sábado, 14 de maio de 2016

A estranheza do horror

Demon (Idem, Polônia/Israel, 2015) 
Dir: Marcin Wrona


Num momento em que o cinema de terror tem angariado algum tipo de atenção mais inventiva que busca ultrapassar filmes banais do gênero e tem nos entregado obras realmente interessantes e em algum sentido fora da curva – tais como The Babadook, A Bruxa, Corrente do Mal –, eis que surge esse filme polonês sui generis no nosso circuito, mostra de como o cinema alternativo também vem se aproximado dos gêneros para fazer algo muito particular, o que não necessariamente garanta grandes resultados.

Demon provoca certos estranhamentos, nem sempre tão satisfatórios como os seriam num filme de terror, vindos de duas frentes principais: um (des)equilíbrio de tom, fazendo com que uma comédia mais bonachona atravesse o horror, o que o filme essencialmente é, além da abraçar o inexplicável e o desapego pela fabricação do terror enquanto confronto com um mal racionalizado.

Na trama, Piotr (Itay Tiran) está prestes a se casar com Zaneta (Agnieszka Zulewska). Acabaram de adquirir uma nova casa numa região inóspita; há um celeiro misterioso ali e também uma ossada enterrada no quintal da casa, enquanto Piotr começa a sofrer algumas alucinações que envolvem aparições estranhas. É certo que algo de muito ruim ocorreu ali. Grande parte do filme se passa durante a festa do casamento, em meio ao baile e comilança que reúne vários convidados da região, entre moradores, amigos e farristas, uma gama de personagens excêntricos e tipos estranhos.

Logo o filme vai caminhando para a clara história de possessão. São os melhores momentos do longa, quando gradualmente essa força maligna começa a tomar conta do noivo e seu comportamento se mostra cada vez mais estranho e bizarro, para espanto de todos, inclusive da noiva que vê seu casamento ruir antes mesmo de começar. Isso lembra, em certo sentido, o movimento que leva ao ápice da possessão – e consequentemente ao exorcismo – visto em Invocação do Mal. Mas aqui, o interesse do diretor não é apavorar, nem se encaixar nas marcas do gênero.

Demon busca um caminho próprio para lidar com essa manifestação maléfica, o que inclui referências pouco trabalhadas, mas citadas na trama, de uma velha lenda judia de um demônio que toma as pessoas. Há também uma leitura possível sobre a alma inquieta de alguém que pode ter tido um destino trágico naquele lugar. Mas tudo isso segue sem muitas confirmações, o que é um ponto positivo para o longa. Talvez como despiste o filme também invista em passagens que se querem cômicas, associadas a essa reunião de gente em grandes festas regadas a bebida, farra e flerte. É uma aposta curiosa, mas que nem sempre funciona tão bem porque somente margeia a trama, nunca entra de cabeça na história.

O filme está pouco interessado em esclarecer a questão, preferindo jogar os demais personagens – e o espectador – nas garras do bizarro, desse estranhamento que nem sempre conta a favor do filme, seja em busca do horror ou do drama. Há, portanto, uma sensação de vazio que o filme deixa como impossibilidade mesmo de se racionalizar sobre algo que escapa à razão humana. Em certo sentido isso é muito positivo quando as faces do terror mostram-se atrativas por si só, algo que ganha menos atenção em Demon.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

A delicadeza do gesto mortal

A Assassina (Nie Yinniang, Taiwan/China/Hong Kong/França, 2015)
Dir: Hou Hsiao-hsien


Não, um filme de artes marciais dirigido por Hou Hsiao-hsien não pode ser um filme comum de artes marciais. E não é. A Assassina levou bastante tempo para vir a público – o último longa do diretor, A Viagem do Balão Vermelho, foi lançado em 2007. Foram precisos oito anos para Hou gestar seu novo filme, e a espera faz valer muito a pena porque a assinatura do cineasta está lá, marcada com precisão e maturidade.

Hou transforma o chamado filme de “wuxia” em outro tipo de experiência, apesar das marcas do gênero estarem presentes. O drama de época com direito a lutas coreografadas, cenários deslumbrantes da vida imperial chinesa do século VII, bem como a atenção aos detalhes da natureza e as belíssimas paisagens, são todos elementos que o cineasta manipula com uma delicadeza ímpar. Não é o caso do filme ser visto como um mero espetáculo visual – o que ele também é – escamoteando o fio narrativo. Esse está lá, ainda que permeada por uma série de situações ficcionais atravessados por fatos históricos que muitas vezes se confundem no desenvolvimento da trama.

Mas é a força da mise-en-scène de Hou que faz de A Assassina uma experiência tão forte como cinema. O fato do cineasta ter vencido o prêmio de direção no Festival de Cannes ano passado dá uma belo indicativo do que o filme representa em termos de exploração da imagem (ou seria melhor falar em encantamento da/pela imagem?), também da carga dramática e emocional que está nos conflitos vividos pelos personagens – imagens ressignificadas aqui por uma operação de encenação autoral já que fazem parte do cânone de um gênero muito específico.

Também a carreira pregressa do diretor nos permite inferir que um cineasta dono de filmes como Flores de Xangai e Três Tempos – para ficar em exemplos de maior apuro visual – e tantas outras obras-primas, como O Mestre das Marionetes e A Cidade das Tristezas, continua fiel a um estilo muito peculiar. Hou mantém a predileção pela contemplação, pela sutileza dos movimentos de câmera, o apreço pelos pequenos gestos, pela naturalidade da ação, pelo muito que a expressão de seus atores podem nos falar. Tudo se mantém aqui, e o filme passa como um sopro de sutileza.


Na trama há uma assassina (Shu Qi) que falha em matar um líder local por este estar acompanhado do filho pequeno. Sua mestra então a envia de volta para casa, de onde saiu aos dez anos para começar seu treinamento, e lhe dá uma nova missão: matar seu primo, a ele outrora prometido para se casar, agora um dos líderes da região de Weibo, principal centro militar na dinastia Tang.

Em certo sentido, Hou lida com uma história quase clichê: a assassina que precisa decidir entre o coração e a razão, revirando o baú de memórias e lutando contra seus próprios sentimentos para decidir se cumpre ou não sua cruel tarefa. Apesar do tom solene com que os dramas pessoais surgem no filme, além das questões políticas internas que envolvem os conflitos da corte e os jogos de poder, o que parece mesmo interessar a Hou são as possibilidades de colocar tudo isso em cena de modo fluido, inebriante.

É como se o filme, calcado na concretude dos belos cenários e na riqueza cênica daquele ambiente de encher os olhos – via trabalho fenomenal de fotografia, direção de arte e figurinos – intentasse mais, na verdade, em captar algo não palpável, algo que paira na atmosfera, no ar de conspiração e desejos retraídos que a história vai revelando. Talvez esteja na predileção do diretor pela persistência do plano longo a capacidade em registrar esse algo intangível. 

As cenas de luta, por exemplo, não surgem como grandes embates orquestrados – os amantes desse tipo de filme podem ficar frustrados. Hou muitas vezes mostra as lutas já começadas ou em pequenos flashes, nada muito espetaculoso, apesar de serem fundamentais na trama – a protagonista é tida como exímia lutadora e espadachim. Existe uma leveza incontornável nessas cenas, apesar dos movimentos dos que se confrontam ali serem sempre violentos, mortíferos. A Assassina é a concretização em cena da delicadeza do gesto mortal. Hou Hsiao-hsien é seu mestre maior.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

O velho e o novo

A Juventude (La Giovinnezza, Itália/França/Reino Unido/Suíça, 2015)
Dir: Paolo Sorrentino


Do cinema de altos e baixos que o italiano Paolo Sorrentino comete, o tom operístico e a propensão ao exagero são marcas presentes em grande parte dos seus trabalhos, em medidas variadas. Em alguns momentos ele sabe alinhar muito bem essa atmosfera ao conceito do filme – caso de A Grande Beleza, por exemplo. Em outros, ele não consegue mais do que soar gratuito e um tanto pedante, sem muito o que dizer e mais concentrado em criar “belas” cenas e takes, como no seu mais novo filme, A Juventude.

Há um clima de majestade no ar, desde os belos cenários dos campos e montanhas dos Alpes, mas principalmente nos ambientes do luxuoso hotel-SPA onde estão hospedados dois grandes amigos. Fred (Michael Caine) é maestro e compositor clássico aposentado e Mick (Harvey Keitel) é um cineasta que prepara o roteiro de um novo filme. Apesar da pompa, todos ali parecem aborrecidos e desgastados, em busca de repouso ou alívio para as doenças do corpo e da mente, perfazendo um quase grupo secreto de zumbis da alta sociedade.

Não deixa de ser uma visão pessimista – e em alguma medida moralista – de Sorrentino ao desenhar esse grupo como seres vazios e apáticos, na medida em que seus protagonistas revelam-se figuras superiores, mais dignas, que conseguem enxergar a crueza daquilo tudo, embora estejam em um mesmo processo de desânimo e crise pessoal. Encaram, no fim da vida, fantasmas e suas próprias atitudes repreensíveis do passado.


O lugar é povoado de tipos excêntricos – o monge que promete um dia levitar, o casal de velhos que não troca uma única palavra durante o jantar e toda sorte de velhos decrépitos. Até mesmo a filha de Fred, vivida por Rachel Weisz, vai estancar no lugar depois que o noivo a troca por uma mulher mais jovem – e aparentemente fútil –, sendo ele justamente filho de Mick – uma maneira de mostrar como a ideia de jovialidade é muito mais cruel no caso das mulheres.

Sorrentino talvez queira provocar um embate geracional aqui, já que os dois velhos amigos lidam com a presença de jovens, da massagista com cara de criança, da beldade que se lhes apresenta nua na piscina de águas termais ou mesmo no jovem ator desgostoso de sua carreira (vivido por Paul Dano). A velhice seria o contraponto a um mundo de possibilidades e movimentações, enquanto aquelas pessoas ali parecem se decompor com o passar do tempo. Talvez por pesar a mão nesse ponto, tenta se redimir com um final que parece negar esse conceito, mas soando do mesmo modo fácil e algo rasteiro. 

Todas essas discussões seriam muito mais ricas caso o diretor realmente se interessassem por elas e pelas contradições que cada personagem carrega. Sorrentino prefere observar o dia a dia nesse lugar de modo estilizado, grandioso, com câmera suntuosa, querendo soar “estilosa” a todo instante. Não percebe que, nesse caso, o próprio filme se reveste de uma casca blasé capaz de distrair a atenção e voltá-la ao apelo estético, algo que ele mesmo busca ironizar desde o início.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

É Tudo Verdade – Ranking geral


Bons dias e noites foram as que eu acompanhei pela primeira vez o É Tudo Verdade, o maior festival para o formato na América do Sul. Programação variada, com curadoria rigorosa e atenta ao que de interessante tem sido feito em termos de fabricação do real através do cinema. Abaixo, ranking com todos os filmes vistos nessa edição:


Longas e médias-metragens


Tudo Começou pelo Fim (Luis Ospina, Colômbia, 201) ****
Allende, Meu Avô Allende (Marcia Tambutti Allende, Chile/México, 2015) ****
O Futebol (Sergio Oksman, Brasil/Espanha, 2015) ***½ 
Jonas e o Circo sem Lona (Paula Gomes, Brasil, 2015) ***½
Chicago Boys (Carola Fuentes e Rafael Valdeavellano, Chile, 2016) ***½
Um Caso de Família (Tom Fasseart, Holanda/Dinamarca, 2015) ***½
Nuts! (Penny Lane, EUA, 2016) ***½
Anos Claros (Frédéric Guillaume, Bélgica, 2015) ***½
Claude Lanzmann: Espectros do Shoah (Adam Benzine, Canadá/Reino Unido/EUA, 2015) ***½
Fogo no Mar (Gianfranco Rosi, Itália/França, 2016) ***
Gabo: a Criação de Gabriel García Márquez (Justin Webster, Espanha/Reino Unido/ Colômbia/França/EUA, 2015) ***
Galeria F (Emília Silveira, Brasil, 2016) ***
Paciente (Jorge Caballero Ramos, Colômbia, 2015) ***
Gigante (Zhao Liang, China/França, 2015) ***
Manter a Linha da Cordilheira sem o Desmaio da Planície (Walter Carvalho, Brasil, 2016) **½
Cidadão Rebelde (Pamela Yates, EUA, 2015) **½
O Homem que Matou John Wayne (Diogo Oliveira e Bruno Laet, Brasil, 2016) **
Catástrofe (Alina Rudnitskaya, Rússia, 2016) **
No Limbo (Antoine Viviani, França/Canadá/Irlanda/Espanha/ EUA/Reino Unido, 2015) **
As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana (Paola Vieira e Claudio Lobato, Brasil, 2016) *½


Curtas-metragens


Buscando Helena (Roberto Berliner e Ana Amélia Macedo, Brasil, 2016) ****
Fora de Quadro (Txai Ferraz, Brasil, 2016) ***½
Praça de Guerra (Edi Junior, Brasil, 2016) ***
Aqueles Anos em Dezembro (Felipe Arrojo Poroger, Brasil, 2016) ***
Sem Título # 3: E para que Poetas em Tempo de Pobreza? (Carlos Adriano, Brasil, 2016) **½
O Oco da Fala (Miriam Chnaiderman, Brasil, 2016) **½
Abissal (Arthur Leite, Brasil, 2016) **½
Vida como Rizoma (Lisi Kieling, Brasil, 2016) **½
A Culpa é da Foto (Eraldo Peres, André Dusek e Joédson Alves, Brasil, 2016) **½
A Visita (Pippo Delbono / França, 2016) **


É Tudo Verdade – Parte V



O Futebol (Idem, Brasil/Espanha, 2015)
Dir: Sergio Oksman


Questões de família, especialmente aquelas com fissuras e cicatrizes não curadas, marcaram forte presença dentre os filmes desta edição do É Tudo Verdade – obras como Allende, Meu Avô Allende, Anos Claros e Um Caso de Família, este último vencedor da competição internacional de longas. Também o ganhador dentre os brasileiros em concurso escancara com muita força os dramas pessoais de seus realizadores: O Futebol é um filme duro e potente enquanto registro de uma realidade não latente, mas estanque.

Dirigido pelo brasileiro radicado na Espanha Sergio Oksman, o filme é também uma espécie de diário íntimo de reencontro, embora com mais sequidão do que se espera de uma narrativa pessoal e no âmbito familiar. Há mais de 20 anos que o diretor não via o pai. Quando Oksman tem a oportunidade de vir a São Paulo durante a Copa do Mundo de 2014, resolve retomar o contato com uma proposta: filmar o reencontro enquanto eles acompanham os jogos da Copa.

Simão é um homem quase impenetrável. Rechaça qualquer tipo de entrada que possa significar um acordo com o passado, dispensa qualquer forma de expor velhas feridas e de fazê-las cicatrizar – é difícil mesmo entender até que ponto, para ele, essas questões são realmente fundamentais ou já águas passadas, ativas ou abrandadas. Oksman, com equipe reduzidíssima, tenta dar conta de revelar a rotina do pai e de se inserir nesse contexto como elemento provocador.

É natural pensar que estaremos diante de uma história de reaproximação, mas o filme é um retrato de uma dificuldade. Dificuldade de conversa franca, dificuldade de afeição – do modo caloroso como pensamos uma relação pai e filho –, dificuldade de ultrapassar a barreira do futebol. Simão consegue falar sobre escalações passadas da seleção brasileira, relembra lances e partidas de jogos históricos, mas na esfera afetiva/familiar é uma negação para lembrar. Ou, antes, quer ser uma negação nesse aspecto, recusa a lembrança e a prestação de contas com o passado.

Com isso, o diretor compõe um retrato rígido do encontro desencontrado, preferindo o os longos planos estáticos, ou aqueles dentro do carro em movimento, que conferem rigor formal ao filme, ao mesmo tempo que reflete justamente a dificuldade de interação entre pai e filho. O futebol seria essa zona confortável em que a comunicação acontece – e o filme é capitulado a partir dos jogos da Copa –, como se aquilo fosse um pretexto, muito embora Simão pareça sempre no controle das situações, seja das conversas ou da sua própria movimentação no filme. Ele se recusa, por exemplo, a trocar um dia de trabalho para ir ao estádio ver um dos jogos, o que rende um dos ótimos momentos do filme em que os dois, de carro, estacionam num lugar perto do estádio onde só é possível ouvir o barulho e a reação da torcida. O Futebol é um gesto documental sobre uma relação possível entre esses dois homens, mas quase impossível no plano concreto. 

É mesmo um campo escorregadio, de difícil penetração, por onde o filme trafega. Oksman, antes de diretor-personagem de um filme, é o filho que busca o confronto amigável, respostas, motivos, alguma verdade, mas encontra uma figura paterna pouco disposta, em certo sentido mesmo embrutecido, mas ainda assim há um laço afetivo a que eles se apegam. Não parece haver repulsão entre os dois, mas também há empecilhos para uma atração. Tão perto e tão longe. É a pulsão da imagem que os aproxima, e é com ela que eles se despedem.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

É Tudo Verdade – Parte IV


As Artimanhas da Nuvem Cigana
(Idem, Brasil, 2016) 
Dir: Paola Vieira e Claudio Lobato


O filme de abertura do É Tudo Verdade no Rio de Janeiro tem tudo a ver com a cidade, pois foi lá que floresceu, na década de 1970, um grupo de amigos artistas em torno de uma espécie de coletivo denominado Nuvem Cigana. As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana, de Paola Ribeiro e Cláudio Lobato, tenta dar conta de uma época efervescente, mas tropeça na sua própria vontade de traduzir algo de muito difícil que é a experiência artística-existencial de um grupo que vivia e produzia de modo muito particular.

É um documentário mais tradicional que explora a reunião do coletivo que, dentre outras coisas, pregava o amor livre e a arte utópica. Havia poetas metidos a jogadores de futebol, escritores, pintores e desenhistas metidos a músicos, ao mesmo tempo hippies, antenados e alienados da vida política conturbada de um Brasil em regime militar.

Uma pena que o filme assuma postura um tanto careta ao retratar essa história, mais valendo como registro do que como construção narrativa. Essa é prejudicada por uma montagem que vai e volta nos temas e questões que envolvem a vida do grupo, sem freio, atropelando e passando como que sem apuro por momentos e situações realmente interessantes, mas que carecem de profundidade, de mais atenção.

Das ricas imagens de arquivo e depoimentos nem sempre inspirados dos principais integrantes do coletivo, vivos ainda hoje, o filme consegue extrair um painel curioso não só de um período histórico especificamente localizado, mas de uma maneira original e sincera de vivenciá-lo. Falta talvez o que abunda em Tudo Começou pelo Fim, do colombiano Luis Ospina, visto aqui no É Tudo Verdade: mais apego, mais dedicação, mais vontade de remexer e esmiuçar um baú de memórias e práticas que compõem o modo de experienciar a vida dessa coletividade.


Anos Claros (Les Années Claires, Bélgica, 2015)
Dir: Frédéric Guillaume
 
A partir do filão de documentários em primeira pessoa, esses em que os próprios cineastas expõem partes e aspectos de sua vida particular, delícias e cicatrizes pessoais,
Anos Claros consegue estar entre o autobiográfico e o narcisismo, mas com uma leveza tão graciosa e íntima que ganha o espectador pelo tom e carisma dos personagens.

O cineasta belga Frédéric Guillaume resolveu expurgar seus demônios pessoais – ou, num sentido mais amplo, seu próprio amadurecimento – num filme que se aproxima de um diário intimista. O longa é todo construído a partir de imagens caseiras que o diretor realizou ao longo de dez anos, a começar com a gravidez de sua esposa da única filha do casal.

Depois do nascimento, no entanto, a paixão e o lar feliz sofrem um abalo e Frédéric vai se confrontar com curvas inesperadas no relacionamento com a esposa. Por se tratar de algo tão pessoal, um tipo de história não necessariamente excepcional – na verdade ela é muito comum –, sua força está na maneira como expõe com graça e um tantinho de poesia visual um período de muitos anos e emoções conturbadas. 

É possível encontrar no filmes uma série de reflexões sobre a vida, a solidão, o amor e o fim do amor, também sobre o amor incondicional e as possibilidades de continuar gostando de alguém. Mas tudo isso aparece aqui sem o peso de uma discussão formal, sem o palavreado pomposo do cinema francês. Tudo isso simplesmente atravessa a trajetória de Frédéric e, mesmo na dor, o diretor traduz tudo muito bem a partir das imagens que dispõe.

terça-feira, 12 de abril de 2016

É Tudo Verdade – Parte III


Fogo no Mar (Fuocoammare, Itália/França, 2016)
Dir: Gianfranco Rosi

 
Tema mais atual, relevante e explorado não há no cinema europeu de hoje do que esse que atravessa
Fogo no Mar: os dramas dos refugiados políticos que buscam abrigo nos países da Europa. O filme do italiano Gianfranco Rosi abriu o É Tudo Verdade, em São Paulo, e venceu há poucos meses o Urso de Ouro no Festival de Berlim. É a primeira vez que um documentário conquista o prêmio máximo de um dos mais prestigiados festivais de cinema do mundo. E Rosi já havia feito o mesmo ao vencer, em 2013, o Festival de Veneza com outro documentário, Sacro GRA.

Fogo no Mar aporta na ilha italiana de Lampedusa, na Sicília, que acabou se tornando um grande reduto para os imigrantes africanos e do Oriente Médio que buscam chegar em solo europeu. Na tentativa de atravessar o mar, muitas embarcações não conseguem completar a viagem e precisam pedir pouso na ilha.

A câmera de Rosi é observacional, não há entrevistas. No melhor estilo cinema direto, o filme observa o dia a dia na ilha, talvez até menos o dos diversos refugiados que não param de chega em barcos lotados e mais as famílias e moradores locais que vêm o lugar se transformando em seu reduto populacional.

Há uma escolha de Rosi em nunca espetacularizar os conflitos pessoais dos imigrantes, nunca explorar as mazelas sofridas por eles em busca de explicações ou respostas para esse impasse político. É uma opção que tira o peso dramático da situação, sem deixar de dignificar aquelas pessoas – as cenas em que ouvimos, pela radiopatrulha, os apelos dos imigrantes nos barcos em alto mar são muito impactantes.

Mas esse mesmo tipo de preferência narrativa acaba por minimizar as potências que o filme tem em mãos, sendo a ilha um microcosmo muito rico da situação geral de uma Europa contemporânea. O passeio que o diretor faz por entre a rotina de algumas pessoas ali ganha pouca dimensão concreta na consonância com o tema do filme. Há, por exemplo, um garoto, morador local, filmado durante as brincadeiras e andanças pelos campos e praias; parece que ele ganha mais tempo em tela do que os próprios refugiados, e ainda assim o filme não consegue estabelecer uma relação tão clara com aquilo que parece mais pulsante naquela localidade ­– o que nos faz pensar que Fogo no Mar não é um filme sobre refugiados, mas sim sobre uma ilha cuja particularidade é receber, involuntariamente, esses refugiados. Mas mesmo assim, o filme não parece dar conta disso.

É possível mesmo discutir até que ponto alguns filmes têm vencido grandes prêmios em festivais por suas qualidades intrínsecas ou somente por estarem tematicamente em consonância com os acontecimentos que mobilizam o público atualmente – e premiar filmes assim não deixa de significar uma postura política assumida diante do mundo de hoje. Antes deles, o fraquíssimo Dheepan: O Refúgio, de Jacques Audiard, venceu a Palma de Ouro em Cannes, por exemplo. 

De qualquer maneira, para além das premiações, Fogo no Mar parece ser fiel ao tipo de cinema a que Rosi está filiado no campo do documentário, talvez sem exigir de si próprio um estudo formal daquela questão. Ainda assim, se em alguns pronunciamentos Rosi disse ter ficado muito abalado com o tempo vivido na ilha, essa dimensão nunca aparece a contento na tela, para além da possibilidade de testemunhar como essas mudanças sociais tem se dado em alguns lugares do globo.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

É Tudo Verdade – Parte II


Jonas e o Circo sem Lona (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Paula Gomes


Paula Gomes e equipe percorreram o Estado da Bahia pesquisando e mapeando os circos que se proliferam no interior. Numa desses encontros, conheceu Jonas e sua paixão pelo circo. Quando o garoto vai morar na zona metropolitana de Salvador, distancia-se do circo em que vivia e passa a construir, no quintal de casa, seu próprio espetáculo.

Jonas e o Circo sem Lona é o retrato dessa pulsão juvenil que faz parte mesmo do sangue do garoto – sua família tem longa tradição no circo. Ele se diverte ao dar forma a seu espetáculo, ao preparar os números e ensinar os amigos a fazê-los, gosta também de abrir as portas para as pessoas do bairro pobre onde mora e agradar o respeitável público. Mas Jonas está crescendo e outros desafios se impõem ao garoto: estudar, ser alguém na vida, almejar algo melhor. O filme encontra Jonas dividido entre o sonho e a vida concreta, dilema que lhe perturba, observado pelo olhar atento do filme.

A diretora Paula Gomes não se deixa deslumbrar pela simples vontade do garoto, ainda que reverencie o misto de inocência com seriedade com que ele leva adiante seu desejo. Filma não só as preparações no quintal do garoto, mas adentra a rotina da família, aproxima-se da mãe e avó do garoto, acompanha Jonas na escola. Aliás, a mãe é peça fundamental aqui porque é ela a responsável por acordar o garoto e chamá-lo para o mundo real, é quem mais lhe cobra uma postura realista – e, consequentemente, adulta.

Jonas e o Circo sem Lona sabe ser cru, árido, e mesmo duro, ao não se esquivar dos atritos que tiram    – há  uma cena particularmente forte que envolve o depoimento da professora do colégio de Jonas não só sobre os passos do garoto como sobre o próprio filme. Ao mesmo tempo, a obra consegue ser terna e sensível ao se interessar não pelo circo em si, mas pelo brilho no olhar de Jonas quando está imerso em seu mundo de fantasia e atrações.

Há uma proximidade afetuosa entre a diretora, Jonas e sua família que reflete a maneira como o próprio filme se posiciona diante das questões que se impõem ao garoto, fazendo de Paula também uma personagem ali. Mesmo que esteja sempre fora de quadro, ela fala e se dirige diretamente a todos em cena, sempre do modo mais carinhoso – a mãe de Jonas chama-a de “Paulinha”, por exemplo. Esse aspecto doce não deixa de esconder a posição da diretora em prol do menino – o que fica claro, por exemplo, na visita ao circo do tio de Jonas, lugar onde que ele adoraria morar (e se enamorar), algo como uma possível opção para ele –, embora Paula saiba entender e respeitar as forças contrárias que se processam ali no âmbito familiar. Em alguns momentos, porém, as observações da diretora podem soar um tanto ensaiadas demais – assim como do filme não escapam momentos de maior encenação -, como se já previstas anteriormente, mas sempre abrigadas no campo do afeto.

É muito fácil falar de circo e apelar para um caminho romântico em que noções como os de “sonho”, “magia”, “imaginação” e “infância” surjam como protótipos intrínsecos à essa experiência e vivência, de quem faz o espetáculo e de quem o assiste, uma espécie de relação óbvia. Pois Jonas e o Circo sem Lona beira essas questões, mas tem uma bússola moral que não desvirtua o filme em prol de um pieguismo simplista: o aspecto da vida real, esse que bate à porta e cobra do sujeito uma postura no mundo. O filme sabe que o verdadeiro espetáculo que não pode parar é o de crescer e amadurecer.

domingo, 10 de abril de 2016

É Tudo Verdade – Parte I


Tudo Começou pelo Fim
(Todo Comenzó por el Fin, Colômbia, 2015)
Dir: Luis Ospina


Um homem sexagenário recebe notícias de complicações de um tumor estomacal depois de outros problemas graves e sucessivos de saúde. Esse homem é o próprio diretor do filme, o veterano cineasta colombiano Luis Ospina. Com projeto de rodar um novo trabalho, passa a correr contra o tempo para finalizar o projeto que toma outro viés, partindo da própria condição de saúde do diretor.

A obstinação de Ospina pelo filmar está inscrita desde o início: com uma câmera simples de celular e com a ajuda da companheira que lhe segue, ele registra tudo, mesmo os passos mais corriqueiros e os mais tenebrosos nos quartos e corredores do hospital. Mas é só o pontapé para o baú de memória que o filme abre. E o que parecia uma história sobre si mesmo ou sobre a doença e as agruras que isso causa num senhor de sua idade, passa a ganhar outra dimensão.

Tudo Começou pelo Fim, em primeira medida, é um filme de uma generosidade gritante. A luta pessoal de Ospina contra a doença fatídica cede lugar ao rico mosaico que ele faz de sua vida, em retrospecto, a partir de fins dos anos 1960. E isso significa, de modo imediato, falar de seus amigos, de suas jornadas e da união de um grupo que viveu junto os anos de formação pessoal e profissional em torno do cinema, do amor pela arte, do vigor por aquilo que eles amavam e no qual acreditavam.

Para tanto, o cineasta não se apega a limites temporais. Com cerca de três horas e meia de duração, o filme vai apresentando, aos poucos, os amigos que fizeram parte daquela trupe, as pessoas que caminharam com Ospina o caminho do aprendizado e da descoberta do cinema como artefato de resistência, também do aprendizado emocional, do risco de se fazer cinema como eles faziam numa Colômbia sem grande tradição e vocação: de modo rústico, anárquico, contra convenções e regras caretas.

Essa abertura para com o retrato de sua geração que o filme promove é também ela um aspecto de surpresa, pois o filme assim vai se moldando. Detém-se nas figuras e episódios que marcaram a vida deles, e o faz com um carinho e admiração latentes. À vasta coleção de imagens de arquivo, seja dos registros amadores, dos próprios filmes realizados ou dos bastidores dessas produções, soma-se o registro de um almoço especial que reuniu esses mesmos personagens nos dias atuais, tal como um encontro especial de uma turma das antigas.

Ospina revisita lugares e memórias, suas e dos seus companheiros, e aproveita também para lhes tomar a palavra, resgatando momentos e situações vividas através das recordações do outro e ainda aproveita para acertar as contas com o passado e, em último esforço, homenageiam aqueles que já se foram. Resgata com isso tudo o espírito de uma época, além de repassar a própria história da Colômbia.

Não é pouca coisa. É na capacidade de articular todos esses elementos, de modo claro e preciso, que o filme encanta pela sinceridade e amor que transbordam da tela. A longa duração não mais incomoda porque há muita riqueza naquela(s) história(s) – e menos na narrativa em si que segue o estilo despojado de Ospina e seu grupo. No filme de um diretor que se volta tanto para si mesmo, Tudo Começou pelo Fim acaba por ser uma bela homenagem ao outro, que também é parte dele (de nós). Mesmo com a doença e o futuro incerto, a vida é uma festa.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

É Tudo Verdade – 21º Festival Internacional de Documentários


E aqui estou eu pela primeira vez participando do prestigioso festival É Tudo Verdade, maior evento brasileiro voltado para o cinema documentário feito no Brasil e no mundo. Não é de hoje que o documentário tem servido como espaço de criação e formulação de novos caminhos para a linguagem cinematográfica.

O É Tudo Verdade, com esse nome que sempre me pareceu uma bela provocação, é esse lugar de celebração dos filmes que desafiam as brechas do real e fascinam por sua capacidade de ainda nos surpreender. O documentário vive.

Como de praxe, espero poder escrever aqui no blog sobre alguns filmes vistos durante a maratona, na medida do possível, além da cobertura para o jornal A Tarde. O site oficial do evento pode ser acessado aqui. 

E que venham os filmes e os desafios de se olhar para o real.