sexta-feira, 22 de julho de 2016

A materialidade do mal

A Bruxa (The Witch: A New-England Folktale, EUA/Reino Unido/ Canadá/Brasil, 2015)
Dir: Robert Eggers


Talvez seja fácil entender porque A Bruxa tem sido tão celebrado por aí, tanto pelos fãs dos filmes de terror quanto pelos cinéfilos e críticos em geral. Em um gênero tão castigado no nosso circuito exibidor, o filme dirigido pelo novato Robert Eggers trabalha com elementos poderosos que evocam o tema das bruxas e da força tenebrosa do mal, mas investe em igual medida na capacidade desestabilizadora que esse mesmo mal é capaz de provocar nas pessoas e em um núcleo familiar muito particular. 

Baseado em antigos contos folclóricos, quando a figura da bruxa ou de qualquer tipo de lenda misteriosa e maléfica provocava realmente medo nas pessoas, A Bruxa nos coloca no ambiente da colonização inglesa em terras americanas no século XVII quando uma família se isola da vila onde viveu por conta de desavenças com os líderes religiosos da comunidade.

Eles passam a viver numa cabana solitária em frente a uma densa floresta. Logo o bebê da família some misteriosamente quando era cuidado pela filha mais velha, Thomasin (Anya Taylor-Joy), deixando a todos ali sem entender o que aconteceu. No entanto, ao espectador nada é escondido. Desde o início sabemos que uma bruxa toma a criança e faz coisas pavorosas com ela.

Enquanto isso, a mãe (Kate Dickie) entra em desespero e apela para respostas divinas que envolvem culpa e castigo cristãos, enquanto o pai (Ralph Ineson) tenta apaziguar a situação e seguir em frente, mesmo que a partir de então nada passa a dar certo para a família, como a plantação de milho que não vinga. Há ainda os irmãos gêmeos mais novos que injetam suspeitas por conta do comportamento inquieto e brincadeiras endiabradas, e o irmão do meio, Caleb, (Harvey Scrimshaw) que começa a demonstrar desejos sexuais pela irmã mais velha.

A partir daí, o longa passa a trabalhar não só os elementos do medo e do desconhecido, mas sem nunca apostar em surpresas ou sustos fáceis que envolvem a aparição da velha ou forças do mal que habitam a agora sombria e misteriosa floresta. Para além do mistério também plantado ali sobre se alguém estaria sendo uma espécie de cúmplice das forças do mal, o que mais fortifica A Bruxa como grande filme de gênero é que ele aponta para outros caminhos de fabulação a partir do terror sem sucumbir a seus artifícios mais banais.



Há uma dimensão dramática que interessa muito mais ao filme através dos conflitos que colocam os personagens em choque, tanto contra suas próprias crenças, como também em confronto uns com outros. Isso se dá a partir dos desdobramentos assustadores que vão acontecendo naquele microcosmo – e determinada sequência envolvendo Caleb e certa “iluminação macabra” sua é uma das coisas mais estranhas e fortes vistas em um filme de terror recente. Tudo isso os deixam completamente abalados e assustados, à mercê das influências malignas que rondam o lugar, fazendo esfacelar ainda mais o núcleo familiar.

Além de sustentar o suspense e o pavor de modo muito crível, o filme ainda consegue mirar em questões que se relaciona bem com o terror: a figura feminina associada à bruxaria através das desconfianças crescentes em torno de Thomasin em plena puberdade; a própria desestruturação da família, apesar de haver uma necessidade de acolhimento entre eles, poucas vezes levada a cabo de fato; e principalmente a crença religiosa como motor que rege o destino das pessoas – o contraponto do Diabo em relação ao Deus cristão em que eles acreditam é uma constante poderosa a que os personagens se apegam para tentar entender os acontecimentos e provações que estão vivenciando.

Eggers, à frente de seu primeiro longa-metragem, demonstra não só domínio cênico para o gênero, mas é eficaz também na construção de um roteiro muito perspicaz e original – o filme partiu de pesquisas que o diretor fez sobre contos antigos e histórias reais envolvendo casos de possessão e acusações de bruxaria na América antiga. A Bruxa acaba por apostar acertadamente numa espécie de materialidade do mal, esse que pode estar difuso para os personagens, mas que revela exatidão pelas consequências que provoca e concretude na forma a se manifestar, como veremos até o fim da história. Ali, corajosamente, o filme aponta para o mal não só como realidade palpável a espreitar os indivíduos, mas como possibilidade intrínseca capaz de atrair o ser humano.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Cine Ceará – Ranking geral


Essa foi minha segunda cobertura consecutiva do Cine Ceará, festival que tem se revelado muito interessante ao apostar no recorte ibero-americano de sua seleção. A deste ano esteve menos recheada de nomes conhecidos e cineastas renomados, foi um momento de desbravar entre os filmes. Dentre os longas-metragens, pouca coisa de fato empolgou, e o filme talvez mais comentado entre a crítica tenha sido o mais equivocado da seleção: o concorrente panamenho. A prata da casa foi dos melhores filmes vistos aqui, além da surpresa uruguaia que acabou vencendo o festival. Seleção de curtas também interessante, mas com muita coisa já vista em outros festivais. Abaixo, todos os filmes assistidos em ordem de preferência.


Longas:


Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois (Petrus Cariry, Brasil, 2015) ***½
Clever (Federico Borgia e Guilhermo Madeiro, Uruguai, 2015) ***½
O Estranho Caso de Ezequiel (Guto Parente, Brasil, 2016) ***½
Avó (Asier Altuna, Espanha, 2015) ***½
Menino 23 – Infâncias Perdida no Brasil (Belissário Franca, Brasil, 2015) ***
Te Prometo Anarquia (Julio Hernández Cordón, México/ Alemanha, 2015) **½
Maresia (Marcos Guttman, Brasil, 2015) **½
Casa Blanca (Aleksandra Maciuszek, México/Polônia/Cuba, 2015) **½
Epitáfio (Yulene Olaizola e Rubén Imaz, México, 2015) **
Salsipuedes (Ricardo Aguilar e Manolito Rodríguez, Panamá, 2016) *


Curtas:


A Festa e os Cães
(Leonardo Mouramateus, Brasil, 2015) ****
Abissal (Arthur Leite, Brasil, 2016) ***½
Fotograma (Luís Henrique Leal e Caio Zatti, Brasil, 2016) ***½  
O Teto Sobre Nós (Bruno Carboni, Brasil, 2015) ***
Noite Escura de São Nunca (Samuel Lobo, Brasil, 2015) ***
Quando é Lá Fora (André Pádua e Leonardo Branco, Brasil, 2016) ***
Solon (Clarissa Campolina, Brasil, 2016) ***
Uma Família Ilustre (Beth Formaggini, Brasil, 2015) ***  
USP 7% (Daniel Mello e Bruno Bocchini, Brasil 2015) **½
Da Janela para a Consolação (Dellani Lima, Brasil, 2016) **½
Janaína Overdrive (Mozart Freire, Brasil, 2016) **½
Índios no Poder (Rodrigo Arajeju, Brasil, 2015) **½
Carruagem Rajante (Jorge Polo e Lívia de Paiva, Brasil, 2016) **
Monstro (Breno Baptista, Brasil, 2015) *½

terça-feira, 12 de julho de 2016

Cine Ceará – Parte V


O Estranho Caso de Ezequiel (Idem, Brasil, 2016)
Dir: Guto Parente

Depois de um filme anterior calcado no horror como experiência do sensível, o fantasmagórico A Misteriosa Morte de Pérola, Guto Parente continua certa investigação de gêneros nesse O Estranho Caso de Ezequiel. O filme começa como algo que mira num sobrenatural um tanto quanto acolhedor – porque temos um homem que perdeu a mulher, mas que recebe visitas da aparição dela e isso parece lhe fazer bem –, para logo em seguida seguir um caminho tão áspero quanto inquietante.

Essa primeira parte do filme, quando as coisas nos são apresentadas, talvez seja um dos momentos mais claros e objetivos enquanto narrativa de uma obra assinada pelo coletivo Alumbramento, mais direto mesmo em sua composição, o que não torna o filme menos peculiar dentro do contexto de produção do grupo que sempre prima pela experimentação.

O luto é posto desde o início, via citação bíblica em epígrafe, retirado do livro de Ezequiel. Não por acaso é esse mesmo o nome do protagonista que realmente vivencia momento de pesar pela morte recente da esposa. Se o filme começa como observação naturalista do cotidiano desse homem dilacerado, mas sem o excesso da dor, sua vida logo se abala pelo time de estranhezas inicias que envolvem tanto a aparição fantasmagórica de sua mulher, como também o surgimento surreal de um personagem muito sui generis, sempre envolto em uma luz esverdeada, que nunca fala, em estado constante de tremulação corporal.

O filme, então, parte como um estudo dessa estranha relação a três que se forma a partir de uma dor, mas ganha outras nuances dentro do que parece ser um universo muito particular que aqueles personagens encontram para estarem juntos. Há algo de conforto que se busca na partilha da proximidade natural entre eles próprios, sem nenhum tipo de estranhamento ou repulsa entre si, como se eles se reconhecessem na marginalidade que os representam enquanto sujeitos deslocados.

O personagem do vizinho espião pode ser essa ligação com o mundo concreto, real, como o conhecemos. Mas O Estanho Caso de Ezequiel, já não tão claro e objetivo nessa altura do filme, dá muitos passos adiante ao lançar seus personagens – ou quem sabe, lhes dar de presente – a outro mundo possível, paralelo, futurista ou onírico que seja, mas ainda assim reconfortante, acolhedor, apesar de solitário. 

A última parte do filme desparafusa e embaralha o espaço-tempo e é também o momento em que o filme mais se sente livre para experimentar na criação visual e sonora que o aproxima da distopia, sem igual ou referente cinematográfico mais evidente que possamos lembrar por agora. Há muitas leituras possíveis a serem feitas – o que sempre pode significar um retorno curioso ao filme –, mas a ideia de uma sociedade totalmente nova, baseado no amor ao estranho, no reconhecimento fraterno da dor e das estranhezas do outro, fosse uma chave de entrada num mundo mais justo e afortunado.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Cine Ceará – Parte IV


Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois (Idem, Brasil, 2015) 
Dir: Petrus Cariri

Filme dos mais potentes a preencher a tela imensa do Teatro São Luiz, no Cine Ceará, Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois é a prata da casa que não está ali na seleção por motivos puramente patrióticos. O longa de Petrus Cariry afirma a força criativa do realizador cearense, cada vez mais maduro como encenador, que apresenta agora uma trajetória dolorosa de acerto de contas.

O filme claramente se abre para a simbólico, sem deixar de lado a crueza as angústias que a vida real causaram na protagonista, em consonância com um passado opressor e patriarcal. Clarisse (Sabrina Greve) é uma jovem mulher que vive com marido estrangeiro e a filha numa bela casa burguesa, fruto do empreendimento familiar dona de uma pedreira. Mas ela não parece contente, o incômodo de estar no mundo a acompanha – a personagem sangra casualmente, pela orelha, pelo nariz, pelo genital, por dentro.

É com esse sentimento de desconforto que ela faz uma visita ao pai viúvo (Everaldo Pontes), morador de uma grande propriedade no campo, antiga casa da família, tendo como única companhia a fiel empregada Caetana (Veronica Cavalcanti). O retorno de Clarisse ao velho lar serve para entendermos um pouco aqueles personagens e seus conflitos de antes, mas o filme logo se encaminha para a história de acerto de contas. Há uns diálogos expositivos nesse percurso, também algumas frases de efeito, metafóricas, ainda que muita coisa fique subtendida ali nas relações entre eles.

Mais forte é a carga de simbolismo que o filme trabalha a partir da presença de Clarisse naquele lugar junto a seus fantasmas e memórias. Desde a primeira e impactante cena, o filme deixa claro a bomba prestes a detonar que ele próprio é: uma parte pedreira explode estrondosamente no meio do nada e toda a poeira avança em direção à câmera (a nós?) até cobrir tudo.

Petrus constrói um clima pesado, denso, à medida em que a situação vai se tornando insuportável para a protagonista, os fantasmas – mesmo os vivos –, os traumas e culpas passam a ser um grande tormento de Clarisse naquela casa em que tudo cheira a velharia. O próprio corpo decrépito do pai contribui para essa sensação de algo estragado, corroído, sem falar na quantidade de animais e insetos empalhados que parecem ser o grande passatempo do velho.

Junta-se a isso um trabalho de som que potencializa essa concentração de dores e remorsos expurgados, algo que Petrus já havia exercitado em seu filme anterior, Mãe e Filha. Mas aqui – num filme que também poderia se chamar “Pai e Filha” – o percurso de Clarisse leva à catarse, à libertação, calcados mais do que nunca na construção de cenas tão alegóricas quanto impactantes.


Clever (Idem, Uruguai, 2015) 
Dir: Federico Borgia e Guilhermo Madeiro


Da admirável produção atuação do Uruguai veio uma das grandes surpresas dessa edição do Cine Ceará, através de Clever, dirigido pela dupla Federico Borgia e Guilhermo Madeiro. O filme é uma pequena jóia de humor sutil e nada exagerado que acompanha a saga de um homem divorciado (Santiago Agüero), apaixonado por carros de corrida, que viaja ao interior do país a fim de encontrar um misterioso sujeito que faz pinturas radicais em automóveis.

O longa coloca o espectador dentro de um universo repleto de personagens excêntricos, tal como o fisiculturista fortão e sua mãe dominadora que o protagonista encontra no caminho. Mas longe de serem personagens puramente caricatos, os diretores conseguem transformá-los em pessoas carismáticas, talvez justamente pela estranheza que deles emanam. Daí que o fortão vai revelar traços de solidão e mesmo interesse por outros homens, assim como a mãe logo expõe seu sex appeal voraz, muito provavelmente querendo levar para a cama os amigos do filho.

É como se Clever inventasse um universo muito peculiar e estranho por onde o protagonista trafegue em busca de seus propósitos, esbarrando em tipo facilmente assimiláveis. Não dá para esquecer os frequentadores de um bar que estão o tempo todo chupando um picolé feito de vinho – provável especiaria do lugar – com o qual enchem a cara e ficam bêbados.

Os diretores têm domínio não só da veia cômica e uma noção precisa de timming, sem nunca apelar para um tom exagerado, como ainda acertam bem nos diálogos. Do início ao fim, Clever faz jus ao tipo de proposta de humor intimista com o qual ele se apresenta. Talvez não exista crescendo, para além de um clímax estapafúrdio, e por isso o filme não se mostre mais pretensioso. 

A cinematografia do Uruguai é bastante jovem, e o país realiza, em média, dez filmes por ano, em sua maioria documentários. Mas geralmente alguns desses filmes acabam por chamar atenção por sua vitalidade e cuidado estético, casos recentes de obras como Gigante, A Vida Útil e Whisky. Sem prejuízo de qualidade, Clever pode ser incluído nesse grupo, mas acrescentando uma dose certeira de humor sempre muito bem-vinda.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Cine Ceará – Parte III


Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil (Idem, Brasil, 2015) 
Dir: Belisario Franca


História forte e impressionante é o efeito dos acontecimentos revelados nesse documentário brasileiro Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil, um resgate de um traço de nossa História pouco conhecido e investigado. O filme revela o caso do tráfico de crianças negras, nos anos 1930, para fins de trabalho escravo em uma fazenda no interior de São Paulo. Além disso, os donos eram cultores do nazismo e da soberania ariana.

Menino 23, dirigido por Belisario Franca, parte da pesquisa de doutorado do historiador Sidney Aguilar, o que deve ter pesado no surpreendente prêmio de melhor roteiro que o filme recebeu. De fato, é um trabalho de reconstituição dos fatos primordial, ainda mais diante do encontro com o seu Aloísio Silva, um dos garotos seqüestrados, um dos poucos vivos ates hoje.

Seu Aloísio era o menino número 23 – assim como aconteciam nos campos de concentração nazistas, os garotos da fazenda eram registrados e reconhecidos por numerais. Sua recusa inicial em falar do assunto vai sendo quebrada aos poucos, e o filme acaba por revelar as particularidades de uma vida tolhida pelo pensamento totalitário e ignóbil comando por aqueles aristocratas.

Se esse remexer de duras memórias é o que mais angustia o espectador, o filme peca ao investir na reconstituição ficcional de alguns acontecimentos narrados. Filmados em preto-e-branco, com luz estilizada e abusando da câmera lenta, esses momentos só servem para ilustrar algo que está sendo dito nos depoimentos e pouco contribui para o andamento do filme.

Poderiam ser momentos usados para causar maior comoção do público, mas não parece ser esse o caso; as cenas recriadas servem como forma de preencher o filme e não torná-lo um mero relato daqueles absurdos, o que por si só já é chocante. O filme não precisaria desse tipo de recurso, porque as histórias que surgem ali já dão conta desse trágico passado nebuloso, sem que isso signifique a exploração da dor de uma vida em privação, embora enfrente a necessidade de confrontá-la.


Casa Blanca (Idem, México/Polônia/Cuba, 2015) 
Dir: Aleksandra Maciuszek


Certamente o filme mais polêmico dessa edição do Cine Ceará, Casa Blanca coloca em questão, de modo muito frontal, a moral do cinema direto e sua representação das pessoas em condição de vulnerabilidade. A diretora polonesa, graduada em Cuba, acompanha o dia a dia de mãe e filho que moram em uma comunidade de pescadores em Havana. Ela, uma idosa quase inválida, ele, já um homem, mas com síndrome de down.

Estão como que praticamente a sós no mundo, contam com pouca ajuda externa para realizar tarefas banais do cotidiano e sobreviver num contexto de pobreza; amam-se e brigam quase que na mesma intensidade e frequencia. O filme busca observar, impassível, a rotina dos dois, como se a câmera estive ali escondida, captando silenciosamente o passar dos dias e os conflitos dos personagens, que não são poucos, especialmente entre eles mesmos.

Mas não é numa posição agradável essa em que a cineasta nos coloca: diante de certa miserabilidade de um contexto familiar tão particular e sofrido, não só pela vida que levam, mas pela condição física e emocional sempre à beira do colapso. Casa Blanca não necessariamente nos inspira pena diante daquela realidade retratada, porém trata com certa passividade aquela situação, como se quisesse se promover diante disso, sem nunca se expor no próprio filme. Prefere expor a dor e as dificuldades do outro, o que sempre gera desconforto.

E isso nos lembra, em comparativo, o filme nacional A Pessoa É para o que Nasce, de Roberto Berliner e Leonardo Domingues, sobre as três irmãs cegas e idosas. No filme nacional existe o mesmo tipo de exposição em torno de figuras de certa forma vulneráveis, mas com uma grande diferença que não aparece aqui: os realizadores são personagens do filme, eles se colocam como sujeitos que estão cientes do que fazem como forma de aproximação com o material humano que retrata. Já a cineasta polonesa, ao simplesmente colocar ali sua câmera em enquadramentos estudados e se anular diante da situação que observa, deixa em aberto sua relação com o “real” e, consequentemente, com as imagens que produz, tornando-as por demais abertas, inconsequentes. 

Nem mesmo o belíssimo trabalho técnico e de encenação da diretora Aleksandra Maciuszek consegue desanuviar essas questões. Ela domina muito bem a técnica, o filme tem ritmo e não se entrega aos planos demorados e contemplativos, bem como o trabalho de iluminação é primoroso para um documentário. Mas tudo isso não deixa de revelar certa frieza no modo que a cineasta reporta tal situação. Casa Blanca é um filme incômodo, não no melhor dos sentidos.

Cine Ceará – Parte II


Maresia (Idem, Brasil, 2015) 
Dir: Marcos Guttmann


As angústias do artista, com sua arte e sua projeção no mundo, e as angústias do desbravador da arte, esse que busca entender as angústias do artista tempos depois de sua passagem pelo mundo. São essas as duas questões primordiais por onde trafega Maresia, primeiro longa-metragem dirigido pelo carioca Marcos Guttmann.

 O filme lhe rendeu um apressado prêmio de melhor diretor no Cine Ceará. Digo isso porque o trabalho de Guttmann é competente enquanto formatação de um universo, mas nada de grande destaque. É como se mirasse naquele filme médio, que tanto falta no cinema brasileiro, nem tão arriscado do ponto de vista formal, mas também bem conduzido e de fácil assimilação, imprescindível para envolver o espectador na história.

Julio Andrade (prêmio de melhor ator no festival) interpreta dois papeis: no passado, vive o pintor Emilio Vega, obcecado pela vida junto ao mar, que lhe rende “força inspiradora” já que pinta geralmente paisagens marítimas – e, nos dias atuais, o ator incorpora o perito de arte Gaspar, obcecado pela obra de Vega e sua inserção no meio artístico.

Quando Gaspar recebe a visita de um velho senhor (Pietro Mario Bogianchini) que diz ter conhecido o artista na juventude e lhe apresenta um quadro que seria uma obra original do pintor, o filme planta questões sobre original e cópia, o que é verdadeiro e inventado, proposições não tão mais novas que buscam equilibrar realidade e criação – e Guttmann não é Abbas Kiarostami. 

Nem o filme tem pretensões de tratar essas questões com rebuscamento formal, antes se apega a contar bem uma história. Adaptado do livro Barco a Seco, de Rubens Figueiredo, talvez encontremos nessa matriz literária certas opções de envolver o roteiro em certos maneirismos e algumas reviravoltas, um tanto previsíveis. É quando o fator surpresa, de certo modo, enfraquece a trama porque fragiliza uma estrutura que se ampara nesse tipo de recurso final a fim de causar certo impacto no espectador.


Salsipuedes (Idem, Panamá, 2016) 
Dir: Ricardo Aguilar e Manolito Rodríguez


Parece existir algo de exótico no fato de se programar um filme do Panamá num festival como o Cine Ceará, de recorte ibero-americano. Salsipuedes preenche esse lugar como figura de vitrine que quer se por como exemplo de diversidade dentro da grade de um festival porque suas qualidades enquanto filme são mínimas, pálidas, apesar de um trabalho de produção caprichado para um país de pouquíssima tradição cinematográfica.

Ricardo Aguilar Navarro junta-se ao roteirista cubano Manolito Rodríguez para recontar a velha história do filho pródigo que retorna ao lar. Mandado desde menino para viver nos Estados Unidos, Andrés Pimienta (Elmis Castillo) volta já rapaz feito para o enterro do avô.

Se esse enredo já é por si só um grande clichê, o restante da trama só faz a roda dos lugares-comuns e dos absurdos girar constantemente. Andrés deixou para trás, não só um passado violento na Cidade do Panamá, como um histórico familiar perigoso, seu pai sendo um famoso pugilista, agora chefe do tráfico local. Quando ele retorna, o pai está preso, mas consegue fugir numa cena estapafúrdia no cemitério enquanto o avô era enterrado. 

Daí, seguem-se uma série de confusões e reviravoltas que tornam o filme um novelão mal-ajambrado. O pior é quando o drama familiar que toma conta das investidas do roteiro torna-se risível pelas escolhas descabidas dos próprios personagens, com direito ao filho valorizando o pai bandido e renegando as preocupações da mãe, que também vai revelar um caráter dúbio, pouco condizente com sua postura. Salsipuedes é uma salada de equívocos difícil de se levar a sério.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Cine Ceará – Parte I


Avó (Amama, Espanha, 2015)
Dir: Asier Altuna

Assim como no ano passado, o Cine Ceará exibiu Floreak, filme do país basco, região e cultura pouco conhecida, tanto eclipsada pelo poderio de atração espanhol. Esse ano foi a vez do longa Avó aportar na mostra competitiva, mais um drama familiar, assim como o filme anterior, com destaque para a tradição e as raízes de uma família rural basca.

Todo falado em língua eusquera, o filme nos apresenta uma família que vive num caserío, espécie de grande propriedade rural muito comum na região basca. Há o pai rígido e durão, mantenedor das tradições, em especial na dedicação total à terra, plantio de alimentos e criação de rebanhos, como forma de economia de subsistência. No outro polo, uma das filhas (Iraia Elias) é quem vai questionar o estilo de vida tradicionalista da família, batendo de frente com o pai rude.

O filme é muito rico em simbolismos e remete a um estudo de personalidades marcadas pelo uso de cores fortes. A avó é uma personagem que não diz uma única palavra durante o filme, mas possui uma presença de cena marcante, espécie de entidade ligada à tradição que observa atenta o embate de gerações. Ela tem dons artísticos e, logo no início do filme, aparece pintando três árvores da propriedade de cores diferentes, o que remeteria à personalidade de cada um dos três herdeiros – há ainda outros dois, homens que lidam melhor com as ordens do pai e da tradição.

A árvore e, por conseqüência, a madeira, assim como as cores, são signos constantes a marcar os passos dos personagens, o que acaba tornando o longa muito prescritivo. É como se já estivesse posto, a preceder os personagens, uma espécie de personalidade programada que os faz responder a certos estímulos já previamente codificados, e não como algo que emane deles com naturalidade e verdade. O filme também abusa de certa estética artsy, querendo impressionar a todo instante pela beleza estética das coisas – certo velório, por exemplo, é filmado quase como uma instalação-blasé, que ganha plasticidade, mas perde na emoção.

O filme também apresenta um contraponto com o país basco cosmopolita e moderno, mais uma vez reforçado pela figura da filha que não quer terminar seus dias arando a terra do caserío. Todo o conflito da família passa por essa questão, e o filme quase cai na armadilha de filmar o esfarelamento da família a partir do drama gritado, das brigas ininterruptas que só servem para disparar espinhos entre os familiares.

Avó sai-se melhor quando consegue apresentar uma curva dramática que faz aquelas pessoas se reconhecerem como pertencente a um mesmo núcleo fortemente ligado por laços sanguíneos, apesar de acentuarem e nunca deixarem de lado suas concepções de vida e desavenças. É quando o filme ganha mais em complexidade, e os dramas dos personagens ganham mais força que os meros simbolismos.


Epitáfio (Epitafio, México, 2015) 
Dir: Yulene Olaizola e Rubén Imaz

Pode-se dizer que Epitáfio é como um épico silencioso. O filme remonta ao início do século XVI quando os primeiros conquistadores espanhóis chegaram e desbravaram a região onde hoje se encontra o México. Diego de Ordaz, um dos conquistadores da região, figura real, porém pouco conhecida e menos reverenciada dentre os “heróis” que marcaram seu nome na História de conquista do Novo Mundo, é esse personagem que o filme observa a desbravar o lugar.

Junto com um pequeno grupo explorador, desejam chegar ao topo do vulcão Popocatéptl. Pode espantar que essa paisagem, naquela circunstância, é tomada por um inverno rigoroso, com direito a espessa camada de neve no chão, nevoeiros e frio cortante. Epitáfio apresenta um tour de força para seus personagens, provação que exige grande esforço físico e mental.

Logo de início, o filme já deslumbra o espectador por uma concepção visual muito apurada, fotografia que em nada lembra as cores quentes da geografia mexicana mais exótica. O contraponto da bela paisagem natural com os perigos mortais que ela também oferece está impresso desde as primeiras cenas.

O embate do homem com a natureza inóspita não é algo novo aqui, e o filme tem certa dificuldade para conferir interesse na jornada desses homens para além disso, a despeito de todo o conhecimento posterior que temos da exploração colonizadora europeia e suas devastadoras consequências para os povos nativos. 

Epitáfio busca mesmo na jornada particular daquele grupo, partindo quase de uma introspecção e desejos individuais de vitória, o estado de ganância e a obsessão por conquistar novas terras no território desconhecido. Pena que poucas vezes o filme consiga encontrar mais nuances na formatação desses personagens e nos eventuais conflitos que surgem entre eles. Resta então dar voltas em torno das mesmas questões e abusar do tom de cansaço e estafo constante.

terça-feira, 21 de junho de 2016

26º Cine Ceará – Festival Internacional de Cinema Ibero-Americano


Começou na semana passada a 26ª edição do Cine Ceará. Essa é a segunda vez consecutiva que faço cobertura do evento, que tem recorte ibero-americano. A competição reúne filmes brasileiros junto com latinos e ibéricos, apostando na integração.

O cinema mexicano é celebrado com mostra panorâmica de filmes contemporâneos, assim como exibição de O Anjo Exterminador, clássico absoluto de Luis Buñuel.

A cobertura começa no Jornal A Tarde e segue aqui no blog mais detidamente sobre os filmes da mostra principal. O site oficial do evento pode ser acessado aqui. Aos filmes.

Olhar de Cinema – Ranking geral


Minha primeira aventura no Olhar de Cinema, em Curitiba, para além do frio cortante que faz nessa cidade, foi de descoberta de um festival que não tem medo de apostar no novo e de arriscar na sua seleção, o que nos faz investir também na descoberta dos filmes. Há perigos nesse tipo de proposta, como revelou a mostra competitiva, um tanto aquém do esperado. Compensaram a série de filmes clássicos exibidos no festival, um primor de escolha e projeção, também apostando na descoberta e nos clássicos absolutos. Abaixo listo todos os filmes vistos aqui em ordem de preferência.



Entre Cercas (Avi Mograbi, Israel/França, 2016) ***½
O Artista da Fome (Masao Adashi, Japão/Coreia do Sul, 2016) ***½
Operação Avalanche (Matt Johnson, EUA, 2016) ***½
A Última Terra (Pablo Lamar, Paraguai/Holanda/Chile/Catar, 2016) ***
Os Pássaros Estão Distraídos (Diogo Oliveira e João Vieira Torres, Brasil, 2016) ***
Ama-San (Cláudia Varejão, Portugal/Japão/Suíça, 2016) ***
O Estranho Caso de Ezequiel (Guto Parente, Brasil, 2016) ***
A Cidade do Futuro (Cláudio Marques e Marília Hughes, Brasil, 2016) ***
Zud (Marta Minorowicz, Polônia/Alemanha, 2016) ***
Maestá, A Paixão de Cristo (Andy Guérif, França, 2015) **½
A Comunidade (Thomas Vinterberg, Dinamarca/Suécia/Holanda, 2016) **
O Vento Sabe que Volto à Casa (José Luis Torres Leiva, Chile, 2016) **
Eles Vieram e Roubaram Sua Alma (Daniel de Bem, Brasil, 2016) **


Hors-Concurs:


Como Era Verde Meu Vale (John Ford, EUA, 1941) *****
O Caso dos Irmãos Naves (Luis Sérgio Person, Brasil, 1967) *****
O Manuscrito de Saragoça (Wojciech Jerzy Has, Polônia, 1965) ****½
Ninotchka (Ernst Lubitsch, EUA, 1939) ****½
Compasso de Espera (Antunes Filho, Brasil, 1973) ****½
Mouchette – A Virgem Possuída (Robert Bresson, França, 1967) ****

Olhar de Cinema – Parte VI



A Última Terra (La Última Tierra, Paraguai/Holanda/Chile/Catar, 2016) 
Dir: Pablo Lamar


Proposta das mais intensas calcadas na contemplação, A Última Terra nutre-se do esforço que os personagens empreendem por um fio mínimo de história. Um casal de idosos vive numa humilde casa no meio do nada, cercados de florestas e montanhas, a sós no mundo. Ela está morrendo, e ele cuida para que seus últimos dias sejam acalentadores, na medida do possível.

O diretor Pablo Lamar constrói uma narrativa de tempo suspenso, quando o próprio tempo é personagem central ao acentuar sua passagem cândida, mas avassaladora sobre os homens. O tema do tempo que a tudo consome já foi muito explorado antes, e o filme apenas acentua sua força perante a impossibilidade humana de alterá-lo e vencê-lo.

Em certo sentido não há nada de muito novo nesse tipo de história, para além de acentuar o momento crucial da vida daquela senhora: a saída do mundo dos vivos. É a rigidez da encenação que garante a A Última Terra a força de uma experiência de introspecção e de certa transcendentalidade naquele último momento, acentuado pela imponência da natureza soberana a cercar aqueles dois, também a lembrar que morte é a ordem natural das coisas; e, talvez por isso, a situação seja tomada de beleza também.

Trata-se mesmo de um filme irmão do conterrâneo Hamaca Paraguaia, tanto temática como esteticamente. Por muito pouco, Lamar não mira na comiseração ao retratar a dor da perda e o pesar pela falibilidade da vida, pela proximidade da ausência, traços que lemos no rosto expressivo do ator Ramón del Rio. Há muita dignidade nesse tipo de retrato, sem pieguismos baratos, apesar da percepção de que há toda uma exasperação e sofrimento contidos ali naquele homem.

A brasileira Vera Valdez é quem interpreta a esposa inválida. Atriz teatral que acompanha a explosiva trupe de José Celso Martinez Correia, do Teatro Oficina, surge aqui em outra chave, totalmente mais contida, doando todo seu corpo frágil a aguardar a morte. É a mesma serenidade que o filme pega emprestado como um todo. Não há espaços para catarse, que só se expressa num momento final envolvendo uma grande fogueira. É como se só a natureza pudesse ser capaz de gritar a dor, sendo ela mesma quem acalma e acolhe aqueles que partem e os que ficam.


A Comunidade (Kollektivet, Dinamarca/Suécia/Holanda, 2016) 
Dir: Thomas Vinterberg


Filme que encerrou os trabalhos no Olhar Cinema, A Comunidade é como que uma investida do cineasta dinamarquês na percepção de uma possível convivência coletiva, microcosmo de uma tendência política que vigorou em certas partes do mundo no pós-Guerra e ameaçou o modo de vida capitalista.

Estamos na Dinamarca relativamente rebelde dos anos 1970 quando um casal se muda para uma nova casa, espaçosa e cara. Em pouco tempo eles se vêm cercados de outras pessoas “alocadas” ali como forma de diminuir as despesas, mas logo se vêm vivendo como em uma comunidade de amigos em que as decisões são tomadas em conjunto; há assembleias e tudo se decide através do voto.

Se o diretor formata esse espaço de convívio incomum logo no início do filme e rapidamente apresenta os personagens que formarão essa grande família de tendências hippies, ainda que um tanto conservadoras, o próximo passo é desviar a atenção para a crise conjugal que acomete o casal protagonista. Anna (Trine Dyrholm) é uma jornalista que aceita bem esse novo estilo de vida, enquanto seu marido Erik (Ulrich Thomsen) parece um tanto reticente quanto a isso. Professor universitário, ele se envolve com uma aluna bem mais nova que ele.

O casamento abala-se; a filha do casal é quem mais sofre com esse desentendimento, sendo a que observa tudo calada, temendo o fim da relação. E a coisa se complica mais quando decidem trazer a moça para fazer parte daquela comunidade, é esse o espírito de acolhimento. Com as cartas postas à mesa, a ideia de coletivo também é sacudida porque os interesses se confrontam cada vez mais.

Seria o caso do filme complexificar as relações com a entrada dessa nova personagem ali, e também colocar em xeque o próprio ideário de convivência compartilhada intimamente por todos. Porém, através desse movimento de centrar a atenção no drama conjugal, Vinterberg não só desperdiça uma série de personagens interessantes que povoam aquele ambiente, como também passa a investir no dramalhão mais gritado que envolvem as brigas e desentendimentos do casal.

É realmente muito desanimador como o filme utiliza a história de uma comunidade que prega o bem comum e propõe um tipo de convívio igualitário e respeitoso a fim de reprocessar velhas proposições conservadoras e mesmo machistas, afinal é a esposa – a mulher mais velha, portanto – quem mais vai sofrer as consequências, mentais e emocionais, nessa história toda. 

Não adianta que Vinterberg inclua lá no início do filme uma cena em que todos eles vão tomar banho em um lago totalmente pelados, filmados com muita liberdade. É o tipo de cena que grita “olha como somos modernos e corajosos”, quase como uma desculpa pelo que virá depois. Não parece, de fato, que A Comunidade queira pregar e defender o socialismo e os modos de vida coletivos com afinco, mas se utiliza de seus pressupostos para retroceder.