sábado, 4 de julho de 2015

Cine Ceará – Parte VII


Cavalo Dinheiro (Idem, Portugal, 2014)
Dir: Pedro Costa


Um dos filmes mais aguardados do Cine Ceará, Cavalo Dinheiro traz a rigidez plástica e narrativa habitual do cinema de Pedro Costa, uma espécie de obra a se desvendar – e que faz muito sentido se vista em conjunta com seus outros filmes, especialmente Juventude em Marcha. Pode não ser tarefa das mais fáceis, mas não deix
a de ser prazeroso acompanhar novos passos, novas pulsões, agora com um apuro estético ampliado.

Com narrativa densa, o longa retrata, de forma quase fantasmagórica, os descaminhos de Ventura, um velho imigrante caboverdiano que vivia no bairro pobre de Fontainhas, ao norte de Lisboa, antes da região ser destruída pela administração local e seus moradores realojados.

Entre passado e presente, Ventura parece existir e se mover por um universo sombrio, um misto de realidade e memória, retratado de maneira sempre enigmática. O encontro com uma personagem feminina, Vitalina, vinda de Cabo Verde com sua dor de viúva, faz reviver antigas lembranças que se embaralham na mente enfraquecida, mas ativa, de Ventura.

Há aí um duplo deslocamento: a saída de Cabo Verde, como muitos imigrantes que chegaram a Portugal há algumas décadas, para viver na periferia; mas de lá também expulso em nome do progresso desenvolvimentista do país. Vive, portanto, como um espectro tentando dar conta das imagens que lhe (nos) chegam agora, embaralhadas, fugidias.

Se Cavalo Dinheiro soa como uma continuidade do percurso desse personagem que segue adiante em sua peregrinação quase cega – é a única existência que lhe resta –, mas sem abandonar o passado, o filme está longe de repetições. Consegue ser até mais dinâmico que o longa anterior, apesar da austeridade estética de Costa, retrabalhando elementos que vamos juntando na lógica narrativa do protagonista. E ainda tem algo de muito afetivo aqui, seja na maneira como se importa com o destino, as palavras e lembranças desses personagens, mas também em reparar na dignidade de um povo miserável, os pares de Ventura – a sequência dos “retratos” dos moradores, ao lado das pobres casas, ao som de uma música crioula antiga, é um dos momentos mais belos e singelos do filme.

Cavalo Dinheiro acabou levando os prêmios de Direção de Arte, Som e Fotografia no festival. Esse último quesito tem importância fundamental na narrativa. O diretor de fotografia, Leonardo Simões, esteve em Fortaleza e falou do minucioso e genial processo de iluminação do filme. É um deslumbre o que ele, em parceria com Costa, faz em tela (o fotógrafo chegou a dizer que não há um único plano ou iluminação no filme que não fosse pensado por Costa). 

Os personagens surgem envoltos por uma escuridão atroz, quase não se enxerga o seu entorno. Os atores, geralmente fixados no centro do plano – essa imobilidade que tanto diz sobre a condição de seus personagens – são banhados em suas feições por feixes duros de luz que não lhes escapam pela firmeza que conseguem imprimir. Um cinema de luz e escuridão, um contrate tão forte que faz com aquelas pessoas e suas histórias, suas memórias, possam existir na tela e no mundo que nos alcança, sombras que têm muito a contar.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Cine Ceará – Parte VI



Quintal (Idem, Brasil, 2015)
Dir: André Novais Oliveira


O projeto de cinema conduzido pelo mineiro André Novais Oliveira, especialmente alinhado com o curta Pouco Mais de um Mês e o longa Ela Volta na Quinta, tem algo de muito original na maneira de entrecruzar realidade e ficção. O diretor usa não só seus pais, irmão, namorada e ele próprio como personagens que interpretam a si mesmos, como também traz toda uma carga afetiva autorreferencial para seus filmes. Assim, alcança um grau de naturalismo muito particular.

No entanto, para quem acompanha a carreira do cineasta, fica a questão de até que ponto ele vai girar em torno das mesmas propostas (e até quando isso vai continuar funcionando tão bem). Pois Quintal, seu novo curta-metragem, é uma bela resposta a essa preocupação. Estão lá os mesmos artifícios naturalistas e familiares, seus pais mais uma vez como casal num dia trivial em casa. Mas agora André inclui dois elementos novos, e quase opostos: a comédia absurda e o fantástico.

Ele não só amplia seu leque de possibilidades narrativas, como harmoniza muito bem propostas que pareceriam estranhas em comunhão. Eis que no meio de uma tarde tranquila, um portal mágico-sideral-intergaláctico se abre no quintal da casa. O pai assiste a um filme pornô e a mãe telefona para um político corrupto. O filme se abre com uma facilidade imensa para o nonsense, articulando situações que buscam complexificar aqueles personagens, sem tentar fazer muito esforço pra isso. Consegue, no meio do caminho, causar muito riso, o filme é hilário.

Com isso, o cineasta dá um passo adiante na proposta cinematográfica que se empenha em fazer, demonstrando segurança na direção e habilidade em criar momentos de puro timing cômico. O filme funciona muito bem com o público, mas é preciso se entregar ao absurdo da coisa. O resultado é recompensador.


Feio, Velho e Ruim (Idem, Brasil, 2015) 
Dir: Marcus Curvelo


Feio, Velho e Ruim é o tipo de curta rápido, sintético (são 8 minutos), mas que parece encerrar muitas discussões interessantes, sem direcioná-las ao certo, sem lhes ser taxativo também. Perpassa por questões como vaidade, solidão, a ânsia contemporânea do registro imagético do eu, o culto da própria imagem, a busca incessante do melhor de si.

Mas me parece clara que a maior observação do filme recai sobre a auto-definição, ou antes, a necessidade de se auto-dizer, afirmação egocêntrica de quem tenta dar conta de quem se é num dado instante. Existem dois momentos em que o protagonista do filme, sozinho em seu quarto, voz em off, se autorrotula, primeiro de forma sempre positiva, depois negando tudo. Entre essas cenas, uma outra, casual, mostra fotos dele na infância, desbotadas e antigas, com o off de uma conversa ao telefone com a atendente de um serviço bancário.

O curta pegou a alcunha de filme-selfie não só porque seu personagem busca fazer um retrato de si (em palavras e fotos), mas por ser representante de um tipo de narrativa tão comum atualmente de muita gente que se filma, mostra seu ambiente doméstico, expõe aqueles que lhe são próximos, abre o baú de memórias pessoais livremente e faz disso filme, sejam eles documentais ou ficcionais.

Num momento em que tanto se faz e se fala voltando-se para si mesmo, Feio, Velho e Ruim parece querer dizer que melhor nos definimos quando não o pretendemos. As imagens pessoais da infância do personagem (o próprio diretor do filme), ressignificam o próprio uso das fotos caseiras antigas que tanto aparecem em muitos filmes atuais. Elas e uma discussão ao telefone, sem o controle do auto-desmando, de alguma forma, representam de forma mais sincera quem se é de fato, sem poses ensaiadas ou filtros da moda.


Choclo (Idem, Brasil, 2015) 
Dir: Caetano Gotardo


Mais um exemplo de filme que se constrói através do registro pessoal, Choclo parte para o campo do íntimo, uma espécie de confissão poética que revela o brotar de uma paixão, exalando atração a cada segundo. Aqui, o diretor Caetano Gotardo filma seu companheiro, o também cineasta Gustavo Vinagre, por quem não parece conseguir parar de olhar.

Se o texto recitado em off, poema escrito pelo próprio diretor, parece a coisa mais interessante aqui – porque nos faz construir mentalmente cenas e momentos de uma relação a dois que se inicia, nas casualidades dos encontros cotidianos – o filme, como um todo, fica como que refém dessa poeticidade.

Fora disso, as imagens, ainda que reveladoras desse não-deixar-de-olhar, possuem algo de aleatórias. Mesmo quando elas revelam algo do íntimo, os corpos nus na cama, não estão ali como um propósito intencional – nenhuma delas parecem ter sido feitas com esse objetivo. De qualquer forma, o filme não deixa de soar como um experimento sincero de lidar com uma nova relação que fala mais alto ao próprio diretor.


O Lugar Mais Frio do Rio (Idem, Brasil, 2014) 
Dir: Madiano Marcheti


Não parece das ideias mais originais: certo conflito pessoal de alguém mostrado a partir da tela do computador, da navegação entre páginas que todos nós fazemos cotidianamente. Numa delas, o Skype aberto e a possibilidade de uma conversa, que nos desenha ali uma história anterior que vamos preenchendo mentalmente. Não é completa para o personagem, muito menos para o espectador – nem há essa preocupação.

O filme funciona como um trecho colhido do dia a dia, aleatoriamente, mas pega o personagem em certo entrave que não se resolve por conta de alguém do outro lado da tela. Transforma essa incerteza, essa inclompletude, em dor. 

Se não soa como novidade, o filme tem algo de singelo na maneira como coloca em questão certo sofrimento. Mesmo quando, no final, escolhe-se uma música que parece traduzir, ipsis litteris, um sentimento momentâneo – algo que soaria muito frágil em termos de construção de roteiro –, a escolha ganha vigor por demonstrar ser tão sincero e objetivo, sem querer esconder sua natureza. 

terça-feira, 30 de junho de 2015

Cine Ceará – Parte V


NN (Idem, Peru/Colômbia/França/Alemanha, 2014)
Dir: Héctor Gálvez



Bela surpresa vinda do Peru, NN é um filme denso que perpassa por tema espinhoso: as consequências das lutas armadas contra os governos ditatoriais. Mas sem soar panfletário ou militante. Justo o oposto, é sóbrio do início ao fim, visto através dos olhos de alguém distante daquele assunto, mas que toma consciência das atrocidades vividas no passado por muita gente que ainda carrega cicatrizes não curadas.

É o caso de um antropólogo forense (Paul Vega) que lidera uma equipe de investigação sobre uma ossada encontrada na região andina. Dentre eles, os restos de um homem morto há mais de 20 anos e que nunca foi reclamado por ninguém. No bolso de sua jaqueta, a foto de uma jovem moça, também desconhecida. Uma mulher solitária (Antonieta Pari) passa então a nutrir esperanças de que aquele seja o corpo de seu marido desaparecido na época.

Non nomine (NN) é a denominação de corpos não identificados. É em torno dessa não identidade, que se torna busca constante, que NN sustenta atmosfera carregada, sem precisar gritar certa dor para o espectador. Não quer discutir entraves políticos, apontando culpados, preferindo observar as marcas deixadas através dos anos nas pessoas, numa sociedade que contabilizou mais de 60 mil assassinatos na época, fora os milhares de desaparecidos.

O filme desliza quando, em certos momentos, tenta verbalizar alguns debates morais e solidários que não vão muito adiante (como nas cenas da discussão da equipe forense na mesa de jantar ou a reunião de apoio aos familiares). Há também alguns conflitos desnecessários, como a investida amorosa do líder da equipe na colega de trabalho. Não chegam a comprometer o todo do filme, mas revela que sua maior força está na sugestão, no não dito, especialmente através da angústia e desolação que seus atores carregam.

Trata-se de um trabalho sensível, carinhoso com seus personagens, sem nunca relativizar suas dores. Há algo de polêmico no desfecho da história, uma maneira de conferir conforto, ainda que de maneira discutível moralmente. Não é um filme de questões e atitudes fáceis, mas é no intermeio entre dureza e delicadeza que encontra sua dignidade.


Cordilheiras no Mar: A Fúria do Fogo Bárbaro (Idem, Brasil, 2015) 
Dir: Geneton Moraes Neto



O jornalista e cineasta Geneton Moraes Neto lançou na competição do Cine Ceará um filme polêmico, no bom sentido do termo, tendo Glauber Rocha como epicentro. O documentário Cordilheiras do Mar: A Fúria do Fogo Bárbaro toca em assunto escorregadio e pouco investigado: o apoio de Glauber ao general Ernesto Geisel após voltar do exílio na Europa. Num momento em que a palavra de ordem era em repúdio aos militares, Glauber surgia como voz dissonante, mas seguro de suas posições, por mais que soassem desagradáveis para muitos.

Para além da centralidade como nome fundamental do Cinema Novo, Glauber demonstrava largo interesse em pensar a realidade do Brasil. De personalidade forte e atuante, discurso incansável e prolífico, não tinha receio de expor suas opiniões publicamente. Acabou sofrendo duro patrulhamento ideológico por conta dessa sua posição. Talvez a maior acusação do filme seja a de que foi a esquerda brasileira quem mais fortemente bradou contra o cineasta.

Em 1981, Geneton vivia em Paris e conheceu Glauber durante exibição de A Idade da Terra (1980) para os críticos franceses. Voltou ao Brasil e entrevistou algumas personalidades, como Miguel Arraes, então governador de Pernambuco, e Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas, que confirmavam a nova linha de raciocínio que Glauber passou a defender. Geneton acabou guardando os arquivos, retomando-os agora, mais de 30 anos depois, e resolveu coletar várias outras entrevistas para fazer o filme e discutir a política brasileira a partir das posições polêmicas de Glauber.

Dada a trajetória de Geneton na GloboNews, entrevistador atuante, o filme soa como um trabalho de apuro jornalístico, ouvindo muita gente, contrapondo ideias e pensamentos. Porém, para soar mais “cinematográfico”, o diretor buscou investir também numa série de atos performáticos, usando pessoas próximas a Glauber recitando e interpretando falas e discursos que evidenciavam aquele novo pensar ideológico que deixou registrado aos quatro ventos. 

Trata-se de uma saída interessante quando a figura do próprio Glauber com seus arroubos discursivos esteja talvez já tão saturada enquanto imagem. O filme corre o risco de soar gritado, tentando mimetizar certo trejeito glauberiano de fala, por mais expansivo que o cineasta baiano fosse por natureza. Tem algo de redundante também, o que tornaria Cordilheiras do Mar um filme melhor se fosse menos inflamado. Mas com esse tema, sobre essa personalidade, parecia irresistível.

domingo, 28 de junho de 2015

Cine Ceará – Parte IV


Real Beleza (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Jorge Furtado


Jorge Furtado, tão associado às comédias de qualidade, nos chega agora com um drama romântico não tão inspirado, mas que reserva suas qualidades. Começa talvez apostando na pretensão de ser um estudo sobre a beleza, do ponto de vista estético e poético, através da arte – o protagonista é um fotógrafo –, mas logo revela sua faceta mais convencional.  

No centro da história está o perfeccionista João (Vladmir Brichta), obcecado por encontrar a modelo perfeita, de beleza rara e incomum. Parte para o interior gaúcho e, em meio a tantas candidatas, conhece a jovem Maria (a novata Vitoria Strada), sua musa a partir de então.

O filme dá mesmo a impressão de que vai se deter sobre a vida e as escolhas das belas garotas aspirantes a modelo, tipo de profissão cruel e exigente, tão efêmera, mas que povoa os sonhos de muitas meninas, um passo em direção à vida do estrelato. Aborda-se a beleza, mas também as concessões exigidas.

E é por aí que o filme adentra por outros caminhos. Como Maria ainda é de menor, precisa da aprovação dos pais, o que ela mesma recusa de pronto. Como não quer perder a descoberta que fez, João viaja até a fazenda onde a menina mora com a família. Conhece a mãe (Adriana Esteves) e espera a retorno do pai (Francisco Cuoco), que se opõe fortemente aos desejos da filha.

Não demora muito para que o galã João chame a atenção da mãe da garota. Real Beleza abraça, então, o melodrama e envereda por conflitos que expõem, aos poucos, os anseios amorosos dos personagens numa situação tão incomum. O filme soa como produto leve, draminha que se poderia dizer ingênuo e mesmo previsível. Apesar dessa abordagem “popular”, há algo de erudito nas diversas referências que Furtado utiliza (a fotografia de Cartier-Bresson, a biblioteca borgiana do pai, sonetos e poemas recitados em momentos distintos etc). 

É nesse meio termo que Real Beleza move-se e em que gira a própria obra de Furtado. Tudo está no lugar, o texto é leve, escrito com cuidado e apuro, mas nunca esnobe (não vindo desse diretor), a condução é clássica, mas funcional, bons atores em cena. Até quando parece muito próximo temática e esteticamente do baiano A Coleção Invisível, de Bernard Attal, o longa consegue caminhar com suas próprias pernas, embora não queira chegar muito longe com elas.
 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Cine Ceará – Parte III


Loreak (Idem, Espanha, 2014)
Dir: Jon Garaño e José Mari Goenaga



Drama com verniz intimista, Loreak se move através de um mistério lírico: uma mulher passa a receber flores de um desconhecido. Ane (Nagore Aranburu) entra precocemente na menopausa e sua vida conjugal parece fadada ao tédio. Num outro polo, sogra (Itziar Aizpuru) e nora (Itziar Ituño) estranham-se, enquanto o filho tenta conciliar a relação das duas.

Logo o filme toma o mote das histórias que se cruzam, tipo de estratégia narrativa já tão desgastada atualmente, mas aqui sem grandes pretensões e alardes. Uma tragédia faz a história se mover para confrontos que elas terão de resolver, enquanto se desfaz o mistério. É, portanto, um filme de sensibilidades femininas em que pulsam questões como saudade, remorso e, mais ainda, um embate entre o lembrar e o esquecer.

Vale dizer que, apesar de produção espanhola, o filme é na verdade realizado no país basco, falado no idioma local euskera (loreak, aliás, significa flores). Trata-se de uma das poucas produções espanholas recentes que fazem questão de honrar suas origens culturais. Mas o filme está longe de circular pelo embate político da questão, embora essas escolhas já sejam por si sós um ato político.

É também uma maneira de se tornar universal contando uma história muito particular de personagens que se confrontam com seus demônios. A narrativa caminha com segurança por entre esses conflitos, com ótimo desempenho do trio de atrizes. Talvez o excesso de reviravoltas na parte final dê a impressão de uma história que tateia em busca de uma saída carinhosa para todos, sem ofender ninguém.


A Obra do Século (La Obra del Siglo, Cuba/Argentina/Alemanha/ Suíça, 2015)
Dir: Carlos Machado Quintela



Fala-se muito, e à exaustão, do lugar intermediário entre ficção e documentário utilizado em tantos filmes nos últimos anos. A Obra do Século é um interessante exemplo de como essa dicotomia pode gerar um filme desordenado, em que esse entrelugar soa mais como um capricho do cinema contemporâneo do que algo realmente palpável enquanto narrativa.

A história trafega em torno da cidade Eletronuclear, lugar que abrigaria técnicos soviéticos e trabalhadores cubanos empenhados na instalação de usinas nucleares que seriam construídas em Cuba com apoio da URSS. A iniciativa caiu por terra depois do acidente em Chernobyl e a derrocada do comunismo no leste europeu. Resta, então, uma cidade inacabada, quase abandonada, entre ruínas e velhas moradias. A fotografia em preto-e-branco estabelece facilmente certo desânimo e sentimento de que não era para ser assim.

Para adentrar nesse universo, o diretor cubano Carlos Quintela cria um trio de personagens masculinos, avô, pai e neto, obrigados a viver sob o mesmo teto, estranhando-se, cada qual perseguido por seus fantasmas pessoais. Mas talvez a maior fantasmagoria que exista ali seja esse lugar de glórias prometidas, agora afundado em sua própria decadência, onde os personagens precisam levar sua rotina adiante.

Mas é aí que o filme parece não saber lidar com esses dois polos que, por vezes, poderiam perfazer filmes distintos, já que nem sempre essa relação dos personagens com seu ambiente ao redor é usada para criar e mover os conflitos que ali se desenham. Há toda essa melancolia que também reflete a existência absorta daqueles homens, mas é o link mais fácil que se pode fazer, pouco se vai além disso. 

O uso de uma série de imagens de arquivo, que mostram a chegada dos técnicos e os primeiros passos da construção das usinas e da cidade, surge aleatoriamente no filme. Têm sua importância enquanto registro histórico inegável, mas podem soar redundantes. Da mesma forma, os desdobramentos dos dramas dos personagens fictícios têm algo de muito pessoal e podem caminhar para qualquer direção. A Obra do Século parece perdido entre sob qual registro é mais eficaz para observar esse local tão peculiar.

domingo, 21 de junho de 2015

Cine Ceará – Parte II



Jauja (Idem, Argentina/Dinamarca/México/EUA/Holanda/França /Alemanha/Brasil, 2015)
Dir: Lisandro Alonso


É muito interessante ver um cineasta deixando certa zona de conforto e partindo para narrativas mais desafiadoras, ainda que suas velhas questões se mostrem presentes. Jauja, de Lisandro Alonso, é um filme incomum, aponta para caminhos inéditos, mas muito pertinentes dentro de uma filmografia já radical do cineasta argentino. Isso porque agora ele investe em algo de mítico/onírico/fabular, ainda que de forma muito peculiar.

O Jauja do título diz respeito a um lugar mítico, espécie de paraíso perdido que muitos tentaram encontrar, mas sem sucesso. O filme apresenta um capitão dinamarquês (Viggo Mortensen), acompanhado de sua filha (Viilbjørk Malling Agger), que percorre uma região campestre junto com uma tropa (que nunca vemos por inteiro), numa espécie de missão (que não sabemos exatamente qual é). Tudo é muito difuso com algo de enigmático, o tom é mesmo de certa suspensão numa paisagem bucólica e deserta, belissimamente fotografada, com formato quadrado de tela.

A narrativa que Alonso constrói é lenta, privilegiando planos longos e com poucos movimentos de câmera. Exige do espectador certa disposição e não entrega respostas fáceis – muita coisa fica mesmo em aberto. Quando a filha do capitão foge com um prisioneiro, ele parte em sua procura. É quando o filme se torna mais áspero, privilegiando a experiência desgastante de seu protagonista, exaurido pela busca em terreno desconhecido, percorrendo campos e planícies à exaustão.

A própria ideia de busca é um dos grandes motores do cinema de Alonso (como visto em um de seus melhores trabalhos, Los Muertos). Essa maneira de se deter longamente sobre o trajeto tortuoso de alguém é uma marca evidente do cineasta – porém talvez nunca mostrada de forma tão exaustiva como aqui. Mas o filme ganha muito quando, mais ao fim, entrega-se a um tom próximo da fábula, que lança os personagens a outro espaço-tempo e ainda surpreende o espectador por esse rumo impensado. 

Se o filme abre com a informação desse lugar mítico perdido na selva, nada no decorrer da história aponta para sua procura. Mas é talvez nesse processo de busca a alguém que se ama, que se torna também um ato de se perder no mundo, é que o fabuloso e o estranho surgem de forma inesperada, mas sem alarde na narrativa. Jauja é um belo filme de encontros inesperados, de estranhezas desconhecidas, mas recompensador especialmente pela beleza lúdica que invoca.

Cine Ceará – Parte I



O Clube (El Club, Chile, 2015)
Dir: Pablo Larraín

 
Depois de fazer uma bela trilogia sobre a ditadura militar chilena, a partir de um viés menos militante, observando-a no subtexto (com Tony Manero, Post Morten e No), o diretor Pablo Larraín chega com um filme forte e tortuoso que abriu o Cine Ceará na noite de quinta-feira.

O Clube começa ameno, apresentando seus personagens que vivem reclusos numa casa à beira mar. O clima é de tranquilidade e companheirismo entre quatro homens e uma mulher, todos religiosos e em harmonia. A chegada de um quinto integrante desencadeia certos conflitos que eles prefeririam deixar escondidos.

Saberemos logo que aquele grupo é formado de padres com histórico de abuso sexual a criança, especialmente a garotos. Vivem como em estado de recuperação, longe das suas paróquias e possíveis tentações da carne, rezando e expiando seus pecados.

Larraín, já nos primeiros 20 minutos iniciais, consegue estabelecer uma atmosfera de melancolia – através de uma fotografia que privilegia tons azulados de cor – e revelar os segredos escusos que os personagens escondem. Desenha ainda uma tragédia que estabelece grande desconforto, uma atmosfera pesada que permanecerá até o fim do filme.

Se há algo de vigoroso nesse início, O Clube perde um tanto de sua força quando desdobra o tema, investindo em conflitos que soam mesmo redundantes – como a persistência com que um homem local, um tanto perturbado da cabeça, confronta os padres –, embora seja um personagem vital para o desenrolar e desfecho da narrativa.

No entanto é clara, e muito bem-vinda também, a opção de não fazer um filme de choque, de não buscar a saída fácil do escândalo. Os personagens são mais confrontados com o peso de suas consciências do que expostos a uma culpabilidade perante a sociedade ou o mundo católico. Mesmo assim, o filme está longe de colocá-los em situação de coitadismo, tanto diante dos crimes cometidos no passado, quanto das saídas que eles encontram para contornar os confrontos que se desenham ali. 

Larraín não poupa ninguém de seus erros, falhas de caráter e decisões equivocadas – que geram mais desacordos e problemas. Somente a última, que faz unir lados opostos, e o cuidar daqueles que foram machucados e maculados parece ser a saída menos dolorosa para enfrentar os traumas, enquanto os personagens ainda precisam lidar com seus próprios demônios.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Cine Ceará – Festival Ibero-americano de Cinema


Logo mais começa aqui em Fortaleza a 25ª edição do Cine Ceará. Parece sorte que minha primeira vez no festival seja essa com uma das seleções mais elogiadas e interessantes da história do evento. A competição tem caráter ibero-americano, com filmes de nomes como Pedro Costa, Lisandro Alonso e Pablo Larraín, em meio a filmes brasileiros como os de Jorge Furtado.

Com homenagem para o cinema espanhol, o festival apresenta clássicos e obras recentes do país ibérico. Também destaca o trabalho de Leandra Leal e Cacá Diegues. Já a mostra competitiva de curtas-metragens, somente nacionais, sempre desperta a curiosidade para uma produção brasileira cada vez mais instigante e forte. 

Com cobertura para o Jornal A Tarde e minhas impressões mais detalhadas sobre as obras aqui no Moviola, parto para mais uma maratona de filmes, discussões e bons encontros. O site do evento dá pra acessar aqui. Que venham os filmes, então.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Festival Varilux – Parte III




Samba (Idem, França, 2014)
Dir: Eric Toledano e Olivier Nakache


Se o tema da imigração ilegal tem sido supra-recorrente no cinema europeu contemporâneo, dentro do contexto da unificação no continente, acrescido da opressão capitalista em vários 
níveis, Samba consegue ser um olhar cativante para um tema duro. Nada muito diferente disso esperava-se de um filme dos diretores do feel good Intocáveis, mesma sensação que se repete aqui nesse novo projeto.

Há certo despojamento na maneira de retratar o drama de imigrantes estrangeiros na França que são obrigados a largar o país, mas preferem continuar e viver sob o risco de serem presos e deportados. É esse conflito que vive Samba Cissé (Omar Sy), imigrante senegalês que mora com o tio e pula de subemprego a outro, enquanto tenta não ser descoberto.

Porém, o filme aposta não só no carisma de um personagem boa praça – essencial para que essa abordagem espirituosa tenha sucesso em se tratando de situação tão complicada. Também investe no melodrama para fazê-lo se envolver com Alice (Charlotte Gainsbourg), irmã da advogada que atende Samba. Parece também essencial que ela apresente algo de fragilizado, um mulher que já sofreu um colapso nervoso há pouco, o que permite não só essa aproximação dos dois como também convence o expectador dessa possibilidade.

Ao mesmo tempo, o longa tem o cuidado de não avançar o sinal, de não apressar um desenlace amoroso desmedido. Ambos os personagens trafegam com cuidado pelas suas carências afetivas, um percurso emocional que nunca se revela fácil, ainda que eles consigam criar uma relação agradável ao estarem juntos. O próprio personagem do amigo de Samba, imigrante ilegal que se diz brasileiro (vivido por Tahar Rahim), confere certa leveza que deixa o filme mais aprazível. 

Há momentos de maior fragilidade do roteiro e mesmo de certa apelação (a dança no andaime, o segredo amoroso do amigo, a fuga pelo telhado, o desfecho). Mas Samba aposta num tom agridoce que não ofende ninguém, nem desconsidera a luta diária dos imigrantes em situação limite de alerta total. É mais um pequeno acerto da dupla de diretores que cria, uma vez mais, algo afável dentro de uma proposta que pende tanto para falsos moralismos.

Festival Varilux – Parte II


De Cabeça Erguida (La Tête Haute, França, 2015)
Dir: Emmanuelle Bercot


Filme de abertura do Festival de Cannes deste ano, De Cabeça Erguida traz para a programação do Varilux uma abordagem séria no melhor estilo do drama social francês. Logo no início, uma mãe abandona seu filho pequeno na sala de uma juíza de infância. O menino é levado para uma instituição e cresce como garoto problema infringindo a lei quando bem entende. 

Malony (Rod Paradot, em seu primeiro papel para o cinema) é esse jovem irascível, com propensão à violência e a quebrar as regras, de personalidade agressiva e arisca. Acha que está no mundo de brincadeira, não encontra limites. É a esse personagem torto e bestial que o filme se apega, via sistema social que tenta dar um rumo melhor à sua vida.

Estão lá o juizado de menores, na pessoa da juíza Florance (Catherine Deneuve), e o tutor Yann (Benoît Magimel), entre outros, trabalhando para reajustar a vida do rapaz. A mãe (Sara Forestier) também retorna à cena, mulher que vai e volta ao vício de drogas, de juízo fraco e com a mesma dificuldade em domar o filho. Representa a estrutura emocional e familiar que tanto faltou à formação de Malony.

Bercot acompanha a trajetória desse garoto, mas também dedica especial atenção para filmar o esforço de juízes, educadores e assistentes sociais em tentar recuperar esse e tantos outros jovens, uma espécie de tour de force contra a natureza colérica desses pequenos infratores.  

O filme mesmo questiona até que ponto esses jovens têm condições de serem recuperados e reinseridos na sociedade, resgatados de seu próprio gênio autodestruidor. Mas mais importante é que, assim como esses profissionais, o filme não desiste de seu personagem, nem o trata com desconsideração ou mesmo falta de carinho. A inclusão de um caso amoroso (que cresce em proporções inesperadas) é uma maneira de abrandar uma visão puramente negativa sobre ele, ainda que seja agressivo mesmo com aqueles que ama.

Mas uma escolha inteligente do filme é a de nunca evitar as consequências duras que as ações de Malony têm para todos ao redor e para si mesmo. Sua personalidade colérica não se aplaca tão facilmente, mesmo quando saídas possíveis estão na sua frente, à sua disposição. 

De Cabeça Erguida é esse filme que não ignora os dramas que se dispõe a observar. Não tenta ser definitivo sobre os rumos de Malony, muito menos força mudanças que soem drásticas em sua “recuperação”. Ainda assim, consegue ser humanista e emotivo no ponto certo.