Dir: Steven Spielberg


O que faz um filme ser piegas? Até que ponto a pieguice pode ser tolerável ou extrapola o bom senso? É interessante pensar nessas questões à luz do novo filme de Steven Spielberg, bastante acusado por parte da crítica e do público de ser exatamente emotivo demais, lacrimoso ao extremo. Acredito que muito por conta dessas opiniões, fui para a sessão do filme imaginando que encontraria uma obra bastante chorosa. Mas qual a minha surpresa ao me deparar com uma história tocante (com sua dose de pieguice sim, porque estamos falando de Spielberg), mas em nenhum momento ridícula na sua emotividade. Às vezes, parece prestes a derrapar por esse caminho, mas sempre se recupera a tempo.
Cavalo de Guerra está longe da alcunha de meloso que andam pintando, coisa que o próprio diretor realmente já fez anteriormente, como em Amistad e A Cor Púrpura. Talvez resida aí certa resistência, birra mesmo, contra o diretor quando esse seu mais novo filme tem um pé, sim, no dramalhão. Acusam o filme de manipulador. Mas qual arte mais manipuladora e calcada na farsa do que o próprio cinema? Spielberg se utiliza da relação construída entre seres humanos e um animal para falar de lealdade e amizade, temas bastante caros ao diretor. Porém, no fundo, parece uma história sobre instinto, esse que cria conexões entre seres vivos de forma inexplicável.
O filme é como uma sinfonia de corações puros. O cavalo, nascido na fazenda de uma humilde, mas trabalhadora, família, vai passar por diferentes donos no decorrer dos conflitos da Primeira Guerra Mundial, quando tiver de ser vendido para que eles não percam a fazenda para um rico arrendatário. Seu primeiro dono, o garoto Ted Narracott (Jeremy Irvine), será o responsável por domesticar o animal bravio e irascível, conquistando sua confiança.
E é nas mãos do jovem ingênuo que o filme mais abusa do tom emotivo, com o garoto fazendo cara de choro cada vez que ameaçam o animal. Mas depois dele, todos os demais que, por força do acaso, se afeiçoarem ao bicho, terão seus destinos traçados pelos caminhos trágicos da guerra. Aí, o filme administra muito melhor as relações de comunhão entre homem e animal, acrescentando anseios e preocupações pessoais desses novos "donos", que não estejam ligados somente à tentativa de preservar a a vida do cavalo, antes a suas próprias. Além de que o processo se revela cíclico, muito bem orquestrado por um roteiro que não deixa nenhuma das reviravoltas soarem forçadas (talvez somente a última).
Plasticamente, o filme é um deleite. A fotografia primorosa de Janusz Kaminski, parceiro habitual do diretor, valoriza os planos abertos da paisagem rural do Reino Unido e da França (que lembram o melhor John Ford em sua grandiosidade épica no western). Trabalho semelhante em qualidade vem de outro colaborador inseparável de Spielberg, o compositor John Williams, conferindo tom épico à música, presente a todo o instante na narrativa (trilha melhor, inclusive, do que fez para o recente As Aventuras de Tintim, do mesmo cineasta).
Além de momentos esteticamente belíssimos, existem cenas de pura força dramática: a alimentação pelas costas, a invasão ao acampamento alemão, o conflito nas trincheiras, o resgate do cavalo preso no arame farpado. Nenhuma delas piegas. Mas há de se destacar também uma cena final belíssima, fotografada com extrema beleza, essa sim feita para chorar, mas nunca piegas porque é honesta com seus personagens e com a sensibilidade do espectador. Cavalo de Guerra termina fazendo jus a cada lágrima de emoção derramada porque sabe quando elas podem brotar com sinceridade.


O que faz um filme ser piegas? Até que ponto a pieguice pode ser tolerável ou extrapola o bom senso? É interessante pensar nessas questões à luz do novo filme de Steven Spielberg, bastante acusado por parte da crítica e do público de ser exatamente emotivo demais, lacrimoso ao extremo. Acredito que muito por conta dessas opiniões, fui para a sessão do filme imaginando que encontraria uma obra bastante chorosa. Mas qual a minha surpresa ao me deparar com uma história tocante (com sua dose de pieguice sim, porque estamos falando de Spielberg), mas em nenhum momento ridícula na sua emotividade. Às vezes, parece prestes a derrapar por esse caminho, mas sempre se recupera a tempo.
Cavalo de Guerra está longe da alcunha de meloso que andam pintando, coisa que o próprio diretor realmente já fez anteriormente, como em Amistad e A Cor Púrpura. Talvez resida aí certa resistência, birra mesmo, contra o diretor quando esse seu mais novo filme tem um pé, sim, no dramalhão. Acusam o filme de manipulador. Mas qual arte mais manipuladora e calcada na farsa do que o próprio cinema? Spielberg se utiliza da relação construída entre seres humanos e um animal para falar de lealdade e amizade, temas bastante caros ao diretor. Porém, no fundo, parece uma história sobre instinto, esse que cria conexões entre seres vivos de forma inexplicável.
O filme é como uma sinfonia de corações puros. O cavalo, nascido na fazenda de uma humilde, mas trabalhadora, família, vai passar por diferentes donos no decorrer dos conflitos da Primeira Guerra Mundial, quando tiver de ser vendido para que eles não percam a fazenda para um rico arrendatário. Seu primeiro dono, o garoto Ted Narracott (Jeremy Irvine), será o responsável por domesticar o animal bravio e irascível, conquistando sua confiança.
E é nas mãos do jovem ingênuo que o filme mais abusa do tom emotivo, com o garoto fazendo cara de choro cada vez que ameaçam o animal. Mas depois dele, todos os demais que, por força do acaso, se afeiçoarem ao bicho, terão seus destinos traçados pelos caminhos trágicos da guerra. Aí, o filme administra muito melhor as relações de comunhão entre homem e animal, acrescentando anseios e preocupações pessoais desses novos "donos", que não estejam ligados somente à tentativa de preservar a a vida do cavalo, antes a suas próprias. Além de que o processo se revela cíclico, muito bem orquestrado por um roteiro que não deixa nenhuma das reviravoltas soarem forçadas (talvez somente a última).
Plasticamente, o filme é um deleite. A fotografia primorosa de Janusz Kaminski, parceiro habitual do diretor, valoriza os planos abertos da paisagem rural do Reino Unido e da França (que lembram o melhor John Ford em sua grandiosidade épica no western). Trabalho semelhante em qualidade vem de outro colaborador inseparável de Spielberg, o compositor John Williams, conferindo tom épico à música, presente a todo o instante na narrativa (trilha melhor, inclusive, do que fez para o recente As Aventuras de Tintim, do mesmo cineasta).Além de momentos esteticamente belíssimos, existem cenas de pura força dramática: a alimentação pelas costas, a invasão ao acampamento alemão, o conflito nas trincheiras, o resgate do cavalo preso no arame farpado. Nenhuma delas piegas. Mas há de se destacar também uma cena final belíssima, fotografada com extrema beleza, essa sim feita para chorar, mas nunca piegas porque é honesta com seus personagens e com a sensibilidade do espectador. Cavalo de Guerra termina fazendo jus a cada lágrima de emoção derramada porque sabe quando elas podem brotar com sinceridade.





















































