quinta-feira, 18 de março de 2010

O passado que não volta

O Segredo de Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, Argentina/Espanha, 2009)
Dir: Juan José Campanella



Há alguns momentos desse filme que me fizeram pensar que ele estaria entre os melhores do ano. A primeira metade é sensacional. Acompanhamos o reencontro do oficial de justiça Benjamin Espósito (Ricardo Darín) com sua ex-chefe, a bela Irene (Soledad Villamil). Aposentado, ele agora quer escrever sobre o caso Morales e logo o filme volta uns 25 anos para nos apresentar o episódio de assassinato e violência sexual sofrido por uma moça em sua própria casa, e os esforços para prender o culpado.

Além de equilibrar presente e passado no decorrer da história (ajudado sempre por uma edição competente em balancear os dois tempos narrativos), o filme se divide na tensão amorosa que surge entre Benjamin e Irene, ao mesmo tempo em que valoriza o desenrolar do caso.

O filme aproveita para alfinetar o sistema judiciário argentino e suas incoerências no jogo de poder e disputas profissionais que põem a real resolução do caso em segundo plano. Nesse sentido, o quase caso entre os dois colegas de trabalho sai perdendo porque o filme nunca consegue dar dimensão dramática para a história dos dois, sempre mal resolvida. Em alguns momentos fica clichê, como a cena de abertura do filme que mostra Irene correndo atrás do trem que leva Benjamim para longe.

Mesmo assim, Juan José Campanella continua dono de um texto sensacional, com ótimas tiradas e diálogos, coisa que ele já tinha mostrado em filmes anteriores. Mas os ótimos Clube da Lua, O Mesmo Amor, A Mesma Chuva e o excelente O Filho da Noiva tinham algo de tragicômico. Aqui, ele adota o drama num filme marcado pela dor e pela perda. Além disso, há momentos sublimes como o desfecho final e o plano-sequência absurdamente construído num estádio de futebol.

O filme se beneficia também de ótimos intérpretes para conferir toda a dimensão dramática da história. Ricardo Darín já é figura carimbada no cinema argentino, um ator de primeira, que sabe ser sutil e intenso ao mesmo tempo. Destaque também para Soledad Villamil e sua bela e determinada Irene, além do braço direito de Benjamin vivido por Guillermo Francella, dono de um personagem complexo que transita entre o amigo divertido, o profissional engajado e o bêbado viciado.

De uma forma geral, pode-se dizer que Benjain espera retomar coisas do passado. É extremamente óbvio que o passado não tem volta, mas é incrível como o ser humano busca, de uma forma ou de outra, reparar seus erros e falhas, buscando no presente uma nova chance, uma redenção, uma forma de retorno. Às vezes se consegue; outras, não.

6 comentários:

Elizio disse...

Ah, o filme carrega realmente nos olhares algo bem legal! Eu adoro a troca de olhares entre o quase casal do filme.
A atuação do viúvo não gostei muito.

Gostei bastante da cena do estádio também. Quanto ao desfecho final é surpreedente e isso já e de grande valia.
Daria as mesmas estrelas que voce, apesar de achar que o filme me cativou mais do que ao sr. Moviola Digital!

P.S. O bebado viciado do filme é um dos melhores! Me diverti com ele...

Roberto Queiroz disse...

Todo mundo tem falado muito bem desse filme e eu ainda não vi. Eu assisti o Fita Branca, do Haneke, e esperava que levasse o Oscar... Agora estou curioso para ver esse. Outro da categoria que é ótimo é O Profeta.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Eu amo O FILHO DA NOIVA, e por pouco não vi esse O SEGREDO DOS SEUS OLHOS no Festival do Rio. Não duvido que seja um grande filme, e que talvez até merecesse o Oscar de filme estrangeiro. Mas não com A FITA BRANCA no páreo, pelo amor de deus...

Matheus Pannebecker disse...

Eu gostei desse filme, mas ainda prefiro os outros do Campanella, especialmente "O Filho da Noiva". Acho que não gostei tanto dessa mistura entre investigação e drama de "O Segredo dos Seus Olhos"...

Leandro Afonso Guimarães disse...

Vi em 2007, e adorei, O FILHO DA NOIVA - ainda não vi O CLUBE DA LUA. Apesar de o filme ter sido massacrado por alguns, parece ter um mínimo de sensibilidade, além do plano-sequência envolvendo o que a gente - quem mais deveria saber - não sabe filmar. Quero ver logo.

Ps: Darín é sensacional.

Rafael Carvalho disse...

Elizio, a questão dos olhares não me chamou muito a atenção. Pensei até que seria algo mais importante no filme. E acho a atuação de todos muito boa, inclusive a do viúvo. E não sei porquê, mas também acho que o filme te cativou mais do que a mim. Por que não aumenta sua nota, Sr. Dr.?

Sim Roberto, podia jurar que A Fita Branca levava o Oscar, foi uma das grandes injustiças da noite. E não deixe de ver esse filme argentino. Não é o melhor do diretor, mas tá valendo. O Profeta também é um bom filme, mas não achei lá grande coisa!

Wallace, por mais que eu goste do Campanella (e O Filho da Noiva é praticamente uma obra-prima), também achei uma covardia ele ganhar de A Fita Branca. Mas enfim, não deixa de ser um bom filme.

Matheus, também prefiro bem mais os outros filmes do Campanella. Meu problema com esse filme é que ele possui muitos altos e baixos. Na metade, mesmo, a narratva cai bastante.

Leandro, sim, o filme tem sua sensibilidade, aliás o texto do Campanella é ótimo porque nunca soa forçado nem explícito. E aquele plano-sequência é mesmo de tirar o fôlego. Acho que vamos ter de esperar um tempo até que o nosso cinema faça algo tão bom nesse sentido.