terça-feira, 1 de setembro de 2015

VI CachoeiraDoc – Festival de Documentários de Cachoeira


Começa hoje e vai até o dia 7 de setembro mais uma edição CachoeiraDoc, festival voltado para os desafios de se fazer documentário. Essa é minha segunda ida a um evento que me conquistou da primeira vez. Há mesmo um olhar que se abre para os desafios da representação do real na tela e é muito bom estar ali vendo e discutindo isso.

Além da tradicional mostra competitiva de longas e curtas-metragens, este ano o CachoeiraDoc abre espaço para uma seleção de obras do Laboratório de Etnografia Sensorial da Universidade de Harvard, além de filmes de jovens realizadores que passaram pela prestigiada Escola Internacional de Cinema e TV, de Cuba.

O decano mestre do cinema baiano, Guido Araújo, criador da mítica Jornada de Cinema da Bahia, é homenageado e tem sua Trilogia do Recôncavo exibida. E ainda teremos sessão com o monumental Terra Natal: Iraque Ano Zero, de Abbas Fahdel, filme de mais de cinco horas de duração. É certamente uma seleção instigante.

Vou a convite do evento cobrindo pelo Jornal A Tarde e escrevo algumas coisas por aqui também. É hora de mais uma maratona de filmes, de rever alguns e descobrir outros, aproveitar os bons encontros e as interessantes discussões. 

O site oficial com toda a programação, gratuita, pode ser acessado aqui. Que venham os filmes.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O velho e o novo

Últimas Conversas (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Eduardo Coutinho


A derradeira peça que perfaz a rica obra cinematográfica de Eduardo Coutinho foi privada de seu acabamento final por suas próprias mãos e vontades pela força do acaso – o cineasta veio a morrer inesperadamente no início do ano passado. Mas Últimas Conversas nasce agora com um recorte possível desse fazer cinema que Coutinho aperfeiçoou e solidificou ao longo dos anos. Jordana Berg, montadora e parceira antiga de Coutinho, ficou responsável por dar forma final ao longa, sob supervisão do produtor João Moreira Salles, também amigo, parceiro e produtor do cineasta.

Últimas Conversas surge não exatamente como Coutinho o faria, claro, mas preservando suas marcas. Como projeto inicial, é sobre os anseios de certa juventude, mas para além disso é também sobre o próprio Coutinho, seu cinema e sua visão (de cinema e de mundo). No mais, é ainda um filme para Coutinho, celebrando o seu legado, e para quem aprendeu a admirar o cineasta e o homem. Um cumprimento de gratidão, emocionante e feliz.

Por isso é possível arriscar que chamar esse filme de Últimas Conversas não diz respeito à sua relação conosco, espectadores (porque as conversas de Coutinho poderão e serão (re)vistas e (re)lembradas por muito tempo, esse é o grande legado dos mestres). Mas parece fazer jus ao próprio Coutinho em seus últimos momentos de partilha da palavra (e A Palavra, aventa-se, seria mesmo o título primeiro do filme).

É sintomático, portanto, que o loga comece com Coutinho falando, sentado na cadeira do entrevistado, sobre sua frustração já na fase final da coleta de entrevistas. Para ele, os jovens ouvidos no filme deveriam dar lugar à inocência das crianças, o que leva o diretor a questionar a validade do próprio filme que tem em mãos.

Mas basta começarmos a ver os encontros para que essa impressão desapareça. Entrevistando jovens estudantes de escolas públicas do Rio de Janeiro, o velho se encontra com o novo e, nas mãos de Coutinho, isso ganha riquezas que tão bem ele sabia extrair. Deus, amor, bullying, família, internet, futilidades e filosofias, tudo é ponto de partida e de chegada para que os personagens ganhem camadas várias – talvez a conversa mais representativa disso seja a da tímida garota que revela a dura relação com a mãe e o padrasto que abusava dela, fala de seus sonhos de desejos, além da confidência de um namoro recente e apaixonado com um garoto do colégio. Vai-se do riso ao choro com muita facilidade porque sempre foi da vida de gente como a gente que se forjou o cinema de Coutinho.


A última conversa, a última mesmo, a que fecha o longa, o diálogo com a criança, é também a que expande o filme para o óbvio, talvez aquilo que sempre esteve diante dos nossos olhos viciados e a que nunca nos foi dada a chance de notar: o grau de inocência que pode haver entre uma pessoa que, frente a outra, relata sua vida. Talvez esteja aí toda a essência do cinema de Coutinho, da forma mais sincera. Esse homem, velho, experiente, cheio de ideias e conceitos, encontra a criança e se equipara a ela. Toma-lhe a palavra e demonstra o mesmo interesse sobre quem está a sua frente. E o que se diz na conversa revela muito dela e também dele. São pessoas que se expõem à fala e ao olhar do outro (de nós).

A pequena Luiza já não é mais uma personagem da periferia que estuda numa escola pública. Ela pertence a outro grupo social. O filme, portanto, sai do seu eixo temático para abraçar outro lugar de enunciação, outro lugar de revelação de si mesmo que é central na obra do cineasta. 

Num filme com momentos muito bonitos e tocantes, talvez a imagem mais linda, a homenagem mais sincera possível que se poderia fazer a esse velho mestre, está no gesto mais puro. Coutinho estende o braço com a mão aberta indicando para Luiza o caminho da saída, a entrevista acabou. Sem entender muito bem e contrariando expectativas, a menina tá uma batida esperta na mão do diretor. É isso, valeu por tudo, Coutinho.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Ação burocrática

Missão Impossível: A Nação Secreta (Mission: Impossible – Rogue Nation, EUA, 2015)
Dir: Christopher McQuarrie



A franquia Missão Impossível chega na sua quinta investida com certo fôlego. É interessante notar como foi possível manter o padrão da série com alguns filmes sendo lançados com um intervalo de tempo de considerável. Há alguns deslizes nesse percurso, como é o caso do desastroso segundo filme, e poderia dizer que esse A Nação Secreta segue um pouco esse parâmetro, ainda que consiga se salvar.

A impressão inicial é que estamos diante de um filme bem fraco porque o início aqui parece um tanto desastroso. Humor negro acima do comum, tem diálogo expositivo e aquela história da dissolução da IMF não convence em nada, é apressada e funciona somente para dar o pontapé inicial do enredo. E mesmo as cenas de ação são as mais inspiradas. Mas felizmente o filme vai entrando aos poucos nos eixos, porém sem grandes empolgações.

E mais uma vez, a agência internacional de espionagem encabeçada por Ethan Hunt (Tom Cruise, que envelheceu muito bem e não faz feio no papel de herói de ação) luta para não ser descontinuada. Precisam lutar contra a sociedade secreta conhecida como o Sindicato, antes um mero mito entre os agentes, mas que parece mais ativa do que nunca, com planos de tirar a IMF da jogada. Nesse sentido, o filme dá impressão de história requentada, nada muito novo ou empolgante aqui, evocando um senso de risco que é dado mais em separado pelas cenas de ação absurdas do que pelo imbricado do roteiro.

Dos agentes renegados de que é formado o Sindicato, de cara o protagonista se bate com a bela e perigosa Ilsa Faust (Rebecca Ferguson, que também não faz feio aqui), com seu jogo dúbio que dá ao filme o tom de gato e rato. A Nação Secreta sustenta-se quase todo nesse sentido, variando nos perigos que os agentes têm de enfrentar, sempre descobrindo saídas mirabolantes para as mais variadas de risco, tendo a alta tecnologia como aliada.

A direção ficou a cargo do apagado e pouco conhecido Christopher McQuarrie, geralmente filmando de modo muito burocrático – o cineasta dirigiu Cruise no fraco Jack Reacher: O Último Tiro. Salvo a sequência nos bastidores da ópera, muito inteligente na sua construção ou aquela com Hunt debaixo d’água, o filme carece de uma grande cena de ação, um momento que poderia render ao filme uma marca registrada – como a sequência no edifício mais alto do mundo em Protocolo Fantasma. A tão alardeada cena na porta do avião funciona somente como introdução e mais como alívio cômico. 

Vale a pena reclamar da ausência de uma mão mais consistente na direção se pensarmos que todos os filmes anteriores da franquia estiveram sob o comando de cineastas que conseguiram imprimir uma marca ali, ou um charme do qual a franquia sempre se beneficiou. Talvez haja uma impressão maior de que esse filme recente esteja mais propenso à pura diversão do que a uma história mais séria e classuda, apesar dos riscos que Hunt e cia. enfrentam. Diverte até certo ponto, mas cansa logo.
 

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Tensão no automático

Hacker (Blackhat, EUA, 2015)
Dir: Michael Mann


Meio que sem essa intenção, Hacker acabou se tornando uma espécie de filme underground na carreira de Michael Mann, especialmente no Brasil depois que desistiram de lança-lo nos cinemas, saindo aqui diretamente em homevideo. Para um cineasta com marca própria, que flerta tão bem com o cinema de ação e com a indústria hollywoodiana, Mann, nesse novo filme, parece lutar o tempo todo contra o piloto automático. Ainda que crie ótimos momentos, não parece estar em sua melhor forma. 

Fica mesmo evidente que há algo ali que não parece à altura do cineasta de Miami Vice, Colateral e, para citar um clássico do filme de ação, Fogo Contra Fogo. Há fragilidades tanto narrativas, algumas cenas de ação filmadas de forma mesmo desconjuntada, quanto na história, repleta de explicações técnicas sobre o universo dos hackers e da cibernética.

Adentramos esse mundo da violação na rede digital quando um hacker americano misterioso invade o sistema e causa um acidente gravíssimo numa usina nuclear chinesa. O governo dos EUA investiga o caso e negocia ajuda com o hacker presidiário Nick Hathaway (Chris Hemsworth) em troca da dissolução de sua pena. Ele vai contar com o apoio do velho amigo e agora funcionário do governo chinês, especialista em defesa cibernética, Dawai Chen (Leehom Wang) e da irmã dele, a bela Lin Chen (Wei Tang).

O clima de tensão no cinema de Mann passa não só pela construção de momentos de apreensão ou de risco de vida, mas também pelo tratamento sensível que os personagens recebem diante dos perigosos que lhe são impostos. É como se brotasse de certa selvageria uma perspectiva humanista que se importa em dimensionar aquelas pessoas. Está nos olhares e nos movimentos dos atores, captados com a câmera vacilante na mão, sendo Mann um dos melhores diretores hoje a manejar o aparato digital com maestria.

Essas duas perspectivas estão presentes em Hacker, apesar de muito aquém da capacidade de Mann em potencializá-las e engrandecer o filme. Não vai demorar muito para surgir uma atração forte entre Nick e Lin, e a cena da troca de olhares entre eles antes do primeiro e efusivo beijo é um exemplo isolado dessa atenção dada aos pequenos, mas significativos, gestos que a câmera de Mann sabe captar com tanta autenticidade e que se tornam deflagradores de certas explosões – emocionais ou de adrenalina.



Também está no filme o excesso de cores e luzes que rodeia os personagens nas suas investidas, fugas e confrontos, mas mais como apreensão de uma realidade opaca, vide os cenários das ruas de Hong Kong e Jacarta, do que a perseguição de uma exuberância estética – exuberância em meio ao caos, diga-se. A sequência de perseguição final, por exemplo, tenta a todo instante rivalizar (ou seria harmonizar?) esses elementos e é uma pena que não vemos mais disso no decorrer do filme. 

Hacker, portanto, não foge às questões caras ao cinema de Michael Mann. Em essência, faz jus a uma carreira coesa e repleta de triunfos, mas que aporta aqui com pouco brilho. Poderia ser bem mais desastroso do que já foi espalhado por aí, mas ainda conta com a vontade de um diretor de percorrer os trilhos que lhe dão segurança para seguir, longe de descarrilhar por completo, mas turbulento pelas passagens que faz.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Bate-bola em comunhão

Campo de Jogo (Idem, Brasil, 2014)
Dir: Eryk Rocha 


Num campo de várzea no subúrbio do Rio de Janeiro, muito perto do Maracanã, palco do final da última Copa do Mundo, outro campeonato acontece. Os times Juventude e Geração disputam o título de campeã dentre os 14 times formados pelas comunidades vizinhas.

Esse é o ponto de interesse do documentário de Eryk Rocha, levando sua câmera para o espaço do futebol amador, celebração de uma das maiores paixões nacionais. Acabou fazendo um filme sensorial, captando com interesse e respeito a garra de quem joga e a vibração de quem torce. De início parece claro o contraponto com a espetacularização do futebol, em paralelo à Copa do Mundo e toda a midiatização grandiloquente de um evento esportivo, cultural, econômico e político desse porte.

É uma maneira de desviar o olhar para outras práticas que, tendo o futebol como epicentro, coloca em questão outros valores, outras manifestações afetivas, participativas e que comungam um valor comunitário tão presente e aparentemente normatizado naquela comunidade. Daí que Campo de Jogo pode ser encarado também como o mais puro experimento de observação do recorte de uma realidade insuspeita, com seus conflitos, dores e delícias peculiares.

É certo que os valores em jogo nos dois polos são bem distintos. E se o filme é capaz de acentuá-los, consegue também isolar a prática amadora no seio de um evento imprescindível e agradável para aqueles que ali tomam partido, dentro e fora do campo – e consequentemente belíssimo por sua capacidade de apreensão e formatação de um evento tão espontâneo.


Eryk Rocha, nas suas incursões documentais, já havia, de alguma forma, pintado matrizes de identidades diversas: uma identidade pessoal, em Rocha que Voa, ao encontrar as influências da obra de seu pai Glauber Rocha na cultura cubana; outra nacional, nas vozes captadas do povo brasileiro em Intervalo Clandestino; e mais uma na incursão pela América Latina em Pachamama.

Agora faz mais um estudo de um traço que, convencionalmente, passamos a tratar como algo de identitário no povo brasileiro. O futebol, a despeito da crise que o esporte em seu formato profissional enfrenta atualmente, mesmo nas instâncias mais poderosas, como a FIFA, encontra no filme uma tradução espirituosa, crua, de comunhão e confronto, de torcida e esbravejamento, sem pudores. 

Eryk Rocha filma aqueles corpos em movimento, como um embate que envolve todos ali presentes. Nunca com apatia, o filme antes se dispõe em construir um ensaio poético que extraia a força estética dos corpos em combate (aquilo é quase uma luta), da pele suja de areia, dos olhares atentos e sorrisos cúmplices diante de uma câmera, da polifonia que se ouve dentro e fora de cena. O campo torna-se território de comunhão.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

A fragilidade do terror

A Forca (The Gallows, EUA, 2015)
Dir: Travis Cluff e Chris Lofing



Não é difícil perceber a péssima fase que o gênero de terror vem tendo no circuito comercial. E é preciso acentuar que é um problema de nosso circuito porque existem coisas muito boas sendo feitas por aí, mas que não chegam às salas de cinema (The Babadook é o exemplo mais próximo). A Forca vem pra engrossar o caldo dessas produções de horror chulé, uma verdadeira lástima.

O que mais pesa contra o filme nem é o amparo no recurso do susto, tão cansativo e o atrativo que parece ser mais importante que a história. É essa que deixa a desejar quando o filme se apega a personagens com atitudes e comportamentos estúpidos. São adolescentes, e o desenho que o filme faz deles é o mais idiota possível. É difícil mesmo torcer por eles. A Forca é um filme “aborrecente”.

Veja só, uma turma escolar vai encenar uma peça, mas o ator principal é tão ruim que o amigo sugere que eles invadam a escola à noite, destruam o cenário da peça para que ela seja cancelada no dia seguinte. O garoto teme passar vergonha na frente de sua colega, par romântico na peça e por quem ele tem uma quedinha. Claro que a coisa não dá certo porque a escola é assombrada pelo espírito do ator que, anos antes, morreu enforcado durante a mesma peça que intitula o filme.

Também não me parece que o recurso do found footage, embora usado à exaustão por aí pós-Bruxa de Blair, mas principalmente depois do sucesso da franquia Atividade Paranormal, seja cansativo aqui. É mais uma incapacidade do filme em utilizá-lo de maneira a potencializar a narrativa.

Existe talvez um único momento de força assustadora no filme: vemos a silhueta dessa entidade vingativa atrás de uma garota, prenunciando um possível ataque, o que deixa o clima tenso, sem precisar de efeitos sonoros pra isso. É um momento isolado num filme completamente dispensável.


Sobrenatural: A Origem (Insidious: Chapter 3, EUA/Canadá, 2015) 
Dir: Leigh Whannell



Sobrenatural: A Orgiem é a terceira parte de uma franquia de horror que trouxe certo frescor na sua primeira aparição. Um filme que sugeria uma presença maligna prestes a tomar posse do corpo de uma criança. A família assustada pede ajuda a uma médium, personagem que retorna a essa nova história, anterior àqueles acontecimentos.

Trouxe também de volta ao jogo o nome de James Wan, diretor do icônico Jogos Mortais, e que depois faria um dos melhores filmes de terror dos últimos anos, o classudo e aterrorizante Invocação do Mal.

É uma pena que Wan não volte à direção aqui nesse terceiro capítulo. O filme continua com uma atmosfera de tensão e medo, mas sem trazer nada de muito novo do que já foi visto nos títulos anteriores da franquia, nem esteticamente, nem em termos de história. De certa forma, até brinca com elementos que já são conhecidos do público. O enredo concentra-se na garota que, ao tentar se comunicar com a mãe morta, acaba invocando espíritos maléficos que agora querem sua alma. 

Mas quem rouba a cena no filme é a médium Elise (Lin Shaye), ela que conhece e teme as forças do desconhecido (e há uma cena hilária dela confrontando certa aparição já vista anteriormente). Demora um pouco para que ela marque presença forte no filme, enquanto a história, mais uma vez, se ampara nos sustos e aparições, efeitos sonoros potentes garantindo o choque da plateia. O final tem algo roubado de Invocação do Mal no que diz respeito à força da família como agente salvador. O filme garante alguns bons momentos, mas não deixa de ter impressão de experiência requentada.
 

domingo, 26 de julho de 2015

Sem amarras

O Demônio das Onze Horas (Pierrot le Fou, França/Itália, 1965)
Dir: Jean-Luc Godard


Um dos maiores cineclubistas do Brasil, Walter da Silveira, completaria 100 anos na última semana se estivesse vivo. Mas viva está sua memória e suas ações que valorizavam a paixão pelo cinema no Estado da Bahia. Para comemorar a data, eis que surge o Cineclube Walter da Silveira querendo reavivar o espírito de visualização e discussão do cinema. Nada melhor do que abrir com o sopro de frescor que é O Demônio das Onze Horas, obra-prima de Jean-Luc Godard.

É dos filmes mais libertárias do cineasta francês, em seu momento mais forte e frutífero, ali no fervor da Nouvelle Vague. Continua com ele seu projeto de revolução estética que começou com Acossado e ganha agora um frescor invejável de ritmo e desfaçatez, num filme um tanto frenético, repleto de ótimos insights e algumas diabruras.

Ferdinand Griffon (Jean-Paul Belmondo), cansado do casamento com uma burguesa italiana, foge repentinamente com Marianne (Anna Karina), babá de seus filhos. O filme possui aquele gosto anárquico de rebeldia com os dois formando um belo par de delinquentes, não se importando em roubar ou matar para seguir seu caminho, mesmo que incerto.

Godard filma tudo com uma graça incrível, sua câmera baila ao redor dos personagens e os segue com a mais pura fidelidade. Não é surpresa que em dois momentos a narrativa seja interrompida por números musicais que revelam os anseios dos personagens naqueles momentos. É uma delícia acompanhar os descaminhos deles, retratados com tanta irreverência, por vezes quase infantil, mesmo que suas atitudes sejam reprováveis.

Esse fio de história, muitas vezes desconexo, serve como claro pretexto para que Godard continue seu percurso de desconstrução da narrativa fílmica. O diretor usa da metalinguagem para falar do próprio cinema, característica marcante em sua obra. Eis que em determinada cena, vemos Samuel Fuller, (diretor norte-americano underground e adorado por Godard), interpretando a ele próprio, versando sobre cinema. Assim ele define: “O cinema é como um campo de batalha. Amor, ódio, ação, violência, morte. Numa palavra: emoção”.


Em outro momento, Ferdinand fala diretamente com a câmera e Marianne pergunta, “Com quem você está falando?”, “Com o espectador, ora”, ele responde. É Godard piscando para a gente, numa espécie de prazer cinéfilo de autoconsciência da arte cinematográfica que ele tão bem domina e desvirtua ao mesmo tempo. Mais interessa a ele as possibilidades mil que a manipulação da linguagem proporciona, sem preocupações com plausibilidades.

Inclui também uma série de referências pops da época (carros da moda, sprays de laquê, cinta liga), como forma de provocação à classe burguesa, vista no filme com grande desprezo, isso em contraponto ao tom literário dos diálogos e da voz over, além de citações intelectuais. Funciona tudo como provocação, sem deixar de lado o discurso politizado nas entrelinhas, como na hilária cena em que os dois representam a opressão norte-americana no Vietnã, justamente para uma plateia de estadunidenses. O sarcasmo é também um forte do cineasta.

Filmado no sul da França, a fotografia do filme ficou a cargo de Raoul Coutard, grande colaborador da Nouvelle Vague e um dos responsáveis por viabilizar filmagens ao ar livre, uma das marcas do movimento. É de uma beleza ímpar o aproveitamento da tela larga, das cores intensas, ajudado pelas belas paisagens do Mediterrâneo. É um retrato potente de vidas que pulsam no filme. 

Há de se destacar em meio a essa profusão de elementos que encontram sua sintonia na dispersão, uma cena que parece sintetizar bem a filmografia do Godard. Os dois personagens estão de carro passando por uma estrada à beira do mar, não há outra via disponível. Nesse momento, Marianne diz, “Você é obrigado a seguir a linha reta até o final”, ao que Ferdinand responde, “O quê? Olha!” e então vira o veículo e cai direto no mar, com Marianne, carro e tudo. Porque em Godard nunca há linha reta.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Herói maiúsculo

Homem-Formiga (Ant-Man, EUA, 2015) 
Dir: Peyton Reed


Homem-Formiga é claramente o tipo de projeto que pega carona no bom momento em que a Marvel consegue expandir boa parte de seus personagens e universos compartilhados das histórias em quadrinhos para o cinema. Alcança níveis muito bons de traduções para a tela grande dessa gama de heróis com superpoderes, ainda que elas comecem a ficar um tanto cansativas e repetitivas.

Seria o caso de dizer que Homem-Formiga, a despeito de ser o primeiro filme de uma franquia, já é um caça-níqueis. Mas o filme consegue dissipar muito bem sua natureza exploratória numa trama, acima de tudo, bem divertida e apresentável, com conflitos e consequências bem amarrados.

Se mesmo os fãs tinham certas dúvidas do que poderia resultar desse projeto, elas são dissipadas logo no início do filme. Homem-Formiga não demora muito para mostrar a seriedade que envolve a história, ao mesmo tempo em que tem senso de humor aguçado, sabe rir de si mesmo e ainda apresentar momentos muito bons de ação, com cuidado caprichado da equipe de efeitos especiais.

Paul Rudd vive Scott Lang, homem com ficha criminal por assalto a cofres-fortes, ainda que se mostre um sujeito boa praça, pai de família, com planos de andar na linha. Porém, acaba sendo atraído ao mundo do crime e cruza – quase que por acaso – os planos do Dr. Hank Pym (Michael Douglas), que desenvolveu a incrível vestimenta que, além de poderes sobre-humanos, faz a pessoa encolher.

O roteiro do filme abusa bastante dessa possibilidade de brincar com a mudança constante do tamanho do personagem, assim como do vilão Darren Cross (Corey Stoll), que sempre esteve de olho na tecnologia que o Dr. Pym guardou a sete chaves, agora prestes a ser alcançada por ele também. Entre os dois lados da questão, está a secretária de Cross e filha do Dr. Pym, a bela Hope van Dyne (Evangeline Lilly).

Com duas cenas pós-créditos muito interessantes e que dão boas perspectivas para a continuidade da franquia nos cinemas, esse Homem-Formiga acaba funcionando como a gênese do herói, a descoberta e o abraçar de uma figura que é também a redenção que Scott precisava na sua vida pessoal. É certo que, para isso, o filme acaba seguindo uma estrutura narrativa muito parecida com outros filmes do gênero. 

Da descoberta impressionante das novas possibilidades de ação, à adaptação à nova persona de justiceiro, até chegar ao ápice da demonstração de seu valor como herói. Se há algo de previsível nesse percurso, o filme torna tudo muito agradável de acompanhar, com bons diálogos e cenas precisas de aventura e graça, timing certeiro dos roteiristas. A interação com as formigas, suas melhores companheiras quando está diminuto, é um exemplo preciso disso. Homem-Formiga é um filme de super-herói com H maiúsculo.
 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Cine Ceará – Ranking geral


O majestoso Cine Teatro São Luís, em Fortaleza, foi reaberto depois de longa reforma para sediar a 25ª edição do Cine Ceará. Belas experiências fílmicas eu tive nesse lugar que já fica no meu coração. Outros filmes do estival foram vistos no incrível Dragão do Mar. Seleção de longas foi melhor que de curtas. Aqui, todos os filmes vistos em ordem de preferência:



Longas-metragens

Cavalo Dinheiro (Pedro Costa, Portugal, 2014) ****
Jauja (Lisandro Alonso, Argentina/Dinamarca, 2014) ****
O Clube (Pablo Larraín, Chile, 2015) ***½
NN (Héctor Galvez, Peru/Colômbia/França/Alemanha, 2014) ***
Medo do Escuro (Ivo Lopes Araújo, Brasil, 2015) ***
História da Minha Morte (Albert Serra, Espanha/França, 2013) ***
Floreak (Jon Garaño e José Mari Goenaga, Espanha, 2013) ***
Real Beleza (Jorge Furtado, Brasil, 2015) ***
Cordilheiras do Mar: A Fúria do Fogo Bárbaro (Geneton Moraes Neto, Brasil, 2015) **½
Costa do Mar (Lois Patiño, Espanha, 2013) **½
A Obra do Século (Carlos Machado Quintela, Cuba/Espanha, 2015) **
Crumbs (Miguel Llansó, Espanha/Etiópia, 2015) *½

Hors Concours:

O Espírito da Colmeia (Victor Erice, Espanha, 1973) *****
Simão do Deserto (Luís Buñuel, México, 1965) ****


Curtas- metragens

Quintal (André Novais Oliveira, Brasil, 2015) ****
Nua Por Dentro do Couro (Lucas Sá, Brasil, 2014) ****
Mistério (Chema García Ibarra, Espanha, 2012) ***½
Feio, Velho e Ruim (Marcus Curvelo, Brasil, 2015) ***½
Action Painting Nº 1/Nº 2 (Krefer e Turca, Brasil, 2014) ***½
O Ataque dos Robôs da Nebulosa 5 (Chema García Ibarra, Espanha, 2009) ***½
Miragem (Virgínia Pinho, Brasil, 2014) ***
Avenida Presidente Kenedy (Adalberto Oliveira, Brasil, 2014) ***
O Lugar Mais Frio do Rio (Madiano Marcheti, Brasil, 2014) ***
História de Abraim (Otavio Cury, Brasil, 2015) ***
Kyoto (Deborah Viegas, Brasil, 2014) **½
Chigger Ale (Miguel Llansó (AKA Fanta Ananas), Espanha/Etiópia, 2013) **½
Choclo (Caetano Gotardo, Brasil, 2015) **½
Virgindade (Chico Lacerda, Brasil, 2014) **½
Protopartículas (Chema García Ibarra, Espanha, 2009) **½
Névoa (Mikel Zataraín, Espanha, 2011) **½
Como São Cruéis os Pássaros da Alvorada (João Toledo, Brasil, 2015) **
Ser e Voltar (Xacio Baño, Espanha, 2014) **
A Felicidade Chega aos 40 (Daniel Nolasco, Brasil, 2014) **
Muriel (Vanessa Cavalcante, Brasil, 2015) *½
Cenário (Carol Veras, Felipe Gurgel, Mariana Lage e Régis Cunha, Brasil, 2014) *½
Micro-Macro
(Diego Akel, Brasil, 2015) *

Cine Ceará – Parte XI


Medo do Escuro (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Ivo Lopes Araújo



Segunda experiência estético-sensorial essa de ver Medo do Escuro, pouco menos de seis meses após a primeira, ambas com acompanhamento musical ao vivo, capricho que garante uma força no mínimo descomunal ao filme. A primeira vez certamente é mais forte enquanto impacto por aquilo tudo que vem como novidade e inquietação, bela construção d
e atmosfera para o que se apresenta em tela, apesar de poder ser muito bem digerida se prestarmos atenção aos signos todos que o filme oferta.

Agora, encerrando o Cine Ceará, num cine-teatro majestoso como o São Luís, nível de projeção, som e acústica de dar gosto de ver e ouvir, na cidade natal do coletivo Alumbramento, o filme tem o seu gosto por aquilo que representa para o grupo. Mas talvez uma segunda experiência faz embaralhar uma narrativa que não é de toda conclusa, agora misturada com novas percepções pessoais.

Com tom pós-apocalíptico, o filme é dirigido por Ivo Lopes Araújo e recebe o selo conceitual-inventivo-anárquico do coletivo Alumbramento. Ivo é mais conhecido como diretor de fotografia de diversos filmes dessa nova cena independente brasileira (como os longas Tatuagem e o baiano Depois da Chuva), e demonstra um vigor interessante em compor uma obra tão descolada das outras produções do grupo que já são, por si sós, tão pessoais e arriscadas.

Medo do Escuro narra as desventuras de um rapaz perdido numa cidade devastada, caótica e abandonada. Há algo entre o sujo e o deslumbre que compõe a atmosfera do lugar e o visual dos personagens, via maquiagem e figurinos bastante carregados, indo do lúdico ao bizarro, beirando o kitsch, abraçando o nonsense. A trilha sonora conta com muitas batidas e samplers eletrônicos, ruídos, sons guturais e bateria enlouquecida. Tudo para elevar a força de um filme totalmente sem diálogos, sem linhas narrativas autoexplicativas.

A história se apropria vagamente de elementos do filme de heróis em resistência num mundo distópico (referências podem ir de Mad Max a Fuga de Nova York, passando pelo submundo underground de filmes de vampiros rebeldes como Os Garotos Perdidos e Quando Chega a Escuridão, ou a psicodelia mal ajambrada de Duna), com direito a gangue de vilões mal encarados e uma guerreira misteriosa na trama. O filme brinca com as marcas de um gênero outrora popular, criando uma atmosfera de estranheza e aventura que vai convidando o espectador a embarcar naquela proposta e entender suas amarras narrativas, ainda que muito fique em suspenso.  

O filme tem a característica de chamar a atenção para si mesmo pela energia que vigora dali, sem que isso seja mera propaganda; faz parte de sua própria natureza. Tem sua parcela de excesso que em alguns momentos soa repetitivo, como no final que se alonga mais do que necessário – talvez para que a catarse musical aconteça. Mas esse tom notas acima, over por excelência, é o que torna o filme tão vibrante em sua essência.