sábado, 10 de setembro de 2016

CachoeiraDoc – Parte II


Taego Ãwa (Idem, Brasil, 2016) 
Direção: Marcela Borela e Henrique Borela


A demarcação e apropriação de terras é uma das questões que mais persegue a luta pela afirmação dos povos indígenas remanescentes no Brasil. Taego Ãwa poderia muito bem se concentrar nessa questão, enfrentá-la e problematizá-la, mas prefere outro caminho narrativo, sem ter de negar a proposição do embate. O filme propõe um confronto (ou talvez um simples encontro) com algumas imagens de arquivo, resgatadas pelos dois diretores a partir de fitas VHS encontradas numa universidade.

Essas imagens intercomunicam-se com as imagens possíveis da vida atual daquela tribo. O filme tem a disposição de observar a rotina do povo Ãwa assim como observamos nos arquivos certas marcas de uma rotina que nunca deixou de ser de sobrevivência e afirmação da própria resistência deles naquele espaço. Os índios da tribo Ãwa foram em grande parte dizimados e muitos de seus membros espalharam-se pelo Brasil. Há pouco tempo, voltaram a se unir e lutam, junto aos órgãos do governo, pela demarcação de terras, suas por direito.

Não há como fugir da discussão sobre a memória e de certa preservação dos modos de vida no passado que, em certa medida, são tão diferentes da atual, pela força das próprias circunstâncias que modificaram e, em parte, dizimaram a vida dos povos Ãwa. No entanto, essas imagens dizem muito mais respeito a uma memória que possa ser acessada por povos não indígenas na medida em que esse tipo de registro não nos é comum, corriqueiro, nem costumam ter relevância

Se pensarmos que a grande força de transmissão cultural da tradição indígena se faz a partir da oralidade, essa memória resgatada pelas imagens não deixam de ser um modo de representação feito pelo outro lado da moeda (ou da câmera), assim como as imagens atuais da tribo também o são. O que os irmãos Borela parecem fazer aqui é reforçar o diálogo entre esses registros como uma proposição de encontro. Uma das sequências mais marcantes é o registro de um longo processo de um índio caçando um veado, um embate que se dá no âmbito das leis da natureza, mas também sublinha a determinação e os modos de sobrevivência que os mantém de pé até hoje. 

O filme não está interessado em revelar as surpresas ou reações que os índios tiveram com essas imagens, como forma de reconhecimento e espelho, mesmo que levando em conta a distância temporal. Mas o revelar dessas imagens ilumina um passado que é de constituição de um povo, e nos lembra da ausência que esse tipo de registro ajuda a negar a própria forma de resistência atual dos povos indígenas. A vida dos Ãwa corre, passam pela rotina, pela pintura corporal tradicional, ainda que paralelamente a luta pela reafirmação de seu espaço esteja em curso.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

CachoeiraDoc – Parte I

Kbela (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Yasmin Thayná


Uma belíssima surpresa a exibição desse incensado curta-metragem que fechou o dia de abertura do CachoeiraDoc, exibido em praça pública na noite da terça-feira. Kbela é um claro manifesto que coloca em questão a mulher negra e uma série de questões, especialmente em relação com seu próprio corpo.
 

Dirigido por uma cineasta negra, militante, engajada e ciente do seu papel como comunicadora e artista com voz e olhar capazes de por em tela representações dessa negritude feminina e muita coisa que vem junto com ela, o filme poderia ser um simples panfleto, mas passa bem longe disso. Yasmin Thayná escolhe seguir um fluxo narrativo performático, apresentando uma série de situações ou “cenas” independentes – apesar dos temas serem confluentes e orgânicos – ora flertando com o surrealismo, em outros momentos com o documentário ou com o musical.

O filme é como um mosaico de esquetes, colocando em questão a resistência da mulher negra, especialmente a partir da afirmação do seu próprio corpo – os lábios coloridos falando palavras de desrespeito, a cabeça suspensa de uma mulher negra recebendo todo tipo de tratamento químico para o cabelo ficar liso, uma mulher cortando o cabelo da outra; são todas imagens que reafirmam o corpo como algo potente e representativo, e por isso o filme termina com uma dança que, ao mesmo tempo, evoca ancestralidade e a própria liberdade do corpo.

Mais do que pretender proferir um discurso antirracista, de colocar o dedo na ferida de modo explícito e dito literalmente, de ter que mais uma vez explicar, exemplificar, mostrar o rosto de uma mulher a contar seu sofrimento ou a sua luta social, expor os modos pelos quais o preconceito emerge – que é o que grande parte dos filmes têm feito –, o curta de Yasmin prefere simplesmente mostrar para reverberar. Kbela possui uma grande convicção no poder da imagem que, consequentemente, consegue fazer tudo isso de forma não direta e, portanto, clichê, mas a partir daquilo que as imagens evocam. Trata-se de um filme repleto de leituras possíveis, estimulantes a cada olhar.

E mais que isso: suas imagens são também carregadas de reverberações. Quando uma mulher negra aparece ensaboando o próprio cabelo e depois esfregando uma panela, sem nada dizer (é quase uma cena isolado no todo do filme), essa cena remete a uma série de imagens e discursos que pejorativamente associam o cabelo crespo de algumas mulheres ao “Bombril”. Ninguém precisa dizer isso no filme porque a imagem, por si só, já dá conta de nos fazer acessar todo um imaginário que já carregamos, historicamente, conosco. 

Não que a dor, o sofrimento, o desprezo e qualquer tipo de rejeição à presença de pessoas de pele escura não sejam mais importantes de serem retratados e refletidos frontalmente. Mas diante de uma saturação desse tipo de imagem e do discurso derrotista/denuncista, Kbela propõe a celebração do ser negro, com suas origens e ancestralidades, a partir de uma pulsão realmente cinematográfica.
 

VII CachoeiraDoc – Festival de Documentários de Cachoeira


Começou na última terça-feira mais uma edição do CachoeiraDoc, esse festival super quente e engajado que acontece na deliciosa cidade de Cachoeira. É minha terceira passagem e cobertura consecutivas por essa terra boa e por esse festival tão particular no cenário nacional de mostras de cinema.

O olhar e a presença feminina no cinema são questões centrais que o festival destaca este ano. Ainda que a politização sempre tenha sido uma marca registrada do CachoeiraDoc, agora as coisas parecem incontornáveis. Isso está presente não só na postura e nos discursos de quem participa e passa pelo festival – incluindo aí uma bonita manifestação dos estudantes do curso de cinema da UFRB na abertura, clamando por resistência –, mas também nos próprios filmes que temos visto na programação, vide o momento político conturbado que vivemos depois de um golpe constitucional ter sido consumado e preparado na nossa frente.

Como sempre, faço uma cobertura factual no Jornal A Tarde, e mantenho aqui no Moviola Digital a escrita mais detida sobre alguns filmes dessa fervilhante seleção que o festival oferece este ano.

Mais informações e detalhes, aqui o site oficial do CachoeiraDoc.

Fora isso, #foratemer.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Clara e os tubarões

Aquarius (Idem, Brasil, 2016)
Dir: Kleber Mendonça Filho


Numa cena no início de Aquarius, a protagonista Clara (Sônia Braga) vai tomar um banho de mar numa área onde há risco de tubarões. Ela é “escoltada” pela equipe de guarda costeira por ser uma antiga moradora do bairro e que possui relações de amizade com o chefe dos salva-vidas Roberval (Irandhir Santos). Mas os perigos do mar não a assustam.

Aquarius é o filme sobre essa forte mulher que resiste. Primeiro, ela resiste ao tempo – e Aquarius é um grande filme sobre a força da memória, sobre as coisas físicas que estão impregnadas de memória e sobre a importância de salvaguardá-las. Uma mulher de 60 anos, viúva, que mora sozinha em um apartamento cercado de discos – e de memórias, portanto – já que ela era uma crítica de música.

Ela também resiste às investidas de uma empreiteira que quer comprar seu apartamento localizado em um antigo prédio da orla de Boa Viagem, em Recife. Todos os demais imóveis do edifício já foram vendidos, e a empreiteira quer construir ali um condomínio de luxo, mas Clara insiste em não sair, em não deixar o lugar onde criou raízes e foi feliz. Clara resiste também a todas as investidas das pessoas ao seu redor, desde os filhos e irmãos, que só querem o seu bem da mulher.

Com a fibra que é inerente a Clara – há um primeiro flashback que encontra a protagonista na Recife dos anos 1980 quando, já casada, superou um câncer de mama –, o filme vai alimentando a tensão que a personagem começa a sofrer, especialmente a partir das investidas do jovem arquiteto que está à frente do projeto para reestruturar o lugar. Diego (Humberto Carrão) tem cara de menino, modos tímidos, mas faz acreditar que sua luta já está ganha.

Kleber Mendonça Filho já havia demonstrado mão precisa para criar certa tensão que não só aproxima seus filmes da narrativa de suspense, tão bem demonstrado em O Som ao Redor, como ainda faz surgir faíscas entre pessoas em lados opostos da situação, até mesmo entre pais e filhos. Há um movimento em crescendo: uma porta que bate de repente, pessoas antes queridas que te ameaçam de frente, um pesadelo ou a proximidade de uma abordagem violenta. Há uma sutileza aqui em comparação ao filme anterior, mas tudo busca empurrar a personagem contra a parede, embora ela esteja desde o início determinada a não ceder.

Em nenhum momento do filme a personagem precisa defender o porquê de não querer abandonar seu lar – e Aquarius trabalha com alguns não-ditos interessantes. Já no início do filme, numa cena em que é entrevista por uma jornalista, ela apresenta ali seus princípios. Clara conta sobre como um disco de vinil de John Lennon de sua coleção é tão importante porque, comprado num sebo, veio acompanhado do recorte de uma matéria sobre o Beatle mais famoso poucas semanas antes de sua morte. Aquele disco é como uma “mensagem na garrafa”, nas próprias palavras dela. Ali Clara reafirma o valor das coisas para além do material, tal como a penteadeira que antes pertenceu a uma tia sua muito querida – apresentada no prólogo do filme – e é como se reafirmasse a relação afetiva com o próprio apartamento.


Se não há nada mais físico que remeta às memórias do que fotografias, elas estarão presentes a todo instante no filme. É com elas que Kleber inicia a narrativa – assim como também iniciava o longa anterior – revivendo uma Recife de outrora. É através delas, cena tão comum, que a família se reúne, relembra pessoas e situações, resgata sua história. Impregnada dessas memórias, Clara segue viva e disposta a não deixá-las morrer.

A dissociação que algumas pessoas têm feito sobre os dois longas do diretor – O Som ao Redor seria mais cerebral enquanto Aquarius mais humano – pode ser pensada através dessa questão memorialística: Aquarius é um filme sobre a memória afetiva, pessoal, enquanto o longa anterior é sobre uma memória histórica, coletiva (o velho engenho, o coronelismo reconfigurado, as dinâmicas sociais que parecem se repetir, as consequências indiretas de nossa História nos dias atuais). Ainda assim, Aquarius também consegue ser um interessante retrato dos desmandos e desvios de moral de um país ainda marcado pela arbitrariedade política e pelas forças dos donos do capital, que querem ser os donos da terra.

Mas é fazendo uso desse traço afetuoso que o filme não deixa de abordar a sensualidade de sua protagonista. É mesmo muito interessante como o longa utiliza uma atriz tão iconicamente associada a filmes de carga sexual intensa – desde as adaptações de obras de Jorge Amado (Tieta do Agreste, Gabriela, Cravo e Canela, Dona Flor e Seus Dois Maridos), até filmes como A Dama do Lotação. Sônia Braga deixou uma marca forte no imaginário brasileiro como símbolo sexual, e Aquarius não ignora essa marca para agora, aos 60 anos, encontrar essa mulher ainda disposta ao sexo. E mais incrível ainda é perceber como Sônia Braga, depois de tanto longe longes das telas brasileiras de cinema, adapta-se e é muito bem dirigida para certo realismo social e narrativa naturalista que o trabalho de Kleber assumiu nos últimos anos. Todo o elenco segue no mesmo tom, sem afetações. 

Em algumas sequências Aquarius poderia ser mais conciso – o prólogo, por exemplo – e em outras, duram o quanto deveriam durar – a sequência das amigas na festa, a discussão com os filhos em casa. Mas fica cada vez mais evidente que Kleber esteja imprimindo em seus filmes uma marca muito própria em termos de construção de um fluxo narrativo sem atropelos, ainda que marcado de tensões, mas também nunca meramente caprichoso. Era assim também em O Som ao Redor, algo que o cineasta vai refinando cada vez com maior segurança. Clara firma-se como uma das grandes personagens femininas do cinema brasileiro enquanto luta contra os tubarões que lhe querem arrancar as memórias. Mas o tempo agora é de resistência.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Um corpo em um espaço

Fome (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Cristiano Burlan


Filme denso e provocador, Fome, do prolífico Cristiano Burlan, parece um filme cheio de nuances e questões, nem sempre fáceis de organizar talvez mesmo pelo caráter aglutinado que parte de uma situação inusitada: o filme é protagonizado pelo crítico e respeitado pesquisador Jean-Claude Bernardet, interpretando aqui, inusitadamente, um morador de rua.

Numa nova fase da carreira, Bernardet prefere estar frente às câmeras, ousar-se em papéis que exigem um lado mais performático/improvisado/subjetivo, em projetos com vontade maior de experimentar mesmo. Talvez estejamos aqui diante de seu melhor trabalho como ator nos últimos anos – depois de assumir o risco em filmes como Pingo D’Água e FilmeFobia, nesse último interpretando a si próprio.

Quando apresentou Fome no último Festival de Brasília, Bernardet falou de certa tradição da deambulação de personagens no cinema, o que resume bem seu papel e a trajetória incerta pelas ruas de São Paulo como mendigo. Empunha um carrinho cheio de quinquilharias, a cata de comida e sossego na metrópole que o filme capta como espaço tão amplo quanto aprisionador, repleto de “perigos” que a própria sociedade impõe a quem habita ali do lado de fora.

O diretor Cristiano Burlan embaralha alguns registros no filme e talvez por isso soe trôpego em alguns momentos. Acompanha esse personagem pela cidade, faz algumas entrevistas com moradores de rua reais e insere uma personagem feminina, uma estudante (Ana Carolina Marinho), que pesquisa a situação desses moradores. O filme divide-se entre a denúncia não de uma situação precária, mas antes da maneira como a sociedade média lida com esses sujeitos aparentemente desamparados nas ruas, mas também aponta para um traço de lirismo, do sujeito/ator que interage com os elementos e situações que cruza o seu caminho, ficcionalizados ou não; esses são os melhores momentos do filme – o encontro com um estranho cantor é um dos mais belos do longa.

No entanto, essa proposição de um recurso multifocal pode acabar minando as provocações que o filme poderia potencializar. No fundo, me parece que Fome resolveria-se muito melhor se se fixasse no âmbito da ficção – mesmo sendo aquele que encosta no mundo real. Não faço aqui uma defesa da ficção pura como algo de valor imanente. Há uma dezena de ótimos filmes, recentes ou não, que misturam registros, passeiam entre ficção e observação do real, em níveis distintos e com resultados incríveis. Mas essa é antes uma observação pontual num filme que, na ânsia inquieta de experimentar, constrói um discurso que muitas vezes soa como aleatório, pouco apurado na narrativa, ou mal posto no filme.

O personagem de Bernardet carrega em si uma personalidade arredia: não se sujeita a coitadismos, não assume postura condescendente e em certo momento, perto do fim do filme, numa cena com o também crítico Francis Vogner dos Reis, “revela” que está na rua porque assim o deseja, cansado da vida de professor universitário que levava. A cena certamente carrega certa graça pelo tom inusitado, pelo diálogo de embate entre os dois, mas nesse ponto o filme rompe mais uma vez com a ficção quando o Jean-Claude Bernardet professor, ensaísta e crítico experiente, homem que acumulou vivências e conhecimentos ao longo de tanto tempo de vida, reconhecido e respeitado no meio cinematográfico brasileiro, emerge na narrativa como de si mesmo, ainda que amparado em um personagem fictício. 

E aí a persona mendigo perde força na narrativa, pois soa como mero capricho no filme, experimento de classe média, personificado por essa figura tarimbada. A fotografia estilizada contrapõe-se ao título que remete à miséria, aos relatos duríssimos e reais de gente que sofre e faz da rua seu campo de batalha cotidiana. Tudo parece ser nublado pela direção conciliadora que o filme passa a promover. Fome é difícil de definir, distende-se em muitas direções e acaba diluindo-se nelas, mas ao menos nos confronta e mobiliza a discutir a relação de um corpo em um espaço, ambos muito peculiares e potentes por aquilo que carregam enquanto significantes de um imaginário real e palpável, mas não menos misteriosos.
 

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Autopancadaria

Esquadrão Suicida (Suicide Squad, EUA, 2016)
Dir: David Ayer


O mundo pop-nerd viva em alvoroço desde o anúncio da adaptação para os cinemas da HQ do Esquadrão Suicida, aposta da Warner/DC Comics no filme pancadaria do momento, depois de uma campanha de marketing repleta de hype em cima do projeto – a lógica do sucesso do filme comercial não pode abdicar da propaganda. Como muitas vezes acontece quando a expectativa é muito grande, o filme revela-se uma bela decepção pela própria incapacidade de domar o material que tem em mãos.

Se o lance agora é apostar em atmosferas sombrias e adultas, com boas doses de violência e pitadas de humor negro e deboche, o grande “atrativo” de Esquadrão Suicida estaria na sua premissa bad ass: reunir pessoal mal encarado e da pesada, mas com habilidades especiais, que os tonariam aptos a proteger o país – mais uma vez o tema da segurança nacional como mote. Temos ali a reunião dos anti-heróis, pessoas perturbadas e/ou criminosos encarcerados, reunidos como os piores entre os maus, a fim de formar uma coalizão para proteger a nação dos perigosos meta-humanos, aqueles com poderes especiais como o Superman, por exemplo – que sempre ajudou a salvar a Terra, diga-se.

Assim, o próprio conceito do filme já nasce sem muita originalidade e razão de ser, tornando-se dependente de certa boa vontade do público para ser aceito. Mas o filme não se contenta com esse “escorregão” e desenvolve tão mal seus personagens e sua trama que Esquadrão Suicida não demora para se revelar uma bagunça sem fim e irremediável.

Todo o hype em relação ao filme concentrava-se muito nos personagens, que acabam sendo ao mesmo tempo a força e a perdição do filme. São muitas histórias para apresentar, personagens que ficam pelo meio do caminho, outros que caem de paraquedas na trama, muitos flashbacks para explicar motivações e comportamentos dos novos justiceiros, o que torna a trama inchada e desproposital.

A versão do Coringa construída em/por Jared Leto era a mais alardeada e é a mais decepcionante pela forma cabotina com que aparece e pelo adendo que representa na história. Sobra espaço para a Arlequina de Margot Robbie triunfar. Ela tem boa presença, as melhores tiradas, mesmo que isso pareça ensaiado como forma do filme gritar “girl power” e, de quebra, sensualizar a personagem. Enquanto isso, o Pistoleiro (Will Smith) firma-se como protagonista na história, deixando para trás figuras mais interessantes como El Diablo (Jay Hernandez), e outros menos, como o Capitão Bumerangue (Jai Courtney) e o Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje). 

No fundo, Esquadrão Suicida parece um filme de pretexto para reunir personagens bizarros e intoleráveis, dotá-los de habilidades incomuns a fim de promoverem pancadaria na cidade, com o objetivo primordial de exibir esses mesmos personagens e suas excentricidades atrevidas com gosto de anarquia e curtição, casualmente tendo de salvar o mundo de ameaças mais terríveis do que eles já representam. 

E até a construção vilanesca que marca o perigo que eles têm de enfrentar é autoinfligido: a Magia (Cara Delevingne), poderosa feiticeira que se apossa do corpo de uma arqueóloga, seria mais uma integrante do grupo, mas não consegue controlar seus poderes e a vontade de libertar o irmão e dominar o mundo, ou algo perto disso. É como um tiro que não acertou o alvo, representação mais do que fiel do próprio Esquadrão Suicida.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Os nós da mente

A Loucura Entre Nós (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Fernanda Fontes Vareille


Dentro do hospital psiquiátrico Juliano Moreira, em Salvador, a diretora Fernanda Vareille mira sua câmera nos pacientes que ali fazem tratamento. Eles vivem encarcerados por trás das grades e das perturbações psicológicas que sofrem, em níveis distintos para cada um.
  
O documentário baiano A Loucura Entre Nós, que estreia essa semana nos cinemas brasileiros, tem o cuidado sensível de observar e dar voz a quem muitas vezes negamos a razão. Está longe de simplesmente pregar o traço de “lucidez” na loucura que os pacientes trariam consigo, espécie de clichê às vezes visto na representação de pessoas com esse quadro psicológico.

Felizmente o filme também não ignora a existência de casos mais graves de esquizofrenia e não deixa de pontuar que pode ser até mesmo perigoso para a diretora e equipe andarem desacompanhados por aqueles corredores, já que alguns pacientes podem apresentar comportamento agressivo. Há ainda os pacientes com discurso aleatório e desconexo, pessoas que vivem um grau menor de lucidez.

Enfim, trata-se de uma nuance difícil de apreender pela própria diversidade de comportamentos e casos particulares da doença. Mas o documentário é feliz em revelar dignidade no contato com o outro nessa posição de fragilidade, imprimindo respeito e demonstrando atenção pela história daquelas pessoas, num ano em que o cinema brasileiro lançou a ficção Nise – Coração da Loucura, de Roberto Berliner, acentuando a importância do trabalho da Dr. Nise no tratamento humanista do paciente esquizofrênico.

Ao partir nessa jornada, mais interessada numa apreensão do subjetivo, o documentário observa com grande atenção aqueles pacientes de um local específico . No entanto, a narrativa caminha no sentido de se afeiçoar a duas mulheres em condições diferentes de doença mental e que acabam colocando em questão muito do que significa estar naquela condição. Elizangela e Leonor tornam-se os faróis que guiam o filme.

São personagens que evoluem mesmo no decorrer da narrativa. A opção de não entrevistar nenhum médico, especialista ou algum representante da administração do hospital reforça esse caráter humanista e subjetivo, apreendido nas falas das personagens, e de outros pacientes, que acabam jogando luz sobre vários aspectos de uma dura rotina: as delicadas e doídas relações entre paciente e família, a solidão que atravessa o cotidiano, o companheirismo e as rixas entre os próprios pacientes, a aceitação de si e do outro. 

Quando uma das personagens canta a tristíssima Lágrimas Negras, canção imortalizada na voz de Gal Costa, enquanto realiza um trabalho manual qualquer, o filme abre-se para a dureza de uma vida cercada de limitações, sejam elas autoimpostas, socialmente “aceitáveis” ou mediadas pela condição patológica de quem convive por entre os limites da razão. A loucura emerge não como característica que rotula, mas como um embate constante para não se perder e para não se deixar perder de vista. Há quem nela sucumba e quem na multidão se infiltra, querendo ser mais um entre tantos, dignos de levar a vida adiante.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Meu mundo em perigo

Mãe Só Há Uma (Idem, Brasil, 2016) 
Dir: Anna Muylaert


Depois de tanto sucesso e tamanha discussão em torno de questões sociais de um Brasil em transformação promovida pelo seu filme anterior, o ótimo Que Horas Ela Volta?,  Anna Muylaert não parou e já lançou seu novo trabalho, o provocador Mãe Só Há Uma, mais uma vez tendo passado pelo Festival de Berlim este ano.

Se a questão da maternidade parecia um caminho a ser traçado aqui, dando certa continuidade às discussões do longa precedente – e ainda mais com esse título, que, de certo modo, contraria a versão em inglês do título do filme anterior, “A Second Mother” ou “Uma Segunda Mãe” –, ainda que fosse um assunto transversal na trama, coexistindo com uma série de outros tópicos, em Mãe Só Há Uma a cineasta e roteirista acrescenta outro mote que parece mais forte, e de certo modo muda a direção que a narrativa passa a seguir: a questão do gênero e das identidades sexuais.

A trama gira em torno do conhecido episódio, tão noticiado à época, da mulher que sequestrou um bebê na maternidade e o criou como seu filho. Muitos anos depois, a farsa foi descoberta e o menino, já adolescente, teve de ir morar com sua família biológica enquanto a falsa mãe foi parar na cadeia. No filme, quem encarna esse garoto é Pierre (Naomi Nero), típico adolescente rebelde. Ele toca numa banda de rock, é aluno relapso, frequenta festas onde beija meninos e meninas; pinta as unhas e o contorno dos olhos, além de usar cinta-liga por baixo da calça.

É o retrato de uma nova geração de jovens que renegam rótulos sexuais, que estão experimentando novas maneiras de se relacionar com os de sua idade, de se descobrir na ânsia dos desejos, sem traumas e neuras, apenas curtindo a vida adoidado. É esse jovem que será engolido por um turbilhão de sentimentos quando descobre a verdade sobre sua origem. Mas Muylaert parece menos interessada em destrinchar os fatos e pormenores relativos ao fato e ao engano da mãe, e mais em apresentar um mundo em transformação quando a vida do rapaz já estava em movimento natural por conta da idade, dos percalços, descobertas e questionamentos da adolescência.

Narrativamente, o filme segue a estilística do cinema objetivo e direto que Muylaert vem articulando nos seus trabalhos, sem invencionices de linguagem. Funcionava muitíssimo bem em Que Horas Ela Volta? quando ela tinha em mãos questões sociais e comportamentais do brasileiro médio que reverberavam muito bem no público e amparava-se nas próprias mudanças visíveis de nosso cotidiano. Agora, diante de um dilema comportamental atravessado pela redefinição do lar e dos laços familiares, Mãe Só Há Uma ainda soa como um ensaio para algo mais consistente enquanto discussão sobre gêneros e pertencimentos, muito embora não precisemos cobrar do filme postura tão assertiva sobre essas questões.



Muylaert tenta complexificar seus personagens que lidam com suas novas angústias, sem que o filme nunca queira oferecer respostas para dramas tão complicados. Dessa forma, a cineasta demonstra mais liberdade para observar os atropelos na vida de seus personagens, abusando inclusive de elipses temporais que fazem saltar a narrativa para um tempo em que alguma coisa já mudou ou está em curso, mas inevitavelmente onde as relações já se encontram dilaceradas pelas circunstâncias.

Somos levados a abraçar os conflitos de Pierre, como figura central da trama, mas o filme também não deixa de dimensionar o comportamento dos novos pais, vividos por Matheus Nachtergaele e Daniela Nefussi (que, espertamente, também interpreta a mãe adotiva do garoto). Eles buscam maneiras de conquistar o filho que há tanto tempo buscavam. Há ainda o irmão mais novo, também com seus problemas amorosos de adolescente imberbe, pego de surpresa pela nova reconfiguração dentro de casa.

Os momentos em que esses personagens são postos em atrito são certamente os melhores do filme, quando eles patinam por terreno arenoso na medida em que são quase forçados a se encontrarem. O tempo passa e é como se eles fossem obrigados a encarar certas situações e posturas na busca incessante para que o outro o(s) aceite em sua real condição – de um lado Pierre como figura transgênera e filho de outra família, e no polo oposto os pais como agentes progenitores legítimos, mas também figuras amorosas. 

Há um momento catártico quando Pierre explode e devolve com verdades toda a pressão que vem sentindo para ser alguém que ele não é – enquadrado num gênero tradicional, filho de uma família estranha. Porém, os maiores acertos do filme estão na fluidez com que esses conflitos são postos na tela em detalhes mínimos, sem preocupação de elucidá-los ou encerrá-los – o que não é necessariamente um problema em si, como comprova a sutileza do arco narrativo do próprio Que Horas Ela Volta?. Mãe Só Há Uma é possivelmente o filme mais aberto da cineasta até então, fazendo pulsar já nos minutos finais um percurso que ainda é de inquietação e afirmação dos desejos mais pessoais, contra todos e um pouco junto deles.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

You know my name

Jason Bourne (Idem, EUA, 2016)
Dir: Paul Greengrass

A trilogia Bourne talvez seja uma das melhores franquias de ação dos anos 2000, nos apresentando a história do agente secreto da CIA que perdia a memória depois do fracasso de uma operação e buscava respostas sobre seu passado, enquanto segue sob a mira daqueles que o formaram. Não é das tramas mais originais, no entanto os filmes conseguiram a proeza de sustentar as intrigas e segredos que giram ao redor do personagem, contando com dose muito boas e bem filmadas de ação e adrenalina.

Quando assumiu a direção a partir do segundo filme da franquia, Paul Greegrass injetou tensão e senso de urgência, especialmente através do uso da câmera na mão, bem a seu modo (como ele já havia feito exemplarmente com esse mesmo intento em Voo United 93, possivelmente seu melhor filme). Felizmente o diretor retorna agora nesse que parece o reviver da série e do protagonista cuja história, convenhamos, nem precisava de continuação (a gente também não precisa lembrar que existe um quarto filme protagonizado por Jeremy Renner, sob direção de Tony Gilroy, esse realmente desnecessário).

Jason Bourne reúne os mesmos fatores que moldaram o sucesso anterior: ação desenfreada, ritmo alucinante, roteiro bem cuidado e inteligente, apego pelo protagonista na sua jornada pela verdade e a rede de intrigas sempre a pairar sobre os personagens e suas ambições.

Mesmo quase dez anos depois, esse novo filme resgata os fatos derradeiros que marcaram o final de O Ultimato Bourne, quando Jason descobriu que ele mesmo se alistou no programa de inteligência antiterrorismo da CIA, assumindo nova identidade para incorporar o agente com habilidades elevadas de espião. Agora, recluso, ele volta a ser assombrado pelo passado com suspeitas que envolvem seu pai, possivelmente a mente por trás da criação da operação em que Bourne se alistou no início de tudo.

O mundo da informação e do acesso aos dados secretos e documentos oficiais molda o contexto por onde o filme concentra sua trama, nada mais atual. Não à toa, a personagem de Julia Stiles, agente responsável pela logística das operações anteriores, agora foragida da CIA, retorna como hacker que decodifica as informações que desvendam um pouco mais da verdadeira história de Jason (referências a Snowden também não poderiam ficar de fora).

O contraponto vilanesco concentra-se da dúbia personagem vivida por Alicia Vikander, chefe do serviço de vigilância cibernética, a serviço da CIA, na ânsia de seguir o rastro de Bourne, guardando ela também os seus segredos. O filme continua sendo mestre em deflagrar toda essa correria e situações de tensão, convergindo na perseguição alucinante ao protagonista, a partir de questões mínimas, como as informações sobre os atos do pai de Bourne.

Contra o filme está o fato dele reprisar praticamente o mesmo eixo narrativo dos longas anteriores, com elementos semelhantes: uma nova operação substituindo as anteriores que falharam, detalhes de seu passado desvendados a conta-gotas que colocam em risco seu pescoço, outro agente especial posto em sua cola para assassiná-lo (aqui interpretado por Vincent Cassel) e até mesmo o destino de certo personagem querido da franquia, que assumiria a mesma função narrativa, rima com o de outro que ficou pelo meio do caminho na jornada efusiva e letal pela qual Bourne atravessa. 

O filme continua também promovendo o tour “Bourne around the world”: a ação sai de Nova York, passa pela Grécia, Roma e chega a Las Vegas com uma facilidade ímpar – aliás, a perseguição de carro nessa última é impressionante por ter sido feita em locações reais, ainda que um tanto exageradas. Jason Bourne, portanto, deve suprir a ânsia dos fãs de filmes de ação e talvez incomode um pouco os fãs da franquia pelo gosto geral de comida requentada. Mas, no fundo, é sempre bom acompanhar mais uma aventura do agente atormentado, quando ela se revela bem resolvida dentro de suas promessas como filme de gênero.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

A materialidade do mal

A Bruxa (The Witch: A New-England Folktale, EUA/Reino Unido/ Canadá/Brasil, 2015)
Dir: Robert Eggers


Talvez seja fácil entender porque A Bruxa tem sido tão celebrado por aí, tanto pelos fãs dos filmes de terror quanto pelos cinéfilos e críticos em geral. Em um gênero tão castigado no nosso circuito exibidor, o filme dirigido pelo novato Robert Eggers trabalha com elementos poderosos que evocam o tema das bruxas e da força tenebrosa do mal, mas investe em igual medida na capacidade desestabilizadora que esse mesmo mal é capaz de provocar nas pessoas e em um núcleo familiar muito particular. 

Baseado em antigos contos folclóricos, quando a figura da bruxa ou de qualquer tipo de lenda misteriosa e maléfica provocava realmente medo nas pessoas, A Bruxa nos coloca no ambiente da colonização inglesa em terras americanas no século XVII quando uma família se isola da vila onde viveu por conta de desavenças com os líderes religiosos da comunidade.

Eles passam a viver numa cabana solitária em frente a uma densa floresta. Logo o bebê da família some misteriosamente quando era cuidado pela filha mais velha, Thomasin (Anya Taylor-Joy), deixando a todos ali sem entender o que aconteceu. No entanto, ao espectador nada é escondido. Desde o início sabemos que uma bruxa toma a criança e faz coisas pavorosas com ela.

Enquanto isso, a mãe (Kate Dickie) entra em desespero e apela para respostas divinas que envolvem culpa e castigo cristãos, enquanto o pai (Ralph Ineson) tenta apaziguar a situação e seguir em frente, mesmo que a partir de então nada passa a dar certo para a família, como a plantação de milho que não vinga. Há ainda os irmãos gêmeos mais novos que injetam suspeitas por conta do comportamento inquieto e brincadeiras endiabradas, e o irmão do meio, Caleb, (Harvey Scrimshaw) que começa a demonstrar desejos sexuais pela irmã mais velha.

A partir daí, o longa passa a trabalhar não só os elementos do medo e do desconhecido, mas sem nunca apostar em surpresas ou sustos fáceis que envolvem a aparição da velha ou forças do mal que habitam a agora sombria e misteriosa floresta. Para além do mistério também plantado ali sobre se alguém estaria sendo uma espécie de cúmplice das forças do mal, o que mais fortifica A Bruxa como grande filme de gênero é que ele aponta para outros caminhos de fabulação a partir do terror sem sucumbir a seus artifícios mais banais.



Há uma dimensão dramática que interessa muito mais ao filme através dos conflitos que colocam os personagens em choque, tanto contra suas próprias crenças, como também em confronto uns com outros. Isso se dá a partir dos desdobramentos assustadores que vão acontecendo naquele microcosmo – e determinada sequência envolvendo Caleb e certa “iluminação macabra” sua é uma das coisas mais estranhas e fortes vistas em um filme de terror recente. Tudo isso os deixam completamente abalados e assustados, à mercê das influências malignas que rondam o lugar, fazendo esfacelar ainda mais o núcleo familiar.

Além de sustentar o suspense e o pavor de modo muito crível, o filme ainda consegue mirar em questões que se relaciona bem com o terror: a figura feminina associada à bruxaria através das desconfianças crescentes em torno de Thomasin em plena puberdade; a própria desestruturação da família, apesar de haver uma necessidade de acolhimento entre eles, poucas vezes levada a cabo de fato; e principalmente a crença religiosa como motor que rege o destino das pessoas – o contraponto do Diabo em relação ao Deus cristão em que eles acreditam é uma constante poderosa a que os personagens se apegam para tentar entender os acontecimentos e provações que estão vivenciando.

Eggers, à frente de seu primeiro longa-metragem, demonstra não só domínio cênico para o gênero, mas é eficaz também na construção de um roteiro muito perspicaz e original – o filme partiu de pesquisas que o diretor fez sobre contos antigos e histórias reais envolvendo casos de possessão e acusações de bruxaria na América antiga. A Bruxa acaba por apostar acertadamente numa espécie de materialidade do mal, esse que pode estar difuso para os personagens, mas que revela exatidão pelas consequências que provoca e concretude na forma a se manifestar, como veremos até o fim da história. Ali, corajosamente, o filme aponta para o mal não só como realidade palpável a espreitar os indivíduos, mas como possibilidade intrínseca capaz de atrair o ser humano.