sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Marginalidade idealizada

Capitães da Areia (Idem, Brasil, 2011)
Dir: Cecília Amado



É muito bom que Capitães da Areia, adaptado do livro homônimo de Jorge Amado pela própria neta do escritor baiano, tenha lá suas liberdades de transposição para as telas. Além de mudar a ambientação temporal da trama para a década de 50 (o livro foi lançado em 1937), o filme ainda se concentra numa quantidade razoável de personagens, dos muitos que povoam o universo dos moradores mirins e malandros das ruas de Salvador.

Porém, mesmo com essas escolhas, o filme de Cecília Amado está longe de se redimir de problemas, muito por um tom idealista que a história carrega, injetando doses de autopiedade que pouco ajudam a criar um universo mais crível e, principalmente, mais crítico sobre uma mazela social. Sob a liderança do jovem Pedro Bala (vivido por Jean Luis Amorim), aquelas crianças se constituem como uma gangue juvenil, astuta e sorrateira, se instituindo como uma família, reconhecida do povo da região pela malandragem com que vive de roubos e pequenos delitos.

Não existe um conflito específico na história, uma problemática que surja e guie a narrativa. Pode-se pensar na própria ideia de meninos e meninas vivendo nas ruas de uma grande cidade, marginalizados e marginalizando, como o grande foco do filme, ponto de intersecção entre os personagens que ganham destaque: fora o líder Pedro Bala, há o Professor, único que sabe ler e escrever; Gato, que mantém um relacionamento apaixonado e correspondido por uma mulher da vida; Sem Pernas, garoto coxo que explora sua deficiência para ganhar a confiança das senhoras de família; Boa Vida, o mais engraçado do grupo; e Dora, a menina desamparada que chega trazendo desconfiança, mas que conquista seu lugar (e o amor de Pedro Bala).

Cada um deles possui seus próprios anseios, conflitos específicos, ainda que o filme não consiga reservar espaço suficiente para desenvolver seus dramas (grande armadilha das histórias com muitos personagens). Nesse sentido, Capitães da Areia aproveita essas histórias para acentuar o caráter de infância roubada através daqueles garotos que precisam se portar como homens, donos de seus próprios destinos. Esse é um dos pontos mais enfatizados pelo longa, sempre nos lembrando dessa relação (a cena no carrossel é emblemática nesse sentido porque revela a veia ainda infantil daquelas “crianças”), embora não haja aí nada de muito novo.

Por outro lado, para essa caracterização, incomoda muito os atores mirins não-profissionais que atuam e proferem seus diálogos sem grande emoção, quase que mecanicamente. Salva a gaiatice de Boa Vida (Jordan Matheus). A direção de Cecília Amado também não confere muita movimentação aos atores nas cenas, abusando do stop motion e de uma montagem picotada para conferir um tom de “agilidade” ao longa.

(É de se pensar essa obstinação em trabalhar com atores não profissionais que, de alguma forma, estão próximos da realidade retratada. O fato de meninos terem familiaridade com ambiente e situações do filme não significa que eles são os intérpretes ideais, porque aqueles na tela não são eles, são representações idealizadas, pensadas e repensadas por roteiristas e diretores. Quando mal dirigidos, os resultados são incômodos).

Mas o maior entrave de Capitães da Areia se encontra num tom idealista que parece apresentar tudo de forma romântica demais. Mesmo nas situações de perigo (como a briga entre as duas gangues), há um tom mais aventuresco do que de risco propriamente. A partir do momento que o filme não se esforça para fazer nenhum comentário sobre as dificuldades e complexidades daquela situação social, a história recai para o bonitinho demais dentro de uma realidade nada bonitinha. É como se o filme, ao tentar nos tapear com a sensação de “lirismo”, enganasse (e cegasse) a si próprio como projeto de valor.

Esse idealismo tão mal representado no filme (nem todo idealismo é negativo, não vamos exagerar) talvez já estivesse presente lá no livro (faz um bom tempo que eu li, desculpem pela imprecisão), que o filme só reproduz. Mas independente de quem seja a culpa, o resultado é o mesmo: o retrato idealizado de uma marginalização.

6 comentários:

Anônimo disse...

Gostei por demais do filme. E concordo com você quando diz que o filme é lírico demais dentro da realidade que cerca a vida dos meninas e meninas de ruas de "Capitães da Areia". Mas, mesmo assim, o filme acaba por se tornar um grande poema em prosa, cujo projeto pictórico, dá conta dos anseios e desejos de cada personagem ampliando assim o horizonte de desgraça que os cerca.
Pedro Bala, Professor e Dora, dão conta de uma vida, que mesmo na desgraça, nos faz passar a ideia de uma família, essa raiz tão forte e necessária para o bem desenrolar de algumas vida. Mesmo que essas vidas vivam em delinquência.

Poeta cearense Chico Miranda.

Amanda Aouad disse...

Pois é, o filme leva pelo lado do sentimentalismo, quando o livro era político, tanto que quando lançado em 37 foi censurado pelo governo Vargas por ser apologia ao comunismo. O filme tem prós e contras e os dois piores são o que você falou, não-atores fracos e texto picotados.

bjs

Patty Chaves disse...

Não assisti o filme ainda, mas concordo contigo quanto à usar atores não-profissionais no cinema. Isso funcionou muito bem em alguns filmes do Neo realismo e eu acredito q o sucesso foi devido à ótimas direções que os filmes da época tiveram, já hoje em dia...

Linderval Souza disse...

Li o livro por varias vezes,ainda não vi o filme,estas adaptações nem sempre são bem feitas.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Vou assistir...Gosto do romance


O Falcão Maltês

Rafael Carvalho disse...

Caro Chico, acho que essa ideia de família, de grupo e de resistência poderiam encontrar melhor tradução se o filme fosse melhor desenvolvido em seus detalhes, deixando de lado o lirismo de uma vida deliquente.

Amanda, o grande problema é esse tom idealista como se a vida daqueles meninos, daquele jeito que é, fosse uma maravilha para os propósitos do filme. É quase como se a diretora e responsáveis estivessem se aproveitando daquela situação para lucar em cima disso. Sem falar que a direção da Cecília Amado é um tanto frouxa. Uma pena!

Patty, essa coisa dos atores não-profissionais me parece um grande problema quando mal utilizados no cinema. Mesmo no neorrealismo os não-atores muitas vezes entregavam atuações impecáveis (lembro agora do pai e filho de Ladrões de Bicicleta, do De Sica, por exemplo), isso porque eram bem dirigidos, como você bem colocou. É o que não acontece com o filme baiano.

Linderval, acho que o problema, no fundo, não é nem a transposição do livro para o filme, mas o trabalho de composição do filme em si, como produto distinto. E aqui muitas coisas desandam, como o desenvolvimento das muitas narrativas e a fraca encenação.

Vá lá, Antonio. Tem muita gente gostando do filme, e ele pode te cativar. Depois diga o que achou.