segunda-feira, 15 de setembro de 2014

CachoeiraDoc – Parte IV



Aprender a Ler para Ensinar Meus Camaradas (Idem, Brasil, 2013)
Dir: João Guerra



A premissa inicial desse filme é das mais interessantes: dois músicos angolanos saem de sua terra natal para buscar na Bahia matizes de sua cultura original. Tentam resgatar fora de seu país algo inerente a ele próprio. Poucos são os olhares que nos chegam e refletem sobre a transculturalidade entre países marcados pela diáspora negra, especialmente os de língua lusófona, tão caros a nós.

Também as proximidades entre Brasil e Angola ainda são muito pouco exploradas nas nossas práticas sociais, raramente representadas nas manifestações da cultura. É um pouco disso que tenta fazer Aprender a Ler para Ensinar Meus Camaradas, do baiano João Guerra. Escolhe-se a música para reverberar elementos de uma ancestralidade que, rarefeita em Angola, busca-se encontrar na Bahia, essa terra irmã que preservaria muito do que aqui chegou com a vinda das populações negras.

Sambas, sembas, chulas e lamentos negros e demais manifestações são revisitados pelos músicos em contato com outros artistas baianos. O cantor e compositor Roberto Mendes é figura central aqui, pois é com ele que os angolanos farão um show final em que essas matrizes musicais se intercalam. Mas estão lá figuras importantes que carregam essa ancestralidade musical como o sambista Riachão e o cantor e compositor Mateus Aleluia, do antigo conjunto musical Os Tincoãs.

No entanto, há de se pontuar uma via de mão única que se percebe em alguns momentos do filme. Os músicos Wyza Kendy e Dodò Miranda vêm à Bahia para aprender, mas eles também podem ensinar, o que pouco acontece. Tem-se uma postura quase subserviente em relação ao que aqui eles encontram, como se a Bahia fosse o último reduto dessa cultura outrora esquecida (será que a preservamos tanto assim?). Muitas vezes o lugar da fala está somente nos artistas baianos que simplesmente transmitem saberes aos angolanos forasteiros e sem informação.

No entanto, essa percepção não estraga nem desvirtua o passeio por entre culturas que o filme promove. Tão perto culturalmente, mas tão distantes diplomaticamente, Bahia e Angola ganham belos traços de comunhão nesse filme que também revela ao espectador muito do que a ancestralidade nos legou. Cinema é também apre(e)nder.


A Vizinhança do Tigre (Idem, Brasil, 2014)
Dir: Affonso Uchoa 
 


Com A Vizinhança do Tigre, Affonso Uchoa mira seu olhar em um grupo de jovens de um bairro periférico da cidade interiorana de Contagem, em Minas Gerais. Não há um fio narrativo que guie suas histórias, mas o captar de rotinas (por vezes anódinas, o que torna o filme um tanto redundante também). São garotos pobres que vivem sem muitas perspectivas de estudo ou trabalho, soltos numa realidade social pouco favorável, na iminência da marginalidade.

O estado de violência é o que mais parece rodear aquele ambiente, embora ela nunca marque presença de forma gráfica. A força do filme está em fazer ver a violência por conta de sua quase intromissão na narrativa, esse quase adentrar no filme. Ela está, principalmente, nas brincadeiras (geralmente com armas, tiros e morte) desses garotos, também pelo envolvimento com drogas e gente do tráfico. Trata-se, portanto, de um filme anticlimático, prenunciando uma tensão que nunca explode de fato.

O cineasta demonstra uma intimidade muito grande com aqueles personagens porque consegue captar momentos particulares de entrega para a câmera. Deixa claro, também, que muito do que se vê tem uma base de interpretação evidente (o que se nota em certos diálogos muito ensaiados ou takes bem estudados e realizados), tomando emprestado da própria rotina dos garotos certas situações.

No entanto essa marca de encenação encontra-se muito diluída na narrativa. Tem-se a triste impressão de adentar num universo cheio de possibilidades e vitalidades, como é próprio do mundo dos jovens, apesar da impressão forte de que eles irão derrapar hora ou outra no meio do caminho, inevitavelmente. Isso torna A Vizinhança do Tigre um filme muito sincero sobre a realidade que documenta, além de lançar um olhar melancólico para um futuro incerto e perigoso.

domingo, 14 de setembro de 2014

CachoeiraDoc – Parte III


Jia Zhang-ke é hoje um cineasta sensação no círculo alternativo quando se fala em cinema mundial. Seu olhar aguçado sobre a China atual em vertiginosa transformação é de uma agudeza e melancolia latentes. Uma beleza ter a oportunidade de ver alguns de seus filmes na programação do CachoeiraDoc. 

Memórias de Xangai (Hai Shang Chuan Qi, China, 2010)
Dir: Jia Zhang-ke  

 
Uma grande preocupação temática tom lugar central na obra de Jia Zhang-ke: a modernidade que chega à China modificando drasticamente o espaço geográfico e com ele vai levando a história de um povo. Quando se detém em observar a transformação urbana em Memórias de Xangai, Jia parece antever duas cidades: a moderna, porém cinzenta, que engole a antiga, ainda povoada de memórias.

E mais importante que olhar para a cidade, é prestar atenção justamente no que as pessoas têm a dizer sobre seu passado. Em Memórias de Xangai, o diretor colhe depoimentos de várias pessoas que relembram episódios de suas vidas naquela cidade, importante centro comercial por conta de sua via portuária. Especialmente aqueles cujas famílias tiveram de fugir da Revolução Cultural promovida pelo governo de Mao Tsé-Tung, indo parar em Hong Kong e Taiwan.

É a partir desse movimento que ele reconstrói a própria história de Xangai, passando por turbulências político-culturais e fluxos migratórios com o passar do tempo. Através das narrativas e memórias particulares, afetivas mais que tudo, o cineasta alcança as dimensões históricas de um país. Pinça no passado narrativas que correm o risco de sumir no futuro.

Zhao Tao, a atriz fetiche do diretor, aparece em cena como um espectro que percorre a velha cidade, justamente aquela que deixa ver jogados nas ruas os destroços de construções antigas. De modo figurativo, é dali que ela parece recolher essas memórias diluídas no tempo.

E também no próprio cinema, que ganha importância fundamental como preservadora de imagens de um tempo a não se esquecer. É famosa, e relatada no filme, a ida de Michelangelo Antonioni ao país oriental para rodar um documentário sobre a Revolução de 1949 mas que acabou denunciando a China “real” e banido na país. Ou a incursão do celebrado cineasta taiwanês Hou Hsiao-hsien quando rodou Flores de Xangai.

Jia Zhang-ke é o cineasta dos escombros, que enxerga com melancolia essa crescimento acelerado do gigante vermelho. Mas é também o cineasta que sabe olhar para o humano, para as narrativas dessas pessoas que fazem pulsar a história de um país, antes que a modernidade a soterre.


Inútil (Wuyong, China/Hong Kong, 2007)
Dir: Jia Zhang-ke 

 
No universo da moda e da alta costura chinesa, a famosa estilista Ma Ke tem um projeto curioso: busca conferir um valor simbólico a peças de roupas artesanais enterrando-as no solo. É uma tentativa de absorver certa memória antiga incrustada na terra, representativa da história de uma coletividade que tem perdido o valor num sistema sócio-político arrasador.

Lembremos que a China é o país que mais exporta roupas para o mundo, com sua agora fabricação em larga escala de peças padronizadas e quase descartáveis. É para esse modo de produção que tomou lugar nessa China neocapitalista que Ma Ke (e Jia, por conseguinte) olha criticamente. Mas enquanto a estilista permanece em seu estúdio preparando-se para expor suas peças numa semana de moda na França, ainda que mantenha um discurso politizado, o olhar de Jia é mais profundo, mais amplo.

Sua câmera visita e observa, com longos takes, as fábricas têxteis que agrupa centenas de funcionários mal remunerados que produzem, em massa, roupas comuns. Numa cena icônica, eles precisam passar por entre grades para chegar ao local de trabalho. Operários sorrateiros, parecem aprisionados num sistema trabalhista cada vez mais desumanizado e redutor.

Jia viaja também para sua terra natal, Fenyang, no interior do país onde ainda subexistem costureiros e pequenos alfaiates que suprem as simples necessidades de vestimentas das pessoas locais. Mas esse é um ofício que está desaparecendo, pois ganha-se mais trabalhando como mineiro num país que tanto valoriza a construção civil. Nessa nova condição de trabalho, por entre a terra, os mineiros são os verdadeiros detentores de saberes e histórias antigas, gente comum, dona de uma memória que tem virado pó nesse processo cruel de modernidade da China.

É aqui que a proposta artística de Ma Ke parece ser escancarada e posta em xeque pelo filme. Aqueles mineiros estão, literalmente, cobertos de terra, junto com suas vivências pessoais e afetivas, correndo o risco de desaparecer diante do gigante chinês que sufoca as vozes do passado em nome do progresso, um dos grandes temas da obra de Jia Zhang-ke.

Os corpos desses homens soterrados da terra (em mais de um sentido), quando se juntam para se banhar, lembram as modelos que vestem as roupas soterradas de Ma Ke. Mas esses homens aqui não aparecem estáticos em pedestais aos olhos de uma plateia curiosa e fetichista. Quem olha para eles? Sob o signo da terra, Inútil é mais uma observação, sobretudo melancólica, de Jia sobre uma realidade avassaladora.


24 City (Er Shi Si Cheng Ji, China/Hong Kong/Japão, 2008)
Dir: Jia Zhang-ke 



Com 24 City, Jia Zhang-ke parece operar no mesmo registro da coleta de depoimentos visto em Memórias de Xangai. O foco agora são as histórias dos trabalhadores de uma antiga fábrica estatal de munições. Toda ela está sendo demolida para dar espaço a um complexo habitacional de luxo.

O cineasta vai em busca dessas memórias porque, em nome do progresso, o país tem demolido, literalmente, suas antigas construções para dar lugar a uma China moderna, aos moldes das grandes metrópoles mundiais. Em contrapartida, deixa de lado as narrativas afetivas dessas pessoas anônimas, que carregam vestígios da própria História da China. Tem-se aqui, portanto, mais uma variação de uma temática cara ao cineasta chinês.

Mas o mais curioso aqui é que alguns desses depoimentos são encenados por famosos atores chineses, ainda que baseados em falas “reais”. Dessa forma, o cineasta põe em xeque a representação do real e o mistura com encenações. É uma marca presente em sua obra essa hibridez de registros, dado que Jia trabalha com questões de uma realidade presente, latente.

No entanto, essa proposta parece fazer mais sentido para o espectador chinês que reconhece mais facilmente esses atores. De qualquer forma, a força dos testemunhos enche de riqueza e melancolia esse emaranhado de histórias. Exala sinceridade de todas elas, encenadas ou não. Assim como em Memórias de Xangai, o diretor não tem receio de utilizar longos depoimentos para a câmera.

Curioso que no meio dos relatos, uma tela preta entrecorta as imagens, como se o cineasta desse a impressão de que a fala fosse acabar ali. Mas ela volta, permanece viva, como deve permanecer na História oficial a história particular, coletiva, de um povo. É nesse conflito constante que a obra de Jia opera.

Talvez em 24 City o diretor tenha criado uma das sequências mais icônicas e representativas de sua carreira (rivalizando com aquela de Em Busca da Vida em que um prédio alça voo): quando umas das paredes da fábrica é demolida, a poeira sobe e se lança em direção à câmera. O letreiro de um poema de Yeats diz “As coisas que pensamos e fizemos/ se espalham antes de desaparecer/ como leite derramado sobre a pedra”. A China põe abaixo essas memórias, mas a câmera de cinema está lá para captar essas partículas de poeira e História que se esvaem no tempo.

sábado, 6 de setembro de 2014

CachoeiraDoc – Parte II



Homem Comum (Idem, Brasil, 2014) 
Dir: Carlos Nader



Há maneiras tradicionais e objetivas de documentar a vida de pessoas ordinárias, tema de muitos filmes recentes (grande foco do cinema magistral de Eduardo Coutinho). Carlos Nader, com seu Homem Comum, mistura seus próprios anseios num filme curioso e nunca óbvio, que coloca em xeque a própria faceta do sujeito simples.

A ideia original era construir um filme em que o diretor abordaria aleatoriamente caminhoneiros para lhes questionar sobre o sentido da vida, ou do absurdo dela. Uma proposta com fundo claramente existencialista. Mas um dos entrevistados passa a ganhar a atenção de Nader, e o filme torna-se o retrato de uma amizade que nasce entre ele e Nilson de Paula, um homem desses, “comum”.

Em 1995, quando se conheceram, Nilson era casado e tinha uma filha pequena. Nader passa a se aproximar da família dele, registrando sempre que podia esses encontros com câmera amadora (chegou até a filmar posteriormente o enterro da esposa de Nilson, a pedido dele próprio). A relação de intimidade que se estabelece ali é fundamental para que o filme seja também sobre as dúvidas que perturbam o próprio cineasta.

Na construção narrativa do filme, o diretor, obcecado por questões filosóficas, intercala trechos do filme A Palavra, clássico do diretor dinamarquês Carl T. Dreyer, e ainda uma encenação em inglês da mesma história, só que a seu modo, mais dramática. Nader expõe no filme suas próprias impressões e dúvidas existenciais, mas sem o peso da densidade filosófica que uma exposição sobre esses temas pode suscitar. Ele prefere utilizar os rumos de vida daquele sujeito “simples” (que ganha cada vez mais camadas), porque é ali, como em cada um de nós, que reside essa complexidade de perto.

Homem Comum explora ainda as muitas possibilidades de encenação, seja nos direcionamentos que pede ao próprio Nilson e sua família, seja na intercalação das narrativas ficcionais que incorpora a sua narrativa fragmentada. E constrói um filme surpreendente usando o aparente banal como ponto de reflexão sobre a condição do homem no mundo, numa obra, acima de tudo, muito carinhosa com seus personagens.


Luíses - Solrealismo Maranhense (Idem, Brasil, 2013) 
Dir: Lucian Rosa
 

Num filme provocativo por natureza, exala de Luíses – Solrealismo Maranhense uma vontade sincera e muito grande de balançar os ânimos do público contra todos os problemas sócio-políticos que se amontoam no Maranhão. Realizado por um coletivo e com recursos mínimos (pouco mais de R$ 1.200), existe claro um propósito de denúncia política muito forte. E esse é sempre um perigo narrativo muito grande.

O filme evoca a lenda maranhense da serpente adormecida que vive debaixo de São Luís. O animal cresce tanto que um dia irromperá da terra e afundará a ilha. É o gancho ideal para metaforizar a própria ira e indignação dos grupos desgostosos com os rumos políticos do estado (pegando carona também em todas as manifestações que tomaram as ruas do Brasil desde o ano passado). É uma forma também de propor um movimento artístico-politizado, o solrealismo, com sua roupagem tropicalista surreal.

Como filme de combate, portanto, Luíses agrega outras imagens e intervenções, na sua colcha rendada de discursos ora eufóricos, ora centrados. Estamos aqui longe de dizer que as mazelas sociais, o controle do estado sobre os meios de comunicação e a predominância de grupos políticos no poder não sejam temas vitais e que estão no cerne dos problemas enfrentados pela população de São Luís.

No entanto, por mais que o filme se proponha a intervenções ficcionais e provocativas que tentam dar conta dos enfrentamentos práticos diários de muita gente (transporte público caótico, violência crescente, condições de moradia precária), além de imagens surreais, quase experimentais no seu formalismo poético, o tom panfletário ainda está ali, e por vezes de forma muito simplista. Ou antes, tem tantas coisas para apontar que pouco consegue formular solidamente. 

Não deixa de ser uma maneira direta de expor situações complexas e que exibe a vulnerabilidade de uma população (notadamente os mais pobres). Porém falta certo apuro na maneira como esses elementos se conformam e se interconectam numa narrativa que suscita tantas questões urgentes.

CachoeiraDoc – Parte I



A Gente (Idem, Brasil, 2013)
Dir: Aly Muritiba 


Durante sete anos, o cineasta Aly Muritiba foi agente penitenciário. Agora, retorna ao antigo ambiente de trabalho para filmar a rotina desses profissionais – o filme fecha a chamada Trilogia do Cárcere, formada pelos curtas-metragens A Fábrica e Pátio. É o universo que Muritiba conhece bem e quer discutir, aqui lançando olhar sobre um grupo de profissionais muitas vezes estereotipados.

 
A Gente é um filme de tal forma inserido num contexto pessoal, tão seguro de seu lugar de interlocução, que isso se reflete no próprio rigor formal de sua construção. A câmera parece estar sempre no lugar certo, nos momentos-chave em que os agentes se defrontam com questões importantes de seu trabalho que surgem ali no dia a dia. Revela a possibilidade de encenação a que o diretor se permitiu na construção da oba. Mas sente-se, sobretudo, um cineasta seguro para lançar um olhar crítico sobre o mundo carcerário.

Jefferson (também conhecido como “Walkiu”) torna-se o personagem guia dessa narrativa. O filme começa com ele assumindo o posto de agente chefe da seção de inspeção. Ele faz a ponte entre a direção e o trabalho prático de inspeção, que vai desde lidar com informações contidas numa carta de uma esposa para um presidiário, até a revolta de um dos detentos que não quer permanecer na sua cela.

Se de início A Gente nos parece um filme de pura observação, no melhor estilo do cinema direto, logo é possível abandonar essa percepção porque o filme mira em algo muito específico, marcando posição: a dificuldade interna de fazer funcionar o sistema carcerário brasileiro, por conta de vários aspectos (materiais, humanistas, trabalhistas).

A observação está lá, de fato. Entendemos, aos poucos, quem são aqueles sujeitos, certas dinâmicas de seu trabalho, a rotina diária de um agente carcerário. Mas longe de uma mera reserva, o filme é muito contundente na sua tomada posição. Para isso, não se desvincula desse protagonista que luta para fazer “certo” seu trabalho. Esbarra em barreiras que expõem a desordem de um sistema inchado, complexo e desafiador.


Branco Sai, Preto Fica (Idem, Brasil, 2014)
Dir: Adirley Queirós 


 
O diretor Adirley Queirós já havia questionado a ocupação do espaço urbano em seu filme anterior, A Cidade é uma Só?. Retoma agora a questão, colocando em perspectiva o lugar do negro pobre numa sociedade segregadora, através de um filme surpreendente com suas incursões fabulares.

Branco Sai, Preto Fica não se trata de uma ficção científica clássica (nem havia recursos para tal), mas utiliza os elementos do gênero, inicialmente, para provocar estranhamento. Mas no fundo tem muito de verdade sobre uma realidade latente que se vive hoje. O filme utiliza histórias de personagens reais, socialmente marginalizados, que vivem na região da Ceilândia, em Brasília.

Um deles anda de cadeira de rodas e comanda uma rádio clandestina, outro vive com uma perna mecânica. São negros e carregam o estigma da “deficiência” física sofrida durante uma repressão policial acontecida num baile black na década de 1980. São um retrato também da marginalização a que foi relegada a população mais carente e periférica das cidades satélites de Brasília.

Porém, o cineasta inclui em sua narrativa elementos não só da ficção enquanto encenação de uma realidade vivida por aqueles sujeitos numa sociedade excludente, como subverte essa realidade por meio da ficção científica. Os personagens parecem habitar um mundo distópico, que os separa de uma Brasília idealista, longe de seu alcance.

A vingança contra esse sistema opressor vem em forma de confronto que ganha contornos apocalípticos (vide o final literalmente explosivo do filme). É a forma contundente, via elementos da ficção científica, misturados com os de resistência e repulsa (representados pela música, no rap e no forró) em que o diretor tensiona essas questões, dando voz e vez a personagens amputados e imobilizados não só fisicamente, mas eu seus próprio direitos cívicos. 

Do ponto de vista narrativo, há, no entanto, certa desordem na maneira como os acontecimentos se sucedem no filme, sem linearidade fácil, esbarrando na sua condução estabanada. Mas a força de suas imagens, a criação despojada e as questões sociais, urbanas e políticas colocadas no filme são tão vitais que tornam Branco Sai, Preto Fica uma obra sem igual no panorama cinematográfico brasileiro.
 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

V CachoeiraDoc



A cidade de Cachoeira fica ali, há alguns quilômetros de Salvador. É lá que acontece o CachoeiraDoc – Festival de Documentários de Cachoeira, evento que sempre admirei de longe porque nunca pude conferi-lo in loco. Mas este ano minha ida deu certo. O evento começa hoje logo mais à noite, com a exibição do monumental Cabra Marcado para Morrer, do querido mestre Eduardo Coutinho, morto em fevereiro deste ano (texto sobre o filme aqui).

Estarei lá a partir de amanhã com a pretensão de escrever sobre os filmes que for vendo. Algumas matérias minhas devem sair no A Tarde também (como a de hoje). Além das mostras competitivas de curtas e longas-metragens, o evento traz um apanhado dos filmes documentais do grande cineasta chinês Jia Zhang-ke. E mais filmes da mostra Resistência e produtos dos alunos do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (programação completa aqui). 

É um desafio hoje fazer uma festival de filmes documentais quando as fronteiras entre a ficção e o real têm sido cada vez mais embaralhadas. Mas, por outro lado, a produção nacional de documentários cresce a olhos vistos, com filmes instigantes e desafiadores, estética e tematicamente. E é assim que tem de ser. Estamos aqui para acolher e ressignificar esses filmes. Vida longa ao CachoeiraDoc.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Anarquia pulsante

Zero de Conduta (Zéro de Conduite: Jeunes Diables au Collège, França, 1933) 
Dir: Jean Vigo


Assistir a Zero de Conduta à sombra de sua obra mais festejada, O Atalante, é uma experiência interessante de descortinamento de um talento. Existe algo pulsante ali, um cineasta louco para experimentar com a linguagem do cinema. Fez isso em pouquíssimos filmes, já que teve uma vida curta e saúde debilitada. Filmando no que hoje chamaríamos de cinema de guerrilha, Jean Vigo batalhava para levantar suas obras e colher um olhar original sobre o mundo, algo que pode ser sentido em cada um de seus filmes.

O espírito anarquizante dos meninos de um internato, tema desse média-metragem, parece ter atingido o Vigo cineasta, fazendo sua escola de cinema no próprio exercício de realização fílmica. Com Zero de Conduta, o diretor tateia um meio de expressão cinematográfica da mesma forma anárquica por não querer se enquadrar em um estilo único e facilmente reconhecido.

Vivia-se, à época, o período das muitas vanguardas artísticas que floresciam na Europa, e Vigo parecia deslumbrado com toda aquela efervescência. Por isso que há em Zero de Conduta algo das pantomimas imortalizadas nos personagens de Charles Chaplin, a montagem rápida e inteligente (ainda que algumas cenas pareçam terminar abruptamente), o registro lúdico que remete à proposta surrealista, enfim, uma série de referências que perfazem este filme atípico.

O que poderia ser tomado como uma desordem fílmica, um atirar para muitos lados, pode ser visto como a mais pura busca pelo estilo, testando as possibilidades da encenação. Também assim o era A Propósito de Nice, seu primeiro curta-metragem, uma sinfonia urbana movida pelo prazer de filmar a cidade e seus tipos. O refinamento maior ganha forma no seu último filme, único longa, o maravilhoso O Atalante.



O mais curioso é que dessa colcha de retalhos, brota em Zero de Conduta uma narrativa muito direta. As situações e pequenos incidentes somam-se como fatos do cotidiano daquele lugar. Porém os estudantes engajam-se numa espécie de sublevação da ordem imposta pelos dirigentes de um ambiente repressor. As brincadeiras que desfiam a moral, as regras e os desmandos instituídos vão crescendo em destemor, até culminar numa espécie de tomada de poder.

É certo que o espírito libertário das crianças possui um engajamento de caráter “político”, mas sem a consciência de tal ato. A escola (ainda mais um internato), como instituição responsável por educar o cidadão, assume a posição rígida com que dita suas regras e impõem a ausência de diálogo. O que aquelas crianças mais querem é verem-se livres de amarras, essas mesmas que dão vazão a suas pirraças endiabradas. A busca não é pelo controle do poder em si, mas pela quebra de uma barreira imposta que não permite a vasão dos instintos infantis (simbolizados aqui pela brincadeira). 

Curiosamente, há um personagem que parece deslocado: o novo inspetor que chega para tomar conta dos meninos, mas que parece simpatizar com suas brincadeiras e algazarra, embora devesse representar o lado da instituição escolar. Talvez com isso Vigo queira nos dizer que não só as crianças podem (e devem) guardar esse espírito libertário – embora ali esteja em sua forma mais pura. A anarquia com que se confronta a severidade da ordem do mundo pode estar em cada um de nós.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O peso da eternidade

Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, Reino Unido/Alemanha/Grécia, 2013)
Dir: Jim Jarmusch



Esqueçam os filmes de horror em que os sugadores de sangue aparecem como seres das trevas assustadores, atacando humanos. Os vampiros de Jim Jarmusch vivem outros embates, o mais duro deles: com o próprio tempo. Seres imortais, estão relegados à eternidade e chegam ao mundo contemporâneo como que tomados de apatia e torpor, cansados, sentindo o arrastar dos dias.

As criaturas não saem à luz do sol e precisam de sangue para se alimentar, como ditam as regras clássicas do universo dos vampiros. Mas não estamos no terreno genérico dos filmes de horror. O que está em jogo aqui é a forma como o tempo pesa sobre esses personagens e promete continuar pesando, a eternidade como fardo num mundo não mais agradável para eles.

Na cena inicial, um movimento circular de câmera pega os personagens do alto, focando sua atenção no casal Eve (a multifacetada Tilda Swinton) e Adam (Tom Hiddleston), como se prenunciando um tempo que não para de girar, vagarosamente. Ele tem toda pinta de rockstar decadente, com tendências suicidas; ela é superculta, atenciosa e amorosa com o velho vampiro Marlowe (John Hurt) – o antigo dramaturgo? –, e atende ao chamado de Adam quando este, entediado de tudo, quer revê-la – são um casal, na verdade.

Amantes Eternos consegue manter, do início ao fim, um tom aguçado de nostalgia e morbidez sem nunca se tornar enfadonho. Cria de tal forma uma atmosfera soturna, que embala o espectador na vida não mais idílica daqueles vampiros. Como algo de expressionista, a narrativa tem lugar numa Detroit a mais realista possível, decadente e decrépita, abandonada em bancarrota, o que encontra um paralelo direto na rotina daqueles vampiros de cabelos desgrenhados e olhar cansado, tais quais hippies largados e desgastados, consumidos pelo tempo.

O filme só se permite uma quebra nesse tom com a entrada em cena de Ava (Mia Wasikowska), irmã de Eve, “jovem” e inconsequente, destilando impertinência para o desespero de Adam. É uma nova geração, vista com olhar de suspeita, aberta aos prazeres da vida moderna, ainda que continuem buscando o sangue mais fresco para beber. A presença inoportuna de Ava só reforça o contraste com aqueles adultos que parecem estancados no tempo.

Adam e Eve sempre evocam um passado mais idealizado, buscando referências que vão de Mary Shelley a Lord Byron. São personalidades artísticas com quem os personagens parecem ter convivido séculos atrás, compartilhando seu apreço pela atmosfera gótica e um romantismo mórbido, imortalizados nas artes. A sofisticação cultural que eles demonstram também funcionam como retrato de uma postura aristocrática que parecem já ter gozado. 

Mas se essas referências, inicialmente, revelariam certo ar de boçalidade erudita, no fundo, dizem muito sobre aqueles personagens agora deambulantes, rememorando um tempo de sofisticação e prazeres idos. O rock melódico da bela trilha sonora é só mais um elemento a reforçar um romantismo de tempos passados. Resta aos vampiros de Jarmusch vagarem pelo mundo, amparando-se um no outro.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Rigor do horror

O Iluminado (The Shining, EUA/Reino Unido, 1980)
Dir: Stanley Kubrick


É incrível o poder de uma sessão de cinema. Mesmo já tendo visto O Iluminado algumas vezes antes, só agora, durante a exibição no Cineclube Glauber Rocha, projeção potente para filme grandioso, é possível entender, de fato, que esse se trata de um filme de terror. Não o mais básico porque Kubrick nunca foi muito clássico, mas há algo de pavoroso numa história que se abre a muitas visões possíveis.

O filme surge com uma força imensa desde a cena inicial com aquela música onipresente e câmera aérea que acompanha um carro na estrada. Antevê, de cara, um destino tenebroso para seus personagens. E logo apresenta um hotel que, aos poucos, vai formatando-se como personagem macabro, com seus corredores extensos, salões imensos, silêncio sepulcral, mistérios à espreita.

É o majestoso Hotel Overlook onde se passa quase toda a ação do filme, com a família de Jack Torrance (Jack Nicholson) tendo aceitado passar o inverno no lugar quando não há hóspedes e o hotel precisa de vigilância. Seria o lugar ideal para que Jack se dedique ao seu propósito de escrever um romance, aproveitando-se de toda uma quietude ao redor.

Há de se ver O Iluminado tanto pela perspectiva da fantasia macabra quanto da perturbação psicológica. Jack, em processo de piração paulatina, toma-se de ódio e descontrole quando se vê frustrado em seu trabalho solitário. Curioso notar que desde o início, durante a visita ao gerente do hotel para fechar o emprego, ele já parece carregar um sorrisinho cínico no rosto, algo de sarcástico, ou antes é só a cara canastrona de Nicholson. Mas é nesse personagem que reside a carga de loucura insana que o faz perseguir a própria família, entre visões e encontros enigmáticos com gente de outros tempos pelos corredores.
Mas há também o filho Danny (Danny Lloyd), garotinho com potencial de acesso a um mundo sobrenatural, visitado várias vezes por imagens e espectros de gente morta, capaz ainda de prever tragédias futuras. Esse tom fantasioso só acrescenta mais mistério a uma trama longe de mostrar clareza (a cena final, por exemplo, faz entender que desde muito tempo aquele lugar tem algo de macabro, insondável). É a chegada desses personagens, com propensão à loucura ou à “clarividência”, que desperta forças não humanas naquele ambiente. 


Por fim, Wendy (Shelley Duvall), mãe e esposa que se dedica às tarefas de cuidar do hotel, é quem mais sofre com os horrores que ali se desdobram. Não chega a ser uma grande atuação, mas Duvall, incontestavelmente, confere uma fragilidade quase patética àquela mulher confrontada com o desequilíbrio mortal do marido.

Kubrick trabalha no seu habitual rigor formal, perceptível na rigidez de construção dos planos, no texto bem formatado, no tom crescente de mistério e medo. Mas aqui ele apresenta um novo tipo de abordagem, pois subverte os elementos do terror clássico. Primeiro porque nos apresenta tudo às claras, literalmente. Não há vultos atrás de portas, sombras fugidias ou fantasmas sussurrantes. Todas as aparições ou o que quer que sejam confrontam os personagens de frente, subitamente, por vezes demorando a revelar sua natureza perturbadora – toda a conversa de Jack com o garçom na festa é exemplar nesse sentido.

Depois porque o cineasta vai mais fundo ao explorar o efeito do pavor em coisas não características. Cenas como a que Wendy descobre o que Jack tem escrito todo esse tempo de solidão é assustadora pela tomada de consciência que ela tem do estado mental do marido. E mesmo quando Danny encontra as gêmeas, de repente, num virar de corredor, a cena tem mais força pela composição de imagem e som do que pela busca de um mero susto. 

Nem mesmo a música, comumente utilizada para reforçar um espanto aqui e ali em filmes do gênero, ganha agora contornos fáceis porque ela pesa sobre os acontecimentos que vão crescendo em estranheza e delírio. O Iluminado perfaz-se, portanto, como obra de classe inigualável, gradualmente revelando horrores ou implementando novos mistérios. É daí que tira sua força como filme assombroso, em muitos sentidos.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Menos seriedade

As Tartarugas Ninja (Teenage Mutant Ninja Turtles, EUA, 2014)
Dir: Jonathan Liebesman


Sempre houve nas histórias das Tartarugas Ninja um tom cômico muito aguçado, quase abobalhado mesmo na forma como conduzia sua história absurda – tartarugas mutantes que cresceram no bueiro, sob vigilância e ensinamentos de uma ratazana mais velha e sábia, lutando contra o crime e a opressão numa grande metrópole.

Há no próprio título original do filme, reforçado em mais de uma das falas dos personagens, a referência ao fato dos protagonistas serem adolescentes, aderindo a esse mundo teen de agradabilidade e diversão (uma maneira também de mirar nesse público atual mais jovem que fareja esse tipo de produto nos cinemas).

Daí que o fator adrenalina do filme, ainda que bem trabalhado nas cenas de maior ação, e a rigidez de uma trama com planos mirabolantes, apostando na insistência em soar gravemente importante, parecem o ponto fraco do projeto. Mesmo a formatação do antagonista clássico, o Destruidor, ganha peso, tanto na caracterização física como na malvadeza. O maior entrave do filme, portanto, é se levar a sério demais.

O filme também tenta se sustentar com um roteiro fraco em diálogos e se apega a coincidências frágeis para ligar os personagens. Quem mais sofre com isso é a jornalista April (Megan Fox) quando se revela sua participação na própria salvação dos experimentos que deram origem àqueles seres geneticamente modificados.

Leonardo, Raphael, Donatello e Michelangelo funcionam muito bem como grupo de jovens que tomam para si uma grande responsabilidade, ainda que mantenham o tempo todo o espírito de chacota. A cena do rap no elevador é bem característica nesse aspecto, e engraçada também. Já os personagens humanos são mais rasos, encontrando em April a personagem que descobre a existência surreal daquelas criaturas e todo um universo mirabolante em torno deles (por mais que as explicações estejam calcadas nas ciências.

Almejando um espacinho ali entre as franquias de super-heróis que têm dado certo no cinema recente – e talvez já estejam saturando o universo dos blockbusters –, As Tartarugas Ninja poderiam ser um produto diferenciado, pegando carona no efeito Guardiões da Galáxia – que entende muito bem o seu lugar nessa seara, diferenciando-se pelo seu teor de autoparodização. Mas pelo menos não é a bomba pela qual tantos esperavam.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Aspereza do mundo

The Rover – A Caçada (The Rover, Austrália/EUA, 2014)
Dir: David Michôd


Com Reino Animal, David Michôd, estreando no longa de ficção, filmou uma família sem escrúpulos, ligada à máfia, recheada de gente vil, ainda que à primeira vista não parecesse assim. Agora, o diretor amplia o sentimento de sordidez porque, em The Rover – A Caçada, toda uma sociedade já deixou para trás a dignidade, o senso de moral e nada é mais mascarado. Não há mocinhos ou bandidos e alguns poucos tentam sobreviver com seus princípios, escondidos dos demais.

Os personagens que povoam esse mundo distópico – num registro bem realista e endurecido que ganha corpo na paisagem desértica da Austrália – vivem como numa terra sem lei, depois que um colapso econômico abalou o mundo. É aí que encontramos Eric (Guy Pearce), o rosto marcado pelo tempo e pela brutalidade, solitário e destemido. Quando tem seu carro roubado por um grupo de pequenos ladrões durante uma fuga complicada, ele parte ao encontro cego dessa gangue a fim de reaver seu bem.

Nesse cenário westerniano, no entremeio entre o filme policial com toques de história apocalíptica, o que Michôd faz de melhor é construir uma atmosfera infame, suja, onde a violência é palavra de ordem. Trilha sonora pontual e evocativa ajuda muito nessa construção de algo fora do lugar. Mas apesar de um filme de perseguição, há algo de anticlimático na forma vagarosa como o tempo passa, no fluxo lento de ritmo, reflexo próprio do paradeiro que se tornou o mundo depois da crise.

Não deixa de ser um registro um tanto incomum para esse tipo de história, e ainda que se sustente bem como atmosfera, o filme se arrasta um tanto e perde força quando tenta dimensionar os personagens. O discurso de Eric na cadeia, por exemplo, é expositivo, maneira de revelar a brutalidade de um homem que, pelos seus atos agressivos e atitude dura, já se revela por si só uma pessoa que perdeu a fé na humanidade – perdendo a própria humanidade (e há um subtexto muito interessante revelado na exata cena final que torna essa atitude diante do mundo mais triste – e trágica – ainda).

E mesmo o encontro do protagonista com Rey (Robert Pattinson) surge como uma facilidade que o roteiro nem sempre dá conta de sustentar. Irmão de um dos integrantes do grupo de foragidos, abandonado em meio à fuga alucinada, Rey passa a ser a isca de Eric para encontrar os demais. Revela-se um personagem infantilizado, o caçula renegado pela “família” de criminosos, único amparo num universo hostil. 

Aliás, os dois atores carregam seus personagens com muita vibração, Pattinson surpreendendo na forma como nos faz crer na vulnerabilidade – física e psicológica – daquele garoto no meio de homens duros. Pearce, ainda que permaneça no mesmo tom, estabelece de cara a força de seu personagem. No fim das contas, The Rover está, ele mesmo, sempre no mesmo tom, apostando na aspereza das relações humanas e nessa apatia sangrenta, inescrupulosa, que tomou conta do mundo.