terça-feira, 6 de abril de 2010

Curtinhas

O Tempo que Resta (Le Temps qui Rest, França, 2005)
Dir: François Ozon


É de uma maturidade enorme a forma como François Ozon lida com a morte nesse seu filme. Romain (Melvil Poupaud) é um jovem fotógrafo homossexual que descobre um câncer em fase terminal, com possibilidades remotas de cura, e decide não iniciar o tratamento; possui só alguns meses de vida. Ozon, também roteirista, se recusa a cair no lugar-comum e fazer seu personagem se redimir com todos ao redor, principalmente porque Romain demonstra traços de prepotência e egocentrismo. Possui relações conturbadas tanto com o parceiro quanto com a própria família, em especial com a irmã.

Nesse percurso, Romain vai buscar na solidão uma forma de lidar com a proximidade de sua própria morte. Talvez por isso ele só vai contar para a avó sobre sua doença. Vivida por uma Jeanne Moreau ainda em desempenho incrível, ela parece ser o eixo emocional do rapaz e o encontro dos dois é ao mesmo tempo triste e duro (num momento, Romain diz que só contou de sua doença para a avó porque eles eram iguais: estavam pertos de morrer!). Mesmo sem rompantes dramáticos ao tratar de assunto tão doloroso, há momentos tristíssimos como quando ele se despede da avó ou quando tira fotos da irmã às escondidas. Ozon nos entrega um filme minimalista, mas não menos comovente.


Fando e Lis (Fando y Lis, México, 1968)
Dir: Alejandro Jodorowsky


A busca de um casal pela cidade sagrada de Tar é o argumento principal desse primeiro longa-metragem de Alejandro Jodorowsky, cineasta controverso que se aproxima muito da surrealidade para oferecer sua visão de mundo. Por trás da ideia amplamente difundida de que seus filmes não possuem lógica, Fando e Lis faz muito sentido em sua proposta de acompanhar dois personagens na busca por esse lugar ideal que nada mais é do que a representação da felicidade. No percurso para encontrá-la, os dois irão se deparar com o que de mais grotesco, estranho e brutal existe no ser humano.

Além disso, o filme faz uma reflexão (ou sou eu quem vê essa reflexão, não sei) da necessidade do outro como forma de apoio, amparo. A relação conturbada de Fando (Sergio Kleiner) com sua parceira Lis (Diana Mariscal), ela uma paralítica, passa por altos e baixos, do mais puro gesto de carinho até o mais puro ato de crueldade e rejeição. Isso para que os personagens possam se dar conta de que o caminho para a realização só se faz com ajuda de um outro, principalmente quando a beleza se acabou da Terra e o trajeto parece sem fim.


Aconteceu em Woodstock (Taking Woodstock, EUA, 2009)
Dir: Ang Lee


Mais um belo trabalho de Ang Lee que chegou ao Brasil no mesmo ano que aportou por aqui, com bastante atraso, o belo Desejo e Perigo. Para os desavisados, o filme pode parecer uma reconstituição de um dos eventos musicais mais importantes do século passado. Entretanto, o que interessa ao cineasta são os bastidores. Para isso, ele se apega a Elliot Tiber (Demetri Martin), um rapaz que vive com o pai (Henry Goodman) e a mãe (Imelda Stauton, em ótima e hilária atuação) num rancho-pensão, até o momento em que os organizadores de Woodstock requisitam o local para o concerto de rock.

O roteiro evolui da formação de todo o evento, dado a grandiosidade e enorme quantidade de gente a chegar, para uma crônica de maturidade de seu personagem principal. Elliot é ingênuo e vive sob as asas dos pais, mas, no contato com toda aquela efervescência cultural (que iria mudar os rumos da sociedade) vai entender o sentido de buscar um caminho próprio, longe de amarras, numa espécie de rito de libertação. Ele se transforma junto com seu tempo.


Um Sonho Possível (The Blind Side, EUA, 2009)
Dir: John Lee Hancock


Eu podia jurar que esse filme seria muito pior do que acaba sendo. Parecia a típica história de superação de um garoto pobre e de redenção para uma família rica, explorada por um roteiro golpista. No entanto, existe um tom de verdade nas ações bondosas da família que irá acolher Michael, (Quinton Aaron) um garoto negro, pobre e sem lar. Destaque para a mãe vivida por uma Sandra Bullock caracterizada de perua burguesa que vai se tornar, desde o início, o grande suporte de Michael.

Esse talvez seja o grande acerto do filme: não fazer da personagem de Bullock a típica ricaça e arrogante que irá se transformar depois de acolher Michael. Pelo contrário, desde o início é ela quem vai trazê-lo para casa e fazer de tudo para que ele seja bem sucedido no colégio e, principalmente, se torne um ótimo jogador de futebol americano, destacando assim seus dotes atléticos. Bullock está melhor do que o normal para uma atriz como ela (que faz uma trapalhada após outra), o que não justifica seu Oscar. A obra ainda se sabota ao exceder toda essa bondade como algo inerente àqueles personagens, gerando um tom forçado ao filme. Parece o caminho que estava destinado a seguir por falta de um direcionamento melhor e mais maduro.

7 comentários:

Gustavo H.R. disse...

Os dois primeiros estão devidamente anotados na agenda mental de filmes a se ver. Ozon e Jodorowsky são cineastas interessantísismos.

Kahlil Affonso disse...

'Aconteceu em Woodstock' está na minha lista, mas a críticas mistas acabam tirando um pouco a vontade de vero filme. Eu nunca vou entender o enorme sucesso de 'Um Sonho Possível' é a típica história retratada em tantos outros filmes. Mas algo que eu realmente não compreendo e não aceito é a vitória de Sandra Bullock em cima de nomes muito mais competentes na cerimônia do Oscar.

http://cinemaemdvd.blogspot.com/

Wallace Andrioli Guedes disse...

Para mim, Um Sonho Possível é "a típica história de superação de um garoto pobre e de redenção para uma família rica, explorada por um roteiro golpista." Não gostei nem um pouco.

Kamila disse...

Só assisti a "Um Sonho Possível" e concordo com alguns dos seus comentários sobre o filme. Mas, o roteiro é muito perfeitinho, falta a existência de conflitos. Porém, o filme funciona enquanto dura e isso é suficiente.

Rafael Carvalho disse...

De fato, Gustavo, e são totalmente diferentes entre si. Aliás, um cineasta como o Jodorowsky não existe igual. Veja os filmes assim que puder.

Kah, realmente os comentário sobre o Woodstock não são todos positivos, muita gente não gostou do filme. E também não entenderei o sucesso de Um Sonho Possível. A vitória da Bullock no Oscar é até entendível porque é o tipo de premiação que eleva demais o estrelismo dela (o que sempre gera mais grana, para ela e para os estúdios), mas por outro lado diminui demais a credibilidade da premiação em si.

Wallace, não acho que o filme se apegue a esse mote o tempo todo. Ainda acho que tem algo de bondade naquela história, mas os caminhos que o filme segue são muito discutíveis.

Kamila, conflitos eu acho que existem, mas tudo é muito perfeitinho, como você disse, tudo se resolve facilmente depois de todo o drama. Acho que o filme escorrega várias vezes, apesar das boas intenções.

bruno knott disse...

Gostei de Um Sonho Possível um pouco mais do que você, mas os motivos foram os mesmos.

Agora, este O Tempo que Resta me chamou muito a atenção. Vou AGORA atrás dele.

Abs!

Rafael Carvalho disse...

Sério que você gostou mais de Um Sonho Possível? O filme não me desce e agora passado um tempo de assistido, nem faço questão de tê-lo visto. E que bom que meu texto te deixou curioso acerca de O Tempo que Resta, o filme é muito bom e tem uma construção interessante e bem anticlimática.