quinta-feira, 3 de junho de 2010

Filmes do Panorama (parte I)

Uma rápida passada em Salvador me deu a oportunidade de aproveitar três dias no VI Panorama Internacional Coisa de Cinema, festival realizado no Espaço Unibanco Glauber Rocha (e também na Sala Walter da Silveira). O evento termina hoje. Fica aqui e nos próximos posts algumas impressões do que pude conferir nesses dias intensos de cinema.


Madadayo (Idem, Japão, 1993)
Dir: Akira Kurosawa


Último filme do mestre japonês, não deixa de ser curioso que Madadayo possa ser visto como o cato de cisne do autor. Uma espécie de filme-testamento, um grand finale para uma carreira sublime (mesmo com seus altos e baixos). Não que a obra se equipare em qualidade aos melhores de seus filmes (como Rashomon – do qual sou fã fervoroso –, Ran e Sonhos), mas porque, ao contar a história do professor aposentado que perde tudo durante a guerra (exceto seus amigos), o cineasta faz uma grande reverência àqueles que vivem com dignidade, apesar das contravenções do destino.

A rudeza inicial do professor Uchida (Tatsuo Matsumura) cede lugar à humildade face a um modo de vida mais simples (ele precisará, por exemplo, abandonar o casarão onde vivia com a esposa para habitar um pequeno cubículo no meio da floresta). Talvez um tanto longo demais, e com algumas sequências desnecessárias, o filme traz a marca inconfundível de seu autor na vagarosidade com leva sua narrativa. Nesse sentido, a comemoração de aniversário do professor ou o sumiço de uma gata se tornam momentos que o filme faz questão de dar importância. E o belíssimo final remete a nada menos que ao grande cerne de Cidadão Kane. O professor Uchida também tem sua rosebud, sua recordação de infância, que nem os tempos difíceis conseguiram apagar da memória.


Um Lugar ao Sol (Idem, Brasil, 2009)
Dir: Gabriel Mascaro


Um Lugar ao Sol é o típico documentário que vale muito pelos depoimentos que coleta, muitas vezes deixando o espectador embasbacado pelo que acabou de ouvir. A proposta é conversar com pessoas que moram em coberturas de grandes edifícios das cidades do Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, característica inconfundível daqueles com alto poder aquisitivo, os que concentram grande parte da renda no Brasil. Poucos deles se dispuseram a falar. O resultado, por vezes, é assustador. Como quando uma senhora se diz privilegiada porque ali ela estaria mais pertinho de Deus.

Interessante destacar certo traço do cinema documental contemporâneo em investigar determinado objeto a partir de um ponto de vista específico. Nesse caso, Um Lugar ao Sol se propõe a um contato com a mentalidade de uma classe alta alta, demonstrando toda sua fragilidade de pensamento burguês, sem cair na “obrigação” de ter de ouvir o outro lado. Pena que em determinado momento, o documentário se acomode em sua própria proposta apostando somente na fala de seus entrevistados, sem ousar demais.


A Alma do Osso (Idem, Brasil, 2010)
Dir: Cao Guimarães


Paciência há de ter um limite. A Alma do Osso ultrapassou o meu a partir de uma investigação que não parece dizer muito sobre coisa nenhuma, embora a gente espere esse alguma coisa por um bom tempo. Fazendo parte da chamada Trilogia da Solidão (composta ainda por Andarilho e o ainda não-realizado O Homem da Multidão), o filme acompanha o dia-a-dia de um ermitão que vive numa caverna no meio do nada, longe de todos. A câmera acompanha os afazeres daquele senhor, tais como acender uma fogueira, fazer café e comida em latas sujas, cantar e tocar violão à noite.

O problema aqui não é necessariamente porque o filme tem esse tom arrastado. Andarilho, por exemplo, possui essa mesma atmosfera de lentidão, mas é extremamente mais interessante por aquilo que ele consegue deixar impresso nas entrelinhas, na visão subjetiva do espectador. Acompanhar o ermitão é tarefa cansativa que não funciona nem como aventura estética. Mas é nos seus momentos finais que o filme se trai completamente. Temos a oportunidade de ver aquele senhor falar, o que deixa entrever um personagem muito mais interessante do que nos foi apresentado nos minutos anteriores.


O Inferno de Henri-Georges Clouzot (L’Enfer d’Henri-Georges Clouzot, França, 2009)
Dir: Serge Bromberg e Ruxandra Medrea


Os comentários positivos em torno desse filme me despertaram para a urgência de conhecer o cinema de Henri-Georges Clouzot, antes de conferir o documentário sobre o processo de produção de uma obra que teria tudo para receber a denominação de “revolucionária”. L’Enfer era a menina dos olhos de uma cineasta que recebeu, em 1964, carta branca (e bastante dinheiro) de um estúdio norte-americano para filmar como quisesse a história de um homem (Serge Reggiani) que enlouquece de ciúmes pela bela esposa, interpretada por Romy Schneider.Vindo de um cineasta que já tinha feito pelo menos uma obra-prima, As Diabólicas, Clouzot pensava em fazer algo grandioso.

Durante a produção, diretor e equipe testavam todo tipo de aparato, desde novos experimentos com a iluminação, o revezamento entre imagens preto-e-branco e coloridas, efeitos de luz que acentuassem o delírio do personagem, aliado a um trabalho de maquiagem e figurino específico para fins de coloração na película, até distorção dos sons e ruídos. Mas Clouzot nunca sabia o que queria, a equipe se distanciava cada vez mais do filme, a tensão era crescente, culminando com o ataque cardíaco do diretor e o conseqüente abandono das filmagens. O filme nunca seria concluído. O atual documentário, bastante pontual, passeia por todas essas questões, mas vale muito por revelar, enfim, as imagens e testes realizados por Clouzot, esse homem que transformou em inferno sua própria obsessão.

PS: Claude Chabrol, em 1994, iria filmar o roteiro deixado por Clouzot em Ciúme - O Inferno do Amor Possessivo, fato que o documentário nem sequer cita. E é um grande Chabrol.

4 comentários:

Leandro Afonso Guimarães disse...

O maior problema, e um dos melhores textos sobre UM LUGAR AO SOL, está bem exposto na crítica da Cinética, salvo engano do Fábio Andrade. Embora ainda ache o filme bom, maiores poréns estão ali - além de um sublinhar talvez forte demais.

Ps: Nem sabia que você viria, cara.

bruno knott disse...

Akira Kurosawa é o meu diretor preferido e concordo com tudo o que você escreveu sobre Madadayo.

Mesmo não sendo tão bom como Rashomon e Ran, ele tem muitas qualidades.

De fato funciona como um tipo de despedida do diretor, ainda que Madadayo signifique "ainda não".

Quanto ao A Alma do Osso, me pareceu interessante, mesmo com esse ritmo arrastado... mas pelo jeito há um exagero. Vou procurar conferir.

Abs.

Vulgo Dudu disse...

Inferno é um filmaço! Eu fiz a crítica para o Jornal do Brasil, mas o filme ainda não estreou por aqui - o que é uma pena, porque Clouzot era um gênio! Achei o documentário sensacional porque ele não pretende se descolar do filme. No fundo, é como se desse a nós, espectadores, a oportunidade de pode ver o original.

Abs!

Rafael Carvalho disse...

Pois é Leandro, e nem eu sabia mesmo se daria para eu ir, mas acabei chegando lá, mesmo que para ficar poucos dias. E perdi seu número de telefone, por isso não entrei em contato. Sobre o filme, o maior porém é mesmo uma certa comodidade nos depoimentos, sem muitos aprofundamentos. Mas vale pela discussão que provoca.

Kurosawa pode não ser meu cineasta preferido, Bruno, mas é um grande humanista. E sabe que cada vez que penso em Madadayo minha admiração pelo filme aumenta um tantinho, pela simplicidade e verdade? E A Alma do Osso é realmente exagerado em sua proposta de observação. Não é para qualquer um, mesmo.

Dudu, também gostei bastante de Inferno e a opção de fazer um percurso cronológico das ações foi bem acertada. Como você bem disse, tivemos ainda a oportunidade de conferir as experimentações do cara, é quase como assistir ao filme.