domingo, 5 de outubro de 2008

Curtas

O Primeiro Dia (Idem, Brasil/França, 1999)
Dir: Walter Salles e Daniela Thomas


Mesmo quando trata de violência, Walter Salles, aqui juntamente com Daniela Thomas, consegue alcançar o poético. O Primeiro Dia, filmado logo após Central do Brasil, e pouquíssimo visto, foi feito sob encomenda para a TV francesa, e é parte de uma série de longas que retratam o último dia do século XX. Para isso, os diretores tiveram total liberdade para criar uma história em cima da situação. No Rio de Janeiro, o presidiário João (Luís Carlos Vasconcelos) é levado a fugir da prisão com ajuda do próprio carcereiro-chefe (Tonico Pereira), mas em troca tem de matar o traficante Francisco (Mateus Nachtergaele), seu amigo de infância. Paralelamente, Maria (Fernanda Torres) entra em desespero quando seu marido desaparece de sua vida, terminando o relacionamento. A dureza da vida dos personagens ligados ao crime se mostra mais aterradora e evidente na seqüência em que Francisco faz uma prece com uma arma apontada para sua cabeça (um dos grandes momentos do filme). Mas o encontre entre Maria e João na virada do milênio transforma o desespero de duas vidas em uma possível salvação. O filme é ainda um tratado contra a violência, que a despeito de ser renegada por João na virada do ano, se mostra cada vez mais longe de desaparecer da nossa sociedade, como fica claro pelo desfecho do filme. O primeiro dia nem sempre significa recomeço.


Zona do Crime (La Zona, México/Espanha, 2007)
Dir: Rodrigo Plá


Esse filme é o tipo de produção que conta com uma boa história, mas que não é bem aproveitada. E o problema parece estar mais na direção já que o roteiro faz um estudo muito interessante sobre a diferença de classes, o apartheid social e a violência urbana tão atuais. Na Cidade do México, cercada por favelas, uma espécie de grande condomínio, a Zona, abriga pessoas de classe média. Quando três jovens de uma favela invadem o local para um assalto, tanto um dos moradores quanto dois dos invasores acabam mortos; começa então uma busca para encontrar o terceiro rapaz. O filme ainda tenta fazer um estudo sobre a inversão da “Lei”, pois vamos descobrir que os moradores da Zona possuem sua própria autoridade dentro do local e decidem, eles mesmos, caçar e eliminar o intruso, sem interferência das forças policiais. Mas o diretor Rodrigo Plá não avança na análise, pecando por uma abordagem superficial, com direito a final piegas em que um personagem se arrepende por ter sido tão cruel com o “coitadinho do garoto da favela”. Existem no filme outros pontos interessantes (a importância da figura materna tanto do garoto de classe média quanto do favelado, o filho que vê no pai a figura do vilão, a tentativa de parte da policia em investigar o caso com seriedade, a corrupção policial que impede essa tentativa), mas que permanecem soltos e mal encaixados numa história que só encontra seu foco nos últimos momentos. Tarde demais.


Caótica Ana (Caótica Ana, Espanha, 2007)
Dir: Julio Medem


Caótica Ana á equivocado, sem rumo, sem foco, atira para todos os lados e não acerta em nenhum. Uma confusão que frustra o espectador pela ausência de sentido da maioria das seqüências que parecem todas incompletas. A história da garota hippie (Manuela Vellés), pintora exemplar, que mora com o pai numa caverna e é descoberta por uma mecenas (Charlotte Rampling, surpreendendo falando espanhol) para morar na capital junto com outros jovens talentos começa até bem. Mas envereda por caminhos no mínimo estranhos. A relação de Ana com o pintor Said (Nicolas Cazalé) logo é interrompida pela descoberta de seus dons de relembrar vidas passadas através da hipnose; a partir daí a narrativa se torna confusa e sem consistência. Tudo no filme acontece muito rápido e parece nunca se fechar. Na tentativa de parecer descolado, Julio Medem só conseguiu criar um filme que se sabota o tempo todo. E o mais decepcionante disso é que dois de seus filmes anteriores, Lúcia e o Sexo e principalmente Os Amantes do Círculo Polar, são muito bons. Tá certo que a vida de Ana pode ser assim caótica, o que não signifique que o filme precise ser também. E quando a gente acha que já vai acabar, ainda resta uma seqüência final para afundar o que já estava perto do fundo do poço.

7 comentários:

Alex Gonçalves disse...

Rafael, não fale mal de "Caótica Ana"! Comprei o DVD e você me trás um comentário tão desanimador... Espero conseguir apreciar o filme quando vê-lo. E não vi os outros dois filmes, mas pretendo assistir "Zona do Crime" ainda este mês.

Boa semana.

Hélio disse...

Rá! Eu nao disse que o Caotica Ana era um cocô?

E o Zona do Crime eu concordo que tenha defeitos e seja ate cliche em alguns momentos, mas foi um filme que me pegou de jeito. Era o tipo de filme que deveria ser feito no Brasil (filme de genero comentando o estado das coisas), mas infelizmente nao é coisa que aparece por aqui.

Agora, impressionante como nao consigo lembrar de O Primeiro Dia. Tenho quase certeza que vi esse no cinema... ou nao?!

Comentando seu comentario la no blog: acho q eu teria gostado mais de Coraçao Selvagem se tivesse visto na epoca, ou conhecesse menos filmes do Lynch. Fã como sou de Veludo Azul, Estrada Perdida, Cidade dos Sonhos e Imperio dos Sonhos, ficou dificil me empolgar com esse, q é mais do mesmo versao light (ainda q tenha surgido antes de todos esses, exceto veludo azul).

Ja A Viagem do Balao Vermelho nao é diretamente ligado ao filme original, nem continuaçao ou versao extendida. Uma personagem do filme é estudante de cinema e esta fazendo um remake. O filme é lindo nao por essa relaçao (as vezes bem enigmatica), mas pelo registro da vida como ela é... coisa q muita gente boa e ruim faz no cinema, mas a forma que ela vai acontecendo na tela é que hipnotiza.

Abraços!

Romeika disse...

Dos filmes analisados, vi apenas "Zona do Crime" e concordo com tudo que vc escreveu. Realmente eh uma ideia interessante, mas completamente mal aproveitada pelo roteiro equivocado. O pior eh q o filme quer dar uma de "ousado" numa certa cena violenta ao fim, o que o enfraquece ainda mais.

fabiana disse...

Só assisti ´O primeiro dia´, na época que saiu nos cinemas aqui. Achei poético também!

Rafael Carvalho disse...

Ih Alex, sinto muito diminuir suas expectativas, mas assista ao filme e depois fale se gostou. Além disso, há sempre a possibilidade de você vender o DVD, né? Só não sei quem vai querer comprar... rsrsrsrsrsrs (que comentário maldoso, esse o meu!)

Realmente Hélio, uma bosta aquele filme do Medem. E acredito que nosso cinema produz alguns filmes que tratam do estado das coisa, talvez não nesse nível mais social. Sobre o Primeiro Dia, é só refrescar a mente (re)conferindo no DVD. Vale muito a pena. E entendo a colocação sobre Coração Selvagem, com tanta coisa boa que o cara fez, é preciso que os próximos filmes vistos sejam muito bons. Mas eu adoro ele, muito mais que Veludo Azul. A Estrada Perdida não vi, ainda. E mesmo que os curta e longa sobre o Balão Vermelho não estejam tão interligados, tentarei ver o curta antes do longa. Até porque só Deus sabe quando vou assitir ao filme do Hsiao-hsien.

Então Romeika, Zona do Crime foi até mal de bilheteria acho que por isso. Se fosse mais bem relaizado, teria muito mais potencial no mercado, além de tratar de um tema que interessa tanto aos países da América Latina.

Que felicidade de ter visto o filme nos cinemas em Fabiana? As cenas da virada do milênio são de uma sensibilidade incrível. Viva o Walter e a Danila. Pena que ainda não tive a oportunidade de ver Linha de Passe.

Carol Machado disse...

Eu adorei Caótica Ana. Achei intenso e criativo.

Rafael Carvalho disse...

Carol, eu detestei. Tão caótico como a vida da própria Ana. O Medem já foi muito mais sensível para fazer um filme desses. É quase uma afronta. Mas se você encontrou validade nele, tudo bem.