segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Puro de sangue e de coração

Cavalo de Guerra (War Horse, EUA, 2011)
Dir: Steven Spielberg



O que faz um filme ser piegas? Até que ponto a pieguice pode ser tolerável ou extrapola o bom senso? É interessante pensar nessas questões à luz do novo filme de Steven Spielberg, bastante acusado por parte da crítica e do público de ser exatamente emotivo demais, lacrimoso ao extremo. Acredito que muito por conta dessas opiniões, fui para a sessão do filme imaginando que encontraria uma obra bastante chorosa. Mas qual a minha surpresa ao me deparar com uma história tocante (com sua dose de pieguice sim, porque estamos falando de Spielberg), mas em nenhum momento ridícula na sua emotividade. Às vezes, parece prestes a derrapar por esse caminho, mas sempre se recupera a tempo.

Cavalo de Guerra está longe da alcunha de meloso que andam pintando, coisa que o próprio diretor realmente já fez anteriormente, como em Amistad e A Cor Púrpura. Talvez resida aí certa resistência, birra mesmo, contra o diretor quando esse seu mais novo filme tem um pé, sim, no dramalhão. Acusam o filme de manipulador. Mas qual arte mais manipuladora e calcada na farsa do que o próprio cinema? Spielberg se utiliza da relação construída entre seres humanos e um animal para falar de lealdade e amizade, temas bastante caros ao diretor. Porém, no fundo, parece uma história sobre instinto, esse que cria conexões entre seres vivos de forma inexplicável.

O filme é como uma sinfonia de corações puros. O cavalo, nascido na fazenda de uma humilde, mas trabalhadora, família, vai passar por diferentes donos no decorrer dos conflitos da Primeira Guerra Mundial, quando tiver de ser vendido para que eles não percam a fazenda para um rico arrendatário. Seu primeiro dono, o garoto Ted Narracott (Jeremy Irvine), será o responsável por domesticar o animal bravio e irascível, conquistando sua confiança.

E é nas mãos do jovem ingênuo que o filme mais abusa do tom emotivo, com o garoto fazendo cara de choro cada vez que ameaçam o animal. Mas depois dele, todos os demais que, por força do acaso, se afeiçoarem ao bicho, terão seus destinos traçados pelos caminhos trágicos da guerra. Aí, o filme administra muito melhor as relações de comunhão entre homem e animal, acrescentando anseios e preocupações pessoais desses novos "donos", que não estejam ligados somente à tentativa de preservar a a vida do cavalo, antes a suas próprias. Além de que o processo se revela cíclico, muito bem orquestrado por um roteiro que não deixa nenhuma das reviravoltas soarem forçadas (talvez somente a última).

Plasticamente, o filme é um deleite. A fotografia primorosa de Janusz Kaminski, parceiro habitual do diretor, valoriza os planos abertos da paisagem rural do Reino Unido e da França (que lembram o melhor John Ford em sua grandiosidade épica no western). Trabalho semelhante em qualidade vem de outro colaborador inseparável de Spielberg, o compositor John Williams, conferindo tom épico à música, presente a todo o instante na narrativa (trilha melhor, inclusive, do que fez para o recente As Aventuras de Tintim, do mesmo cineasta).

Além de momentos esteticamente belíssimos, existem cenas de pura força dramática: a alimentação pelas costas, a invasão ao acampamento alemão, o conflito nas trincheiras, o resgate do cavalo preso no arame farpado. Nenhuma delas piegas. Mas há de se destacar também uma cena final belíssima, fotografada com extrema beleza, essa sim feita para chorar, mas nunca piegas porque é honesta com seus personagens e com a sensibilidade do espectador. Cavalo de Guerra termina fazendo jus a cada lágrima de emoção derramada porque sabe quando elas podem brotar com sinceridade.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Cinema de fascínio

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, EUA, 2011)
Dir: Martin Scorsese



“Que filme lindo esse trabalho de Martin Scorsese”. Diante dessa frase minha, um amigo achou estranho aquele adjetivo referente a um filme do mesmo diretor de Taxi Driver, Os Bons Companheiros, Os Infiltrados. Pois A Invenção de Hugo Cabret é lindo mesmo, um Scorsese lúdico como nunca se viu em sua filmografia, enveredando por caminhos distintos, abraçando a tecnologia 3D com a garantia de quem faz valer suas potencialidades e criando ainda uma das mais lindas homenagens ao cinema dos primeiros tempos. Em especial a Georges Méliès e sua veia criativa que dotou o cinema do fascínio pela ficção e pela fantasia.

Seria um filme marcadamente infanto-juvenil, ingênuo mesmo, se não fossem as referências explícitas à história do cinema, o que não deixa perder a graça para os mais novinhos, mas que serve para conquistar qualquer apaixonados pela sétima arte. Adaptado do livro homônimo do norte-americano Brian Selznick, A Invenção de Hugo Cabret é um deleitosa viagem pelo universo esperançoso de um órfão que mora entre as paredes de uma estação de trem da França no início do século passado, cuidando e dando corda aos relógios do lugar, ofício herdado do pai.

Hugo (Asa Butterfield) é esse menino solitário, obcecado por desvendar o mistério que cerca um autômato (boneco mecânico feito de metal que imita os movimentos dos humanos) deixado pelo pai (Jude Law). Seu encontro inicialmente desastroso com o velho dono de uma loja de bugigangas na estação (Ben Kingsley) e também com a neta deste (Chloë – Grace – Moretz), vai lhe abrir outros caminhos e algumas grandes surpresas (e para o espectador também, principalmente quando se revela a verdadeira identidade de um dos personagens).

Há de se pontuar que a direção de Scorsese continua vigorosa e segura, mas por vezes o ritmo da narrativa vacila, ou se demora um pouco para alcançar seu desfecho nas sequências. O fator emotivo também se estende em alguns momentos, sendo uma grande preocupação do filme, ainda mais na parte final. Mas nada que faça perder o interesse na história, principalmente quando ganha o tom é de aventura, e há muitos destes. Há ainda proximidades bastante interessantes entre o universo diegético do filme e sua relação direta com o cinema. Primeiro, o mundo dos relógios, engrenagens e maquinarias remete ao próprio cinema enquanto artifício, trabalho manual (que dá muito trabalho, ainda mais naquela época), como se mostra na última parte da película.

Além disso, toda a beleza visual, onipresente na narrativa, parece remeter ao universo onírico e suntuoso da imaginação, da criação lúdica, algo que o cinema começou a imprimir na tela, causando fascinação. Assim, o filme é dotado de um trabalho estético impecável e de extremo bom gosto, desde a reconstituição detalhista de época, à luminosidade gritante e a uma trilha sonora viva, resplandecente. Há muito tempo que um filme não parecia reunir um conjunto técnico que fosse tão impactante e também importante para a narrativa, a ideia de fantasia e sonho lúdico fazendo soltar aos olhos (e ouvidos) tamanha a beleza plástica.

E vindo de um mestre inconteste do cinema, é também uma grande alegria poder presenciar um uso tão bom do recurso 3D, sem exageros, em meio a tantos exemplares desastrosos que vemos por aí nos cinemas. A história contada aqui está acima do exibicionismo dessa técnica, que se preocupa com a supervalorização de determinados objetos de cena, como ponteiros de relógio, trens, fumaça, fogos de artifício (é exemplar, por exemplo, como o diretor utiliza o efeito para alargar a cara de um personagem a fim de torná-lo mais ameaçador). Mas mais que isso, o 3D permite também a configuração, de novo, de uma atmosfera de fantasia e sonho, uma fuga do mundo real para revelar justamente o quanto o cinema tem de tão mágico e fabular. É como se o filme precisasse ser feito em 3D.

Grande celebração do poder do cinema enquanto artifício do sonho, A Invenção de Hugo Cabret se revela um dos desfrutes mais belos que Martin Scorsese pode nos oferecer. O diretor das narrativas policias e violentas nos entrega aqui uma história de coração, singela e plena, renovando o amor ao cinema e sua potência universal de criação de mundos. Reverencia o gênio criador do homem que vislumbrou o status de arte desse invento para nos fazer acreditar, mais de cem anos depois, que o cinema permanecerá vivo enquanto houver quem ainda o leve adiante com respeito e sabedoria.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Cinema de outrora

O Artista (The Artist, França/Bélgica, 2011)
Dir: Michel Hazanavicius



De longe, poderia espantar que um filme francês, mudo e em preto-e-branco, fosse um dos trabalhos mais festejados nessa temporada de prêmios norte-americanos. Mas tudo se torna compreensível quando se percebe que O Artista é uma grande celebração do cinema hollywoodiano dos primórdios, dominados pelas histórias de aventura e pelo culto às estrelas, encantando plateias que presenciavam e aprendiam a amar o cinema como novo invento do século XX. Com o apoio da poderosa Weinstein Company, o filme ganhou força nos Estados Unidos e se mostrou como uma irresistível homenagem ao cinema de outrora.

Mais interessante ainda é perceber que o enredo de O Artista é bastante simples e até mesmo ingênuo, não há nada de muito novo ali. Astro do cinema mudo, George Valentin (Jean Dujardin) conhece coincidentemente a aspirante a atriz Peppy Miller (Bérénice Bejo, esposa do diretor). Ela irá fazer carreira como estrela de filmes sonoros, nova sensação que revolucionou a indústria cinematográfica em tempos de quebra da Bolsa de Valores, em detrimento do velho astro que recusava aquela inovação, caindo em ostracismo e decadência. Claro que uma insinuação romântica entre os dois não podia deixar de constar na trama.

O maior dos acertos de Hazanavicius é fabricar seu filme utilizando os recursos cinematográficos usados em fins da década de 20, quando a narrativa tem início. Desde o aspecto de tela “quadrado” (o widescreen só irá surgir na década de 50), o uso de letreiros, exagero nas expressões e gestos dos atores, preto-e-branco das imagens e o recurso do som reservado somente à trilha sonora musical, tudo é reproduzido como se o filme tivesse sido rodado naquela época, o que confere imenso charme ao projeto, num misto de saudosismo e homenagem a um cinema que ficou pra trás.

Mas o diretor não só reproduz o conceito dos filmes dos primeiros tempos, como usa inteligentemente os recursos do qual se mune para construir sua narrativa, dotando-a de ritmo, perspicácia e vigor, mantendo interesse constante. Junta-se à história adorável, um trabalho técnico de primeira, com destaque para uma fotografia absurda de linda, que varia entre a luminosidade de Peppy como nova estrela de cinema e o obscurantismo que a carreira de Valentin passa a assumir, além de uma trilha sonora onipresente como era de se esperar para um filme sem falas (ou quase sem, já que elas também se farão presentes no seu devido tempo).

Interessante notar admiração notável desse diretor pelo cinema norte-americano, principalmente quando descobrimos que seus dois longas anteriores (Agente 177 e OSS 177 – Rio ne Répond Plus, este último ambientado no Rio de Janeiro, ambos protagonizados por Jean Dujardin) são paródias das histórias de agentes secretos, com referência evidente ao personagem 007 e seu mundo de espionagem. A comédia que reina nesses filmes se mantém aqui no novo projeto, também dominado pelo melodrama mais doce.

Nesse sentido, o carisma em alta de Dujardin e Bejo são outra grande força do filme, construindo personagens adoráveis em suas trajetórias opostas, mas de evidente química romântica. O casal de atores encarna perfeitamente o espírito expressivo das atuações daquela época, mas sem nunca ultrapassar o tom.

O filme é ainda repleto de ótimos momentos. A cena do pesadelo sonoro é genial, assim como a última sequência que, além de resolver muito bem o conflito dos personagens num momento crítico, é mais uma afirmação da necessidade do cinema em se reinventar, de seguir adiante, de buscar novas perspectivas e estratégias. Tudo isso para encantar e nos satisfazer. Exatamente o que O Artista é primoroso em fazer.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Nossa linhagem

Os Descendentes (The Descendants, EUA, 2011)
Dir: Alexander Payne



Envolto em classicismo e dirigido sem grandes rigores, Os Descendentes é uma grande surpresa nessa temporada de premiações por ser muito simples na sua forma, mas mantendo o interesse todo o tempo. Muita da responsabilidade recai sobre um roteiro redondinho, carinhoso com seus personagens, maduro, sem que facilite a vida de cada um; no fundo, é uma história dura. Equilibra satisfatoriamente bem o drama pesado e o comentário cômico, mostrando que de boas ideias, mesmo que nunca inovadoras, pode-se fazer um grande filme.

É muito interessante que seja ambientado nas ilhas do Havaí, paraíso turístico praieiro que logo vem à mente quando se pensa em relaxar e curtir a vida, ideia desmistificada já no início do longa. A cidade grande e seus edifícios convivem também com a pobreza e os problemas sociais, e nem todos estão felizes ali. Por sua vez, o diretor Alexander Payne joga no terreno dos dramas familiares que pegam os personagens desprevenidos com algum acontecimento trágico, embora o filme nunca force um tom pesado. As lágrimas serão sempre bem-vindas, assim como algumas risadas para quebrar a tensão emocional.

Isso porque a esposa do advogado Matt King (George Clooney) está de coma no hospital depois de sofrer um acidente de lancha. O casamento já estava deteriorado antes do incidente, mas nesse momento Matt cuida com afinco para que ela tenha conforto e o cuidado necessário. No entanto, a iminência da morte da mulher e a descoberta de que ela tinha um amante complicam ainda mais a situação.

Há ainda uma subtrama que envolve um largo e valioso terreno natural pertencente à família de Matt, descendentes de uma antiga linhagem de monarcas que governavam as ilhas no passado. Sob a custódia de Matt, o local precisa ser vendido para não configurar um monopólio, o que aguça a cobiça dos primos mais gananciosos.

Pois Os Descendentes, em escala maior, é sobre o que deixamos para a posteridade, os laços que construímos e de como somos responsáveis por eles, em especial no âmbito da família. Daí a importância da relação inicialmente conflituosa entre Matt e suas duas filhas, principalmente com Alexandra (Shailene Woodley), adolescente rebelde e cheia de atitude, brigada com a mãe e afastada do pai, de quem desaprova certa atitude passiva demais. Ou seja, tem-se aí um lar desarmônico.

Matt não tem pulso firme para lidar com nenhuma delas. Mas o momento difícil irá aproximá-los inevitavelmente, pondo à prova o próprio papel de pai desempenhado por ele. E o que pareciam desavenças intransponíveis, vão se revelando muito mais desacordos não resolvidos por falta de compreensão e proximidade entre as partes envolvidas (destaque para as ótimas interpretações de Clooney e Woodley, numa química precisa que vai crescendo junto com o filme). Nesse ponto, a narrativa não abre mão de ser cruel com aquelas pessoas, e também não os livra de seus próprios defeitos e atitudes, o que os tornam sempre mais humanos, e, por isso, mais interessantes.

Assim, Os Descendentes se beneficia de uma certa ternura que se revela nas ações de cada um, acompanhada pela complexa relação que se estabelece entre eles (e cada novo personagem que surge vai revelando outras nuances até o fim do filme, sem serem julgados pelo roteiro). O filme respeita o drama particular de todos, assim como as emoções sinceras que podem aflorar no espectador. O exato plano final, quase uma afronta, é também um belo convite para que procuremos investigar e questionar nossas próprias relações com aqueles a quem devemos laços de linhagem, nossas raízes.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Curtinhas

Sapatinhos Vermelhos (The Red Shoes, Reino Unido, 1948)
Dir: Michael Powell e Emeric Pressburger


Apontado como uma das grandes referências para Cisne Negro, esse Sapatinhos Vermelhos é mais uma bela e intensa investida no universo da dança e dos sacrifícios feitos para alcançar a perfeição e o sucesso. Mas aqui, o fator romance entra em jogo através do triângulo amoroso entre a bailarina Victoria (Moira Shearer), estrela do espetáculo homônimo ao filme, e a relação dividida entre o compositor do espetáculo (Marius Goring), sua grande paixão, e Boris (Anton Walbrook), o empresário dono da companhia de dança, a própria representação do poder. Esses dois caminhos que se apresentam a Victoria representam seu dilema, pois o sucesso de sua carreira e estrelato dependem da aprovação e boa vontade de Boris, apesar do seu talento comprovado. E ele está disposto a prejudicar a própria companhia caso não consiga conquistar o amor dela.

A trama do espetáculo, sobre uma garota que calça os sapatos vermelhos que a mantêm dançando até a morte, é o puro reflexo da obstinação, temática maior do próprio longa. A dupla de diretores, que construíram uma bela parceria no cinema, filma com sutileza, mas com enorme beleza visual, além do lirismo romântico que ronda toda a história, fazendo jus ao bom melodrama. A fotografia, levemente embaçada, dota o filme de uma atmosfera quase onírica, acentuando o tom romanesco. Mas o melhor é quando as cenas de dança se afastam do “teatro filmado” e ganham o mais puro espírito cinematográfico, com trucagens, cortes rápidos e transições de cenas que o afastam do mundo dos palcos. Toda a beleza das imagens e da dança para disfarçar as disputas por poder e paixão.


Ataque ao Prédio (Attack the Block, Reino Unido, 2011)
Dir: Joe Cornish


Muito grata surpresa esse Ataque ao Prédio, lançado no Brasil direto em DVD. Filme de invasão alienígena, ambientado no subúrbio londrino dominado pelas gangues de meninos que mal chegaram à adolescência, conta com ótimos personagens jovens, senso de perigo aguçado, além de ser hilário em muitos momentos. O tipo de diversão deliciosa que sabe respeitar a inteligência de quem assiste, consegue surpreender pela seriedade com que desenvolve sua narrativa e ainda encontra espaço para comentários sociais sobre o estado de violência (e de como ele brota) nesses rincões menos “olhados” das grandes metrópoles (nesse caso, ricas). Tudo isso, através da história de aliens perigosos.

A composição visual desses bichos do espaço é das mais interessantes, dos dentes fosforescentes esverdeados ao negrume dos pelos que dificulta bastante a visibilidade por parte de suas vítimas, fazem deles seres curiosos na mesma medida que perigosos. E mesmo que exista uma atmosfera de aventura e adrenalina nas perseguições, eles causam muita sangria entre os personagens, boas doses de violência que não poupam nem aqueles com quem os filme nos faz simpatizar. O roteiro deixa passar situações relevantes (como a não intervenção de mais ninguém exceto dos jovens do bairro, em maioria negros, os párias da sociedade, embora o estado seja de calamidade geral). De qualquer forma, o filme ganha pelas diversas nuances que consegue lançar sobre esses personagens, sem nunca perder o senso de aventura e adrenalina.


Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, EUA, 2011)
Dir: Paul Feig


Eu realmente não vou com a cara de comédias que precisam de personagens idiotas, fazendo coisas idiotas só para soarem engraçados (e acabam soando idiotas). Em certa medida, é o caso de Missão Madrinha de Casamento que se esforça para ser uma comédia escrachada versão feminina de tantas outras por aí em que homens com idade mental reduzida fazem bobagens juntos (Se Beber Não Case é uma primeira lembrança). Aqui, quando a melhor amiga de Annie (Kristen Wiig, também roteirista) a convida para ser sua madrinha de casamento, ela, é claro, se atrapalha completamente nas tarefas de auxiliar a noiva e preparar as prévias do casório, além de amargurar seu próprio encalhamento e vazio emocional. Então começam as trapalhadas que envolvem a entrada em cena de outras amigas esquisitas com quem Annie precisa lidar, além da rivalidade com a socialite Helen (Rose Byrne), muito mais apta para os afazeres da ocasião.

Cada uma delas tão excêntricas como abobalhadas (a personagem de Melissa McCarthy, gorda e solteirona, é a que mais sofre com a caricatura e o exagero para parecer engraçada – e ainda é um mistério para mim sua indicação ao Oscar). Daí que vêm as situações inconvenientes de onde o filme tenta tirar sua graça (sinceramente, moças cagando em pias ou num vestido de noiva não me fizeram rir, tipo de humor escatológico que soa carregado, preguiçoso e datado demais). Mas as coisas mudam quando, na terceira parte do filme, os dilemas de solidão amorosa de Annie e sua relação com os laços de amizade têm maior destaque, as personagens ganham nuances e o filme encontra o caminho entre o carinhoso e o divertido, sem se render a idiotices. Mudança que vem tarde demais.


Toda Forma de Amor (Beginners, EUA, 2010)
Dir: Mike Mills


Toda Forma de Amor tenta se beneficiar bastante de um certo tom melancólico que provém não só do estado de momentânea apatia de um filho (Ewan McGregor), como também da doença terminal de um pai (Christopher Plummer). Acontece que esse pai, agora viúvo, resolveu assumir sua homossexualidade já em idade avançada, o que injeta ao mesmo tempo estranhamento e uma certa coragem nesse filho com dificuldades de manter relacionamentos. Uma pena que o tom de produto indie, apostando em certas esquisitices e tom tristinho, torna muitas coisas no filme dispensáveis e engessadas, girando de forma não-linear sobre sua própria melancolia.

Christopher Plummer, cotadíssimo para o Oscar de coadjuvante por esse trabalho, está bem (é o tipo de premiação pelo conjunto da obra, para os velhinhos). Mas bem mesmo está Mélanie Laurent esbanjando doçura e beleza, numa personagem misteriosa, embora cheia de estranhezas, contornados muito bem pela atriz que faz um ótimo contraponto a McGregor e seu baixo astral. No conjunto da obra, são as atuações, na medida exata, sem exageros, a grande força de sustentação do filme, embalado por um musiquinha doce (e triste, no pianinho, é claro).

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Cédula de melhores de 2011

Link
Nesta época do ano é tempo de escolher os melhores do cinema que chegaram no Brasil em 2011 nas diversas categorias. Além do exercício de julgamento, é preciso votar no Blog de Ouro, prêmio da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos (SBBC), e também no Alfred, concedido pela Liga dos Blogues Cinematográficos, grupos dos quais prazerosamente faço parte. Embora existam algumas pequenas diferenças entre as duas premiações, minha cédula ideal seria assim:


Melhor Filme

A Árvore da Vida

Cópia Fiel

Um Lugar Qualquer

O Palhaço

Melancolia

Por um fio: Vênus Negra


Melhor Direção

Terrence Malick (A Árvore da Vida)

Abbas Kiarostami (Cópia Fiel)

Sofia Coppola (Um Lugar Qualquer)

Manoel de Oliveira (Singularidades de uma Rapariga Loura)

Agnès Varda (As Praias de Agnès)

Por um fio: Lars Von Trier (Melancolia)


Melhor Atriz

Juliette Binoche (Cópia Fiel)

Yun Jeong-hie (Poesia)

Michelle Williams (Namorados para Sempre)

Karina Teles (Riscado)

Kirsten Dunst (Melancolia)

Por um fio: Yahima Torres (Vênus Negra) e Natalie Portman (Cisne Negro)


Melhor Ator

Selton Mello (O Palhaço)

Javier Bardem (Biutiful)

Ryan Gosling (Namorados para Sempre)

Michael Fassbender (X-Men: Primeira Classe)

Eric Elmosnino (Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres)

Por um fio: Ryan Gosling (Tudo pelo Poder) e Fernando Bezerra (Transeunte)


Melhor Atriz Coadjuvante

Bryce Dallas Howard (Além da Vida)

Melissa Leo (O Vencedor)

Trine Dyrholm (Em um Mundo Melhor)

Elle Fanning (Super 8)

Charlotte Rampling (Melancolia)

Por um fio: Miranda Colclasure (Turnê)


Melhor Ator Coadjuvante

Christian Bale (O Vencedor)

William Jøhnk Nielsen (Em um Mundo Melhor)

Paulo José (O Palhaço)

Kevin Spacey (Margin Call – O Dia Antes do Fim)

Andy Serkis (Planeta dos Macacos: A Origem)

Por um fio: Dustin Hoffman (Minha Versão do Amor)


Melhor Roteiro Original

Cópia Fiel

As Praias de Agnès

Meia-Noite em Paris

O Palhaço

A Árvore da Vida

Por um fio: Melancolia


Melhor Roteiro Adaptado

Tudo pelo Poder

Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual

X-Men: Primeira Classe

Singularidades de uma Rapariga Loura

Reencontrando a Felicidade

Por um fio: O Mágico


Melhor Elenco

O Palhaço

Tudo pelo Poder

Melancolia

Margin Call - O Dia Antes do Fim

O Vencedor

Por um fio: Potiche – A Esposa Troféu


Melhor Filme Nacional

O Palhaço

O Céu Sobre os Ombros

Riscado

Meu País

As Canções

Por um fio: Transeunte


Melhor Animação

O Mágico

Rango

Kung Fu Panda 2

Enrolados


Melhor Documentário

As Praias de Agnès

As Canções

Crítico

Pacific

Filhos de João, O Admirável Mundo Novo Baiano

Por um fio: Corumbiara


Melhor Filme de Estreia

O Céu Sobre os Ombros

Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual

Margin Call – O Dia Antes do Fim

Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres

Trabalhar Cansa

Por um fio: Vejo Você no Próximo Verão


Melhor Fotografia

A Árvore da Vida

Rango

Bravura Indômita

Balada do Amor e do Ódio

O Palhaço

Por um fio: Transeunte


Melhor Montagem

A Árvore da Vida

As Praias de Agnès

As Canções

O Palhaço

Singularidades de uma Rapariga Loura

Por um fio: Namorados para Sempre


Melhor Direção de Arte

Balada do Amor e do Ódio

Rango

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II

Capitão América

O Palhaço

Por um fio: Meia-Noite em Paris


Melhor Figurino

Um Sonho de Amor

O Palhaço

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II

Balada do Amor e do Ódio

Potiche – Esposa Troféu

Por um fio: Fora da Lei


Melhor Trilha Original

O Mágico

Tudo pelo Poder

Rango

A Pele que Habito

Reencontrando a Felicidade

Por um fio: O Palhaço


Melhor Canção Original

“They Don’t Make Mistakes” (Bruna Surfistinha)

“Love Love” (X-Men: Primeira Classe)

“Chanson Illusionist” (O Mágico)

“Rango Theme Song” (Rango)

“Gathering Stories” (Compramos um Zoológico)

Por um fio: “Real in Rio” (Rio)


Melhor Maquiagem

Balada do Amor e do Ódio

Vênus Negra

Lanterna Verde

Cisne Negro

Caminho da Liberdade

Por um fio: Deixe-me Entrar


Melhores Efeitos Visuais

Tio Boonmee que Pode Recordar suas Vidas Passadas

Super 8

X-Men: Primeira Classe

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II

Planeta dos Macacos: A Origem

Por um fio: Lanterna Verde


Melhor Som

Missão: Impossível – Protocolo Fantasma

Super 8

O Mágico

A Casa

Carros 2

Por um fio: Thor


Cena do Ano

Aparições durante o jantar (Tio Boonmee que Pode Recordar suas Vidas Passadas)

Trupe na delegacia (O Palhaço)

Atravessando as paredes (A Alegria)

Abandono do lar (Um Sonho de Amor)

Desastre de trem (Super 8)

Por um fio: Dicky canta para a mãe no carro (O Vencedor)


Pior Filme

As Viagens de Gulliver

Elvis e Madona

Burlesque

A Garota da Capa Vermelha

127 Horas

Por um fio: O Turista


Update: Lista de indicados para o Blog de Ouro, aqui. Algumas decepções, mas va lá!

Update 2: Lista de indicados ao Alfred aqui. Também decepciona em algumas categorias, mas tem surpresas em outras.

Filmes de janeiro


1. Contos da Lua Vaga Depois da Chuva (Kenji Mizoguchi, Japão, 1953) ****½

2. Missão Madrinha de Casamento (Paul Feig, EUA, 2011) **½

3. Românticos Anônimos (Jean-Pierre Améris, França/Bélgica, 2010) ***

4. A Missão do Gerente de Recursos Humanos (Eran Riklis, Israel/Alemanha/França/Romênia, 2010) ***

5. Um Dia (Lone Scherfig, EUA/Reino Unido, 2011) *½

6. Corumbiara (Vincent Carelli, Brasil, 2009) ***½

7. Sapatinhos Vermelhos (Michael Powell e Emeric Pressburger, Reino Unido, 1948) ****

8. Bróder (Jeferson De, Brasil, 2010) **½

9. Politécnica (Denis Villeneuve, Canadá, 2009) ***½

10. Nada Pessoal (Urszula Antoniak, Irlanda/Holanda, 2009) ***

11. As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne (Steven Spielberg, EUA/Nova Zelândia, 2011) ***½

12. Ataque ao Prédio (Joe Cornish, Reino Unido/França, 2011) ***½

13. Andrei Rublev (Andrei Tarkovski, União Soviética, 1966) *****

14. Ganhar ou Ganhar: A Vida é um Jogo (Thomas McCarthy, EUA, 2011) **½

15. A Árvore do Amor (Zhang Yimou, China, 2010) ****

16. O Retorno de Tamara (Stephen Frears, Reino Unido, 201o) ***

17. Solaris (Andrei Tarkovski, União Soviética, 1972) ****½

18. O Espelho (Andrei Tarkovski, União Soviética, 1975) ****

19. A Eternidade e um Dia (Theo Angelopoulos, Grécia/França/Alemanha/Itália, 1998) ****


Revisões:

20. Cisne Negro (Darren Aronofsky, EUA, 2011) ****

domingo, 29 de janeiro de 2012

Irregular ingenuidade

Inquietos (Restless, EUA, 2011)
Dir: Gus Van Sant


Nada tenho contra personagens ingênuos e infantis, mesmo quando estes não são mais crianças. O problema é quando o próprio filme assume essas características, vendendo certa fragilidade que acaba soando irritante na sua falta de maturidade. Pois nesse seu Inquietos, Gus Van Sant tenta ao máximo equilibrar história melosa, personagens esquisitos, morbidez e romance, num conjunto que tem boas sacadas aqui e ali, mas que cai nas próprias armadilhas da caricaturas indie bonitinha que irrita. Porém, o resultado poderia ser bem pior, mas existe algo de afeto verdadeiro que ainda salva o filme do desastre total.

Porque só o desenho dos dois protagonistas já é, por si só, bem estranho. Annabel (Mia Wasikowska) é uma garota que sofre de um câncer irreversível, resta-lhe três meses de vida, mas a mocinha é cheia de vitalidade e pureza, fã de Charles Darwin (?!?). Enoch (Henry Hopper, filho de Dennis Hopper) é um órfão revoltado que nutre a mórbida mania de frequentar enterros de pessoas desconhecidas, além de ter como melhor amigo o fantasma de um kamikazi (?!?). Depois de se conhecerem por acaso, os dois se apaixonam.

O primeiro grande impasse dos personagens está no pouco tempo de vida de Annabel, o que não chega a ser um impedimento para o envolvimento de ambos. Aqui, Van Sant usa sua mão sensível para tratar o tema da morte da forma mais sutil possível, fazendo de Annabel uma garota estóica, uma personagem quase surreal. Mas é esse mesmo estado de “desimportância” que parece dotar o próprio filme de impassividade. Ela vai morrer, mas está tudo bem ao redor. Não parece haver choques, conflitos.

É a mesma visão pueril de Enoch, que revela seu lado mais revoltadinhos quando as coisas apertam, como quando Annabel tem uma grave recaída e ele vai lá ordenar ao médico dela que a cure, ou quando ele acusa a tia (que o cria) da responsabilidade pela morte de seus pais num acidente de carro por terem viajado para ir vê-la receber um prêmio. Nesses momentos, o filme não tem muito o que fazer senão dar voz aos ataques imaturos do garoto, numa infantilidade que parece dominar o próprio longa, cuja falta de traquejo (ou negligência) com assuntos mais sérios, mais adultos, é bastante sentida.


Nesse sentido, Hiroshi, o kamizaki morto na guerra contra os nazistas, se mostra como o personagem mais interessante do filme. Sua relação com a morte, além de evidente, é muito pertinente à história. Assume o tom fantástico que se mistura à própria consciência de crescimento pela qual Enoch precisa passar, ganhando ele mesmo a dimensão de um personagem em meio a um conflito próprio. Suas intervenções são os melhores momentos da película.

O filme atesta um distanciamento cada vez maior de Van Sant de um perfil seu de longas como Elefante, Gerry e Paranoid Park, projetos que revelavam um estilo mais pessoal e arrojado. Inquietos, na contramão, parece mais comercial (como um Encontrando Forrester ou Gênio Indomável) no seu embrulho adocicadamente emotivo, sem intenções de ferir ninguém da audiência. Assim, o filme, na sua irregularidade, parece infantil demais para ser levado a sério, assim como seus próprios personagens encerrados num universo paralelo e particular, um mundo de quase fantasias, não fosse a morte a provar sua cruel realidade.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Drama e fantasia

Contos da Lua Vaga Depois da Chuva (Ugetsu Monogatari, Japão, 1953)
Dir: Kenji Mizoguchi


Meu primeiro filme do mestre japonês Kenji Mizoguchi é também uma de suas obras mais festejadas e conhecidas. O título Contos da Lua Vaga Depois da Chuva parece apontar para a reunião de histórias. No entanto, no filme, adaptado de dois contos do romancista Ukinari Ueda, há uma narrativa que une a trajetória de dois homens que ambicionam o sucesso e a riqueza em meio à guerra civil no Japão feudal do século XVI.

Enquanto Genjuro (Masayuki Mori) pretende a todo custo permanecer na aldeia fabricando e vendendo artigos domésticos de cerâmica, mesmo com a eminência de ataques de saqueadores, Tobei (Eitarô Ozawa) pretende se tornar um samurai, embora não possua tanta habilidade com a espada.

O que primeiro chama atenção no filme é como Mizoguchi consegue imprimir uma atmosfera de drama social, depois passear pela história fantasiosa com uma naturalidade impressionante e ainda voltar ao comentário realista ao final do filme. Tudo isso com tamanha precisão e sem mudanças abruptas de tom. O toque fantástico está na aparição de uma misteriosa mulher que surge para Genjuro como uma viúva rica, revelando posteriormente sua verdadeira e bizarra faceta.

Além disso, existe todo um cuidado estético na construção dos planos e da narrativa, uma mise-en-scène sempre muito bem arquitetada, com destaque para longos planos em que a câmera se movimenta discretamente no espaço. Assim, não se pode acusar o diretor de calculista já que todo esse cuidado passa quase despercebido numa rápida visualização (sempre um bom sinal de trabalho bem executado), sem exibicionismos.

Não à toa, o filme levou pra casa o Leão de Prata de direção no Festival de Veneza no ano de lançamento. Cenas como a do encontro com o moribundo no meio do lago, o surgimento inesperado da voz do pai morto da viúva ou o retorno de Genjuro para casa e sua grande desilusão, ficaram famosas pela força de sua encenação, mas também por sua simplicidade estética. A única ressalva ao filme recaia sobre alguns diálogos que soam mastigados demais, como que explicando a situação dos próprios personagens em dada situação, mas nada que pese ou tire os méritos do filme.


A defesa ao feminismo e a denúncia da situação de desamparo das mulheres numa sociedade arraigada em costumes tão tradicionais quanto machistas, defesa pela qual o diretor é sempre apontado, surge no filme na relação que os protagonistas estabelecem com suas esposas (consequentemente, suas famílias). Elas são deixadas de lado pelos maridos quando a busca pelo sucesso exige que eles partam sozinhos para tentar a sorte em outra região mais próspera, abandonando-as ao sabor das circunstâncias de perigo constante.

Como diz Tobei logo no início do filme, “a ambição deve ser ilimitada como o oceano”. Essa mesma falta de limitação que cega e leva à perdição, mas da qual o ser humano nunca deixará de perseguir. Assim, Contos da Lua Vaga Depois da Chuva perpassa pelo drama e pela fantasia para, no fundo, apontar para a ganância que mora no coração do homem e que se sobrepõe à própria família. À própria felicidade.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Melhores e piores de 2011

Cinematograficamente, 2011 não foi assim tão bom quanto anos anteriores (parece uma bronca constante, não?), mas foi quando eu mais vi filmes do ano, especificamente aqueles que estrearam no país entre 1º de janeiro a 31 de dezembro, incluindo os que foram parar direto no DVD. Foram ao todo 167 longas dos quais escolho abaixo os melhores e piores.


Melhores do ano:


1. A Árvore da Vida


Porque é preciso recriar o universo para entender aquilo que nos forma enquanto indivíduos.

2. Cópia Fiel


Porque não seria o cinema uma mera e soberba cópia da vida real?

3. Um Lugar Qualquer


Porque o tempo não para mesmo que nós estejamos em marcha lenta.

4. O Palhaço


Porque nossa vocação pode estar mais próxima do que faz parecer.

5. Melancolia


Porque é preciso encontrar placidez mesmo em meio ao caos.

6. Vênus Negra


Porque a bestialidade humana é a verdadeira aberração.

7. O Vencedor


Porque quem destrói também ama.

8. As Praias de Agnès


Porque a memória ainda está viva.

9. Lola


Porque lutamos contra tudo e todos pela nossa dignidade.

10. Cisne Negro


Porque a perfeição cobra seu alto preço.

11. Meia-Noite em Paris

12. Tudo pelo Poder


13. O Céu Sobre os Ombros

14. Turnê


15. Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual

16. Singularidades de uma Rapariga Loura

17. X-Men: Primeira Classe


18. O Mágico

19. O Garoto de Bicicleta

20. Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas




Piores do ano:

Porque sempre haverá os maus momentos.


1. As Viagens de Gulliver

2. Elvis e Madona


3. O Turista


4. Burlesque

5. A Garota da Capa Vermelha

6. Os Nomes do Amor


7. Sucker Punch – O Mundo Surreal

8. 127 Horas

9. O Buraco

10. Família Vende Tudo


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Memória viva

As Praias de Agnès (Les Plages d’Agnès, França, 2008)
Dir: Agnès Varda



Agnès Varda faz parte de um seleto grupo de cineastas já velhinhos (Alain Resnais, Manoel de Oliveira) que, mesmo com a idade avançada, ainda filmam com vigor e jovialidade bonitos de se ver. Do pedantismo que se podia esperar, eis que a única mulher da Nouvelle Vague nos entrega um filme sincero e cheio de vida, surpreendente ainda mais por ser um retrato autobiográfico.

Esse tipo de projeto, tão pessoal assim, parece um prato cheio para que qualquer um se perca nas próprias reminiscências. Mas Varda sabe como ninguém explorar os fatos de sua vida sem o menor traço de lamentação ou mesmo de bajulação. Muito pelo contrário, aquela senhora “velhota, roliça e tagarela”, como ela mesma se autodenomina no início do filme, reserva muita ternura e graça para falar de si mesma e dos momentos que marcaram sua carreira, essa que se confunde com a própria Nouvelle Vague.

Varda se mune de fotografias antigas, trechos de filmes e depoimentos (atuais ou gravados há tempos) como faria qualquer outro documentarista. A diferença está na forma como ela apresenta e intercala esses elementos, dramatizando algumas poucas coisas, brincando com os objetos em cena, fundindo imagens, projetando outras em algum ponto do quadro, emprestando seu próprio corpo para relembrar momentos específicos, seja numa balsa, sentada na areia fina, na barriga de uma baleia de pano montada na praia, no pátio da antiga casa reconstruído num estúdio. Enfim, é um filme de entrega.

O melhor, no entanto, é o texto fluido e pontuado de sutilezas e poesia que ela vai costurando (“Se abríssemos as pessoas, encontraríamos paisagens. Mas se abrissem a mim, encontrariam praias”, explica assim o título do filme, revelando sua fascinação por esses lugares). Dessa forma, faz do filme uma surpresa a cada nova cena, em paralelo a uma montagem esperta e dinâmica.

Assim vai se revelando a infância da cineasta, sua transição da fotografia para o cinema, expõe momentos de emoção pura, quando, por exemplo, fala de seu companheiro de longa data, Jacques Demy, também cineasta da Nouvelle Vague (dentre os mais famosos de seus trabalhos, Os Guarda-Chuvas do Amor e Lola, A Flor Proibida) que só a morte os separou. Sabe rir de si mesma e valorizar os vários amigos que a ajudaram nos seus mais diversos projetos.

Varda filma como se a Nouvelle Vague tivesse começado há alguns anos, com sua anarquia, desprendimento e gosto pela experimentação. Mesmo tendo estreado no Brasil com grande atraso (o filme é de 2008), e pouco visto e discutido, As Praias de Agnès revela, mais uma vez, a veia poética da grande cineasta por trás e à frente das câmeras, num documentário lúdico-lúcido dos mais inesperados e gratificantes dos últimos tempos, uma ode ao cinema e ao recordar.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Filmes de dezembro


1. Caro Diário (Nanni Moretti, Itália/França, 1993) ***½

2. Hanna (Joe Wright, EUA/Reino Unido/Alemanha, 2011) **½

3. Tudo Perdoado (Mia Hansen-Løve, França/Alemanha, 2007) ***½

4. Os Olhos de Júlia (Guillem Morales, Espanha, 2010) ***

5. A Hora do Espanto (Craig Gillespie, EUA/Índia, 2011) **½

6. Aprile (Nanni Moretti, Itália/França, 1998) ***½

7. Minhas Tardes com Margueritte (Jean Becker, França, 2010) **½

8. O Gato de Botas (Chris Miller, EUA, 2011) **½

9. As Canções (Eduardo Coutinho, Brasil, 2011) ***½

10. Em Casa para o Natal (Bent Hamer, Noruega/Suécia/Alemanha, 2010) **

11. A Chave de Sarah (Gilles Paquet-Brenner, França, 2010) ***

12. O Solar Maldito (Roger Corman, EUA, 1960) ***

13. O Guarda (John Michael McDonagh, Iranda, 2011) **

14. Capitão América: O Primeiro Vingador (Joe Johnston, EUA, 2011) **

15. Tudo pelo Poder (George Clooney, EUA, 2011) ****

16. Compramos um Zoológico (Cameron Crowe, EUA, 2011) *½

17. Toda Forma de Amor (Mike Mills, EUA, 2010) **½

18. A Última Estação (Michael Hoffman, Reino Unido/Rússia/Alemanha, 2009) **½

19. Corações Perdidos (Jake Scott, EUA/Reino Unido, 2010) ***½

20. Dawson Ilha 10 (Miguel Littín, Chile/Brasil/Venezuela, 2010) **½

21. Missão Impossível: O Protocolo Fantasma (Brad Bird, EUA, 2011) ***

22. Trabalho Interno (Charles Ferguson, EUA, 2010) ***

23. Margin Call – O Dia Antes do Fim (J. C. Chandor, 2011) ***½

24. Natimorto (Paulo Nachline, Brasil, 2009) **½

25. Vejo Você no Próximo Verão (Philip Seymour Hoffman, EUA, 2010) ***

26. Inquietos (Gus Van Sant, EUA, 2011) **½


Revisões:

27. O Céu Sobre os Ombros (Sérgio Borges, Brasil, 2010) ****

28. Cópia Fiel (Abbas Kiarostami, França/Itália/Bélgica, 2010) ****½

sábado, 31 de dezembro de 2011

Últimas curtinhas do ano

O ano acaba e sempre ficam os vários filmes sobre os quais eu gostaria de ter escrito este ano, mas por diversos motivos, contratempos e necessidades não pude assim fazê-lo. Tento tirar um pouco do atraso com esses últimos textos curtinhos sobre filmes do ano. E 2011 foi bom em números: até então 322 filmes (fora umas 30 revisões), sendo que desses, 160 são de produções lançadas comercialmente no mercado nacional, seja nos cinemas ou direto em DVD. Só me resta desejar que 2012 continue repleta de (bons) filmes. A todos, feliz ano novo.


A Serbian Film – Terror sem Limites (Srpski Film, Sérvia, 2010)
Dir: Srdjan Spasojevic


Enfim, vi o tal filme polêmico do ano. E independente das discussões sobre censura decorrentes das cenas pesadas de sexo e violência, A Serbian Film - Terror Sem Limites surpreende por ser tão ruinzinho na sua tentativa de soar pesado e contundente, expondo uma tese capenga do “vilão” sobre a maldade humana, essa que segundo ele deve ser combatida com mais maldade e desumanidades (?!?). Milos (Srdjan Todorovic) é um ex-ator pornô que recebe a proposta milionária de participar de uma espécie de reality show em que recebe ordens de transar e espancar pessoas desconhecidas.

O grande problema do filme é tentar incutir o horror por uma coisa que já é por si só repugnante (ou alguém aí é a favor da pedofilia e estupro?). Existe um discurso quase gritante para que o espectador sinta pura repugnação, o tempo todo reiterada pelo filme a cada nova crueldade que o personagem é obrigado a cometer. No fim das contas, nem vale por toda a defesa feita pela liberdade de expressão das obras de arte (sim, considero qualquer filme uma peça de arte), embora seja contrário a qualquer tipo de censura. Mas melhor se fosse por um filme que valesse mais a pena.


Contra o Tempo (Source Code, EUA/França, 2011)
Dir: Duncan Jones


Depois de uma estreia promissora no longa-metragem com o ótimo Lunar, Duncan Jones retorna com mais uma ficção científica, muito embora Contra o Tempo se aproxime mais um pouco do cinema comercial, numa busca por um público maior. Se em Lunar contava mais a perspectiva psicológica de um astronauta no espaço sideral, nesse seu novo filme ficamos vidrados com a história de um ex-soldado do exército (Jake Gyllenhaal) que retorna ao tempo diversas vezes dentro de um trem prestes a explodir, a fim de descobrir o responsável por tal ato terrorista.

O filme explora muito bem a ideia de voltar ao passado, pois não se quer mudar o curso do que já aconteceu, mas sim encontrar o responsável por uma catástrofe que está prestes a se repetir. Além disso, Duncan Jones filma muito bem as constantes voltas às mesmas situações, sempre a partir de um ponto de vista diferenciado. Ainda acrescenta um interesse romântico na pessoa da bela Christina (Michelle Monaghan), colega de trabalho do homem de cujo o corpo o protagonista toma posse. Embora se traia na sua conclusão ao insistir num final que seja aprazível e reconciliador, o filme consegue discutir a ética da vida humana em situações críticas, para além da necessidade do homem (armado do aparato tecnológico) de provar sua superioridade, e lucar com isso.


Corações Perdidos (Welcome to the Rileys, EUA/Reino Unido, 2010)
Dir: Jake Scott


Uma das maiores surpresas do fim de ano é como esse Corações Perdidos possui tanto de sutileza, sensibilidade e maturidade, sem que precise afrontar a inteligência do espectador. O casamento há muito tempo desgastado de Douglas (James Gandolfini) e Lois (Melissa Leo) ganha um toque inesperado quando a amante dele morre de repente num acidente, e ele resolve permanecer em uma outra cidade depois de uma viagem a negócios. Lá, conhece a stripper e prostituta Allison (Kristen Stewart), de quem passa a cuidar, como a uma filha, sem manter nenhum tipo de relação sexual com a garota. Jake Scott (filho de Ridley Scott, escolhendo estrear na direção de um longa pelo caminho do cinema independente) tem o maior cuidado em compor esses personagens e, principalmente, na forma com que eles lidam com as escolhas e atitudes uns dos outros.

Existe ainda um cuidado preciso na maneira como as informações sobre esses personagens vão sendo apresentadas pela narrativa, sem nenhum tipo de pressa, surgindo quando se tornam pertinentes às situações. É assim que vamos descobrir que a filha do casal morreu ainda adolescente num acidente de carro e mais tarde entenderemos que a mãe teve parcela considerável de culpa (por isso, ela, há anos, não sai de casa, nem dirige). É daí que iremos entender porque Douglas tem tanta predisposição em ajudar aquela menina que ele julga desamparada, numa tentativa de reavivar o cuidado paterno. Esse tipo de entendimento nunca nos é mastigado pelo filme; o espectador vai construindo essas relações sozinho, na medida em que se envolve com o esforço daquele casal e ainda torce para que aquele casamento volte aos trilhos. Com um elenco que defende muitíssimo bem seus personagens (Gandolfini e Leo estão excelentes), Jake Scott começa com o pé direito, maduro e disposto a nos entregar um produto que sabe muito bem considerar a sabedoria emocional de quem o assiste.


Compramos um Zoológico (We Bought a Zoo, EUA, 2011)
Dir: Cameron Crowe


Homem recém-viúvo, pai de dois filhos, uma menina pequena e um rapaz adolescente, resolvem mudar de casa. Deparam com um zoológico à beira da falência e resolvem comprar e administrar o local, sem entender nada do assunto. História das mais absurdas (mas é delas de que o cinema quase sempre se nutre), aposta no carimbo de filme “família” para vender a ideia de superação através de trabalho em conjunto. Nada contra, caso o filme não se acomodasse tanto na própria situação de novos proprietários se embaralhando na tentativa de fazer o lugar dar certo novamente, com direito aos animais do zoológico reagindo como se entendessem os dramas e problemas dos humanos.

A história é repleta de saídas fáceis que servem para deixar o espectador feliz, esperançoso, sem questionar como isso se dá no filme (exemplo: a avaliação do inspetor para aprovar o zoológico só podia ser positiva já que ele não achou nenhuma irregularidade no local, embora o filme aposte num certo suspense sobre a liberação do zoo). É o tipo de coisa que faz o espectador se sentir enganado, porque soa artificial. Além disso, os coadjuvantes são todos mal aproveitados (exceto a jeca adorável vivida por Elle Faning). Quando alcança o drama (principalmente o embate entre pai e filho), as discussões parecem rasas e mais preocupadas em soltar piadas de alívio cômico do que resolver de fato a situação. Juro que eu não me incomodo com a ideia de ingenuidade da coisa toda, mas sim com a artificialidade para se chegar a isso.


Margin Call – O Dia Antes do Fim (Margin Call, EUA, 2011)
Dir: J. C. Chandor


Ao contrário do que se pode imaginar, Margin Call – O Dia Antes do Fim não é um filme frenético. Muito pelo contrário, impressiona como uma história sobre a iminência da crise financeira que eclodiu em 2008 possa conter tanta calmaria. Mas isso não quer dizer que não exista tensão. Quando o analista de risco de um grande banco de investimentos é demitido, ele passa a um de seus jovens subordinados informações que andava pesquisando sobre um provável crash das contas da instituição, o que representaria só o início de uma reação em cadeia que deixaria a economia norte-americana (e, por conseguinte, mundial) em maus bocados. É quando se descobre que o tempo da bomba relógio já está se esgotando.

A alta cúpula da empresa é então acionada para discutir a situação e, principalmente, encontrar uma saída o mais rápido possível. O prejuízo, inclusive moral, é inevitável. O grande trunfo do filme é apresentar essa situação de calamidade anunciada sem se mover pelo desespero. A narrativa nunca transparece agitação, as ações dos personagens nunca são precipitadas, embora a situação seja crítica e a apreensão é sentida desde o início. É mais um filme sóbrio, que tenta ainda clarificar um pouco de como se deu a crise econômica (muito embora o economês esteja presente). Assim, faz uma bela dobradinha com o documentário ganhador do Oscar este ano Trabalho Interno. Com um texto preciso e ótimos diálogos, o filme ainda se beneficia de um ótimo elenco, todos em sintonia (destaque para Kevin Spacey que, para além da dureza que deve representar na empresa, revela ainda uma faceta humanista dentro de outro centro dramático que envolve sua cadela à beira da morte). Ela agoniza assim como todo um mercado que estará na mesma situação.


Missão: Impossível – Protocolo Fantasma (Mission: Impossible – Ghost Protocol, EUA, 2011)
Dir: Brad Bird


Incrível como esse filme tem uma história capenga (a missão reaviva a antiquada rivalidade entre Estados Unidos e Rússia), um vilão maniqueísta e um final com aquela “surpresa” que te faz pensar “ah, tá bom”, mas mesmo assim continua uma boa pedida. A quarta investida da série Missão Impossível ganha com Brada Bird (um diretor de animações como O Gigante de Ferro, Os Incríveis e Ratatouille) um belo defensor do cinema de ação, com uma noção de timing muito boa, proporcionando momentos de pura adrenalina (as cenas da escalada no prédio mais alto do mundo e a perseguição em meio a uma tempestade de areia fazem prender o fôlego).

E é com todo esse gás que a franquia se notabilizou, fazendo do absurdo das situações, das missões e, principalmente, da quase “invencibilidade” dos personagens uma marca própria. Basta somente que o talento de Brad Bird administre essas questões em prol do ritmo da narrativa, para não perder em intensidade. Tom Cruise consegue administrar muito bem sua canastrice a favor de seu personagem, enquanto os coadjuvantes equilibram com outras características. Simon Pegg, o alívio cômico; Paula Patton, a sedutora; Jeremy Renner o durão. E há ainda Léa Seydoux, linda de morrer (e isso não é um trocadilho), fazendo as vezes de femme fatale. E não podia faltar os acordes do tema clássico novamente reinventado, aquele que quando soa nos faz ansiar por boas doses de adrenalina.


Natimorto (Idem, Brasil, 2009)
Dir: Paulo Machline


Depois de Heitor Dhalia filmar a história de um de seus livros, O Cheiro do Ralo, eis que o romancista e cartunista brasileiro Lourenço Mutarelli tem mais uma de suas obras transpostas para as telas de cinema. Dessa vez é Natimorto que ganha adaptação do pouco conhecido Paulo Machline. Mas agora, Mutarelli assume também o protagonismo do filme, ao lado de Simone Spoladore. Ela é uma cantora lírica que tenta uma chance com o agente vivido por Mutarelli para ser aceita pelo maestro de alguma orquestra. Uma pena que o filme se perca com uma história que só parece apontar para a loucura iminente de seu protagonista. Fumante compulsivo, tenta fazer uma relação com as imagens dos versos dos maços de cigarro com as cartas de tarô, tentando prever como será o dia de quem os comprou, num exercício não só curioso como bizarro.

Ao propor à cantora que passem a viver isolados do mundo num quarto de hotel (ele se diz assexuado e possui um casamento desastroso com uma mulher tenebrosa), acaba se afundando na sua própria paranoia, essa que o filme acompanha com um misto de interesse e distanciamento. Simone Spoladore (que tem feito coisas muito ruins ultimamente, como Elvis e Madona e Insolação) gasta bastante de seu talento para conferir naturalidade ao texto muitas vezes artificial e impostado que recebe. Mas mais despreparado ainda está o próprio Mutarelli, visivelmente desprovido de força dramática, o que tira muito a intensidade de seu personagem. E do próprio filme que cola a esse homem perdido, fadado a se autoconsumir entre cigarros, loucuras e desejos não concretizados.