domingo, 22 de novembro de 2009

O prazer cinéfilo

Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, EUA/Alemanha, 2009)
Dir: Quentin Tarantino

Que Quentin Tarantino é um grande cinéfilo, todo mundo já sabe. Mas nesse seu mais novo filme ele deixa isso bem claro, recheando Bastardos Inglórios de referências cinematográficas, situando seus personagens riquíssimos em volta de um cinema e construindo, mais uma vez, uma narrativa entrecruzada cheia de reviravoltas, filmada com classe e inventividade.

O fato de se passar em fins da II Guerra, só reforça a ousadia de um autor que, mesmo se apegando aos mesmos artifícios de seus filmes anteriores (narrativa cíclica, diálogos cortantes, brutalidade visível), sabe se reinventar como ninguém. Parece presente de Natal antecipado.

O trailer e a sinopse disponibilizados antes do lançamento faziam crer que a história girava em torno do grupo suicida de judeus chefiado por Aldo Raine (Brad Pitt) com a missão de matar a maior quantidade de nazistas possível. Mas esse plot parece mais uma subtrama pois é tão importante quanto a história de Shoshanna (Mélanie Laurent), garota judia que teve sua família assassinada pelo coronel e caçador de judeus Hans Landa (Christoph Waltz, sensacional), mas que terá, apropriadamente, sua oportunidade de vingança.

A narrativa do filme se entrecruza como bem saber fazer Tarantino, aliado a seu sempre visível talento em escrever grandes diálogos. Daí surgem algumas boas indiretas como “Na França nós respeitamos os cineastas”, dito por Shoshanna, agora dona de um cinema na França, ou na cena final em que um personagem diz “Acho que essa é minha obra-prima” ou em vários outros momentos do filme em que a questão da língua se torna evidente (falado em inglês, alemão, francês e italiano, o filme alfineta o tempo todo os norte-americanos que só sabem falar seu próprio idioma).


Mas um dos maiores méritos do filme está na capacidade de criar tensão constante, do qual é possível citar vários exemplos, como a conversa de Landa com o fazendeiro, o reencontro com Shoshanna no restaurante, o clima de falsos amigos na taberna, a investida na cabine de projeção. Todos aliados a uma trilha sonora evocativa e ao fator surpresa que finaliza as sequências de forma a nos deixar pasmos, lembrando ainda das boas doses de violência aplicada.

E apesar de Christoph Waltz ser sempre lembrado por sua incrível atuação (e o cara faz miséria com texto e personagem tão cínicos e impiedosos), todo o elenco é de se aplaudir, como uma Mélanie Laurent docemente perigosa, um Daniel Brühl galante, até um Brad Pitt altamente canastrão, passando por uma Diane Kruger bela e conciliadora (só Eli Roth parece perdido no meio de tudo e apele para a cara de mau).

Por fim, ainda sobre ousadia para o cineasta reinventar a História em prol de sua história, levando a verossimilhança às favas. Aproveita ainda o percurso para acentuar a força do cinema em mudar o curso da História. Acima de tudo, esse é um filme sobre o Cinema e seu poder transformador. Cinema com C maiúsculo!

7 comentários:

Diego Rodrigues disse...

Pôxa... Meia estrelinha a mais só! Só meia estrelinha... Só meia estrelinha... (tentando ver se afeta o psicológico)

Carla disse...

eu concordo com o garotinho ai.. meia estrelinha, véi!
ta certo... eu não tenho moral.
tudo bem... eu sou suspeita. mas fala sério:
Tarantino é o mother-Fucker do Cinema... e com C Bem grande. rss
"that's a BINGO!" rss

Gustavo disse...

Onde assino?

Prazer cinéfilo.

Vulgo Dudu disse...

De fato, Tarantino me surpreendeu com Bastardos Inglórios! Um filme que consegue ser divertido e intenso na dose certa. Uma mistura de Sergio Leone com Fassbinder. Sei lá...

E você tem toda a razão sobre o elenco.Estão todos impecáveis!

Abs!

Elizio disse...

Rapaz, eu ando desinformado mesmo no meu mundo cinéfilico (será que é ainda assim?!?)!!!!
A primeira vez que fui ver falar do filme ( e nçao li para não ter novidades...) foi aqui! Mas, p número de esterlas me surpreendeu! Superou "Entre os Muros da Escola". Agora eu quero ver!!!!! Trate de me arranjar uma cópia, viu?

Wallace Andrioli Guedes disse...

Belo texto. O que mais dizer sobre essa maravilha de filme?

Rafael Carvalho disse...

Pois é Diego, só pode ser mesmo o psicológico, mas é o tipo de coisa que a gente sente. Bastardos é um grande filme, mas 4 estrelas e meia é a nota ideal nesse momento.

Como assim não tem moral Carla? Tem sim, mas acho que nesse momento a nota ideal é essa. E acho que eu também sou suspeito, o mother fucker sempre se supera. Incrível.

Gustavo, tá assinado!

Dudu, agora que você falou, a combinação Leone-Fassbinder é perfeita. Só a mente geniosa do cara pra fazer isso. E é incrível como ele tem essa capacidade de surpreender, mesmo usando as mesmas características de seu cinema.

Elizio, meu amigo, tá sumido por aqui mesmo, viu! E sabe que eu tinha colocado o filme em segundo lugar no ranking, mas aí depois eu resolvi passar para o top. E acredito que vai ser difícil te conseguir uma cópia porque vi o filme no bom e velho cinema (inclusive junto com Carla). Mas aí deve tá passando, moço! Tome vergonha na cara, dê um descanso para si mesmo e vá ver no cinema.

Então Wallace, acho que dava para escrever um monte de coisas mais, Tarantino é sempre estimulante, e ainda te aquelas várias referências cinéfilas que ele adora.