terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Amarga incerteza

Dúvida (Doubt, EUA, 2008)
Dir: John Patrick Shanley


A história gira em torno da madre superiora de uma escola cristã que desconfia e tenta acusar um padre de abuso sexual contra um garoto negro de 12 anos. Só aqui Dúvida revela que vai tocar não só na questão da pedofilia, como dos abusos cometidos por religiosos, e também sobre racismo. O melhor é que nada disso é levantado como bandeira, como mera crítica social, e sirva mais como propulsão para uma narrativa cheia de nuances e incertezas que joga na mão do espectador a possibilidade de tirar suas próprias conclusões.

Depois de escrever Dúvida para o teatro, e ganhar prêmio Pulitzer em 2005 pelo texto, John Patrick Shanley resolveu adaptá-lo para o cinema, com resultados que ainda assim têm algo de palco, mas se resolvem muito bem na tela. E o texto é um dos maiores trunfos do filme, rico em detalhes e precisão, construindo aos poucos um confronto que promete duras consequências adiante. Os diálogos, longos, mas bem articulados, fogem daquele ritmo cortante de respostas rápidas; há tempo para que possamos pensar e refletir sobre os desdobramentos da história e as intervenções de cada um.

Além disso, os personagens são construídos com muita riqueza e complexidade, não só pelo texto, mas por um grupo de atores extremamente competentes. Philip Seymour Hoffman é o Padre Flynn, talvez o personagem mais enigmático pois, embora acusado de pedofilia, se mostra o tempo todo um sujeito atencioso e amável; o personagem se torna complexo quando se recusa a revelar seus segredos, o que pode ou não esconder atos hediondos do passado. A madre superiora Irmã Aloysius de Meryl Streep parece ser a pessoa mais chata, odiosa e amarga do mundo, e é sua acusadora, embora não tenha provas concretas contra o padre.

Amy Adams, ingênua como a Irmã James, é quem levanta a suspeita da madre, porém passa a estar disposta a crer nas palavras do padre. Sua personagem é a que mais cresce durante o filme, pois é como se ao fim perdesse sua inocência, ao mesmo tempo que conserva sua pureza. Tudo se torna mais complexo ainda quando entra em cena a mãe do garoto, vivida por Viola Davis. Interessante perceber como sua personagem surge tão calmamente e vai evoluindo num crescendo emocional arrasador, tendo no rosto de Viola Davis a expressão máxima que vai da calmaria ao desespero velado, diante da revelação mais chocante e triste do filme; e isso em menos de 10 minutos em cena.

Pode parecer um lugar comum dizer que o trabalho desses quatro atores é uma aula de interpretação, mas o minimalismo de cada um, a tentativa de sempre trazer complexidade a seus personagens é coisa de profissionais. Aqui, um olhar torto, o tom da voz que se eleva, uma lágrima que demora a cair, um gaguejar, uma pausa, tudo é valioso.

Apesar das várias seqüências de confronto verbal entre os personagens, o texto de Shanley tenta também parecer mais cinematográfico, como a cena do travesseiro rasgado (metáfora da fofoca), ou quando, durante uma acentuada discussão, a câmera se inclina, tornando a situação bastante desconfortável. Curiosamente, uma trilha sonora que podia muito bem cair na facilidade de procurar tensão todo o tempo, se mostra, acertadamente, bastante discreta. A força do texto consegue sustentar muito bem essa tensão.

“A dúvida pode ser um elo tão poderoso e sustentável como a certeza”, diz o Padre Flynn no início do filme com o sermão que parece ser a tônica dominante da obra, cujo grande mérito é instaurar na mente do espectador incertezas que só enriquecem a história.

8 comentários:

Filipe Machado disse...

Excelente crítica. Não vejo a hora de ver este filme!

Wallace Andrioli Guedes disse...

Ótimo filme, em geral concordo contigo: o forte é seu texto e o impressionante elenco, onde todos, sem exceção, estão excepcionais. Me encantaram mais o Seymour Hoffman e a Viola Davis, mas Streep e Adams também estão espetaculares. Adoro as cenas dos sermões do padre de Hoffman, assim como suas discussões com Streep, sem contar a arrasadora cena da Davis.
Por outro lado, pode parecer bobeira, mas me irritei com aquela câmera tombada do Shanley. Parece coisa de amador ...
Devo escrever em breve sobre ele lá no blog.

Hélio disse...

Como disse um amigo: eu tenho medo de um filme que se chama Dúvida, começa com um personagens discursando sobre a dúvida e termina com outro personagem dizendo que tem dúvida.

Acho que o show de atuações (daquelas milimetricamente calculadas, tipicas de Hoffman e Streep) acaba tornando o filme agradavel de se ver. Mas que "filme de conteudo" da porra! Como peça teatral deve ser até interessante. E concordo com o Wallace aí em cima, os enquadramentos inclinados que surgem de vez em quando no filme parecem coisa de amador.

Mas do elenco nao gosto da Amy Adams, a freirinha que parece saída de filme disney.

Abraços!

Indhy disse...

Aaaah, não acredito que vc viu esse filme sem mim!:/
kkkkkkkk
Volto assim que assistir, então.
Bjooo!

Kamila disse...

Estou com tanta vontade de assistir a este filme, mas ele ainda não estreou por aqui. "Dúvida" tem, em alta qualidade, os elementos cinematográficos que mais admiro: roteiro e elenco.

Bom final de semana!

Elizio disse...

Moço, que começo e que fim! Só digo isso...
A cena da Viola Davis também! Ouvi dizer antes que Streep não estivesse tão boa no filme. Mas, é incrível como ela mantém a personagem! Não tem como dizer que ela não esteve tão boa. Eu discordo, ela está muuuuuito bem!

André Renato disse...

Estou muito curioso pra ver esse filme!

Rafael Carvalho disse...

Obrigado Filipe, veja assim que puder.

Wallace, assino embaixo, mas do elenco só a Amy Adams fica um pouco atrás dos outros, mas nada demais. Adoro todos os outros três. E Viola Davis é uma grata surpresa. Sobre essa coisa da câmera com ângulo torto, acho que a primeira vez que isso acontece é uma sacada muito boa do Shanley (quando os três estão discutindo e o telefone toca, mas ninguém atende). O ângulo distorcido confere bastante incômodo à cena. Mas concordo que depois disso ele a usa de forma arbitrária. E tu já viu Slumdog Millionaire? Ali é que a câmera tá tombada mesmo, e é irritante.

Hélio, gostei muito da forma como o filme começa e termina, acho que se fecha muito bem. Como disse ao Wallace aí emcima, a primeira vez que a câmera aparece tombada achei interessante porque dá uma idéia de desconforto, mas depois o Shanley usa isso de forma arbitrária. Do elenco eu gosto de todos, mas a Adams fica por último mesmo, e acho que você ficou com a imagem dela em Encatada na cabeça, por isso essa percepção sobre ela.

Pois acredite Indhy, e verei mais viu!

Kamila, se admira tanto esses dois aspectos, você vai gostar bastante do filme então.

Realmente Elizio, o filme começa e se conclui muito bem, bem articulados. E quem foi o pirado que disse que a Streep não tava bem? Só podia estar louco porque ela é sensacional, como o resto do elenco. Talvez ganhe o Oscar. A Amy Adams talvez fique atrás, mas nada que comprometa.

Veja assim que puder, Renato!