quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Cédula de melhores de 2016



Início do ano é sinônimo de votação dos melhores do ano passado em diversas categorias. É chegada a hora do Alfred (prêmio da Ligados Blogues Cinematográficos) e do Blog de Ouro (conferido pela Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos), grupos os quais integro. Lembro que já saiu resultado dos escolhidos pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema – Abraccine. Minhas escolhas, hoje, são: 


Melhor Filme:

Elle
Boi Neon
As Montanhas se Separam
Aquarius
Carol
Certo Agora, Errado Antes
A Academia das Musas
A Assassina
Ela Volta na Quinta
A Bruxa


Melhor Diretor:

Hou Hsiao-hsien (A Assassina)
Paul Verhoeven (Elle)
Gabriel Mascaro (Boi Neon)
Jia Zhang-ke (As Montanha se Separam)
Kléber Mendonça Filho (Aquarius)

Por um fio: Todd Haynes (Carol) e José Luís Guerín (A Academia das Musas)


Melhor Ator:

Alfredo Castro (De Longe te Observo)
Juliano Cazarré (Boi Neon)
Leonardo Sbaraglia (O Silêncio do Céu)
Fernando Alves Pinto (Para Minha Amada Morta)
Alan Sabbagh (O Décimo Homem)

Por um fio: Kwak Do-won (O Lamento)


Melhor Atriz:

Isabelle Huppert (Elle)
Sônia Braga (Aquarius)
Dolores Fonzi (Paulina)
Isabelle Huppert (O que Está por Vir)
Cate Blanchett (Carol)

Por um fio: Amy Adams (A Chegada) e Rooney Mara (Carol)


Melhor Ator Coadjuvante:

Samuel L. Jackson (Os Oito Odiados)
John Goodman (Rua Cloverfield 10)
Walton Goggins (Os Oito Odiados)
Oscar Martínez (Paulina)
Teruyuki Kagawa (Creepy)

Por um fio: Gael García Bernal (Neruda)


Melhor Atriz Coadjuvante:

Julieta Zylberberg (O Décimo Homem)
Jennifer Jason Leigh (Os Oito Odiados)
Kate Winslet (Steve Jobs)
Maeve Jinkings (Boi Neon)
Zhao Tao (As Montanhas se Separam)

Por um fio: Carla Ribas (Campo Grande)


Melhor Elenco:

Os Oito Odiados
Sieranevada
Para Minha Amada Morta
Boi Neon
Certo Agora, Errado Antes

Por um fio: A Bruxa e Mate-me, Por Favor


Melhor Roteiro Original:

Certo Agora, Errado Antes
Aquarius
A Bruxa
As Montanhas se Separam
A Garota de Fogo

Por um fio: Coração de Cachorro


Melhor Roteiro Adaptado:

Elle
Anomalisa
Carol
O Silêncio do Céu
Brooklin

Por um fio: Paulina e O Bom Gigante Amigo


Melhor Filme Brasileiro:

Boi Neon
Aquarius
Ela Volta na Quinta
Para Minha Amada Morta
Sinfonia da Necrópole

Por um fio: Mate-me Por Favor


Melhor Documentário:

O Botão de Pérola
Coração de Cachorro
Cinema Novo
A Vizinhança do Tigre
O Futebol

Por um fio: Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil


Melhor Animação:

Anomalisa
Procurando Dory
Kubo e as Cordas Mágicas


Melhor Trilha Sonora:

Carol
Os Oito Odiados
A Bruxa
O Bom Gigante Amigo
Demonio de Neon

Por um fio: A Chegada


Melhor Canção:

Simple Song #3 (A Juventude)
Canção dos caixões (Sinfonia da Necrópole)
Waving Goodbye (Demônio de Neon)
Waiting for My Moment (Creed: Nascido para Lutar)
Heathens (Esquadrão Suicida)


Melhor Fotografia:

A Assassina
Café Society
O Cavalo de Turim
Os Campos Voltarão
Carol

Por um fio: Boi Neon e O Filho de Saul


Melhor Direção de Arte:

Os Oito Odiados
A Assassina
Carol
Brooklin
A Bruxa

Por um fio: Rua Cloverfield 10


Melhor Figurino:

Carol
A Assassina
Amor & Amizade
Ave, César!
O Conto dos Contos

Por um fio: A Garota Dinamarquesa


Melhor Montagem:

A Assassina
As Montanhas se Separam
Elle
Certo Agora, Errado Antes
Botão de Pérola

Por um fio: Cinema Novo e Os Oito Odiados


Melhor Maquiagem:

O Regresso
Esquadrão Suicida
O Conto dos Contos
Alice Através do Espelho
História da Minha Morte


Melhores Efeitos Visuais:

Rogue One: Uma História Star Wars
O Bom Gigante Amigo
Mogli – O Menino Lobo
Capitão América: Guerra Civil
Alice Através do Espelho

Por um fio: A Chegada


Melhor Som:

A Assassina
A Chegada
O Regresso
A Bruxa
O Cavalo de Turim

Por um fio: Exilados do Vulcão


Melhor Cena:

Go West sob a neve (As Montanhas se Separam)
Dançando na sala (Ela Volta na Quinta)
Alucinação de Caleb (A Bruxa)
Fechando janelas (Elle)
Sexo (Anomalisa)

Por um fio: Cupins (Aquarius) e Strange Fruit (O Nascimento de uma Nação)


Direção Estreante:

Andre Novais Oliveira (Ela Volta na Quinta)
Robert Eggers (A Bruxa)
Carlos Vermut (A Garota de Fogo)
Laurie Anderson (Coração de Cachorro)
Aly Muritiba (Para Minha Amada Morta)

Por um fio: Anita Rocha da Silveira (Mate-me Por Favor)



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Melhores e piores de 2016

Difícil ano esse de 2016 para o Brasil e para o mundo. Mas dos filmes, não dá pra reclamar. O nosso circuito, mesmo com falhas e pesares, conseguiu abastecer bem as salas, assim como foi um ótimo ano para o cinema nacional. Listo aqui os melhores e piores filmes dentre os lançamentos comerciais de 2016, mais uma menção honrosa das mais especiais. Aos filmes:


1. Elle


Porque o jogo da vida é perverso e saber jogá-lo é um trunfo.

2. Boi Neon


Porque o homem é também animal sensível.

3. As Montanhas se Separam


Porque a memória que resta é o maior tesouro que guardamos.

4. Aquarius


Porque é tempo de resistir e continuar amando a si mesmo.

5. Carol


Porque amar é se encontrar no olhar do outro.

6. Certo Agora, Errado Antes

  
Porque nem tudo que é sempre será.

7. A Academia das Musas


Porque uma mulher é uma mulher.

8. A Assassina


Porque até no gesto mortal há de haver delicadeza.

9. Ela Volta na Quinta


Porque a vida é uma eterna dança.

10. A Bruxa


Porque o coração mal segue incansavelmente à espreita.


Menção honrosa: Visita ou Memórias e Confissões



Porque só podemos antever o coração do outro se a casa estiver aberta


11. Paulina

12. A Garota de Fogo

13. Anomalisa

14. Para Minha Amada Morta

15. O Abraço da Serpente

16. Sangue do Meu Sangue

17. O Lamento

18. O Botão de Pérola

19. Os Oito Odiados

20. Sinfonia da Necrópole

21. Jovens, Loucos e Mais Rebeldes

22. Mate-me Por Favor

23. Cinema Novo

24. O Cavalo de Turim

25. Cemitério do Esplendor

26. Coração de Cachorro

27. Os Campos Voltarão

28. O que Está por Vir

29. O Silêncio do Céu

30. O Tesouro


No outro lado da moeda, os piores:


1. A Bruxa de Blair

2. Ben-Hur

3. Joy: O Nome do Sucesso

4. A Garota Dinamarquesa

5. Prova de Coragem

6. O Regresso

7. Jonas

8. Memórias Secretas

9. O Signo das Tetas

10. Boneco do Mal
 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Drama demais

Animais Noturnos (Nocturnal Animals, EUA/Reino Unido, 2016)
Dir: Tom Ford


Animais Noturnos
já começa com uma sequência de créditos que se quer impactante: uma série de imagens em câmera lenta de pessoas obesas nuas, numa espécie de performance de música e dança, tudo muito colorido, límpido, tudo muito calculadamente “fora de padrão”. O que isso tem a ver com o restante do filme? Nada. A correlação mais fácil é a de que a protagonista é a diretora de uma galeria de arte, sendo aquela apresentação algum tipo de exposição high fashion das artes visuais do momento.  

Uma chave fácil de compreensão para esse tipo de recurso barato de superexposição dramática está na presunção de seu diretor, o famoso estilista Tom Ford, agora dedicado à carreira de cineasta. Mais do que em seu filme de estreia, o cheio de perfumaria, mas ainda assim intenso Direito de Amar, aqui o diretor abusa de uma estilização que só quer parecer refinada, antes de qualquer coisa. É quando a roupagem pretende ser maior que aquilo que a envolve. Os tropeços de Ford são mais desastrosos na medida em que investe num tom altamente dramático quando as situações são muito mais simples e sem a grande pompa que o filme faz parecer que elas têm. 

Susan Morrow (Amy Adams), a dona da galeria de arte, recebe de seu ex-marido (Jake Gyllenhaal) a cópia de um livro que ele acabou de escrever. A novela, com ares de thriller policial, diz respeito a um homem (também vivido por Gyllenhaal) que viaja à noite na estrada com a mulher e a filha adolescente, quando são abordados por jovens criminosos. Os desdobramentos são desastrosos. Absorta na leitura, Susan acredita que o livro seja inspirado no turbulento relacionamento dela com o escritor e fica obcecada pela história.

O filme divide-se, antão, entre esses dois tempos narrativos. A vida e o casamento cada vez mais frio e distante de Susan contrapõem-se à força e agressividade que emanam daquelas páginas e da jornada noite adentro, destrutiva e impiedosa, que destroça a vida de uma família feliz. No entanto, Ford tem uma dificuldade em equalizar esse dois momentos, seja pelo excesso de dramaticidade ou pela importância que a trama dentro do filme ganha sem se reverter em interlocução entre as duas partes.


A narrativa policialesca que se adensa ali buscar soar mais sórdida e com cara de literatura barata, mas mesmo aí existe algo um tanto calculado e classudo que Ford não abandona e leva muito a sério, como que incapaz de sujar as mãos (me vem à memória um cineasta como François Ozon que consegue ser sofisticado em alguns casos, mas é perfeitamente capaz de emular uma atmosfera um tanto brega e cafona em filmes como Swimming Pool ou Oito Mulheres, sem desprezar as forças dessas narrativas).

É na conta do excesso de drama que podemos colocar esse tom de seriedade deslumbrada do qual o filme não consegue se desvencilhar. Para além da autoimportância que isso agrega, transformada em pretensão, os problemas do filme só aumentam. Primeiro porque tenta a todo instante correlacionar as duas narrativas, forçando muitas associações fáceis e frágeis. 

Depois porque o segredo de um ato “terrível” do passado que corrói Susan promete ser algo muito maior do que realmente é. A cena final, que prenuncia uma vingança servida com frieza, o troco dado na mesma moeda do abandono e desprezo, parece coisa de adolescente mimado de tão pueril. No fundo, Animais Noturnos é muito barulho por muito pouco.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Desejo na carne

Sangue do Meu Sangue (Sangue del Mio Sangue, Itália/França/Suíça, 2015) 
Dir: Marco Bellocchio


Existe qualquer coisa de muito vigoroso nas narrativas que o mestre italiano Marco Bellocchio constrói, especialmente quando algo, de imediato, irrompe em seus filmes. Sangue do Meu Sangue tem a mesma força criativa, sem exasperação, mas com uma história que promete alguns abalos inesperados – inclusive temporais, mas não só isso –, mirando, inicialmente, na hipocrisia da Igreja Católica em relação aos desejos carnais e à noção de pecado.

A trama se passa lá nos idos do século XVII quando um monge comete suicídio e, por conta disso, não pode ser enterrado com as bênçãos da Igreja, a menos que sua amante, a freira Benedetta (Lidiya Liberman), confesse os pecados que cometeram para que sejam perdoados.

O filme acompanha os meandros do jogo religioso que abafa seus escândalos, observados de longe pelo irmão do monge que tenta arrancar de Benedettta a confissão, apesar dela querer arrancar outra coisa dele. Mas toda essa situação parece muito pouco para o cineasta. Ou antes, a denúncia das luxúrias na rotina religiosa pode soar, de alguma forma, já desgastado.

Daí que Bellocchio sai da zona de conforto e joga seu filme num outro tempo, numa outra história. Trata-se de uma mudança brusca não só por encontrar personagens nos dias atuais, ambientado no mesmo casarão que outrora serviu de mosteiro, palco dos acontecimentos anteriores, mas também pela diferença de tom. Há agora um clima um tanto sombrio, via personagem que se revela um velho vampiro, tendo vivido escondido na casa há anos, fora o tom jocoso de diversos outros personagens que aparecem sem aviso e mesmo sem muito propósito, incluindo aí um excêntrico músico russo e seu empresário que desejam comprar aquela propriedade. 

Por vezes fica a impressão de que essa mudança é um mero capricho, truque de roteiro para “brincar” com as possibilidades narrativas da história, um desvio de atenção. Se a quebra narrativa pode soar estranho a muita gente, é bom ver quando um cineasta sabe não insistir numa história que já deu o que tinha que dar e partir para um outro registro, para continuar a discussão. Nesse caso, ela é sobre a potência do desejo e da juventude. 

Isso porque aquilo que está no cerne do filme – ou o ponto onde ele quer chegar, por assim dizer, nunca explicitado de modo frontal – é resgatado justo nos momentos finais da película –, o êxtase que faz muita coisa fazer sentido. Ali Bellocchio acredita no desejo como força de vida (divina?) para o ser humano, para a vitalidade do corpo e da alma. Não é à toa que o vampiro ancião passa a perceber sua decadência e entende que, mesmo para ele, o tempo passa e é cruel, sendo preciso ceder lugar ao ímpeto da juventude, porque esse, sim, renova e é mesmo capaz de matar o que está antigo. Para Bellocchio, o desejo salva.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

XII Panorama Internacional Coisa de Cinema


Chegou o momento de Salvador receber sua dose anual de cinema em níveis intensos e altas doses de cultura. Começa hoje, e vai até a próxima quarta, 16, o Panorama Internacional Coisa de Cinema, celebrando sua 12ª edição, aqui e em Cachoeira.

Como sempre, a programação está recheada de coisas apetitosas, imagens de um cinema brasileiro pulsante e vigoroso que fazemos hoje, sem esquecer os clássicos do passado e de algumas produções internacionais.

É a quinta vez que faço parte da equipe de curadoria do festival, lidando especialmente com os curtas-metragens das mostras competitivas (nacional, baiana e internacional). Tem sido uma experiência riquíssima olhar para esses filmes e, em conjunto, propor um olhar sobre essa filmografia tão plural e descentralizada que temos hoje.

Em nível nacional, faz tempo que não faltam boas e instigantes obras a serem descobertas pelo público. Para a produção baiana, o Panorama reserva, este ano, um espaço maior de vitrine, reflexo de uma produção que tem crescido qualitativa e quantitativamente, buscado afirmar seu lugar no imaginário das pessoas.

E vale lembrar ainda homenagem ao grande Hector Babenco, que perdemos este ano; uma mostra de clássicos de fazer salivar; sessões especiais de SuperOutro e Mr. Abrakadabra; filmes de animação, panorama italiano, além das mostras competitivas, sempre revelando o novo.

A Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) lança aqui o livro “100 Melhores Filmes Brasileiros” que reúne críticas dos mais emblemáticos filmes de nossa filmografia, baseado na lista que a associação montou em votação geral de seus membros. Tenho a felicidade de fazer parte do projeto, e iremos discutir aqui o cinema baiano presente na lista. 

É a festa do cinema mais arriscado, propositivo, indagador, difícil de rotular, fácil de encantar os amantes das imagens em movimento. O site do evento pode ser acessado aí. E os filmes estão aí, vivos. Eles aguardam por vocês.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Mostra SP – Ranking Geral


Foram 30 filmes em oito dias, intensos, corridos, vibrantes, cheios de encontros e desencontros. Com gente boa, com muitos filmes. Aqui, listo meu ranking pessoal em ordem de preferência:



Paterson (Jim Jarmusch, EUA, 2016) ****
Elle (Paul Verhoeven, França/Alemanha/Bélgica, 2016) ****
O Ignorante (Paul Vecchiali, França, 2016) ***½  
Depois da Tempestade (Hirokazu Kore-eda, Japão, 2016) ***½
Marguerite e Julien (Valérie Donzelli, França, 2016) ***½
Invasão Zumbi (Yeon Sang-ho, Coreia do Sul, 2016) ***½
Ma’ Rosa (Brillante Mendonza, Filipinas, 2016) ***½
Beduíno (Júlio Bressane, Brasil, 2016) ***½
Tempestade de Areia (Elite Zexer, Israel, 2016) ***½

Um Casamento (Mônica Simões, Brasil, 2016) ***½
Belos Sonhos (Marco Bellocchio, Itália/França, 2016) ***
O Nascimento de uma Nação (Nate Parker, EUA, 2016) ***
O Apartamento (Asghar Farhadi, Irã, 2016) ***
A Luta do Século (Sérgio Machado, Brasil, 2016) ***
The Fits (Anna Rose Holmer, EUA, 2015) ***
O Segredo da Câmera Escura (Kiyoshi Kurosawa, França/Bélgica/ Japão, 2016) ***
A Garota Desconhecida (Jean Pierre Dardenne e Luc Dardenne, Bélgica/França, 2016) ***

Axé: O Canto do Povo de um Lugar (Chico Kertész, Brasil, 2016) ***
O Caminho para Istambul (Rachid Bouchareb, Bélgica/França, 2016) **½ 
Redemoinho (José Luiz Villamarim, Brasil, 2016) **½
El Primero de la Familia (Carlos Leiva, Chile, 2016) **½
Poesia sem Fim (Alejandro Jodorowsky, Chile/França, 2016) **
O Plano de Maggie (Rebecca Miller, EUA, 2015) **
Animais Noturnos (Tom Ford, EUA, 2016) **
Hee (Kaori Momoi, Japão, 2015) *
O Último Vagão (Andreas Schapp, Alemanha, 2016) *


Hors-Concours



Persona (Ingmar Bergman, Suécia, 1966) *****
O Quarto Homem (Paul Verhoeven, Holanda, 1983) ****½
Decálogo VI (Não Amarás) (Krzysztof Kieslowski, Polônia/Alemanha Ocidental, 1989) ****½
Kanal (Andrzej Wajda, Polônia, 1957) ****
A Hora da Religião (Marco Bellocchio, Itália, 2002) ****
Decálogo V (Não Matarás) (Krzysztof Kieslowski, Polônia/Alemanha Ocidental, 1989) ****
Cinzas e Diamantes (Andrzej Wajda, Polônia, 1958) ****

40ª Mostra SP – Cobertura


Marco aqui alguns textos que fiz para o Jornal A Tarde por conta da cobertura da 40ª Mostra SP.


Texto 1. Aqui comento o coreano Invasão Zumbi, de Yeon Sang-ho; Animais Noturnos, de Tom Ford; e O Apartamento de Asghar Farhadi.

Texto 2. Aqui comento o polêmico Elle, de Paul Verhoeven; traço um paralelo entre Paterson, de Jim Jarmusch, e Poesia Sem Fim, de Alejandro Jodorowsky; e ainda tem A Garota Desconhecida, dos irmãos Dardenne.

Texto 3. Aqui é o lugar dos baianos. Foram apresentados na Mostra, Axé: O Canto do Povo de um Lugar, de Chico Kértesz; A Cidade do Futuro, de Cláudio Marques e Marília Hughes; Um Casamento, de Mônica Simões; A Luta do Século, de Sérgio Machado; e ainda homenagem ao grande Antonio Pitanga.

Texto 4. Aqui, comento alguns filmes com estreia comercial próxima, destacando O Nascimento de uma Nação, de Nate Parker.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


Estou de volta a São Paulo para matar a saudade da Mostra que eu tanto adoro já que ano passado eu não pude ir. É a festa da cinefilia, dos encontros inusitados com cinema de outras paragens, de todo lugar do mundo, de ver/rever alguns clássicos, se atualizar com o novo, amar e desamar os filmes.  

É certo que a seleção de deste ano poderia estar mais saborosa dos filmes mais badalados do momento, mas enfim, é hora de se jogar nos filmes e buscar as pepitas. De quebra, encontrar os velhos amigos que se reúnem para essa incrível festa em torno da experiência do cinema, espalhada pela cidade.

Como sempre, tentarei escrever sobre alguns filmes que for vendo – e este ano não serão mesmo muitos textos, a vida anda atribulada – além da cobertura para o Jornal A Tarde.

Então sigamos porque o jogo já começou.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

CachoeiraDoc – Parte VII


Jonas e o Circo sem Lona (Idem, Brasil, 2015)
Direção: Paula Gomes


Paula Gomes e equipe percorreram o Estado da Bahia pesquisando e mapeando os circos que se proliferam no interior. Num desses encontros, conheceram Jonas e sua paixão pelo espetáculo mambembe. Quando o garoto vai morar na zona metropolitana de Salvador, distancia-se do circo em que vivia e passa a construir, no quintal de casa, o seu próprio.

Jonas e o Circo sem Lona é o retrato dessa pulsão juvenil que faz parte mesmo do sangue do garoto – sua família tem longa tradição no circo. Ele se diverte ao dar forma a seu espetáculo, ao preparar os números e ensinar os amigos a fazê-los; gosta também de abrir as portas para as pessoas do bairro pobre onde mora e agradar o respeitável público. Mas Jonas está crescendo e outros desafios se impõem ao garoto: estudar, ser alguém na vida, almejar algo melhor. O filme encontra Jonas dividido entre o sonho e a vida concreta, dilema que lhe perturba, observado pelo olhar atento da câmera de Paula.

A diretora não se deixa deslumbrar pela simples vontade do garoto, ainda que reverencie o misto de inocência com seriedade com que ele leva adiante seu desejo. Filma não só as preparações no quintal, mas adentra a rotina da família, aproxima-se da mãe e avó do garoto, acompanha Jonas na escola. Aliás, a mãe é peça fundamental aqui porque é ela a responsável por acordar o jovem e chamá-lo para o mundo real. É ela quem mais lhe cobra uma postura realista e, consequentemente, adulta da vida.

Jonas e o Circo sem Lona sabe ser cru, árido, e mesmo duro, ao não se esquivar dos atritos que atravessam o caminho e as vontades de Jonas – há  uma cena particularmente forte e marcante que envolve o depoimento da professora do colégio, não só sobre os passos do garoto como sobre o próprio filme. Ao mesmo tempo, a obra consegue ser terna e sensível ao se interessar não pelo circo em si, mas pelo brilho no olhar de Jonas quando está imerso em seu mundo de fantasia e atrações.

Há uma proximidade afetuosa entre a diretora, Jonas e sua família que reflete a maneira como o próprio filme se posiciona diante das questões que se impõem ao garoto, fazendo de Paula também uma personagem ali. Mesmo que esteja sempre fora de quadro, ela fala e se dirige diretamente a todos em cena, sempre do modo mais carinhoso – a mãe de Jonas chama-a de “Paulinha”, por exemplo. Esse aspecto doce não deixa de esconder a posição da diretora em prol do menino – o que fica claro, por exemplo, na visita ao circo do tio de Jonas, lugar onde ele adoraria morar (e por ele se enamorar mais uma vez), algo como uma possível opção para ele –, embora Paula saiba entender e respeitar as forças contrárias que se processam no âmbito daquela família. Em alguns momentos, porém, as observações da diretora podem soar um tanto ensaiadas demais – assim como do filme não escapam momentos de maior encenação –, como se já previstas anteriormente, mas sempre abrigadas no campo do afeto.

É muito fácil falar de circo e apelar para um caminho romântico em que noções como os de “sonho”, “magia”, “imaginação” e “infância” surjam como protótipos intrínsecos a essa experiência e vivência, de quem faz o espetáculo e de quem o assiste, uma espécie de relação óbvia e incontornável. Pois Jonas e o Circo sem Lona beira essas questões, mas tem uma bússola moral que não desvirtua o filme em prol de um pieguismo simplista: o aspecto da vida real, esse que bate à porta e cobra do sujeito uma postura no mundo. O filme sabe que o verdadeiro espetáculo que não pode parar é o de crescer e amadurecer.

CachoeiraDoc – Parte VI


Sem Título #2: La Mer Larme (Idem, Brasil, 2015)
Direção: Carlos Adriano


Carlos Adriano continua sua investida por um cinema poético-biográfico enquanto faz alguns ensaios em forma de filme que parece dizer muito sobre ele em momento específico de vida – naquilo que ele próprio intitula de “apontamentos para uma AutoCineBiografia (em Regresso)”.

A série “Sem Título” já está na sua terceira investida, depois de um primeiro curtíssimo e inusitado ensaio, seguido de um terceiro mais verborrágico. São filmes muito particulares porque remetem a uma figura recorrente: um velhinho sorridente que aparece em flash nos filmes. Trata-se de Bernardo Vorobow, ex-companheiro de Carlos Adriano, falecido há pouco tempo. São filmes memoralísticos, mas nunca óbvios.

Aqui o mar é figura recorrente, mais a música “La Mer”, composição francesa de Charles Trénet. O cineasta reúne uma série de imagens antigas de mares, extraídos de filmes dos primórdios do cinema, e uma série de versões dessa mesma composição musical e as rearranja de modo muito fragmentado, inventivo. É como um videoclipe estendido de saudade e celebração, nunca de pesar e tristeza – como já não era em Sem Título #1.

Há uma proposta clara de reiteração e reapresentação desses pedaços de imagens e sons, picotados e resgatados no tempo, e que certamente devem fazer muito sentido para o diretor, porém que nem sempre encanta as plateias. O filme carrega na duração – são 31 minutos desse dispositivo narrativo em looping – que parece mesmo ter o objetivo de alcançar um paroxismo perigoso.

Feito por um cineasta cuja persona é muito curiosa e sempre muito próximo do experimental e da inquietação, Sem Título #2: La Mer Larme pode deixar de ser visto como um mero capricho para poder se encarado como mais uma forma de representação de saudade e celebração de uma vida que pulsou ali perto – e um dos ícones que se repetem no filme é um coração bombeando sangue, fruto de uma radiografia de Vorobow que morreu por complicações cardíacas. 

Há sentido nessas imagens, mesmo na sua aleatoriedade e insistência, assim como há uma emoção. No entanto esta corre o risco de se perder pela necessidade de reinvenção. O filme anterior da série, por exemplo, não passava de dez minutos e tinha a mesma leveza, lançando mão do mesmo arranjo cinematográfico – Fred Astaire e Ginger Rogers bailando ao som de um fado alegre. Na tentativa de não se repetir aqui, Carlos Adriano mais afasta do que aproxima.