sábado, 9 de abril de 2011

Estado de suspensão

Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (Loong Boonmee Raleuk Chat, Tailândia/França/Reino Unido/Alemanha/Espanha/Holanda, 2010)
Dir: Apichatpong Weerasethakul



“Está muito escuro aqui”, diz a certa altura o tio Boonmee, ao que sua irmã responde: “calma, aos poucos você se acostuma”. Pois o cinema do tailandês Apichatpong Weerasethakul (também conhecido como Joe no Ocidente), carece desse ato de se acostumar, de certa compreensão de um projeto de cinema muito próprio e cheio de personalidade. A cena parece um aviso aos espectadores.

Em seu universo, e principalmente nesse filme e em Mal dos Trópicos (uma quase obra-prima, que se diga), ambos muito próximos temática e esteticamente, o místico e o misterioso se encontram como filosofia de vida de seus personagens. É onde fantasmas, animais e criaturas bizarras se encontram e interagem com o ser humano da forma mais orgânica possível.

A câmera do cineasta filma tudo sem choque ou estranhamentos, o que revela não só uma segurança com seu objeto de observação como demonstra uma proximidade com todo esse universo temático. Tudo soa muito natural. Ao espectador basta se afeiçoar a esse estilo quase zen, ganhando em troca uma possível submersão a um mundo novo, desconhecido. Digo possível pois é preciso predisposição para isso.

Mas voltando ao diálogo, a escuridão a que o personagem se refere trata-se da proximidade da morte (ele sofre de insuficiência renal). Nesse processo, ele recebe em sua fazenda as visitas de sua cunhada e sobrinho para ajudá-lo e fazer companhia; mas eis que, inusitadamente, aparecem também sua esposa falecida, em forma de espírito, e seu filho desaparecido, agora transfigurado num macaco fantasma. É a brecha para que tio Boonmee relembre suas vidas passadas.

A narrativa se desenvolve com a habitual calmaria que o cineasta imprime a seus filmes e nem tudo possui explicações lógicas, mas sim um tom evocativo, de tranquilidade, apesar das bizarrices de alguns momentos (a primeira aparição do macaco fantasma é mesmo medonha). É como um estado de suspensão, de contemplação diante do novo.


Uma das maiores qualidades do filme é sua capacidade de nos apresentar ao inusitado. Nunca sabemos o que vem a seguir, mas acompanhamos tudo com muita curiosidade. Assim é possível se impressionar com a cena do jantar em que as visitas inusitadas aparecem, ou quando a narrativa retrocede e conta a história de uma princesa e seu encontro (sexual!) com um bagre, ou então a peregrinação na floresta para que Boonmee chegue até a caverna onde teve a sua primeira encarnação.

Existe também uma visão muito conformista em relação à morte (o que é muito da cultura oriental). O próprio teor místico e as possibilidades de reencarnações que se apresentam no filme já nos dizem isso. Nesse sentido, não há tristeza diante do fim, mas uma sensação de continuidade através de outra forma de vida que poderá vir a seguir. Num momento emblemático, o espírito da esposa falecida desconstrói toda uma ideia de paraíso celeste quando diz que “o céu é superestimado, não tem nada lá”.

O cinema de Weerasethakul pode ser considerado o mais inusitado que surgiu nos últimos anos. Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas reúne todas as características de seu cinema, apesar de estar um passo atrás de seus filmes anteriores. Mas é uma resposta afiada para quem acusa o cinema atual de falta de originalidade e mesmice. Taí um filme diferente de qualquer coisa que estamos acostumados a ver. Cinema de invenção, mas principalmente de coração.

6 comentários:

Gustavo disse...

Parece um filme contemplativo, um tanto quanto único, com uma sensibilidade própria. Tenho receio de que seja muito sonolento, mas, diante de todas as descrições desde maio do ano passado, é impossível um fã de cinema resistir. Vou checar.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

realmente preciso conhecer seus filmes anteriores, pois não gostei nada desse.

abração,
www.ofalcaomaltes.blogspot.com

bruno knott disse...

A maioria dos comentários que li sobre este filme não foram muito entusiasmentes, ao contrário do teu.

Parece-me sim algo interessante e original (algumas cenas que vc descreveu parecem ser bizarras como poucas!)

Vai pra lista!

Abraços.

Rafael Carvalho disse...

Gustavo, é muito lento sim, mas não acho que isso seja um problema pois o tom do filme é muito esse da contemplação mesmo. E é cheio de significações. Além de quê, já me afeiçoeei ao cinema do Joe, então vejo o filme com mais admiração.

Antonio, não é mesmo nada fácil se interessar por esse filme sem conhecer um pouco o cinema anterior do cara. Recomendo ver Mal do Trópicos, talvez sua impressão mude.

Bruno, realmente tem muita gente reclamando do filme. É preciso um pouco de mente aberta e determinação para ver. Com certeza, é das coisas mais originais que surgiu nos cinemas recentemente.

Kamila disse...

Ainda não assisti a este filme, mas confesso que tenho curiosidade, especialmente por ser de uma escola que eu ainda não conheço!

Rafael Carvalho disse...

E é uma maneira de filmar e se relacionar com o cinema de uma forma totalmente diferente do que a gente está acostumado a ver, Kamila. Vá preparada e com a mente aberta!