sábado, 13 de dezembro de 2014

A família e o cosmos

Interestelar (Interstellar, EUA/Reino Unido, 2014)
Dir: Chistopher Nolan


Interestelar toca em questões complexas e profundas, como o destino da raça humana e a possibilidade de vida fora do Planeta Terra, e parecia haver um grande problema nisso aí: Christopher Nolan. O diretor dado a exageros e mania de grandeza poderia tornar tudo muito acima o tom (inclusive na direção dos seus atores), mas prefere um caminho mais sóbrio, centrado nos dramas humanos, ainda que um pouco carregados.

Tá certo que Interestelar também se estende mais do que devia, porém passa como um bom exemplar de ficção científica, instigantes nos desdobramentos que cruzam os caminhos de seus personagens. A história nunca se torna autoimportante ao investir em temas apocalípticos e mesmo metafísicos.

Existe, ao contrário, um cuidado maior com os personagens que ultrapassa a mero investimento em ação desenfreada, outro caminho fácil que o filme poderia seguir, em busca de um público como o da trilogia do Cavaleiro das Trevas. Interestelar toca especialmente nos temas familiares, incitados a partir da trajetória de seus personagens e, principalmente, das escolhas que eles precisam fazer.

Cooper (Matthew McConaughey) é um engenheiro frustrado, ainda fascinado pela tecnologia e os mistérios do universo. Vive com a família numa fazenda quando o mundo sofre com as pragas que devastam as plantações e tempestades de areia destroem tudo. O futuro da Terra está nas mãos de uma expedição da Nasa em busca de outros planetas habitáveis. Cooper vai ser incorporada a essa missão, tendo de abandonar a família, que não sabe se reencontrará algum dia.

Deixa pra trás especialmente a filha Murph (Mackenzie Foy quando criança, Jessica Chastain, adulta), tão inteligente quanto, apegada a ele, seguindo seus mesmos caminhos profissionais. Há também a Dra. Brand (Anne Hathaway) filha do cientista idealizador de toda a missão (Michael Caine). É, portanto, numa dimensão familiar que Nolan coloca seus personagens, tornando-os mais do que peças numa trama de ficção espacial. A coisa macro da responsabilidade e grandeza da empreitada encontra paralelo (ou mesmo esbarra) nas questões emocionais que movem seus personagens no íntimo.

Uma cena em particular em que Cooper recebe uma mensagem da família depois de uma reviravolta inesperada que envolve a passagem do tempo é emocionante por aquilo que representa para o personagem. Também a atitude do astronauta interpretado por Matt Damon é mais uma das peças complexas que se movem na mente e na vontade humanas, falhas e mesquinhas, contrapondo-se mesmo à tarefa maior de salvar a humanidade.

Por isso é importante que o filme conte com um bom time de atores. McConaughey, dado a se repetir sempre e exagerar nos últimos papeis, encontra aqui o tom certo do profissional responsável e pai amoroso. Anne Hathaway é a que mais surpreende porque sua personagem é cheia de conflitos e a atriz nunca apareça acime do tom (o que fazia a exaustão em Os Miseráveis – ou seja, ganhar o Oscar lhe fez muito bem). Chastain tem pouco tempo em cena, mas é presença forte, continuando o tom carismático, mas de caráter forte, de sua personagem quando criança.

Uma pena que o longa, na sua parte final, não consiga conter-se e se entrega ao dramalhão que tanto tentava evitar. A necessidade de aparar arestas e deixar tudo arrumadinho, satisfatoriamente, acaba prejudicando a crueza que a história viria a ter. Também se demora em momentos que se querem emocionantes, o lado humano do filme gritando seu valor. Não precisava porque, nas entrelinhas, Interestelar já tinha certo caráter intimista, talvez atrapalhado pelo lado megalomaníaco de seu diretor.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Solidões virtuais

Homens, Mulheres e Filhos (Men, Women & Children, EUA, 2014)
Dir: Jason Reitman


Filme-mosaico, Homens, Mulheres e Filhos é mais um exemplar de histórias cujos personagens se cruzam no microcosmo de uma cidade norte-americana. Tem todo um ar agridoce perpassado pelos dramas íntimos de cada um, tomados por uma melancolia latente diante dos rumos de suas vidas, sejam eles jovens ou adultos. Pais e filhos enfrentam questões emocionais e conflitos de ordem sexual, cada qual com seus problemas.

Se há um diferencial aqui é atualizar esse tipo de história para o mundo das relações virtuais intermediadas pela internet e suas múltiplas e novas possibilidades de interação e monitoramento. Comunicação instantânea, criação de perfis fakes, identidades forjadas e fuga de uma vida social no mundo concreto: são trocas as mais diversas, feitas para o bem ou para o mal, ainda que não seja esse o propósito.

Os jovens do filme não desgrudam de seus smartphones, comunicam-se eletronicamente em tempo integral. Há a garota que tem a vida virtual totalmente monitorada pela mãe rígida, o que torna tudo mais difícil quando ela se apaixona por um garoto que odeia esportes e prefere os jogos online. Num outro polo, uma mãe quer tanto tornar a filha uma estrela que ela mesma mantém um site da garota com fotos, inclusive sensuais. Essa mesma menina começa a se relacionar com um garoto viciado em pornografia.

Também os adultos são jogados na rede dos conflitos pessoais, como o casal que perdeu o tesão um no outro, buscando assim parceiros fortuitos, ou aqueles que buscam, devagarinho, uma aproximação maior. Decerto que Reitman trata com certo respeito seus personagens, nunca os ridicularizando. São esses tipos que enfrentam as barreiras cotidianas com suas novas regras sociais, sempre com um tratamento muito carinhoso para as almas em solidão, embora o filme poucas vezes os complexifiquem para além dos tipos que representam.

Esse é o tipo de história que já temos impressão de ter visto antes, num mesmo arranjo narrativo que vem se tornando muito comum, de Robert Altman em seu Short Cuts, a Ang Lee em Tempestade de Gelo. Jason Reitman não consegue ser tão bom quanto seus colegas porque seus personagens não ultrapassam os tipos comuns, ainda que consiga manter no espectador o interesse sobre o futuro daquelas pessoas.  Mas positivamente o filme também não descamba para o choroso, caso do terrível Crash – No Limite, por exemplo. A dificuldade de comunicação com o próximo no mundo atual passa a ser o ponto em comum que permeia as histórias, apesar de o tema não ser mais novidade.

E acaba sendo essa mesma a mensagem do filme, anunciada já na abertura: começa com o relato da sonda lançada no espaço sideral com sons da Terra, além de saudações em diversas línguas, para o caso de algum contato com criaturas extraterrenas. É a velha necessidade do ser humano de se comunicar, de buscar o contato com o outro, ainda que seja tão difícil mesmo quando este está ao lado. Homens, Mulheres e Filhos só reforça essa dificuldade humana, sem grandes novidades, embalando gigabits de solidão e incompreensão.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Graça e instinto

Relatos Selvagens (Relatos Salvajes, Argentina/Espanha, 2014)
Dir: Damián Szifrón


Dos raros filmes argentinos que conseguem lançamento comercial no Brasil, Relatos Selvagens é uma grata surpresa vinda do país hermano, de cinema de tão bons exemplares como esse. Tipo de filme de humor negro em episódios que tinha tudo para desandar, é realmente prazeroso ver como todas as suas esquetes são boas, sem exceção. E ainda são coesas: o que reúne histórias e personagens tão díspares é essa veia instintiva do ser humano para a violência extrema e vingança quando as agruras do cotidiano nos põem em prova.

Os passageiros de um voo, a recepcionista de um restaurante vagabundo de meio de estrada, dois estranhos numa estrada deserta, todos eles vivem seu dia de cão. Veem seu mundo se revirar de ponta cabeça por conta de situações extremas que invadem sua rotina e inspiram ódio crescente, esse mesmo que os faz perder a razão e libertar o que há de mais selvagens dentro de si.

O diretor e roteirista Damián Szifrón, com precisão afiada, seja ela de encenação, seja no desenho do roteiro, surpreendente sempre que o filme parece dar ares de que vai degringolar. O episódio do filho de família abastada que atropela e mata vítima inocente parece apontar para esse momento em que o dramático vai tomar conta da narrativa, mas logo revela suas facetas cômicas e o absurdo para o qual a situação evolui. Szifrón é habilidoso porque, para além da veia cômica, sustenta cada história do início ao filme. O resultado final supõe um controle milimétrico de cada instante de cena, sem forçações.


O episódio da noiva – talvez o melhor e, justamente, o escolhido para fechar o filme – é exemplar dessa precisão. A personagem vai do ódio absoluto ao “dane-se tudo”, situação cheia de reviravoltas e sempre imprevisível. Assim como o segmento dos dois motoristas que se digladiam na estrada cresce em escracho, inverte expectativas e nunca perde o ritmo até o final arrasador. 

Relatos Selvagens é a prova de como é possível narrar bem e entreter, ser engraçado e não ofender. Consegue ainda ser um filme de dupla leitura: pode ser visto como o retrato de uma sociedade argentina recém-saída de uma crise financeira que deixou marcas profundas em seus cidadãos e sistemas sociais – alguns personagens precisam lidar com a arbitrariedade e burocracia da policia e do judiciário, a grana move o mundo; mas também é possível encarar o filme como um belo exemplar de comédia que adquire tons nonsense, convidando ao riso. Enfim, é bom cinema.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Tons de horror

Castanha (Idem, Brasil, 2014)
Dir: Davi Pretto


Castanha certamente não é um filme de fácil categorização. Propõe, talvez, que deixe a própria classificação de lado quando o passeio entre ficção e documentário esteja já virando modinha na produção atual e longe de ser mais uma novidade. E que bom que seja assim. Num híbrido muito curioso, Castanha adentra o universo do artista da noite João Carlos Castanha, especialmente como transformista, e fabula muito sobre esse personagem real em sua lida diária.

Ele existe na cena noturna underground de Porto Alegre, também faz peças de teatros e esquetes para a TV. Já passou da meia-idade, mas continua com os seus shows. Lida com as pendências financeiras e com o sobrinho viciado em drogas. Vive na harmoniosa companhia da mãe. Relembra os amigos e amores do passado que já se foram.

O filme quer ser cinema direto, documentário de observação, tanto quanto quer privilegiar a encenação, o fake, que está na própria essência do ser transformista, sem que isso tudo torne o longa pretensioso. Ao contrário, o filme parece muito consciente do fluxo de experimentação que está na constância de sua construção, sem deixar de olhar com carinho para o personagem que retrata.

Intérprete de si mesmo, Castanha se desnuda para a câmera, assim como também se assume como personagem. Abre a intimidade de sua memória e da casa onde mora com a mãe, Celina, que também empresta sua encenação ao filme. Talvez não seja dos performers mais talentosos ou que faz grudar a atenção na tela, mas “doa” seu trabalho e sua morada de forma cativante.  

A dualidade entre o real e o encenado ganha um frescor interessante no filme porque, nessa mescla, nem tudo está claro, dado de bandeja na história. Faz com que o espectador questione-se o tempo todo sobre a natureza das imagens – estamos agora diante de uma ficcionalização ou captação do real? Quando elas se misturam? Perfazem, assim, um jogo de cena do qual é difícil de fugir, mas sem a dureza de se impor à narrativa. 

A forte cena inicial, por exemplo, veste de mistério e horror o protagonista, nu e coberto de sangue numa rua deserta. Para além do encenar, o filme se abre ao comentário subjetivo, mais do que a um perigo concreto à espreita. Esse mesmo tom de medo e suspense aparece em outros momentos do filme, uma forte e estranha atmosfera que passa a dominar a vida cotidiana desses personagens. É o perigo de estar no mundo, de ser o que é, de lutar contra as adversidades e continuar seguindo.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Caminhos de estranheza

Ventos de Agosto (Idem, Brasil, 2014)
Dir: Gabriel Mascaro
***½


Com Avenida Brasília Formosa, Gabriel Mascaro filma um espaço peculiar e sua gente, seus desejos e anseios, na esteira do cotidiano. Agora com Ventos de Agosto, a intenção parece ser a mesma. Mas indo um passo além nesse novo trabalho, Mascaro consegue injetar elementos incomuns que tornam o filme um corpo estranho na atual produção independente brasileira.

É assim que Ventos de Agosto nos parece enganar com suas belíssimas imagens colhidas numa vila de pescadores no interior de Alagoas. A vida passa calma por lá, e o filme acompanha o cotidiano sem pressa da jovem Shirley (Dandara de Moraes) e seu namorado Jeison (Geová Manoel dos Santos). Ela ouve punk rock e quer ser tatuadora, ele pesca frutos do mar e transporta os cocos colhidos naquela região.

São dois personagens quase em contraposição: enquanto ela só está ali para cuidar da avó doente, ele parece pertencer àquele lugar, ali finca suas raízes. Os sonhos de futuro são diferentes para essas pessoas que estabelecem uma relação muito forte – emocional, econômica, física – com aquela região, um lar. Mas essa “historinha” será abalada por dois movimentos surpreendentes que o filme insere na narrativa.

Primeiro porque inclui ali a estranha visita de um homem que procurar gravar, com seus equipamentos, o som do vento – e venta muito naquela região –, e também o barulho do mar, uma espécie de “respirar” das entranhas do oceano. Vivido pelo próprio Gabriel Mascaro, esse personagem desvirtua um tipo de história que parecia ser somente de observação.

Mas há um segundo elemento desvirtuador, inesperado: Jeison encontra o crânio de um homem no mar e depois um corpo em decomposição na praia. Fascinado por aquele fenômeno, tenta acionar as autoridades para dar fim ao morto, mas acaba ele mesmo por criar certa afeição pelo corpo putrefato, cuidando-o para que seja velado e enterrado.

É aí que o filme consegue ampliar sua visão de mundo e tornar-se universal (mais do que a beleza do cotidiano de gente simples já consegue ser, fotografado lindamente, também por Mascaro). O tema da morte e da falibilidade do corpo adentra o filme como um mistério insondável, que atiça os personagens e faz questionar o espectador.

Ventos de Agosto marca-se pelos desvios narrativos que o tiram de certa zona de segurança, um caminho por demais tradicional da contemplação, já trilhado por muitos filmes recentes. Elimina o risco de filmar uma geografia habitada por gente simples de forma exótica, exploratória. Prefere o caminho do bizarro, capaz de tirar o chão do espectador, ainda que esteja calcada no fluxo natural das coisas. 

E essa natureza bravia em captação parece, ela mesma, vigiar os caminhos incertos que descortinam a vida dos homens. Sob ventania e mar bravio, a rotina desses personagens confronta-se com os mistérios da natureza. Apesar da presença da morte, há algo de pulsante ali, seja no ruído insistente que o vento provoca, seja na respiração gutural do mar. E também nos corpos jovens que seguem no fluxo da pulsão e do destino incerto.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Mostra SP – Ranking geral


Foi uma Mostra Internacional de São Paulo corrida, instável, apartada por outros compromissos, mas sempre muito intensa, tanto pelos filmes numa programação gigantesca, quanto pelo espírito de uma maratona que nos oferece tantas possibilidades. E há, claro, os bons encontros e conversas, os amigos que só vemos nessas condições de correria em meio ao mar de filmes. Abaixo, meu ranking deste ano:


Leviatã (Andrey Zvyagintsev, Rússia) ****
O Segredo das Águas (Naomi Kawase, Japão) ****
Força Maior (Ruben Östlund, Suécia/Dinamarca/Noruega) ****
Relatos Selvagens (Damián Szifrón, Argentina/Espanha) ****
Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo (Bennett Miller, EUA) ****
Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência (Roy Andersson, Suécia/ Alemanha/Noruega/França) ***½
Winter Sleep (Nuri Bilge Ceylan, Turquia/Alemanha/França) ***½
Jack (Edward Berger, Alemanha) ***½
A Pequena Casa (Yôji Yamada, Japão) ***½
Ciências Naturais (Matías Lucchesi, Argentina/França) ***½
A Moça e os Médicos (Axelle Ropert, França) ***
Dois Dias, Uma Noite (Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, Bélgica/França/Itália) ***
Por las Plumas (Neto Villalobos, Costa Rica) ***
O Pequeno Quinquin (Bruno Dumont, França) ***
As Maravilhas (Alice Rohrwacher, Itália/Suíça/Alemanha) ***
Alentejo, Alentejo (Sérgio Tréfaut, Portugal) ***
Desvio (Duane Hopkins, Reino Unido) **½
A Gangue (Myroslav Slaboshpytskiy, Ucrânia) **½
Permanência (Leonardo Lacca, Brasil) **½
Juana aos 12 (Martín Shanly, Argentina/Áustria) **½
De Armas e Bagagens (Ana Delgado Martins, Portugal/Angola) **½
Uma Casa em Berlim (Cynthia Beatt, Alemanha/Reino Unido) **
Detetive D: O Dragão do Mar (Tsui Hark, China) **
Rhino Season (Bahman Ghobadi, Irã/Iraque/Turquia)
A Mala do Amor e da Vergonha (Jane Gillooly, EUA) **
Quando os Animais Sonham (Jonas Alexander Arnby, Dinamarca) **
Non Fiction Diary (Jung Yoon-Suk, Coreia do Sul) *½
Filha (Afia Nathaniel, Paquistão) *½


Hors Concours:

 
A Liberdade é Azul (Krzysztof Kieslowski, França/Polônia/Suíça) *****
A Fraternidade é Vermelha (Krzysztof Kieslowski, França/Polônia/ Suíça) ****½
A Noite de São Lourenço
(Paolo Taviani e Vittorio Taviani, Itália) ****½


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Mostra SP – Parte VI




Por las Plumas (Por las Plumas, Costa Rica, 2013)
Dir: Neto Villalobos



Por las Pumas faz todo o tipo de filme singelo, com personagens estabanados, mas carismáticos. Chalo (Allan Cascante) trabalha como segurança de um pequeno estabelecimento, embora sem o porte físico para tal. Tem poucos amigos, como o colega de trabalho Jason (Marvin Acosta) e a empregada doméstica revendedora de Avon Candy (Sylvia Sossa).

Acontece que Chalo é obcecado por rixas de galo. Tenta a todo custo comprar um animal desses bons de briga. Quando consegue, apelida-o de Rocky e passa a treiná-lo para o tão sonhado confronto. Quer ganhar dinheiro com isso. Por las Plumas é espirituosíssimo na forma como embala os anseios e sonhos daqueles tipos, pendendo para a comédia mais sutil, sem nunca tornar seus personagens caricaturas.

O mundo solitário de Chalo não lhe parece tão vazio assim porque ele se satisfaz com seus sonhos, ainda que morando numa casinha humilde, seus amigos assumindo o posto de família temporária. O diretor estreante Neto Villalobos encena uma rotina tranquila, ainda que sem grandes emoções diárias. Mas é aí que o filme ganha o espectador pela singeleza de uma vida palpável, contrapondo-a à violência que emana das rinhas de galo.


Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência (En Duva Satt På En Gren Och Funderade På Tillvaron, Suécia/Alemanha/Noruega/França, 2014)
Dir: Roy Andersson 

 


Um pombo num galho, empalhado, numa redoma de vidro; um homem, bastante pálido, observa o animal. O tempo parece suspenso, a câmera está fixa, pouco movimento dentro do quadro, fotografia monocromática. Assim começa esse curiosíssimo filme que parece operar numa outra dimensão de realidade. O absurdo filosófico do título ganha um contorno perceptível: as mini-situações aqui apresentadas são pinçadas de uma realidade que se querem nonsense e, por isso mesmo, interessantes de serem postas em cena.

Esse tipo de tableau vivant se repetirá formalmente por todo o filme. Na verdade, trata-se de um dispositivo narrativo já usado por Roy Andersson em seus trabalhos anteriores, Vocês, os Vivos e Canções do Segundo Andar. Perfazem uma espécie de trilogia dos absurdos cotidianos, via humor negro na maneira de olhar para as pequenas desgraças humanas.

Ou não tão pequenas assim: esse novo filme começa com observações sobre a morte e algumas de suas idiossincrasias – sem deixar de serem hilárias, diga-se. Mas logo o filme torna-se um amontoado de situações em que os personagens misturam-se e retornam momentos depois, enfrentando conflitos por vezes banais, mas com consequência tragicômicas.

Há algo de Jacques Tati nessa construção de quadros em que a atenção do espectador pode ser levada a se fixar em certo ponto, diversos são os elementos que estão distribuídos no plano. É o tipo de filme que brinca com as percepções daquilo que temos diante de nós e daquilo que somos levados a perceber mais detidamente. É também muito engraçado, perseguindo situações bizarras. Tão estranhas como pode ser o próprio dia a dia.


O Pequeno Quinquin (P’tit Quinquin, França, 2014) 
Dir: Bruno Dumont
 
Seria muito estranho testemunhar uma virada na carreira de Bruno Dumont. É certo que esse O Pequeno Quinquin envereda pelos caminhos da comédia de tons detetivescos, coisa muito distante dos filmes barra-pesada que o diretor já fez. Mas é muito fácil reconhecer aqui o universo de Dumont: interior da França, com sua gente simples e feia, envoltas em situações bizarras. É o mundo cão no mesmo tipo de geografia que o cineasta está acostumado a observar.

Há ainda o fato do projeto ser originalmente uma série para a TV francesa, reunida aqui num filme de mais de três horas de duração, muito palatável para se ver no cinema, engraçado até certo ponto. Se essa era a maior qualidade do projeto, ainda que numa medida muito particular em se tratando do diretor em questão, ela é o forte e o fraco do filme.

Não há dúvidas de que o longa rende boas gargalhadas em momentos inesperados – como a menina que canta no funeral, o avô arrumando a mesa do almoço, a aparição do herói “caipira-man”. Mas Dummont comumente ultrapassa o timming cômico, ora prolongando demais o efeito das gags, ora repetindo as mesmas piadas tempos depois – a garota que insiste em cantar agudo será usada mais de uma vez para efeitos de graça, por exemplo.

O pequeno Quinquin (Alane Delhaye) e sua trupe de amigos endiabrados – além da garotinha que surge como seu “par romântico” – estão ali para observar e acompanhar as investigações de um crime misterioso: uma vaca é encontrada morta num bueiro, com pedaços de corpo humano dentro dela. Essa é só a ponta de uma série de assassinatos estranhos inseridos na atmosfera da pacata região interiorana.

Mas mais do que o próprio protagonista, é o comandante de polícia Van der Weyden (Bernard Pruvost), detetive ranzinza, com seus tiques incontroláveis na face, voz embolada e comportamento arrogante, quem rouba o filme. Suas tiradas de metido a esperto, sempre se achando no controle da situação, são ótimas.

Nesse sentido, o filme está menos preocupado na resolução do caso policial em si - que se torna mais confuso e sem razão - e mais focado no desfile de tipos estranhos, de comportamentos incomuns e suspeitos. É mais uma maneira de Dumont lançar luz sobre a inexplicável crueldade humana, ainda que seja naquele garotinho feio e atentado que parece residir uma ponta de amor e afeto.


Relatos Selvagens (Relatos Salvajes, Argentina/Espanha, 2014)
Dir: Damián Szifrón 


 
Encerrando bem a Mostra SP, Relatos Selvagens (que foi o filme de abertura) é uma das grandes surpresas da programação, filme de humor negro em episódios que tinha tudo para desandar. É realmente prazeroso ver um filme em esquetes em que todas elas são boas, sem exceção. E ainda são coesas: o que reúne histórias e personagens tão díspares é essa veia instintiva do ser humano para a violência extrema e vingança quando as agruras do cotidiano nos põem em prova.

Os passageiros de um voo, a recepcionista de um restaurante vagabundo de meio de estrada, uma família de classe alta, todos eles vivem seu dia de cão. Veem seu mundo se revirar de ponta cabeça por conta de situações extremas que invadem sua rotina e inspiram ódio crescente, esse mesmo que os faz perder a razão.

O diretor e roteirista Damián Szifrón, com precisão absurda, seja ela de encenação, seja no desenho do roteiro, surpreendente sempre que o filme parece dar ares de que vai degringolar. Szifrón é habilidoso porque, para além da veia cômica, sustenta cada história do início ao filme. O resultado final supõe um controle milimétrico de cada instante de cena, sem forçações. 

O episódio da noiva – talvez o melhor e, justamente, o escolhido para fechar o filme – é exemplar dessa precisão. A personagem vai do ódio absoluto ao “dane-se tudo”, situação cheia de reviravoltas e sempre imprevisível. Assim como o segmento dos dois motoristas que se digladiam na estrada cresce em escracho, inverte expectativas e nunca perde o ritmo até o final arrasador. Relatos Selvagens é a prova de como é possível narrar bem e entreter, ser engraçado e não ofender; enfim, fazer bom cinema.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Mostra SP – Parte V



Quando os Animais Sonham (Når Dyrene Drømmer, Dinamarca, 2014) 
Dir: Jonas Alexander Arnby


Mesmo se visto como metáfora das transformações da adolescência, esse filme dinamarquês não consegue ser tão convincente. Isso porque como simples trabalho de gênero, não passa de um reprocessar de elementos de tons fantásticos, tentando extrair horror da história de uma garota que percebe algo diferente no seu corpo e na sua própria essência como ser.

Marie (Sonia Suhl) começa um novo trabalho numa peixaria, tem uma mãe num cadeira de rodas, vítima de doença misteriosa. Ao mesmo tempo em que passa a ser vítima das brincadeiras maldosas de seus colegas de trabalho, descobre sua sexualidade e percebe algo estranho em segredo na sua família. Manchas vermelhas e pelos começam a surgir no seu corpo.

São com esses elementos que o roteiro do filme trabalha, embora as escolhas de conflitos tornam-se as mais banais. O filme prefere transformar sua personagem numa adolescente rebelde, confrontando-se à figura paterna, do que de fato se deter naquilo que é mais evidente: sua transformação. A narrativa ignora aquilo que tem de mais particular. A história parece continuar pelo simples prazer de ver aquela garota se transmutando em besta-fera, vingando-se, aos poucos, de todos aqueles que a fizeram “mal”. E não deixa de haver algo muito moralista nisso.


A Gangue (Plemya, Ucrânia, 2014) 
Dir: Myroslav Slaboshpytskiy


Um das sensações dessa edição da Mostra SP é esse filme ucraniano barra-pesada, cinema irmão dos trabalhos duros feitos atualmente na mãe Rússia. Detalhe: todos os personagens são surdos-mudos e se comunicam através de linguagem de sinais. Não há tradução ou legenda alguma no filme. Aqui, mais que nunca, o corpo é linguagem.

O ambiente é um colégio interno especializado. Um novo estudante é incorporado ao grupo e não demora a perceber o lado cruel (que parece ser o único) de seus colegas. Talvez fosse intenção aqui distanciar-se de uma possível caricatura do deficiente vulnerável, via “tadismo” que leva à pena. A escolha do diretor é apresentar personagens perversos, um estado bruto de crueldade que extrapola a simples prática de bullying ou a maldade que brota em alguns jovens.

Há uma gangue e um líder odioso; eles subornam os outros garotos, vivem se estapeando, promovem brigas para uma plateia assistir; as meninas são prostituídas, há conivência de algumas autoridades do colégio. A Gangue é esse filme que faz questão de ser indigesto, de apresentar um mundo cão que os próprios personagens criaram num ambiente dominado por poucos, embora pareça ser o clima geral com que a maioria compactua.

Uma possível curva dramática pode surgir quando Sergey (Grigoriy Fesenko), o novo aluno, apaixona-se por uma das garotas, arredia e mais interessada em vender seu corpo, especialmente para estrangeiros interessados em levá-la para outro país. Mas esse é um plot engolido pela vontade do filme em escandalizar; uma sequência de aborto é especialmente angustiante. Além da estética do choque, esses atos vis são uma constante que deixa o filme sempre num mesmo tom. Interessante caso em que a violência vista em excesso é capaz de efeito anestésico, via tratamento redundante.

O diretor Slaboshpytskiy dirige muito bem, é preciso dizer. Há uma noção absurda de encenação e espaço, vide os planos-sequência super elaborados que o diretor cria para acompanhar seus meninos-demonizados. Mas mesmo essa escolha narrativa não deixa de denotar certo preciosismo de direção, uma vontade de mostrar serviço com a câmera na mão. E uma vontade também de dar paulada na cabeça do espectador.


Detetive D: O Dragão do Mar (Di Renjie: Shen Du Long Wang, China, 2013)
Dir: Tsui Hark 
 

O produto blockbuster de artes marciais que Tsui Hark produz no contexto do cinema de Hong Kong parece um contraponto interessante aos filmes norte-americanos similares que a indústria empurra goela abaixo na maioria dos países. Hark, ao mesmo tempo que parece combater esse domínio, cria ele mesmo esse tipo de material que só tem a diferença de ser um produto local, injetando ali a história e cultura de seu povo.

Para além do clima geral de filme de ação, o grande problema desse Detetive D: O Dragão do Mar é sua insistência em nunca deixar o espectador piscar, criando um fluxo de ação que nunca para no interior da narrativa. São muitos os conflitos que enfrenta o policial imperial Dee (Mark Chao) – o filme faz parte de uma série de trabalhos anteriores com o mesmo personagem, embora aqui ele seja, cronologicamente, apresentado pela primeira vez como detetive que vai se incorporar à força policial a serviço da Família Imperial chinesa.

Como de hábito nesse tipo de filme, o visual é espetacular em termos de beleza e cuidado estético. O uso excessivo (e nem sempre tão bom) de CGI pode atrapalhar um pouco também. Mas o ritmo narrativo é tão frenético, há tantos diálogos, conflitos, reviravoltas e detalhes, que é difícil acompanhar uma trama tão rocambolesca. O que era pra ser divertido, acaba cansando pelo exagero.


As Maravilhas (Le Meraviglie, Itália/Suíça/Alemanha, 2014) 
Dir: Alice Rohrwacher


Pode demorar um pouco até se compreender que As Maravilhas funciona mais como crônica de um lugar, de uma família rural e sua rotina, do que como conflito posto por um roteiro. Apesar disso, algumas questões surgem ali entre os personagens, tal qual surgem com cada um de nós no nosso dia a dia. Fotografia levemente granulada traz esse tom todo intimista ao filme. É fim do verão.

Há, portanto, esse clima de vida interiorana com seus pequenos encantos naturais, no contexto de uma família simples de apicultores que trabalham juntos para se sustentarem. Desde as filhas mais jovens do casal e uma agregada no lar, todos convivem num mesmo esforço de levar adiante a produção artesanal de mel.

Talvez um centro norteador da narrativa seja um olhar para um grupo de garotas condicionadas a uma realidade estanque. Ainda que exista algo de muito carinhoso ali – o filme está longe de denuncismos –, aquelas meninas são privadas de possibilidades outras para fora daquele universo interiorano. Pai amoroso, mas muito convencido de que elas devem se ater ao lugar, reforça muito bem essa posição rígida.

A chegada da equipe de um programa televisivo que realiza um concurso na região em busca de famílias para retratar parece ser a ponte para a fuga dessa rotina. Desperta principalmente em Gelsomina (Maria Alexandra Lungu), a mais velha das irmãs, o sonho de ver sua vida mudar, através desse contato com um mundo exterior idealizado. No fundo, isso mexe com todos, o que promove uma espécie de pequenos choques de realidade naquelas pessoas, em maior ou menor grau. 

Mesmo que As Maravilhas permaneça sempre num mesmo tom e tenha uma dificuldade para terminar (filme poderia ter uns 10 minutos finais a menos tranquilamente), é fácil aceitar o convite para adentrar um mundo de belezas singelas, ainda que restritivas. Carrega um delicioso sabor agridoce.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Mostra SP – Parte IV



Ciências Naturais (Ciencias Naturales, Argentina/França, 2014)
Dir: Matías Lucchesi



Irrequieta, aluna desatenta e distante, Lila (Paula Hertzog) só pensa em uma coisa: encontrar o pai que não conhece e nem sabe que ela existe. Mas a garota é obstinada em sua busca, acumula algumas tentativas de fuga em meio à região árida e fria da Patagônia. Quem mais tem de lidar com o destemor de Lila nem é sua mãe desligada, mas a professora (Paola Barrientos), cansada de barrar a menina, passando a ajudá-la nessa empreitada.

Interessante como o filme dá a sensação de história tantas vezes contada antes, caminho de encontro de um desconhecido, mas que acaba, no fundo, sendo um processo de  autodescoberta. Ao mesmo tempo, há um frescor narrativo e carinho pelos personagens que tornam Ciências Naturais um filme que nos faz torcer por sua protagonista, aspecto de identificação sempre muito valioso.

Lila, por mais impulsiva que seja, não abandona seus propósitos, tipo de personagem admirável pelo destemor que exibe como combustível que move sua busca (lembra a determinação cega da maioria dos protagonistas dardennianos, por exemplo). Destemor esse mais emocional do que racionalizado, diga-se.

Porque há algo de muito instintivo aqui, reforçado por um roteiro que faz as duas percorrerem a região colhendo raras e incertas informações, acreditando e segundo impulsos. A geografia dura e marcada que as cerca parece apelar para esse sentido de “sobrevivência”, de luta constante, alimentada pela insistência nessa investigação (do outro e de si), como se assim seguisse o caminho natural das coisas da vida.


Força Maior (Turist, Suécia/Dinamarca/Noruega, 2014) 
Dir: Ruben Östlund



Casal e dois filhos pequenos de férias numa estação de esqui nos Alpes franceses; família aparentemente feliz em clima inicial de diversão, apesar de pequenas desavenças e incidentes entre eles. Mas a noção de “incidente” vai ser redesenhada por esse filme sueco, curioso estudo de personagens confrontados com suas fraquezas de forma a mais curiosa possível, engraçada e trágica ao mesmo tempo. Força Maior é um filme que desestabiliza.

A famosa cena da avalanche é desde já uma dos grandes hits dessa Mostra, momento forte enquanto imagem estática. Deixa não só os personagens em cena, mas também o espectador na cadeira, angustiados pela forma como a gravidade da circunstância cresce desesperadamente. Mas é a atitude de um dos personagens diante dessa situação limite que vai chacoalhar o sentimento de unidade dessa família.

Aos poucos uma crise se instala naquele conjunto. Esposa confronta marido, ambos não sabem como lidar e expurgar seus sentimentos, muitas vezes contraditórios; filhos se tornam cada vez mais arredios e agressivos, reflexo da inteligência emocional das crianças que pressentem algo fora do lugar. Mas se existe aqui um material rico para se criar um grande drama humano, Östlund prefere o caminho da confusão de sentimentos, encontra valor num tom cômico inusitado – a plateia ri de nervoso, por vezes gargalha –, tipo de humor negro que pontua exemplarmente o ridículo e o absurdo daquilo que se desenha como conflito de homens e mulheres diante de seus medos e inseguranças, inevitavelmente.

Força Maior parte de uma poética do desconforto que desestabiliza não somente essa família, mas aqueles que os cercam – mais cenas impagáveis vêm do casal de amigos que passam a discutir a própria relação no processo de ajuda e discussão da relação do casal principal.

Östlund intercala o filme com um tom operístico, uma grandiosidade que não subestima os dramas pessoais – eles fazem parte da vida, ora –, ao mesmo tempo em que faz um comentário sarcástico sobre aquela situação, sobre a tempestade num copo d’água que surge ali sem que os personagens se deem conta disso. É o efeito avalanche.


Rhino Season (Fasle Kargadan, Irã/Iraque/Turquia, 2012) 
Dir: Bahman Ghobadi


A politização do cinema iraniano é uma constante que reflete a rigidez de uma sociedade peculiar em termos de administração dos costumes, tradições, valores, desmandos e imposições que ditam a vida de um povo. Mas seja onde for, o cinema político é sempre muito mais interessante e valoroso quando pretende ser mais que uma bandeira, terreno do qual esse Rhino Season tem muita dificuldade de sair.

A veia politizada de Ghobadi aparece aqui na história do poeta curdo-iraniano Sahel Farzam (interpretado por Behrouz Vossoughi), vítima da Revolução Islâmica, acusado injustamente por escrever material subversivo, ficando preso por 30 anos. Depois de cumprir a pena, busca reencontrar a esposa (uma surpreendente Monica Bellucci), que pensa que o marido morreu.

Se o tom panfletário enfraquece o filme, principalmente porque Sahel é comumente retratado com pena, um coitadismo que encontra eco na melancólica poesia que ele escreve, talvez o que mais incomode no filme é um apuro estético exagerado. Fotografia de múltiplos filtros, cenas formatadas para gerar enquadramentos sisudamente elegantes. Esses são tipos de esforço que fazem o filme gritar “poesia!” a cada quadro. 

Ghobadi escorrega no tom, faz de Rhino Season um retrato sem muita vida de um personagem destituído de sua própria liberdade, mas ainda assim lutando para se refazer. O máximo que o filme consegue é lamentar sua existência, como se jogasse a toalha desde o início.

Mostra SP – Parte III



A Pequena Casa (Chiisai Ouchi, Japão, 2014)
Dir: Yoji Yamada 



O diretor japonês Yoji Yamada move-se muito bem pelo terreno dos dramas familiares e o melhor do melodrama. Foi com essa destreza que ele se atreveu a refilmar a obra-prima de Yasujiro Ozu, Era Uma Vez em Tóquio, atualizado para os dias atuais, mas com a mesma singeleza e respeito pelos dramas humanos, sem copiar o mestre japonês.

Com A Pequena Casa, Yamada trabalha nessa mesma chave, construindo um filme todo memorialístico. Um neto reencontra um antigo diário da avó que acabou de falecer, passa a compartilhar de suas lembranças, especialmente quando, na juventude, ela deixou a vida no campo para trabalhar em casa de família. A presença da avó morta, interagindo com o neto, surge em tela como a coisa mais natural possível, tipo de frescor que revela menos o pesar e mais o respeito pelo qual os japoneses têm para com os mortos. E aqui, pelo próprio passado.

Curioso como Yamada, via melodrama – com direito a triângulo amoroso envolvendo a jovem criada e a senhora patroa, apaixonadas pelo mesmo homem que deve ir para a front de batalha –, pontua a história do próprio Japão, apreendendo certo sentimento de pesar de um povo que tanto sofreu com o fim da II Guerra Mundial.

Mas A Pequena Casa é menos uma alegoria e mais uma simples história de paixões atravessadas pelos conflitos pessoais dos envolvidos (e também pela própria História), sem apelar para maniqueísmos baratos. O filme consegue ser choroso e delicado, trágico na sua melancolia latente, ainda que os personagens respirem expectativas e tenham seus momentos de alegria. Nada mais justo no mundo dos homens.


O Segredo das Águas (Fatatsume no Mado, Japão, 2014)
Dir: Naomi Kawase 


 
O impacto da cena inicial de
O Segredo das Águas parece guiar o espectador para uma história de mistério: uma garota encontra o corpo de um homem morto na beira da praia. Ela vive numa ilha no Japão, cercada de belezas naturais e gente que cultua ritos ancestrais de adoração das forças da natureza. A própria mãe da protagonista é uma xamã e está à beira da morte.

Seria uma história de pesar e dor caso a mão de Naomi Kawase não levasse o filme para o terreno que lhe é tão reconhecível: o sensorial. Isso nem é tão difícil num lugar paradisíaco, cercado de espiritualidade. Mas a vida real também bate à porta, através de um registro naturalista que Kawase constrói na narrativa, com câmera na mão, acompanhando situações prosaicas – essas que logo tiram o gosto de urgência que o filme parecia ter no início.

Se o longa começa apresentando seus personagens e geografia singular de forma um tanto acidentada, aleatória, a história logo se revela: trata-se de mais um exemplar de rito de passagem, o mundo tomado como lugar de aprendizado. A garota Kyoko (Jun Yoshinaga), 16 anos, vai conhecer o amor, o sexo e a morte, interagindo com sua realidade, com os moradores da ilha, especialmente na companhia do retraído Kaito (Nijirô Murakami).

Há lugar para beleza e delicadeza nesse filme, mas a diretora nunca permite que isso se torne um subterfúgio estético maior que os dramas de seus personagens. Uma das cenas mais emotivas do longa, bonita e triste ao mesmo tempo, se dá no encontro de filha e mãe no leito de enferma, na iminência de deixar esse mundo. É quando, de repente, o místico irrompe a cena, e o viver ou morrer passa a ser uma mera diferença. Para os vivos, ainda resta o conforto da água.


Non Fiction Diary (Idem, Coréia do Sul, 2013) 
Dir: Jung Yoon-Suk


 
A impressão inicial de Non Fiction Diary é que ele mira no capitalismo selvagem pós abertura política da Coreia do Sul de fins da década de 1980. O país tornou-se uma das maiores economias da Ásia, altamente industrializada e exportadora. Um incidente com uma ponte, a queda acidental de edifícios e uma série de crimes perpetrados por funcionários de uma loja de departamentos são os exemplos escolhidos pelo filme para guiar esse estudo analítico. está em questão uma sociedade que teve de se adaptar rapidamente a um novo estilo de vida. mas parece ter cometido seus pecados e criado suas aberrações nesse processo. O resultado, porém, é um corpo estranho em forma de documentário confuso.

É uma pena que o filme abandone a sua melhor história para se tornar um estudo nada investigativo – as conclusões e posições já estão dadas pelo longa – sobre a instituição da pena de morte na Coreia do Sul, algo que só fica claro na terça parte final do filme. O caso dos assassinos seriais, cometidos por sujeitos doentios que, movidos por ódio, desejavam matar brutalmente pessoas de classes mais abastadas – nouveau riches odiados por terem se beneficiado de um sistema desigual – poderia muito bem refletir um sistema sociohistórico que produziu aberrações comportamentais no país.

Texto rápido e altamente didático é narrado em off enquanto o filme despeja uma quantidade considerável de imagens que se pretendem dar conta da complexa rede de interconexões que o filme procura fazer. Pode ser uma dificuldade do espectador ocidental pouco acostumado à história recente de um país distante, mas a impressão maior é que Non Fiction Diary é uma bagunça que não sabe bem aonde quer chegar.


Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo (Foxcatcher, EUA, 2014) 
Dir: Bennett Miller


 
John du Pont quer ver a América vencer, Mark quer ser o melhor do mundo no que faz. Ele pratica luta greco-romana, du Pont é um amante dos esportes, milionário, e construiu um centro de treinamentos onde é o técnico obstinado a conduzir à vitória os jovens lutadores. Mark tem um irmão, David, também lutador como ele. Ambos aceitam ser capitaneados por uma oferta tentadora de Dupont e terem condições de concretizar seus sonhos, simbolizados por troféus e reconhecimento.

Foxcatcher concentra-se numa relação que se torna estranha, carrega algo de misterioso e incerto nas atitudes cada vez mais impositivas de du Pont. Contrapõe-se à fraqueza emocional de Mark, sujeito pelo qual du Pont parece atraído, relação não muito bem esclarecida pelo filme. Um assassinato vai brotar daí, caso verídico que é o mote da história, apesar do filme interessar-se mais pelo processo que levou a isso, ainda que sem explicações lógicas.

Esse tom de estranheza é estabelecido, de cara, pela composição do personagem de du Pont. Steve Carrell abandona seus tipos cômicos e embarca de cabeça (com um pouco de maquiagem para envelhecê-lo) na construção de um personagem bruto, cada vez mais prepotente, carregando algo de doentio no olhar, na respiração ofegante e na determinação cega pela conquista de seus ideais, ainda que por meio de tortura psicológica. Channing Tatum funciona muito bem como o homenzarrão inseguro de si, não demora a entrar em conflito com o irmão, vivido por um Mark Ruffalo excelente no papel. Um time de boas atuações conduzidas seguramente por Bennet Miller.

E estamos lidando não com o diretor do verborrágico Moneyball – O Homem que Mudou o Jogo e sim com o cineasta do denso Capote. É nesse terreno do drama psicológico que o diretor sustenta um filme que carrega densidade no ar, não abandona nunca o peso de uma atmosfera que logo testemunhará uma tragédia. 

Como retrato de uma América superior e idealizada (não só por ele, mas por toda uma sociedade), o comportamento de John du Pont não passa de um reflexo de uma América fracassada na perseguição doentia de seus valores.