terça-feira, 3 de março de 2015

Campo de batalha operário

Dois Dias, Uma Noite (Deux Jours, Une Nuit, Bélgica/França/Itália, 2014)
Dir : Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne




A escrita fílmica que os irmãos Dardenne construíram em sua carreira parece cada vez mais sólida. E pelo visto eles estão longe de querer fugir dessa zona de conforto. Câmera trêmula filmando as pessoas de perto, situações-limite, personagens em movimento constante, apego ao plano-sequência, questões de cunho social – aqui perpassado pelo financeiro e trabalhista – como mola propulsora da narrativa, realismo de urgência.

Tudo isso está em Dois Dias, Uma Noite. Se o filme transparece tão concisamente uma sensação de dèjá vu na encenação, é no roteiro que parece residir certa fragilidade do filme. De perto, há algo de maneirista na forma como a protagonista busca reverter sua posição na iminência de perder o emprego. Há algo de calculado no desdobrar das situações que parecem estar ali para reforçar a crítica social que se quer tecer, e em maior escala para que o final possua certa reviravolta que vai dizer muito sobre sua protagonista.  

Sandra (Marion Cotillard) começa o filme sendo demitida do emprego. Por pressão de seu supervisor, os colegas de trabalho votaram para que ela saísse em troca de uma bonificação financeira para cada um. Agora, o trabalho de Hércules de Sandra é tentar convencer os colegas, um a um, numa nova votação, a abrirem mão da grana para que ela continue no emprego.

Essa é a forma inteligente dos Dardennes apertarem a ferida da crise financeira europeia. É no confronto de Sandra com seus colegas que a situação ganha dimensões palpáveis porque cada um deles, assim como ela, enfrenta problemas diários, têm contas a pagar e estão com a corda no pescoço. O cenário não é nada agradável para essa classe média. Mas há humanidade ali também, nesse embaraçoso jogo entre ver o eu e o outro. Por mais que o dispositivo narrativo soe repetitivo, o filme nos faz torcer por essa mulher impelida a agir em prol do sustento do seu lar.



E é difícil negar como Cotillard é o grande trunfo aqui. Curioso pensar nela como a força do filme quando sua personagem marca-se justamente pela fragilidade, quase que obrigada pelo marido (Fabrizio Rongione) e pela amiga de trabalho a ir à luta. Ela carrega um histórico de depressão sugerido pelo filme e junta força nos remédios para seguir sua jornada, ainda que a contragosto. Talvez nem ela mesma acredite na vitória do empreendimento, mas está num campo de batalha que lhe dá trégua.

Daí que não basta o problema que é ter de convencer a todos, há ainda o conflito interno de se dispor a empreender aquela jornada. A protagonista é posta em ação desenfreada, o tempo a seu desfavor. Tudo isso para que Sandra, ao fim, reforce sua dignidade. É mais uma protagonista dardenniana torta, porém pulsante, ainda que sob a força cruel das circunstâncias. 

Com o domínio preciso das tensões interpessoais que os diretores possuem – tão humanistas nas diversas facetas apresentadas – as fraquezas do roteiro podem até soarem diminutas. O próprio absurdo da situação demonstra as garras ingratas do capitalismo mais competitivo e só reforça o estado atual de um mundo cruel para o trabalhador médio. Este campo de batalha estará sempre ativo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Poética das paixões no sertão

A História da Eternidade (Idem, Brasil, 2014)
Dir: Camilo Cavalcante


A poesia bruta do sertão explorada mais uma vez. Camilo Cavalcante passeia pelos tipos que já foram largamente utilizados nesse tipo de ambiência: garota de família patriarcal tem sonho pulsante em conhecer o mar; o tio, um artista incompreendido, o pai, um grosso; em outros núcleos, há ainda o neto que retorna à terra natal, para alegria da avó, e o sanfoneiro cego que clama o amor de uma mulher em luto pela morte do filho pequeno.

São histórias que se entrecruzam na paisagem árida do interior nordestino, com suas regras e morais instituídas. Chega a ser um risco manipular velhos temas e tipos batidos desse ambiente já tão exposto nas artes em geral. O que sustenta o filme é a direção segura de Cavalcante, sua estreia no longa-metragem depois de um extenso trabalho com curtas.

A paisagem interiorana ganha um tratamento que segue um fluxo de tempo muito próprio, calmo, ainda que as questões que movam os personagens vão crescendo em intensidade. Nuances de viés mais proibido (como a atração da sobrinha pelo tio ou da avó pelo neto), também pondo em xeque a moral de seus personagens (o neto que volta fugindo de encrenca na cidade grande) surgem para complexificar as relações daquelas pessoas entre si, também no contexto de vida em que se encontram.

Nesses embates, o longa beneficia-se de um time de atores de primeira. Marcélia Cartaxo e Zezita Matos personificam muito bem essas mulheres fortes do interior, uma que nega o amor em prol do luto, outra com o coração balançado pela descoberta de um neto não tão pródigo assim. Mas o destaque mesmo é para um Irandhir Santos radiante, frágil pela epilepsia que lhe acomete, mas cheio de vigor por conta de sua condição de artista maldito e contestador num ambiente desfavorável.



Duas cenas suas se destacam: quando performatiza, na rua, Fala, dos Secos e Molhados; e aquela em que ele “apresenta” à sobrinha o mar. Em ambas as sequências a câmera, em travelling circular, parece hipnotizada pela disposição e olhar poético daquele homem, artista pulsante e inquieto. 

É o respiro que o filme permite em contraponto à dureza de uma vida severina; há arte ali. É esse tipo de olhar aguçado para a poética das paixões em meio à coisa bruta que Calvalcante explora tão bem. Nota-se nele um cineasta consciente do seu poder de encenação, ainda que seus temas não sejam assim dos mais originais.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Palpites Oscar 2015


É hora de se divertir tentando prever os vencedores do Oscar, uma disputa na sua maior parte previsível, mas que este ano guarda algumas surpresas, especialmente nas principais categorias. Minhas apostas e comentários abaixo. Em negrito, aquele que eu acho que vai vencer, abaixo minha ordem de preferência entre todos.

  
Melhor Filme

A Teoria de Tudo
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Boyhood: Da Infância à Juventude 
O Grande Hotel Budapeste 
O Jogo da Imitação
Selma: Uma Luta pela Igualdade
Sniper Americano
Whiplash: Em Busca da Perfeição

Boyhood vs. Birdman. Esse é o confronto que se estabelece nessa edição do Oscar, o que divide muita gente e gera uma expectativa curiosa dessa vez, sem cartas marcadas. E são filmes que trabalham em polos distintos. Enquanto o primeiro saúda o naturalismo e os conflitos de uma vida comum, o outro está o tempo todo acima do tom, um filme chacota, abusando do over. Uma batalha interessante. Bom ver que O Grande Hotel Budapeste resistiu até aqui, um dos melhores Andersons. E que grande surpresa é Whiplash nessa lista. Sniper tem dividido muita gente (não sou dos maiores fãs do filme), mas não se ignora o sucesso de público que tem feito nos Estados Unidos.

Ordem de preferência: Birdman, Whiplash, O Grande Hotel Budapeste, Boyhood, Selma, Sniper Americano, O Jogo da Imitação, A Teoria de Tudo


Melhor Diretor

Alejandro González Iñárritu (Birdman)
Bennet Miller (Foxcatcher)
Morten Tyldum (O Jogo da Imitação)
Richard Linklater (Boyhood)
Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste)

Mais uma forte batalha a se travar aqui: o virtuosismo ácido de Iñárritu se contrapõe ao trabalho monumental de Linklater que filmou por 12 anos uma narrativa muito coesa. Miller foi muito bem lembrado, o melhor dos cinco, e Foxcatcher poderia muito bem estar na categoria principal. A indicação de Tyldum é a piada de mal gosto.

Ordem de preferência: Bennet Miller, Alejandro González Iñárritu, Richard Linklater, Wes Anderson, Morten Tyld


Melhor Ator

Benedict Cumberbatch (O Jogo da Imitação)
Bradley Cooper (Sniper Americano)
Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)
Michael Keaton (Birdman)
Steve Carrell (Foxcatcher)

Michael Keaton ficou há um bom tempo no topo das apostas, ganhando muito prêmios nessa temporada, mas começou a perder terreno pesado para a composição corporal de Eddie Redmayne. É biográfico e tem transformação física, isca certa para os votantes da Academia. Bom ver Carrell aqui numa das melhores atuações de sua carreira, além de Bradley Cooper que, apesar do filme, encarna muito bem esse soldado atormentado. Cumberbatch tem algo de caricatural em sua atuação por isso poderia ser facilmente trocado por David Oyelowo, ótimo em Selma.

Ordem de preferência: Steve Carrell, Michael Keaton, Bradley Cooper, Benedict Cumberbatch, Eddie Redmayne


Melhor Atriz
Felicity Jones (A Teoria de Tudo)
Julianne Moore (Para Sempre Alice)
Marion Cotillard (Dois Dias, Uma Noite)
Reese Witherspoon (Livre)
Rosamund Pike (Garota Exemplar)

Em termos de merecimento, Julianne Moore já devia ter sua estatueta dourada há muito tempo e olhando a lista nada parece tão forte quanto a atuação de Marion Cotillard, surpreendentemente indicada por um filme dos Dardennes que nem sequer está entre os estrangeiros. O fator “reparação” pesa muito sobre Moore numa atuação digna, difícil alguém roubar esse prêmio dela. Acho que a atuação da Pike torna-se caricatural quando Garota Exemplar apresenta sua reviravolta e Witherspoon e Jones só estão aqui pra engrossar a lista.

Ordem de preferência: Marion Cotillard, Julianne Moore, Felicity Jones, Rosamund Pike, Reese Witherspoon


Melhor Ator Coadjuvante

Edward Norton
 (Birdman)
Ethan Hawke (Boyhood)
J.K. Simmons (Whiplash)
Mark Ruffalo (Foxcatcher)
Robert Duvall (O Juiz)

Intenso, mas nunca caricato é o grande desempenho de J. K. Simmons em Whiplash, um prêmio certo e uma das maiores justiças aqui porque ele e o filme merecem muito reconhecimento. Norton chegou a aparecer em algumas listas, mas não oferece muitos riscos mais. Bom ver o reconhecimento de Ruffalo, ele nem sempre está tão bom com em Foxcatcher.

Ordem de preferência: J.K. Simmons, Edward Norton, Mark Ruffalo, Ethan Hawke


Melhor Atriz Coadjuvante

Patricia Arquette (Boyhood)
Emma Stone (Birdman)
Keira Knightley (O Jogo da Imitação)
Meryl Streep (Caminhos da Floresta)
Laura Dern (Livre)

Patricia Arquette vem ganhando tudo e é outro prêmio certo. De certa forma, coroa o trabalho magnânimo das atuações naturalistas desse filme singular. Stone pode ser sua principal rival, até por ser uma das atuações mais exigentes de sua carreira, e que ela segura bem. Ainda não entendi como Laura Dern veio parar aqui.

Ordem de preferência: Patricia Arquette, Keira Knightley, Emma Stone, Laura Dern


Melhor Roteiro Original


Birdman 
Boyhood 
Foxcatcher 
O Abutre
O Grande Hotel Budapeste

Mais uma vez o embate polarizado: a complexidade over de Birdman contra a naturalidade da vida cotidiana de Boyhood. Mas como a disputa entre eles é maior nas categorias principais, o espaço está aberto para a valorização do trabalho de Wes Anderson, realmente muito bom. Aliás, todos são dignos aqui, com grande exceção da construção rasa, travestida de crítica, feita em O Abutre.

Ordem de preferência: O Grande Hotel Budapeste, Birdman, Boyhood, Foxcatcher, O Abutre


Melhor Roteiro Adaptado

A Teoria de Tudo 
O Jogo da Imitação
Sniper Americano
Vício Inerente 
Whiplash

Disputa acirradíssima numa categoria bem fraca, aliás. Se A Teoria de Tudo debatia-se com O Jogo da Imitação, o burburinho em torna da vitória de Whiplash vem balançando a disputa (e seria uma surpresa muito bem-vinda), mas talvez seja arriscar demais. Se Sniper Americano vencer, o susto será imenso, mas acho que as chances são poucas.

Ordem de preferência: Whiplash, O Jogo da Imitação, Sniper Americano, A Teoria de Tudo


Melhor Filme de Animação

Como Treinar Seu Dragão 2
Operação Big Hero
Os Boxtrolls 
O Conto da Princesa Kaguya 
Song of the Sea

Seria mais emocionante (e justo) se Uma Aventura Lego estivesse indicado aqui, mas preferiram um filme fraco como Boxtrolls. Assim fica fácil para a continuação de Como Treinar seu Dragão. Bom ver os destaques a filmes com traços de desenho tradicional, com destaque para o japonês “ghibliano” O Conto da Princesa Kaguya (que eu não vi)

Ordem de preferência: Como Treinar Seu Dragão 2, Operação Big Hero, Os Boxtrolls


Melhor Filme Estrangeiro

Ida 
Leviatã
Relatos Selvagens
Tangerines 
Timbuktu 

Incrível como a disputa aqui se tornou acirrada. Leviatã é o melhor filme do ano pra mim até então, pode ser uma surpresa. Ida que vinha ganhando muita coisa se deparou com um forte concorrente: um filme argentino, engraçado, estrelado por Ricardo Darín, muito bem produzido, a cara do Oscar. Mas o polonês tem um apelo temático bem forte. A sorte está lançada. Hoje aposto em Ida, mas Relatos é um forte oponente.

Ordem de preferência: Leviatã, Ida, Relatos Selvagens


E colocando tudo num mesmo saco, meu ranking geral:


Leviatã ****½
Ida ****
Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo ****
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) ****
Whiplash: Em Busca da Perfeição ****
Relatos Selvagens ****
O Grande Hotel Budapeste ****
Boyhood: Da Infância à Juventude ***½
Dois Dias, Uma Noite ***
Operação Big Hero ***
Como Treinar Seu Dragão 2 ***
Garota Exemplar ***
Selma: Uma Luta pela Igualdade *
Sniper Americano **
Para Sempre Alice **
O Abutre **
Os Boxtrolls **
O Jogo da Imitação **
Caminhos da Floresta **
Livre *½
A Teoria de Tudo *½

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Saldos da guerra

Sniper Americano (American Sniper, EUA, 2014)
Dir: Clint Eastwood



Junta-se a história de um herói de guerra que faz ver sua posição de representante da supremacia bélica norte-americana com a direção de um Clint Eastwood mais do que nunca o militante republicano e conservador. Com Sniper Americano, a condição ideológica do cineasta é posta em questão, mais do que nunca, porque o filme investe nos conceitos de “heroísmo”, “patriotismo” e “inimigo”. E talvez sem se dar conta de que o faz sem se aprofundar nelas.

Nesse terreno arenoso, Eastwood foca seu olhar num personagem icônico da atual cultura belicista americana. Membro das Forças de Operações Especiais da Marinha dos Estados Unidos, Chris Kyle (Bradley Cooper) logo se torna um atirador de elite prodígio, a fama de sua precisão com o rifle aumenta enquanto ele serve sucessivas vezes no front de guerra ao Iraque.

Tantas outras vezes Clint Eastwood filmou (e melhor) o estado de decadência da América, um país fora de rumo, em estado de violência, que acusar Sniper Americano de racista e ultrapatriótico soa apressado demais. Esse talvez seja o menor dos problemas quando o filme se acomoda em contar a história do homem de guerra que volta para casa psicologicamente abalado. Uma temática já tão explorada e que o filme só parece reafirmar, sem muita invenção.

A partir do momento em que o filme assume o olhar desse personagem que acredita numa força inimiga que brota no Oriente Médio e precisa ser combatida (a tiros mortais), Sniper Americano precisa ser visto nessa posição de autoafirmação do herói. Ele encarna o espírito do defensor cego de uma nação, sem nunca se questionar ou questionar os atos de seu país, sempre subjugadora dos demais.

No entanto, o grande equívoco do filme é investir pouco na crítica sócio-política que poderia fazer em torno disso. Mas mais grave é trabalhar uma trama batida que diz o básico sobre o estado de espírito do personagem que vai, aos poucos, se debilitando, com direito a esposa (Sienna Miller) e filho pequeno que aguardam em casa o homem angustiado. Assim, fica mais evidente no filme o olhar conservador que Kyle carrega e Sniper Americano torna-se o filme que somente observa esse ponto de vista.

É certo que em alguns momentos esse protagonista é relativizado nos seus atos, se deparando com certas contradições, angústias e dúvidas. Mas isso parece mais força das circunstâncias que estão presentes na história do que necessariamente uma vontade do filme de torná-lo complexo, de contrabalancear posições, de discutir e condenar certos olhares. Bradley Cooper está realmente muito bem no papel, seu porte másculo contrapõe-se com o olhar frágil. Porém ele serve a um personagem que poderia render muito mais substancialmente em suas contradições. 

No fim das contas, a impressão é de que Sniper Americano é um filme frouxo, mal resolvido porque não se decide de que lado está, o que quer discutir a fundo (e se quer discutir coisas em profundidade). Isso pode ser visto como uma ambiguidade bem-vinda, ou antes algo sem o peso de um cineasta obrigado a abordar essas questões. Mas na atual conjunta sócio-política (em que tanto se fala de islamofobia, por exemplo), a omissão pode soar negligente, deixando margens para interpretações enviesadas e que, inevitavelmente, depõem contra o cineasta e seu filme.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Sem inspiração

A Teoria de Tudo (The Theory of Everything, Reino Unido, 2014)
Dir: James Marsh


Filme mais anódino não poderia ser. A tão esperada cinebiografia do astrofísico inglês Stephen Hawking (vivido por Eddie Redmayne) não passa de uma espécie de celebração cinematográfica para uma figura que talvez nem precise disso. Mas uma história de vida marcada pela superação é tentador demais para se deixar de lado, apesar de o filme não oferecer muito do que já não se sabe sobre ele.

Acometido por um tipo raro de esclerose que paralisou seus músculos, mas que não afeta a atividade cerebral, Hawking revela-se um prodígio da matemática já nos estudos acadêmicos, quando conhece a bela Jane (Felicity Jones) e logo é diagnosticado pela doença. O filme se detém na relação entre eles e de como superaram os problemas provenientes da doença para formar família e para que ele pudesse encantar o mundo com seus estudos pioneiros e teorias geniais no campo da astrofísica.

É o tipo de filme que tem uma cartilha dramática já ensaiada por tantas outras histórias com a mesma engrenagem: quer emocionar e criar um gosto de trajetória vitoriosa, apesar das adversidades do destino. É bem possível desvencilhar de certos padrões narrativos, mas essa não parece ser a opção escolhida por James Marsh e seu roteirista Anthony McCarten.

Não se há de esquecer que o filme é baseado em livro escrito pela própria Jane, esposa do homem, focando na relação entre os dois, o que fortalece a marca de chapa-branca e pieguice. Há algo de melodrama aí, embalado por uma fotografia que abusa dos filtros para conferir determinadas sensações: ora é radiante, depois melancólico, em seguida emocionante.

Também não é difícil observar a atuação de Eddie Redmayne, tão admirada por aí, e não perceber um tipo de composição afetada, que valoriza mais os tiques e exageros do que uma construção complexa, ainda que o personagem peça um tanto desses trejeitos. Mas nesse filme aqui, da forma como ele se nos apresenta, Redmayne parece mais confortável soando assim porque parece o caminho mais comum, mais óbvio a seguir, mimetizando a figura de Hawking. 

A Teoria de Tudo é esse filme “edificante”. Estranhamento, o personagem está o tempo todo sorridente ou de bem com a vida. Faz parecer que o árduo caminho seguido por Hawking era inevitável e que ele só precisava por em atividade sua supra inteligência a serviço do conhecimento humano. O filme que ser inspirador, mas acaba mesmo sem grandes momentos inspirados.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Mostra Tiradentes – Ranking geral


Minha primeira Mostra de Tiradentes foi bastante proveitosa, tanto por conhecer esse festival tão importante para o cenário independente e “arriscado” do cinema brasileiro, quanto pelas experiências fílmicas que tive por lá. Além disso, foi bom rever gente querida e fazer novas amizades. Meus filmes em ordem de preferência seguem abaixo:


Longas:

Ela Volta na Quinta (André Novais Oliveira) ****
Obra (Gregório Graziosi) ****
O Animal Sonhado (Breno Baptista, Luciana Vieira, Rodrigo Fernandes, Samuel Brasileiro, Ticiana Augusto Lima, Victor Costa Lopes) ***½
Com os Punhos Cerrados (Luiz Pretti, Ricardo Pretti e Pedro Diógenes) ***½
Dois Casamentos (Luiz Rosemberg Filho) ***½
Fábulas Negras (Rodrigo Aragão, José Mojica Marins, Joel Caetano, Petter Baiestorf ) ***½
Retratos de Identificação (Anita Leandro) ***½
Mais do que Eu Possa Me Reconhecer (Allan Ribeiro) ***½
Revoada (José Umberto Dias) ***½
Medo do Escuro (Ivo Lopes de Araújo) ***
A Despedida (Marcelo Galvão) ***
Brasil S/A (Marcelo Pedroso) ***
A Casa de Cecília (Clarissa Appelt) ***
Teobaldo Morto, Romeu Exilado (Rodrigo de Oliveira) **½
Órfãos do Eldorado (Guilherme Coelho) **½
O Signo das Tetas (Frederico Machado) *½
Ressurgentes: Um Filme de Ação Direta (Dácia Ibiapina) *½
Pingo d’Água (Taciano Valério) *½


Curtas:

A Era de Ouro (Leonardo Mouramateus e Miguel Antunes Ramos) ****
Estátua (Gabriela Almeida Amaral) ****
Outubro Acabou (Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes) ****
No Dia em que Lembrei da Viagem a Bicuda (Vitor Medeiros) ***½
Sem Título #1: Dance of Leitfossil (Carlos Adriano) ***½
Boa Morte (Débora de Oliveira) ***
Pele de Concreto (Daniel de Bem) ***
A Hora Azul (Giovani Barros) ***
A Outra Margem (Nathália Tereza) ***
Ilha (Ismael Moura) ***
Virgindade (Chico Lacerda) ***
Sem Você a Vida é uma Aventura (Alice Andrade Drummond) ***
Ensaio Sobre Minha Mãe (Jocimar Dias Jr.) **½
O Corpo (Lucas Cassales) **½
Homem na Estrada (Felipe Terra) **½
Sandrine (Elen Linth e Leandro Rodrigues) **½
Corações Sangrantes (Jorge Polo) **½
Pontos de Vista (Fábio Yamaji) **½
Armat Jakawinaka – Vidas Ausentes (Ronaldo Dimer) **
A Máquina do Tempo (Gustavo Jahn e Melissa Dullius) **
Santa Rosa (João Paulo Palitot) **
A+B=C (Steffi Braucks) **
Filme Selvagem (Pedro Diógenes) *
Eu (Lucas Ferraço Nassif) *

Mostra Tiradentes – Parte VI


Ela Volta na Quinta (Idem, Brasil, 2014)
Dir: André Novais Oliveira

Pode parecer muito precoce atribuir ao cineasta mineiro André Novais Oliveira um projeto de cinema tão sólido, ou mesmo uma marca autoral presente em sua curta trajetória como diretor, apesar dos marcantes trabalhos em dois curtas e agora no seu primeiro longa-metragem, Ela Volta na Quinta, que encerrou a Mostra de Tiradentes.

A novidade aqui é que André abusa do íntimo e do autobiográfico para criar uma narrativa ficcional carregada de um naturalismo irretocável. O curta Pouco Mais de um Mês já antecipava esse tipo de fazer em que o próprio André encenava com sua namorada Élida as primeiras investidas de um namoro. Na vida real e na ficção, essas histórias e personagens se complementam, com uma delicadeza prosaica que torna tudo tão encantador.

Agora, com Ela Volta na Quinta, o cineasta dá mais um passo nessa construção narrativa tão peculiar. Utiliza as personas de sua própria família para encenar o fim do casamento do pai e da mãe, vividos pelos próprios progenitores do diretor. Este, por sua vez, retorna à cena com Élida (numa espécie de prosseguimento do curta anterior), mais o irmão e sua namorada.

Todos emprestam suas figuras particulares para a narrativa que segue seus próprios caminhos. E todos parecem muito confortáveis aqui, entendendo bem o fio narrativo que se tece no filme, como se aquilo fosse a extensão de suas vidas. Os personagens comportam-se e conversam com a maior naturalidade possível, e o filme chega a tocar na banalidade que há no nosso dia a dia (a cena do irmão mostrando o vídeo no youtube é exemplar nesse sentido – e engraçadíssima também).

O filme segue um ritmo todo particular, sem pressa, investe nas ações mais cotidianas de pessoas comuns. Dá a impressão mesmo de que estamos invadindo a casa do vizinho da rua de trás, adentrando sua intimidade e conhecendo os conflitos que se desenham ali. Aos poucos vamos nos dando conta de que o distanciamento de D. Maria José e de seu Norberto é inevitável, apesar do carinho e cuidado que ainda existe ali.

É notório que o caminho perseguido por André lança um outro olhar para as relações interpessoais atravessadas pelo íntimo, pelo cotidiano de uma classe média do subúrbio mineiro. Tudo isso coberto por uma doçura sem igual, vide a cena do casal dançando Roberto Carlos na sala, desde já memorável. 

Ainda assim, o filme pode ser visto não só como um retrato melancólico do fim de um relacionamento duradouro. Num outro polo, ambos os filhos planejam com suas companheiras a compra de um apartamento ou a chegada de um filho. Ou seja, querem formar uma família, solidificar uma vida juntos. Assim, Ela Volta na Quinta resgata, da maneira mais singela e desproposital possível, o ciclo da existência humana: nada é infinito, as relações acabam e outras começam, a roda da vida não para.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Mostra Tiradentes – Parte V



Ressurgentes: Um Filme de Ação Direta (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Dácia Ibiapina

  
Filme-resumo das atividades dos movimentos sociais do Distrito Federal, Ressurgentes: Um Filme de Ação Direta é a entrada de um produto estritamente político, formalmente muito convencional, num festival tão aberto a subjetividades. O filme acompanha os últimos dez anos das ações do Movimento Passe Livre (MPL), composto na sua maioria por jovens estudantes da Universidade de Brasília.

A diretora Dácia Ibiapina, professora da UNB, é uma militante reconhecida no DF e faz de seu filme uma bandeira em prol da luta do MPL, sempre do lado de dentro. Nada contra esse relato apaixonado de um tipo de militância que tanta visibilidade tem alcançado nos últimos anos no Brasil. Mas a coisa se complica quando o filme torna-se o lugar de vangloriar o movimento a partir de um ponto de vista interior, chegando à conclusão de ser ele “vitorioso” diante da várias ações nas quais tomaram parte ao longo desse tempo.

Para além de ser um filme politizado que abraça um lado da questão tão abertamente, é estranho enxergá-lo aqui na competição em Tiradentes entre filmes tão mais desafiadores e arriscados, menos didáticos, ainda que nem sempre melhores por conta disso. 

Se existe algo de muito potente aqui é a força de algumas imagens que encontram no corpo dos jovens essa energia para enfrentar, na cara e coragem, os poderes opressores do Estado. E o filme oferece momentos interessantes de registro (a cena de abertura com a invasão da Câmera Legislativa, a discussão com o policial que exige desculpas, os vídeos flagrantes de políticos recebendo propina e enxertando cuecas e meias com bolos de dinheiro).

Mas isso não garante a legitimidade de um discurso que se revela tão partidarista e, por isso mesmo, discutível. Não que se duvide dele, mas por impossibilitar uma visão global de coisas tão complexas no campo político.


Medo do Escuro (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Ivo Lopes de Araújo


Muito longe do classicismo está o último longa apresentado na Mostra Aurora, o pós-apocalíptico Medo do Escuro, dirigido por Ivo Lopes Araújo. Ele é mais conhecido como diretor de fotografia de diversos filmes dessa nova cena independente brasileira (como os longas Tatuagem e o baiano Depois da Chuva).

O filme traz a marca conceitual do coletivo Alumbramento, grupo cearense que vem se destacando nessa cena contemporânea como sinônimo de inventividade e inquietação, goste-se ou não de alguns de seus produtos. Foi apresentado ao público com trilha sonora ao vivo, com direito a muitas batidas e samplers eletrônicos, ruídos, sons guturais e bateria enlouquecida. Tudo para elevar a força de um filme totalmente sem diálogos.

Medo do Escuro narra as desventuras de um rapaz perdido numa cidade devastada, caótica e abandonada. Visualmente, é um deslumbrante, ainda que de aspecto sujo, compondo o visual de seus atores através de maquiagem e figurinos bastante carregados, algo entre o lúdico e o bizarro (quase kitsch).

A história se apropria vagamente de elementos do filme de heróis em resistência num mundo distópico (referências podem ir de Mad Max a Fuga de Nova York, passando pelo submundo underground de filmes de vampiros rebeldes como Os Garotos Perdidos), com direito a gangue de vilões mal encarados e uma guerreira misteriosa na trama. O filme brinca com as marcas de um gênero outrora popular, criando uma atmosfera de estranheza e aventura que vai convidando o espectador a embarcar naquela proposta e entender suas amarras narrativas, ainda que muito fique em suspenso. 

Certamente é um dos trabalhos mais criativos vistos durante o festival, arriscados também, chamando atenção para si pela energia que vigora dali, embora se exceda num final que se alonga mais do que necessário – talvez para que a catarse musical aconteça. Mas esse tom acima, over por excelência, é o que torna o filme tão vibrante em sua essência.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Mostra de Tiradentes – Parte IV



O Signo das Tetas (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Frederico Machado



Esse segundo longa-metragem do cineasta maranhense Frederico Machado faz parte de uma trilogia que começou com O Exercício do Caos. Acabam sendo filmes bem distintos, mas não deixam de revelar um diretor ainda apegado a certas marcas de um dito “cinema de arte”, mais interessado em construir momentos estranhos e/ou viscerais do que contar uma história de fato.

Talvez seja um filme mesmo mais sensorial e introspectivo, mas existe uma procura constante por essas imagens que justifiquem uma estética “arrojada”, com ecos oníricos de um inconsciente tumultuado. É quando o estilo se agiganta e olha com desdém para a história, o que só dificulta o estreitamento emocional com seu protagonista.

O Signo das Tetas é um filme de busca, marcado pela jornada pessoal de um homem (Lauande Aires) em viagem de volta a sua terra natal. A figura materna lhe persegue como uma imagem que remete a uma infância de momentos felizes ao lado da mãe, mas que deram lugar um crescimento rígido, sem muitas felicidades. A vontade é de fazer as pazes com esse passado que o atormenta.

A impressão maior aqui é que Machado busca certa estranheza nas imagens oníricas ou alucinantes que povoam a trajetória desse homem, confundindo nossas próprias percepções. No fim, fica uma sensação de que o filme poderia se alongar no mesmo tipo de investida narrativa, para chegar no exato mesmo lugar que, ainda assim, não diz muito sobre o fim da viagem emocional do personagem.


Mais do que Eu Posso Me Reconhecer (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Allan Ribeiro



Filme vencedor da Mostra Aurora, Mais do que Eu Possa Me Reconhecer, é uma produção de poucos recursos e equipe. Sua originalidade está na maneira como filma um cotidiano e acaba fazendo uma grande reflexão sobre o autorretrato e as imagens que fazemos de nós e dos outros, em muitos sentidos.

Darel Valença Lins é um artista plástico que vive sozinho numa bela casa no Rio de Janeiro. Amante de cinema, não só cultiva o hábito de ver filmes clássicos, como tem uma obsessão em brincar com sua pequena câmera digital. Filma trivialidades que podem ser vistas como videoartes ou meros recortes de encenações prosaicas.

O diretor Allan Ribeiro, ao trazer sua câmera para a rotina desse senhor, acaba filmando suas ações triviais, mas inclui na montagem final do longa trabalhos do acervo do próprio Darel. Filmado de maneira analógica, o diretor cria unidade entre essas imagens e reforça seu tom cotidiano.

Num momento em que o termo “selfie” já foi incluído no vocabulário do brasileiro, o documentário questiona o que fazer com essas imagens que se produz aos montes no dia a dia e mostra o quanto elas podem estar carregadas de força criativa. O encontro com esse homem e sua maneira serena (talvez banal?) de encarar a vida retira o peso de um personagem atrativo e o filme passa a interessar bem mais nas relações entre imagens que se confrontam ali.

A vitória do longa na Mostra Aurora de um festival que valoriza tanto o experimental e o novo revela o alcance de um filme aparentemente simples (mas nunca simplista), cheio de camadas interpretativas. Quando menos se espera, Darel faz uma observação sobre os autorretratos de Rembrandt, algo que ressignifica muito do que vimos até então no filme. Do pouco se faz muito e do banal, arte sensível.


A Casa de Cecília (Idem, Brasil, 2015) 
Dir: Clarissa Appelt



Um olhar apurado sobre a juventude é a base de A Casa de Cecília, longa que surgiu como produto final de concussão de curso da diretora Clarissa Appelt. O filme pode ser visto na chave do suspense porque carrega marcas da clássica história de casa mal assombrada. Mas nos parece muito mais forte no filme um aspecto intimista de uma garota e seus fantasmas pessoais.

No filme, Cecília (Carol Pita) encontra-se sozinha em casa por um tempo e vai receber a visita de uma misteriosa garota, Lorena (Tainá Medina). Inicialmente estranhas, as duas começam um processo de aproximação que faz revelar os anseios de uma menina diante de uma existência cheia de dúvidas. A inocência da primeira se contrapõe à malícia da segunda. É aí que o tom de “horror” perde força diante das revelações do íntimo.

Mas Appelt é muito sutil ao retratar esses conflitos particulares, além do que, de fato, está se dando ali com aquelas personagens, algo que vamos compreendendo aos poucos. Nada é dado ao espectador de cara, apesar do filme se apegar muito a diálogos. As duas personagens travam conversas prosaicas enquanto matam o tempo na casa vazia e é aí também que o filme parece se alongar em conversas que assumem muitos rumos possíveis. 

Isso aproxima muito o filme de certo cinema verborrágico (como o de um Eric Rohmer, por exemplo, embora sem a leveza do mestre da Nouvelle Vague). Também poderia ser um pouco mais enxuto nas diversas questões que coloca sobre sua personagem, apesar de construir um retrato sensível da adolescência.