segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Últimos filmes no Semcine


O Seminário chegou ao fim e trouxe poucas coisas boas nos dois últimos dias, exceção clara feita a O Desprezo. Fica um saldo positivo ao fim do evento principalmente por ter proporcionado ao público um contato riquíssimo ao complexo e lírico cinema de Jean-Luc Godard. Por sua vez, a Mostra Internacional não empolgou tanto (e senti muito ter perdido A Boa Vida, de Andrès Wood, diretor chileno do belo Machuca). Agora, aos últimos filmes:


Pau Brasil (Idem, Brasil, 2009)
Dir: Fernando Belens


O público de Salvador encheu o Teatro Castro Alves para prestigiar a estreia do filme baiano Pau Brasil, realizado no próprio estado por artistas locais. Uma pena que o resultado não tenha sido dos mais satisfatórios, embora exista ali uma vontade de fazer um trabalho mais autoral que esbarra justamente na pretensão de ser “forte” ou mesmo bizarro, além da pitada de misticismo. Senti falta no filme de uma consistência maior de direção, já que o roteiro não possui muita força ou a grande quantidade de personagens podiam ter suas histórias mais bem exploradas. Somos apresentados a duas famílias que vivem num pequeno povoado interiorano, não identificado, e possuem desavenças entre si: uma é mais recatada, patriarcalista (pai bruto e autoritário, educação católica para as filhas moças) enquanto os vizinhos são bem liberais (mulher dorme com outros homens, nunca em troca de dinheiro, com a permissão do marido). Como não existe um segmento definido, esperava que os personagens ganhassem maiores contornos, mas o roteiro se acomoda em focá-los alternadamente em suas particularidades, o que é uma pena porque alguns deles, como a mulher liberal, ou seu filho fracote, podiam se tornar bem mais ricos se mais desenvolvidos. Porém, não deixa de ser, plasticamente, uma bela produção do cinema baiano. Que Fernando Belens continue em busca de um cinema mais consistente. Força criativa para isso ele tem.


Kynema Fluxuz Filmes (Idem, Brasil, 2009)
Dir: Pedro Paulo Rocha


Eu juro que entendo os artistas que se propõem a fazer um tipo de obra mais abstrata, anticonvencional, anárquica. Esse tipo de proposta pertence àqueles que são irrequietos de berço e têm o intuito de criar algo novo ou, pelo menos, fora de padrão. Sendo Pedro Paulo Rocha filho do tresloucado Glauber Rocha, não podia ser diferente e os genes do pai com certeza foram legados ao filho no que diz respeito à sua inquietação de fugir dos parâmetros de um cinema convencional. Dito isso, no entanto, é preciso por a mão na consciência e pensar qual a real validade de passar 1 hora e 10 minutos sendo atingido por imagens desconexas em um turbilhão de cenas e sons diversos que não possuem o menor propósito de fazerem sentido. A intenção parece ser a de construir um filme de múltiplas visões e possibilidades de ser (re)feito pelo espectador. Eu não senti vontade alguma de fazer filme nenhum. É uma viagem difícil de embarcar. Exige disposição.


Karamazovi (Karamazovi, República Tcheca/Polônia, 2008)
Dir: Petr Zelenka


Filme de encerramento do Seminário Internacional de Cinema, Karamazovi é quase um embuste, mas tem seus bons momentos. Digo isso porque o roteiro se apega demais ao texto de Dostoievski (Irmãos Karamazovi, óbvio), pois se trata da história de um grupo de teatro tcheco que chega na Polônia para apresentar uma adaptação teatral do texto clássico. Assim, ensaios de cenas inteiras da peça são reproduzidos no filme, deixando pouco espaço para o desenvolvimento dos personagens. Isso soa um tanto como “encheção de linguiça”, não fosse a naturalidade com que o diretor inclui as cenas dos ensaios no meio da narrativa; quando a gente pensa que os personagens estão falando de si mesmos, descobrimos que estão, na verdade, treinando o texto. O personagem mais complexo da trama é o vigia de manutenção do galpão onde a peça será apresentada, pois seu filho sofreu, recentemente, um grave acidente no mesmo local e se encontra em estado grave num hospital. Ele espreita os atores durante os ensaios e talvez seja o que mais sente as palavras do escritor russo, sobre as relações conflituosas entre pai e filhos.


Bem, para finalizar os post sobre o Semcine, deixo aqui meu ranking Godard:

1. O Demônio das Onze Horas
2. Acossado (visto fora do Seminário)
3. O Desprezo
4. Uma Mulher é uma Mulher
5. Alphaville
6. O Pequeno Soldado
7. Carmen
8. Tempo de Guerra
9. A Chinesa
10. Je Vous Salue Marie
11. Passion
12. Nouvelle Vague

5 comentários:

Íris disse...

AAhh, sou loouca pra assistir O Demônio das Onze Horas, é mega difícil de achar. Acho que Alphaville ainda é meu number one. hahahah

:*

Alex Gonçalves disse...

Rafael, pelo visto a grande novidade neste Seminário foi mesmo a presença de filmes do diretor Jean-Luc Godard entre a programação. Não conhecia nenhum dos três filmes comentados em sua postagem - talvez tenha lido algo anteriormente sobre "Pau Brasil" e a sua premissa repleta de personagens com suas particularidades.

Abraço.

Rafael Carvalho disse...

Então Íris, é meio difícil de achar mesmo, mas continue tentando, vale muito a pena! E Alphaville é bem bom, mas tem coisa melhor antes.

Alex, acho que o seminário nas edições anteriores nunca tinha trazido uma retrospectiva de diretor nenhum. Por isso, esse ano, Godard foi a estrela.

mz disse...

be abe ab c d
beaba do nexo
desconexo
o kaos é doce
e deus é quente!


" Cinco bombas
atômicas em cima
do seu cérebro
quando eu era pequeno
saudades eletrônicas"

a critica está cada vez mais velha, mais do que o cinema, e ainda faz do preconceito estético pseudo inteligência... e que os kynemas exploda nas mentes inertes,
adeus cinemas, adeus...

"a vontade é força de vida!
as forças do sim!
agora onde a vontade falta
a fonte seca"

Rafael Carvalho disse...

Então mz, não acredito que não gostar de um filme que traga e defenda um novo e atual conceito estético seja de pronto preconceito estético, como você chama. O novo é importante, mas isso não quer dizer que sempre precisamos gostar das inovações pelo simples fato de serem justamente inovações. Inversamente, não quero dizer que devemos repudiar as novas experimentações por serem coisas a que não estamos acostumados, que nos soam estranhas.

Mas aí vem aquele problema: as pessoas que estão produzindo esse tipo de pensar diferente quer sempre que suas ideias sejam aceitas e bem-vindas, e aqueles que se arvorarem em criticar ou simplesmente não gostar, precisam ser tachados de "pseudo inteligente" e tal. Só digo que a experiência do filme não me bateu, não me tocou, não me moveu, por mais interessante que seja sua proposta. Agora me diga: o que que eu posso fazer? Eu não gostei, caramba!

E se uma crítica se pretende em investigar a proposta de um filme, o que tem isso de velho? Não é essa uma das funcionalidades do fazer crítico? Qual seria então? Sempre aceitar as inovações? Temos opiniões diferentes, (como o fato de você achar que o cinema é velho (?!?)). Eu só acho que é preciso saber lidar com essas diferenças porque se não fica uma discussão infantil.