sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Festival de Brasília – Parte III


Vazante (Idem, Brasil, 2017)
Dir: Daniela Thomas


Vazante, de Daniela Thomas, passou pela competição do Festival de Brasília e causou alvoroço ao retratar uma história colonial que intensifica a discussão sobre a representação de negros e escravos no cinema – algo que também pode ser pensado junto a Diários de Classe, de Maria Carolina Silva e Igor Souza, apresentado na mostra Esses Corpos Indóceis, como consequência social contemporânea do violento processo de escravidão que marca a história de formação do Brasil.

Na trama, Antônio (Adriano Carvalho) é um tropeiro que mora na região de Diamantina, início do século XIX, quando a exploração de diamante e ouro encontrava-se já em decadência na região. Ao chegar de viagem, descobre que sua esposa grávida morreu no parto junto com o bebê. Ele busca, então, outra esposa naquele núcleo familiar para não perder os laços que se formariam ali. E essa busca acaba envolvendo, afetuosa e sexualmente, também os escravos explorados naquele ambiente, de modos distintos e indiretos.

Em certo sentido essa trama remete a uma novelinha de reviravoltas e pequenas surpresas – que explodem mais no final, é verdade – e que expõem os anseios de uma gama de personagens, especialmente pela garantia de uma posição de status frente ao declínio econômico naquele momento histórico. Há as garotas mais jovens que miram no casamento como modo de conquista de um lugar de privilégios enquanto Antônio busca constituir uma família e propagar seu sangue e nome. O filme caminha para o entrelaçamento de destinos com as cores trágicas de uma sociedade fundada através da violência, da sujeição e do poder controlador do patriarcado. Mas é certo também que Daniela Thomas tem um olhar muito cauteloso para a composição de cenas e para a percepção de um tempo depurado na cadência daquela época, o que eleva esse enredo de tramas cruzadas. É sensível a maneira gradual como as situações tomam corpo e caminham para um desfecho que tem a pretensão de dizer algo sobre a constituição do povo brasileiro.

Curiosamente Vazante faz um paralelo muito rico com outro filme recente ambientado na mesma época histórica: Joaquim, de Marcelo Gomes, já lançado nos cinemas brasileiros. No filme de Gomes, o retrato que se faz é da constituição dos podres poderes políticos que formaram as instituições públicas brasileiras e suas marcas de dominação e corrupção. Já o filme de Thomas reconstrói toda essa atmosfera sociopolítica para, de modo representativo, alcançar um princípio chave de formação da identidade brasileira que é a mistura de raças.

O ponto maior de discussão que aplacou os ânimos do público em Brasília foi a maneira ainda distante e pouco subjetivada e nuançada com que os personagens negros foram retratados. Por outro lado, a diretora defende que o longa parte justamente do sistema patriarcal – portanto do ponto de vista dos senhores da casa grande – para revelar as relações de poder e hierarquia tão presentes à época. Mais uma vez os escravos são personagens secundários, reflexo de um olhar ainda dominado pelos cânones usuais de quem teve o privilégio de escrever e contar a (H)história. Há de se discutir os detalhes de representação da cultura negra trazida pelos escravos africanos e de como isso é posto na narrativa, mas vale lembrar também que o filme opera a partir de um entendimento consciente desse lugar de exposição que parte de outro princípio e de outro ponto de vista. Ser pouco subjetivo não significa necessariamente ser equivocado ou desrespeitoso, mas parcial. E, no fundo, tal escolha – que pode ser mesmo instintiva – serve muito bem àquilo que o filme quer oferecer como reflexão e entendimento da formação de um povo. 

Vazante faz ainda um belo e caprichado retrato da época colonial – e vale lembrar toda a trajetória anterior de Thomas como diretora de arte. O filme é muito vistoso e detalhado nesse sentido, e a bela fotografia em preto-e-branco só reforça um sentimento de decadência que se mistura à falência de uma tentativa de imposição social sobre circunstâncias de realidade que fogem a um controle dos que dominam o poder. Mas mais do que somente construir uma atmosfera, o filme busca investigar certa gênese social capaz de explicar tanta coisa do Brasil de hoje, com suas mazelas e desigualdades expostas, e isso é uma sempre bem-vinda qualidade dos bons filmes.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Festival de Brasília – Parte II



Música para Quando as Luzes se Apagam (Idem, Brasil, 2017)
Dir: Ismael Caneppele


Roteirista de Os Famosos e os Duendes da Morte, de onde ele ainda mantém o apreço pelo universo juvenil, Ismael Caneppele parte de um princípio de experimentação, mais processual do que visual, na sua estreia de direção de um longa-metragem. Música para Quando as Luzes se Apagam, apesar do sentido etéreo que muitas de suas imagens sugerem, propõe uma investigação da intimidade da jovem Emelyn que, por vezes, se reconhece como Bernardo.

Ela ocupa o lugar desse corpo e mente que, antes de buscarem se entender no mundo a partir de um gênero sexual definido, querem mesmo é curtir a liberdade de ser aquilo pelo qual o corpo responde com o fluxo de juventude que vem junto com isso. Ao invés de seguir o caminho do puro documentário de observação, Caneppele quis somar outras camadas em seu filme sem que isso elimine, de todo, o gesto de observar. Para tanto, insere no cotidiano de Emelyn a figura de uma mulher, vivida pela atriz Julia Lemmertz, que passa a acompanhar aquele cotidiano e iniciar conversas com a jovem, aproximando-se também de sua família e amigos.

A primeira cena do filme é uma imagem amadora em que Lemmertz aparece de um lugar alto para fazer um plano geral da pequena cidade onde Emelyn vive, em Lajeado, no Rio Grande do Sul, sugerindo que a atriz está chegando ali naquele instante. Em nenhum momento do filme saberemos o que ela de fato representa para Emelyn e para o espectador enquanto instância narrativa e em que medida ela performatiza uma personagem ou incorpora a si mesma – ou uma mistura das duas coisas. De início, dá a impressão de ser quase como uma nova amiga que vai sanando a curiosidade de saber os detalhes da vida da outra, seus anseios e desejos pessoais; e é claro que elas estabelecem, muito facilmente, uma relação de afeto e companheirismo visível e sincero, chegando ao lugar da confidência.

Nesse sentido, o casting de Lemmertz como essa mulher que adentra a vida e o cotidiano de Emelyn é ideal como rosto conhecido de atriz veterana que incide diretamente sobre uma realidade sensível, para além de ser uma estratégia narrativa original e funcional. No entanto, ao promover esse encontro, mas deixando de lado, ou diluindo sem especificidade, o que significa a presença desse corpo antes estranho naquele ambiente familiar e íntimo, de um universo que se abre com tanta generosidade e que toca em questões tão delicadas como as de identidade sexual, o filme perde muito da força que esse encontro poderia expandir a partir das questões de interrelação, seja no intermédio dos gêneros feminino/masculino, seja nas proposições e marcas da ficção e do documentário.

Muito se fala hoje e se celebram os filmes que se movimentam por essa fronteira de registros no cinema, especialmente o brasileiro. Mas pouco se problematiza na forma como essa fronteira é tensionada e explorada, até por existirem muitas maneiras para se fazer isso, com consequência e programas de efeitos distintos. Música para Quando as Luzes se Apagam parece que vai ensaiar um passo nessa direção, mas se deixa distrair para algo certamente mais latente - o senso de liberdade e movimento que a protagonista apresenta - ainda que isso faça o filme girar ao redor de uma questão que não problematiza muita coisa. 

Mas o filme prefere se encantar pela proposta conceitual da coisa, sem muita preocupação com o alcance e os resultados disso, como se se hipnotizasse frente à beleza da juventude livre que Emelyn de certa forma representa e expande em tela. O filme vai focar um pequeno conflito na terça parte da trama, quando Emelyn precisa enfrentar uma espécie de desilusão amorosa e encontra consolo no colo da Lemmertz amiga. Fora isso, tudo é muito plácido, harmonioso, e o filme se restringe ao deslumbre por conta do fluxo de vivacidade e pelos caminhos de uma aproximação carinhosa e recíproca, por mais que todo esse processo seja muito bonito enquanto abertura para uma quase transcendência do indivíduo; eu quase ia dizendo “descoberta do sujeito”, mas bate forte a impressão de que Emelyn não está muito interessada nesse movimento neste momento.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Festival de Brasília – Parte I



Não Devore Meu Coração (Idem, Brasil, 2017)
Dir: Felipe Bragança


O cinema que Felipe Bragança vinha fazendo até então flertava de modo muito aberto e mesmo arriscado com a fabulação e certo imaginário fantasioso, por vezes no limite do ridículo e do excesso. Seu mais novo filme, Não Devore Meu Coração, abertura do Festival de Brasília, oferece muitas camadas e elementos, mas onde a fabulação cede espaço para outras atmosferas, incluindo aí um embate social que remonta a um passado histórico e trágico do Brasil; ou antes, essa fabulação muito timidamente não encontra lugar de expansão por conta de outros elementos de que o filme tenta dar conta.

Talvez por isso ele se desequilibre tanto ou tenha dificuldade de encontrar um tom. A história se passa na fronteira entre Brasil e Paraguai, no Mato Grosso do Sul, e reacende os conflitos entre brasileiros e indígenas das tribos Guarani. Fernando (Cauã Reymond) faz parte de uma gague de motoqueiros, em constante conflito com um grupo indígena mais rebelde, separados pelo Rio Apa. Paralelo a isso, o irmão dele, Joca (Eduardo Macedo), apaixona-se por uma garota indígena, a destemida Basano (Adeli Benitez). Ao mesmo tempo, corpos de índios mortos começam a aparecer no rio, e aos conflitos familiares e amorosos de Fernando e Joca somam-se as tensões na região entre os dois lado do rio.

O filme remete a um passado de violência e extermínio dos povos indígenas – bestialidade que se perpetua até então, é uma problemática do nosso tempo – e tem relação com a Guerra do Paraguai, quando muitos índios lutaram a favor do Brasil. A maioria foi morta e os que sobreviveram, esquecidos. No entanto, o filme lida muito com as relações afetivas que se estabelecem entre os personagens, sejam familiares ou amorosas, daí que os pontos de encontro com os lances históricos funcionam mais como memória de sangue derramado e dor que paira sobre aquele ambiente.

Há certa estética a flertar com o pop e referências do cinema underground norte-americano da década de 1970 – Warriors, do Walter Hill, é uma citação declarada do filme –, que cria um ambiente soturno e mesmo ameaçador muito particular, produzindo um efeito estético muito forte, e as saídas da gague nas motos certamente é dos melhores momentos do filme. A tentativa clara de chocar essa atmosfera com um ambiente de tensões sociais que remetem a um passado trágico, incluindo traços da cultura indígena, tudo em uma via de mistério, precisam ainda dividir espaço com os conflitos interpessoais de muitos personagens – a relação entre irmãos, o irmão mais velho e o embate com a mãe, o dele com o líder do grupo de outsiders, o Telecath (Marco Lori), Joca e sua tentativa de aproximação a Basano e ainda as relações de instabilidade dos dois com a figura paterna.

Se nos filmes anteriores do cineasta havia sempre uma presença muito forte de uma proposição fantástica, carregada de uma fabulação profunda, até mesmo corajosa na maneira de incorporá-la de modo meio mambembe – são obras como A Alegria ou a websérie Claun – Os Dias Aventurosos de Ayana –, o problema maior aqui não é ela aparecer mais amenizada e no limiar do quase etéreo, mas  aquilo que toma seu lugar parece ainda um tanto frágil pelo inchaço que impõe à narrativa.

Parte de certa coragem e aposta no risco de quase soar ridículo talvez ainda resida na paixonite incontrolada do pequeno Joca e no ímpeto que isso gera no garoto quando ele precisa não só se declarar, mas romper com as imposições polarizadas. Ele acaba sendo o elo de cisão nessa estrutura de confronto que parece não ter fim, ainda que faça isso movido mais por um sentimento pessoal do que como bandeira de uma luta maior. Há uma crença muito bonita na ingenuidade com que esse garoto posiciona-se frente a seus sentimentos e no qual o filme deposita muita fé. 

Entre ser um filme que ecoa a História do país e uma trama de conflitos familiares, amorosos e afetivos, via tensão e violência que permeiam a região, Não Devore Meu Coração fica no meio do caminho quando precisa acertar o tom exato que deseja imprimir. Ainda assim, consegue abordar tais questões por meio de uma construção narrativa menos tradicional e mais arriscada, mesmo quando esse risco se desencaixe de seu propósito.

domingo, 17 de setembro de 2017

50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro


50 anos de História, de filmes, de gente que faz e mobiliza o cinema; 50 anos de festa, de discussão, de representar (ou não) na tela as vivências de um país. O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, este ano, tem gosto especial de rememoração e ponte para o futuro do cinema que fazemos aqui, comemorando a 50ª edição de um sonho que Paulo Emílio Sales Gomes teve há tempos atrás e colocou em movimento.

O festival está mais robusto este ano, com programação intensa de mostras competitivas, paralelas, sessões de clássicos, discussões e mesas de debates que prometem reflexões riquíssimas e intensas. Presença baiana é muito marcante também em todas as sessões do evento. 

E o hábito é o mesmo: faço cobertura do evento para o Jornal A Tarde (a primeira matéria é possível ler aqui) e vou escrevendo textos mais elaborados aqui no blog. Que venham os filmes, então.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

CineBH – Parte III



As Duas Irenes (Idem, Brasil, 2017)
Dir: Fábio Meira


Os caminhos que o longa-metragem de estreia do goiano Fábio Meira seguem apontam quase que para um lugar comum, apesar da trama conter certa peculiaridade: a garota Irene, 13 anos em pleno florescer da juventude, descobre que seu pai tem outra família; e mais que isso, ele possui uma filha da mesma idade e com o mesmo nome dela. As Duas Irenes, no entanto, revela-se um drama sólido a retratar os dilemas da adolescência. Pode até soar banal, mais um filme a moldar esse mesmo processo de amadurecimento juvenil que já vimos tanto em outras histórias e filmes, mas encontra aqui um modo muito bem resolvido, singelo e natural, de lidar com tema espinhoso.

A trama se passa no interior de Goiás e remete a um passado não muito remoto em que mais comumente alguns homens possuíam constituições de família assim um tanto arbitrárias. O filme já começa apresentando a descoberta do segredo paterno por parte da “primeira” Irene e aponta para uma desestabilização familiar capaz de afetar a todos. Porém, após a revelação chocante para a garota, a raiva dela vai cedendo lugar à curiosidade e ela começa a espionar a rotina da irmã desconhecida, iniciando uma aproximação tímida, sem revelar o segredo que conhece.

Se, de início, o filme nos faz supor um embate entre as duas, vemos surgir dali uma amizade possível. É nesse movimento surpresa, de fazer o filme seguir uma rota não esperada, que o diretor e roteirista Fábio Meira consegue fisgar bem o espectador, e faz isso pela via do singelo, da ternura, sem nunca pesar a mão. Poderia muito facilmente apostar na contraposição, no jogo dual de choque – entre as duas irmãs, entre as duas famílias –, mas prefere, acertadamente, dimensionar os dramas e conflitos dos personagens, sem julgá-los.

É aí que o filme aproveita para retratar esse momento de florescimento de uma menina em direção à vida adulta, na melhor tradição dos filmes de coming-of-age. Meira, além do domínio de cena e de criar um clima de vida interiorana muito convincente, filma com muita delicadeza essa história, também sem nunca soar ingênuo.

A Irene da outra família, a “segunda” (Isabela Torres), é um pouco mais atrevida, já namora escondido com os garotos no cinema e é mais extrovertida, não é de levar desaforo pra casa. É com ela que a Irene menos experiente (Priscila Bittencourt) vai romper a barreira da timidez, largar o mundo infantil e testar vivências novas. O mesmo embate que poderia haver entre as duas, por conta das personalidades distintas, é resolvido de modo muito mais sincero porque elas acabam se reconhecendo como amigas confidentes.

Ao mesmo tempo, o filme não se furta da tensão que se estabelece no âmbito familiar, prestes a explodir a qualquer instante, especialmente da “primeira” Irene que descobre de antemão, a nossos olhos, o segredo paterno. Ela continua a guardar muita raiva do pai e não deixa de confrontá-lo dentro de casa, ainda que indiretamente. Mas é no contato com a outra família que ela descobre o privilégio de fazer parte do núcleo familiar mais privilegiado por ele. E encontra na mãe de sua irmã (vivida por uma doce Inês Peixoto) um carinho e cuidado materno que talvez lhe falte em casa. O filme lida, portanto, com essas ausências sentidas e que vão transparecendo as carências de cada uma. 

As Duas Irenes é um delicado e seguro longa de estreia, a fugir dos possíveis lugares comuns do filme de amadurecimento, sem comprometer a plausibilidade da trama, e ainda sem abdicar da singeleza e da sinceridade. Pode não ser um campo original, mas certamente não é tarefa das mais fáceis.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

CineBH – Parte II


Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava (Idem, Brasil, 2017)
Dir: Fernanda Pessoa


Visão muito original e surpreendente de parte de nossa história cinematográfica está contida no filme Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava, de Fernanda Pessoa. A cineasta revisita o período clássico da pornochanchada brasileira, mas não está interessada no sexo: através de trechos de filmes importantes da época, associados a um movimento tão criativo do cinema brasileiro, o filme pretende revelar facetas políticas e sociais do país via representação de imagens em obras que eram bastante populares à época.

É um trabalho afiado de montagem, dando destaque a cenas que poderiam passar despercebidas nesses filmes, mas que acabam destacando vislumbres históricos e comportamentais de uma sociedade em dado tempo. Atenção especial para o fato de grande parte dessas obras terem sido feitas entre o final dos anos 1960 e início dos anos 1980, justamente o período da Ditadura Militar.

Daí afloram diversas questões, tais como as arbitrariedades do golpe de Estado, o AI-5, o uso da força policial, o milagre econômico, a industrialização crescente e as oportunidades de trabalho. No plano social, o longa evidencia as disputas de classe, com destaque para as relações entre patrão e empregado, o consumismo espelhado no modelo norte-americano (o carro e a televisão aparecem como modelo de status para quem podia comprar os melhores modelos da época) e, claro, a monetarização do sexo e exploração do corpo feminino.

O filme atira para muitos lados, mas não quer em nenhum momento ser um estudo analítico ou intelectualizado sobre essas e tantas outras questões que emergem dali – não há narração em off. Busca, por outro lado, revelar o modo como o cinema, enquanto sistema de representação audiovisual, reflete o país e a cultura de sua época, mesmo a partir dos filmes mais improváveis.

Em Gente Fina é Outra Coisa, de Antonio Calmon, por exemplo, vemos a protagonista, uma dondoca de meia idade, falar para o empregado bonitão: “sabe por que eu fico nua na sua frente? Porque empregado não tem sexo”. São momentos preciosos assim que o filme capta em meio às narrativas sexuais e que acabam revelando dimensões mais profundas de relações sociais vigentes – até os dias de hoje.

De longe, o filme poderia ser uma grande vinheta que opera no sentido de aproximar filmes diferentes a partir de cenas que exploram questões em comum, atravessando um mar de problemáticas, situações e comportamentos ali registrados. É aí que o filme vislumbra um jogo de observação desviante (e necessário) da imagem e da dimensão social via cinema, apesar de não investir muito na ressignificação desse gesto, quando ele basta por si só. Trata-se de uma espécie de revisão histórica sem necessariamente por em crise – os filmes e/ou a História – nem questioná-las. Mas dá a ver o que não se enxerga a princípio.

sábado, 26 de agosto de 2017

CineBH – Parte I



Corpo Elétrico (Idem, Brasil, 2017)
Dir: Marcelo Caetano



Corpos inquietos e o anseio por ser um alguém realizado, em muitos sentidos pessoais, são o que buscam os personagens de Corpo Elétrico, longa-metragem de estreia de Marcelo Caetano. O filme segue as desventuras de Elias (Kelner Macêdo), funcionário de uma empresa de confecção de roupas. Ali, convive com uma série de amigos e está sempre à busca de encontros fortuitos com outros homens.

De forma muito livre e bem-humorada, Caetano nos apresenta um microcosmo formado por esses amigos e sua rede de relações afetivas em aberto que se concentram em torno de Elias. O filme prefere dispensar o conflito definidor da narrativa clássica convencional e se deixar levar pelas muitas possibilidades e desencontros que cruzam os caminhos dos personagens. E é claro que se aproximam dele pessoas muito abertas às experiências sexuais de muitos interesses – em Corpo Elétrico integram-se no grupo desde drags queens que fazem shows na noite até amigos héteros de Elias, como o colega da fábrica que está prestes a se casar com a noiva.

Sem um problema narrativo a ser “resolvido” pelo filme, Corpo Elétrico busca somente captar um estado de espírito de um grupo de pessoas vivendo suas vidas com as batalhas rotineiras de sempre, trafegando pela periferia de São Paulo. Em meio a isso tudo, Elias pula de caso em caso alimentando sonhos maiores de realização – talvez de quietude, tal qual a ânsia pelo mar que ele mesmo almeja logo num dos primeiros diálogos do filme.

Elias não é mais um espírito livre em busca de afirmação sexual – ele e seu grupo de amigos parecem muito bem resolvidos nesse sentido. Seus anseios são outros, e universais. Olhando mais a fundo, a ânsia de Elias é por uma realização pessoal mais profunda que talvez ele mesmo não saiba exatamente como alcançar – como também acontecia com os personagens de um dos melhores curtas de Caetano, Na Sua Companhia.

Corpo Elétrico é menos um filme militante da causa queer – ou pelo menos diretamente ele não o é porque a definição seria mais propícia para o tipo de entendimento de um universo que está procurar romper as amarras das convenções conservadoras de sexo e gênero. O filme não se ergue ao propósito de defender tal causa, ainda que, pelo simples fato de por em tela tais personagens, universos e culturas, acabe o fazendo transversalmente. Via questões sociais e relações desiguais de trabalho, o filme dimensiona a vida e a convivência dessa gente.

O filme faz um belo par com Tatuagem, de Hilton Lacerda, especialmente pela maneira com que ambos estabelecem um universo muito particular em que os personagens estão livres a expor e experienciar seus desejos e anseios amorosos e sexuais, pulsar de tesão e se entenderem como amigos, companheiros, apesar das diferenças. O longa de Caetano, porém, pode representar um passo à frente de Tatuagem porque no filme pernambucano o microcosmo daquela trupe de teatro, de algum modo, os cerca de companheirismo e proteção – ainda que rusgas nasçam dali.

Aqui, ao contrário, o ambiente é o da fábrica, das ruas de um bairro periférico paulistano, e não algo que possa, de alguma forma, “proteger” ou acolher aqueles sujeitos pela própria noção de refúgio que o grupo passa a representar. É ali naquele espaço marcado por outros atravessamentos, tão fluidos e frágeis, que o filme grita suas reivindicações de amor livre como algo necessário e urgente. Se Corpo Elétrico faz isso é pela simples exposição de corpos desejosos que, à flor da pele, querem se encontrar no mundo. 

E Marcelo Caetano, com sua direção precisa e naturalista, constrói um caminho dos mais humanamente bonitos de se acompanhar enquanto o filme se desenrola. Filma aquele curso de vidas com a maior naturalidade do mundo, é agradável de ver e de acreditar. Não se trata mais de demarcar um território, mas de se entender no fluxo de tempo que passa para todos. Elias vê os dias correrem, mas quer, ele mesmo, deixar de correr sem destino para assentar e acalmar, mesmo que seja vencendo as ondas do mar.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

11º Mostra CineBH


Abençoadas Minas Gerais que me levam, pela terceira vez este ano, a cobrir mais um festival de cinema, agora na capital Belo Horizonte. Começou há alguns dias a 11ª edição da Mostra CineBH, que abriga ainda o Brasil CineMundi, um dos maiores e mais importantes encontros de coprodução internacional realizado no país.

Foram selecionados 22 projetos de longas-metragens brasileiros em fase de desenvolvimento ou pré-produção para serem apresentados e discutidos durante o encontro. Durante a cerimônia de encerramento, um júri especializado escolherá o melhor desses projetos que receberá um prêmio em serviços para auxiliar na execução do filme.

Como sempre, programação segue caprichada, com filmes aguardados em pré-estreia, clássicos a (re)ver, e outras preciosidades a se descobrir. O cineasta (e outrora crítico de cinema) Pierre Léon é o homenageado desta edição, figura pouco conhecida da cinefilia brasileira, mas que ganha um panorama caprichado de seus filmes no festival.

O tema da vez é Cinema de Urgência, colocando em pautas filmes que respondem (ou responderam) às instabilidades sociopolíticas de seu tempo. Na abertura foi exibido o ótimo Corpo Elétrico, filme solar e libertário de Marcelo Caetano, já em cartaz nos cinemas brasileiros (e que vocês não deviam deixar de ver). 

Como sempre, faço cobertura do evento para o jornal A Tarde e tentarei escrever mais detidamente sobre alguns filmes para o Moviola Digital. Segue o baile do cinema.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Cine Ceará – Parte VI


Últimos Dias em Havana (Últimos Días en la Habana, Cuba/Espanha, 2017) 
Dir: Fernando Pérez


Último filme a participar da mostra competitiva do Cine Ceará, Últimos Dias em Havana, do veterano cineasta Fernando Pérez, reverbera discussões muito próximas às de Santa e Andrés, ambientadas agora no tempo atual. Estão lá, mais uma vez, como algo muito caro aos cineastas cubanos, questões como a validade ou não de abandonar a ilha e o estilo de vida que o sistema político vigente impõe aos cidadãos. E tal como no filme anterior, há um embate um tanto quanto contraposto entre os dois protagonistas do filme que vivem sobre o mesmo teto, numa casa no bairro Centro Habana.

Diego (Jorge Martínez) é um homem solitário que vive prostrado numa cama por conta das complicações com a AIDS. Quem lhe assiste é o introspectivo Miguel (Patricio Wood) que não vê a hora de conseguir o visto para o Estados Unidos e deixar a ilha de vez. Sonha acordado com a possibilidade de refazer a vida em um país capitalista. Diego, por sua vez, se opõe e mesmo passando dificuldades, defende a vida e a permanência no lugar.

Olhando de perto, essa dita contraposição vai se revelar falsa no decorrer do filme porque, no fundo, Diego não quer mesmo é pensar na possibilidade de viver sem o amigo ao lado, solitário que é (são), ainda que mantenha com ele um relacionamento de amor e ódio. Não passa pela sua consciência política – pelo menos não explicitamente – defender o sistema sociopolítico da Cuba atual por questões morais particulares, mas antes encontrar ali um apego capaz de confrontar as ideias do amigo que ir para longe.

É muito através do olhar de Miguel que o filme nos faz ver um retrato muito cru sobre as durezas e pequenas alegrias da cultura e dos modos de vida cubanos, colocando em xeque as posições antagônicas sobre a validade de seguir morando na ilha, com todos os problemas e restrições que fazem parte do cotidiano local. O roteiro, no entanto, não apela para o tom dramático, preferindo apostar na leveza e no bom-humor, apresentando uma série de outros personagens que cruzam o caminho dos dois, cada qual lidando de modo diverso com os planos de futuro. O michê que Diego insiste que Miguel traga para ele se torna um improvável amigo e confidente, e que revela, por trás do estereótipo, alguém que também pensa em como melhorar de vida, sem precisar sair de Cuba.

Não bastasse a verve irreverente de Diego, homossexual assumido, cheio de disposição, falastrão de língua afiada – mais um contraponto em relação ao taciturno Miguel – outros personagens vão se somar a esse núcleo. Morando numa espécie de prédio com várias casas vizinhas por andar, o filme constrói uma rede de (poucas) amizades ao redor deles – e de onde surgem algumas desavenças também, ninguém é de ferro –, o que alarga as possibilidades de discussão da rotina do povo cubano humilde. A chegada da sobrinha de Diego, mais tagarela ainda que o tio, desencadeia outras discussões, como a maternidade precoce, mas também descamba nas perspectivas de futuro dela e do jovem namorado, também eles com posições diferentes sobre a permanência em Cuba. 

A agenda do filme coloca claramente em pauta a relação desses personagens com o regime político da ilha e os dilemas morais e ideológicos que envolvem a vida no país. Mas segue além da mera disputa de opiniões, preferindo encontrar nesses encontros e nas pequenas batalhas diárias modos de ver a situação sem apelar para polarizações fáceis e caricatas. Fernando Pérez é certamente hoje o mais proeminente dos cineastas cubanos em atividade. Esse tom geral ganha enorme fluidez nas suas mãos, o que faz de Últimos Dias em Havana um belo filme duro e divertido, agridoce em essência. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Cine Ceará – Parte V



O Homem que Cuida (El Hombre que Cuida, República Dominicana/Porto Rico/ Brasil, 2017)
Dir: Alejandro Andújar


Ano passado o mesmo Cine Ceará buscou revelar filmografias pouco conhecidas da América Latina, mas errou na pontaria. Trouxe como novidade exótica o novelesco Salsipuedes, representante do Panamá. Neste ano, o alvo foi melhorado, e a República Dominicana esteve bem representada com O Homem que Cuida, de Alejandro Andújar. O filme pode mostrar um pouco a cara do cinema que é feito por lá – outro filme dominicano já havia estreado no Brasil antes, o bom Dólares de Areia, com Geraldine Chaplin no elenco. Não é, portanto, filmografia a se subestimar.

O filme de Andújar tem clara proposta de discussão social e tensionamento de classes contada a partir da história de Juan (Héctor Aníbal), um homem que trabalha como caseiro na casa de praia de um rico figurão perto da ilha de pescadores de Palmar de Ocoa. Juan é um funcionário de confiança dos patrões e zela para que a enorme casa fique sempre limpa e bem cuidada, e também para que ninguém de fora circule por ali, o que significa, por exemplo, enxotar os funcionários das outras casas ou moradores locais, impedindo-os de ficarem bebendo no deck da propriedade. É um empregado exemplar.

O filme transcorre no período de poucos dias quando o filho do patrão, o jovem Rich (Yasser Michelén) chega acompanhado de um casal de amigos festeiros, sendo a moça uma moradora local que eles acabaram de conhecer pelo caminho. É nesse ambiente que se desnudam mais claramente as relações de poder, ainda que Juan seja tratado com certa intimidade, de certa forma também convidado para a festinha particular que se desenrola durante aqueles dias. Ali emergem, com muita naturalidade, as pequenas distinções entre os personagens e acentuam-se as contraposições: patrão vs. empregado, pobres vs. ricos, brancos vs. negros. Tudo isso exposto nas sutilezas de comportamento e ações dos personagens.

Juan é o tipo taciturno e sério. Carrega a dor de ser apaixonado pela ex-mulher que o abandonou e já está grávida de outro homem. Encara seu emprego como um refúgio, ainda que viva de seguir ordens, tendo de fazer os caprichos do filho mimado do patrão. É claro que as coisas começam a desandar, e Juan, como sempre, terá que cuidar para que tudo permaneça como antes. Até ele mesmo.

Mais do que a estranheza de Juan em relação ao amigo folgado de Rich e sobre a dualidade entre acatar e domar as ordens do patrãozinho, mais forte é o embate dele com María (Julietta Rodriguez), a moradora local que se torna namoradinha casual do amigo. Ela é pobre, moradora da ilha, pele escura. Adentra o filme com pose de dona do pedaço, mas não engana Juan que já a conhece da vila. O próprio filme vai desfazer essa imagem e mostrar que ela é também usada por aqueles homens que só querem diversão descompromissada. Aos olhos de Juan, ela está falseando um lugar que não lhe pertence de fato, e ele não esconde o incômodo com a postura e comportamento atrevido da moça, tal qual uma patricinha acomodada. A partir desse embate, o filme tece bons comentários sobre as posições sociais que ocupamos, como nos vemos neles e como enxergamos e julgamos os lugares que o outro ocupa ou é permitido ocupar.

O filme dominicano, país com pouca tradição cinematográfica, demonstra maturidade para tratar dessas questões, sem nunca soar panfletário, e Andújar é um diretor competente para ditar ritmo e segurar um filme que se passa quase que completamente em um mesmo ambiente. Há todo um cuidado de fotografia e direção de arte que nos faz crer naquele ambiente ao mesmo tempo em que o isola, lugar onde muita coisa de errado pode acontecer. 

Falou-se nos debates acerca do filme que ele poderia muito bem se chamar “O Caseiro”, esforço de uma tradução mais clara e objetiva para o português. Mas “O Homem que Cuida” consegue expressar além do âmbito profissional, pois Juan não cuida só da casa. Ele é convocado para resolver todos os problemas que surgem, precisa estar a postos a tratar dos empecilhos, especialmente aqueles que Rich provoca, mas não consegue dar conta depois. O Homem que Cuida tensiona essas posições que não são necessariamente novas no cinema. Mas produz um estudo muito rico de relações de poder, via espaço de trabalho, sustentado por situações completamente verossímeis. O final é especialmente duro no sentido de não abrir concessões e preferir ser fiel ao desenho moral que os personagens apresentam durante o filme, demonstrativo da dificuldade de se romper as barreiras que nos cercam.