes fez dessa sua prática a potencialização de um estilo que coloca seus personagens em xeque. Pegando carona na mostra promovida pela Sala Walter da Silveira, em parceria com o Cine Sesc, aí vão curtinhas sobre os filmes vistos.


Sombras (Shadows, EUA, 1959)


“O filme que você acabou de ver foi uma improvisação”. Esse letreiro que aparece ao final da projeção de Sombras, estreia de John Cassavetes como diretor, só confirma aquilo que é possível perceber por todos os cantos do filme, mais do que em outros trabalhos do diretor. Envoltos numa atmosfera musical cercada principalmente pelo jazz generation, passeando pelo universo do movimento beat, o filme apresenta uma juventude pulsante, elétrica, como a personagem Lelia (Lelia Goldoni), impulsiva. Ela é negra, mas tem um tom de pele mais claro do que o de seus irmãos; conhece o jovem Tony (Anthony Ray), que vai se bater de frente com os irmãos da moça, no que um deles classifica de “problema racial”.

Não que Cassavetes abra seu filme para a denúncia do preconceito. Ela está lá visível, mas o filme se interessa muito mais pelo movimento incerto dos personagens pela efervescência da cidade, da rua, e mesmo perto da delinquência e desajuste social de alguns deles. Um dos irmãos de Lelia, Hugh (Hugh Hurd), é ele próprio um cantor de jazz, ritmo que empresta seu próprio movimento de improvisação ao filme. Acaba por lhe conferir uma leveza muito agradável na medida em que confia e acompanha os rumos de seus personagens, ainda que incertos. Cassavetes já dá provas de como sabe filmar corpos e principalmente rostos, em sintonia com o espaço ao redor a que pertencem.


Faces (Faces, EUA, 1968)


Aqui temos a conhecida estrutura do filme dentro do filme, embora isso não vá representar nada específico para a história. Só chama atenção o fato de alguém dizer que iremos assistir a uma versão comercial de A Doce Vida; depois disso, a projeção de Faces toma conta da tela e veremos o casal Richard e Maria (John Marley e Lynn Carlin) lidando com o casamento em crise através de traições, ele com a prostitua de luxo, Jeannie (Gena Rowlands), ela com um garotão (Seymour Cassel) que encontra numa balada. A doce vida da qual Fellini tratava era um grande jogo de aparências burguês tão pouco perceptível pela classe, maquiada pela “alegria” da vida.

Essa reflexão cabe perfeitamente aqui. Os personagens, nas muitas conversas que têm, geralmente mostram seu lado mais alegre, bonachão, engraçado, mas são capazes de revelar raiva, angústia e rancor no minuto seguinte, escancarando muito de amargura reprimida. Cassavetes filma tudo isso com a câmera bem próxima de seus personagens, numa encenação corpo a corpo, filmando como ninguém rostos (como o próprio título faz sugerir) e sua riqueza de expressões, se aproveitando de uma iluminação totalmente natural que granula a imagem, representativo ideal da vida crua de seus personagens. Todos em busca de seu lugar no mundo, perdendo a si mesmos no caminho, mas nunca uns aos outros.


Noite de Estreia (Opening Night, EUA, 1977)


Noite de Estreia é uma grande viagem pelos meandros psicológicos de sua protagonista. Aqui, Cassavetes dá toda a atenção a Myrtle (Gena Rowlands), grande atriz teatral que fica transtornada depois que uma insistente fã sua morre ao tentar lhe falar (uma das grandes referências de Almodóvar para Tudo Sobre Minha Mãe, filme inclusive dedicado à Gena Rowlands). O fato vai causar grande trauma nessa mulher de meia idade, causando impacto, principalmente, na forma como a atriz lida com sua idade e o envelhecer. Eis aí o grande tema desse filme. Junta-se a isso a personagem da peça que está encenando, A Segunda Mulher, passar pelo mesmo dilema existencial, o que potencializa ainda mais a desestruturação de Myrtle.

É, na verdade, um filme de desconforto, pois o surto a deixará no limite da insanidade, sempre misturada com boas doses de bebidas, causando um mau estar latente a todos ao seu redor. Embora exista muita substância nessa história, a primeira impressão é de que filme e roteiro não sabem muito bem o que fazer com toda essa situação e as questões que suscitam daí, se estendendo mais do que necessário numa repetição sôfrega do estado de atordoamento de sua protagonista. Não sei exatamente o quanto de improvisação existe no filme, essa que é uma das principais marcas do cinema de Cassavetes, mas aqui reforça certo descontrole das voltas que o filme faz para chegar no mesmo lugar. Mesmo assim, é um assombro ver Gena Rowlands desestabilizada e desestabilizando as pessoas que a cercam (o que lembra muito seu papel em Uma Mulher Sob Influência, embora nesse filme por motivos outros).


Assim Falou o Amor (Minnie and Moskowitz, EUA, 1971)


Depois de tantos casamentos arruinados e desestruturados por seus personagens problemáticos, eis que Cassavetes encontra um caminho oposto nesse seu pouco conhecido Assim Falou o Amor. Aqui, é a construção de um relacionamento o cerne da história, a formação de uma paixão, e das mais improváveis, diga-se. Minnie (Gena Rowlands) acabou uma relacionamento com o namorado problemático e conhece, por acaso, o manobrista desajeitado Seymour (Seymour Cassel, tão mais velho aqui depois de aparecer como um garotão em Faces, três anos antes), ambos adoram ir ao cinema e são fascinados pela figura do ator Humphrey Bogart na tela (temos vislumbres de Casablanca e O Falcão Maltês no filme).

Mas vindo de Cassavetes, não espere por uma história clássica de amor. O filme todo é muito histérico, com Minnie e sua dificuldade de confiar, calejada pelos homens que já lhe fizeram mal na vida, e Seymour e seu jeito hiponga, destrambelhado, sem modos, tentando conquistá-la. Os dois parecem atraídos, mas quando se encontram sempre acontece algo de errado, muitas vezes com resultados desastrosos, o que aumenta bastante a carga de humor do filme (a cena do jantar com as mães de ambos é hilária). Acaba sendo uma relação improvável, até pelos rumos incertos de cada um em suas vidas, mas os personagens não conseguem se manter afastados. Um sopro de carinho e afeição pelas mãos de um cineasta que tanto filmou a amargor e a desilusão.

5 comentários:

Kamila disse...

Com vergonha assumo que não conheço ou assisti a nenhum dos filmes do John Cassavetes que foram mencionados no post....

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Gosto muito do Cassavetes e da Gena Rowlands. São muito bons.
Abraços,

O Falcão Maltês

Gustavo disse...

De Cassavetes só vi UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA, mas decerto vou atrás de outros, mesmo de NOITE DE ESTREIA.

André Renato disse...

Boas resenhas. Ainda preciso sentar e descobrir esse cineasta tão bem falado.

Rafael Carvalho disse...

Kamila e André, o Cassavetes é uma base muito interessante para se entender a noção do cinema independente, aquele que dá certo, claro. É uma maravilha descobrir os filmes dele. Merece um tempo a ser gasto. Comecem por Faces.

Antonio, eles são ótimos. Mas o Cassavetes como diretor é bem melhor do que como ator. Já a Gena Rowlands é sensacional em cena, é de um vigor incrível as atuações dela. Em Uma Mulher Sob Influência ela tá assombrosa.

Gustavo, vale muito a pena mesmo ver os filmes do cara. Uma Mulher Sob Influência já tinha visto antes, é um dos meus preferidos dele, depois de Faces, claro!