quarta-feira, 16 de abril de 2014

Festival Varilux do Cinema Francês – Juventude agridoce



Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups, França, 1959)
Dir: François Truffaut
 


Toda a ternura e paixão que François Truffaut depositou em seu longa-metragem de estreia permanecem como um dos retratos mais sinceros e bonitos da vida adolescente com propensão à delinquência. Visto na tela grande de um cinema, como homenagem prestada pelo Festival Varilux, Os Incompreendidos mantém sua força no intimismo de uma história que segue os rumos tortos do protagonista, sabidamente um grande alterego do próprio cineasta.

Antoine Doinel (personagem que vai ser retratado em outros filmes de Truffaut, compondo uma série que acompanhará o desenvolvimento pessoal e emocional do jovem até a fase adulta) é esse garoto-problema que apronta descaradamente na escola em companhia de um amigo também encrenqueiro. A relação com a família é um tanto conturbada, equilibrada por uma aparente normalidade.

Mais do que contar a história desse personagem, o filme procura fazer um retrato sincero de uma juventude poucas vezes mostrada no cinema. É um filme direcionado para adultos sobre crianças e adolescentes e sua maneira de enxergar as coisas ao redor. Porque a moral da adolescência é não se importar com o mundo responsável dos adultos; mas quando um jovem é marcado pela rejeição familiar, a coisa pode se tornar bem mais difícil, e a delinquência surge como um caminho atrativo. Truffaut cresceu, mas não se esqueceu das agruras de sua infância e coloca no filme muito do que ele mesmo viveu.

O cineasta filma com um senso de liberdade incrível as travessuras de Antoine e encontra no ritmo do filme um crescendo que vai das traquinagens mais bobas no colégio, até chegar a momentos decisivos na vida do garoto quando a desobediência não tem mais volta. Alia-se a isso um texto sem firulas, cotidiano, que inclui os problemas familiares do personagem sem peso excessivamente dramático. A fotografia naturalista dá conta de filmar a cidade de Paris, belissimamente, como um espaço de descobertas e interações.

Sem uma atuação caricata das crianças, é interessante perceber a naturalidade com que todas elas surgem em cena. O protagonista Jean-Pierre Léaud é a mais pura encarnação dessa simplicidade tão espontânea. Mesmo nas cenas mais densas, como a prisão do garoto e a conversa com um psicólogo no reformatório, Léaud demonstra uma maturidade sem igual diante das câmeras. 

Diferente de outros cineastas da Nouvelle Vague francesa, donos de tom um tanto mais intelectualizado e/ou anárquico na forma de lidar com a narrativa, Truffaut parece falar com o coração, da forma mais simples e humana possível, traço da excelência de grande parte de sua filmografia. Os Incompreendidos é o tipo de filme feito com paixão e carinho, em que ternura e dureza mesclam-se na tela.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Festival Varilux do Cinema Francês – Embates a dois



Uma Relação Delicada (Abus de Faiblesse, França/Alemanha/Bélgica, 2012)
Direção: Catherine Breillat



Catherine Breillat, cineasta interessada pelos jogos e pulsões da sexualidade, preferiu ser mais autobiográfica em seu novo filme. A história de Maud (Isabelle Huppert), cineasta que ficou paralítica de um dos lados do corpo depois de um derrame cerebral, aconteceu com a própria Breillat. Persistente para continuar seu novo filme, ela se interessa por um ex-presidiário e pilantra nato (Kool Shen) que quer ver como ator principal de seu projeto.

Existe um quase sadismo na forma como Maud, debilitada fisicamente, aceita lidar com esse homem cheio de prepotências e desmandos, dono de uma masculinidade arrogante, enquanto ele encontra formas cada vez mais fáceis de lucrar, financeiramente, com aquela estranha relação. Mas, numa conversa com seu agente, Maud chega a dizer: “ele é o meu personagem”, como se aquela figura fosse ideal para os propósitos da cineasta (algo que nunca entendemos de fato).

Daí que Uma Relação Delicada esbarra num entrave narrativo que se estabelece logo antes da metade do filme: ele é redundante ao colocar em confronto essas duas frentes, não avança muito depois que os dois passam a ter contato e cada vez mais ela se “deixa” enganar e seduzir por ele; a história torna-se maçante porque o embate, de fato, nunca chega, permanece como promessa.

No entanto, fica do filme o tour de force que Isabelle Hupper empreende, primeiro fisicamente (lidando com as dificuldades motoras, e por vezes tornando isso como arma de aproximação ou sedução), e depois na relação dúbia que estabelece com aquele homem sem honra. Um confronto frustrante, no fim das contas.


Um Amor em Paris (Paris Follies, França, 2014)
Dir: Marc Fitoussi


Há um par de anos, esse mesmo Festival Varilux trouxe-nos o longa Copacabana, comédia desbaratada que trazia Isabelle Huppert num papel de mãe coruja e um pouquinho desequilibrada, num filme muito divertido, acima de tudo. Pois o diretor Marc Fitoussi está de volta ao festival como mais essa bela comédia, protagonizada por Jean-Pierre Darousin e, mais uma vez, Huppert, agora dona de uma personagem muito mais doce do que as mulheres de personalidade intensa que ela costuma interpretar.

Morando no campo com seu marido, cuidado do gado e da vida doméstica, Brigitte leva uma vida pacata, embora revele certa atração pelo mundo jovem e por um estilo de vida mais livre e animado, algo que lhe falta naquele ambiente. É então que resolve mentir sobre a ida num médico em Paris para poder passar alguns dias na capital, longe da presença do marido.

O roteiro é muito afiado em desenvolver os pequenos encontros e desencontros que ela vivencia por lá, na busca mesmo por desenlaces amorosos sem maiores compromissos, mas também sem pretensões definidas; ela joga-se ao acaso e vive alguns momentos de alegria. Tudo com a dose certa de leveza e humor que caem muito bem à personagem, longe de se enquadrar no estereótipo da caipira interiorana que encontra na Cidade Luz uma forma de encantamento cego. 

No entanto, há algo também de agridoce nessa história porque a vida real vem lhe cobrar certas posturas, assim como ao marido que não aceita inadvertidamente o estranho comportamento de sua mulher. Mas o filme guarda para sua parte final os entendimentos que ambos fazem de sua relação, enfrentando com sabedoria emocional as agruras de uma vida a dois. Um Amor em Paris termina e fica um gosto muito bom de história espirituosa e também madura sobre relacionamentos e cumplicidade no casamento.


sexta-feira, 4 de abril de 2014

Giramundo

Eles Voltam (Idem, Brasil, 2013)
Dir: Marcelo Lordello



Mais um competente exemplar do novo cinema pernambucano ganha agora lançamento comercial nas telas do Brasil. Eles Voltam, longa de estreia de Marcelo Lordello, vencedor do candango de melhor filme no Festival de Brasília em 2012 (ao lado de outro pernambucano, Era Uma Vez Eu, Verônica), é mais um sopro de renovação do cinema independente brasileiro, fazendo muito com muito (aparentemente) pouco.

Como os melhores filmes de sua terra, Eles Voltam tem a capacidade de refletir sobre o Brasil, especialmente nas suas lutas de classe que possuem resquícios de um passado histórico recente, a partir de uma situação regional. Mas é também um filme intimista que espreita misteriosa e silenciosamente uma protagonista posta em percurso. Entre o macro e o micro, a trajetória de Cris (Maria Luiza Tavares) ganha força naquilo que ela encontra e vê por um caminho até então desconhecido.  

Já na primeira cena, vemos, ao longe, ela e o irmão serem deixadas de carro numa estrada deserta. Pouco sabemos dos motivos desse “abandono”, e logo a relação entre os dois revela-se um tanto conflituosa, dois irmãos em birra. Ele decide sair sozinho para buscar ajuda e pede para ela esperar. Ela passa a noite ali e, como ele não retorna, Cris então segue seu próprio caminho.

É essa atitude de se jogar no mundo, de movimento em prol da própria integridade, que o filme valoriza antes de “começar” de fato (só depois disso aparece o título e os créditos iniciais do longa). Longe de revelar uma protagonista destemida, entendemos desde o início essa menina frágil e calada, classe alta, solta num ambiente inóspito. É de uma serenidade incrível a expressão da jovem atriz que mescla um olhar ao mesmo tempo assustado e curioso àquilo que lhe chega como novidade. No interior de Pernambuco, entre casas pobres, pessoas humildes e trabalhadoras, Cris encontra acolhida e descobre um mundo novo, longe da cidade grande e seus barulhos, distante também de riqueza e fartura.  

O filme é dotado de uma cadência de ritmo muito particular. Ao mesmo tempo em que existe um compasso lento e moderado nos passos incertos da protagonista, acentuado pelos planos longos e sutis movimentos de câmera, Cris encontra várias pessoas que a ajudam e passa por uma série de situações e desencontros; o longa nunca é moroso. Com seu tom naturalista ao extremo, a narrativa também não tem pressa em se revelar. Acompanhamos com curiosidade o desenrolar das situações e vamos entendendo aos poucos as questões narrativas que estão em jogo ali (como o motivo do abandono dos garotos e por que os pais não retornam).

É esse deslocamento em dupla engrenagem que torna o filme tão curioso e envolvente. A vida segue lenta para Cris, mas as experiências acumulam-se a cada novo desdobramento de seus passos incertos. A personagem é obrigada a observar um mundo distante da vida burguesa que leva, sem pressa, mas com o peso de estar em lugar incomum, apesar da boa acolhida que sempre recebe. 

Eles Voltam é mais um road movie que ressalta a mudança e amadurecimento do viajante até o fim do percurso (embora se estenda além dele). Não busca fugir dessa regra máxima do gênero, mas constrói isso com uma sutileza incrível. É no olhar ao outro, diferente de si, que o mundo de Cris expande-se e que o outro perto dela, sejam seus pais, irmão, parentes ou amigos, ganhe uma nova forma de compreensão diante de seu olhar.

sábado, 22 de março de 2014

Amor que atropela

Instinto Materno (Pozitia Copilului, Romênia, 2013)
Dir: Calin Peter Netzer 


Depois dos créditos iniciais sobrepostos em tela preta, corte seco para Cornelia, filmada em câmera na mão, conversando com uma amiga sobre a ingratidão de seu filho que mal a vê e a trata mal. Instinto Materno é todo assim, direto, sem firulas, tenso, com protagonista fortíssima, metida numa situação desagradável. É a força dramática dos romenos, no meio naturalista que eles parecem dominar tão bem, mais uma vez mostrando que eles fazem um dos cinemas mais interessantes da atualidade.

Barbu (Bogdan Dumitrache) atropelou e matou acidentalmente um garoto pobre quando corria de carro na estrada à noite. Logo entra em cena a mãe dele em seu socorro, fazendo de tudo para livrar seu filho das garras da Justiça. São de família rica e influente, muitas portas estão abertas para eles nesse jogo de poder corrompido, o que já revela as mazelas e disparidades político-sociais de um país que se livrou há poucas décadas de um regime opressor.

Mas Instinto Materno é menos um filme sobre os meandros do sistema jurídico/policial que envolve aquele caso e mais uma história ancorada numa conturbada relação mãe e filho. Apesar da amargura que existe ali, Cornelia, interpretada maravilhosamente por Luminita Gheorghiu, ama incondicionalmente esse filho ingrato. É um estudo de personagem incrível a forma como o roteiro desenha essa mulher de personalidade forte, autoritária, consciente de sua posição social e da grande influência que goza dentre os amigos da alta sociedade.

É nesse mesmo ambiente burguês que Barbu criou-se e vive então como adulto mimado que ainda não aprendeu a se portar como adulto. E nem a se livrar da barra da saia da mãe, embora essas amarras revelam-se de grande incômodo para ele. O choque entre eles ganha maiores proporções diante da tragédia e do controle que Cornelia passa a tomar da situação, mexendo os pauzinhos e querendo assenhorar-se, inclusive, das atitudes de Barbu, da esposa e do ex-marido.

O filme opera o tempo todo nesse clima de tensão entre os personagens, misturado à desolação de uma família pobre que perdeu o filho pequeno. Instinto Materno é desde o início um filme duro, sem piedades. A câmera na mão de Netzer é inquieta tal como o clima que se estabelece do começo ao fim do longa, tanto pelos embates que Cornelia trava com todos nessa jornada, especialmente com o próprio filho, mas também no cinismo testemunhado pelo espectador diante de tantos atropelos emocionais. 

Mas quando menos se espera, o filme ainda consegue abrir mais nuances em seus personagens, até então muito marcados em suas personalidades cruas, num momento final estranhamente emocionante. O encontro de mãe e filho com a família do garoto morto é dilacerante e transparece, sem muitas máscaras, todo o temor de uma mãe que faz de tudo para defender sua cria. O cinismo ainda está ali presente, mas esse tal de amor materno aflora de forma incondicional, suplicante, doloroso, dominador.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Policial à brasileira

Alemão (Idem, Brasil, 2014)
Dir: José Eduardo Belmonte 


Foi Tropa de Elite, em 2007, que mostrou como era possível fazer filme de gênero policial no Brasil, com qualidade narrativa e obter sucesso. Havia, claro, certos atributos inerentes ao longa que o tornou tão conhecido e discutido por aí. Novo filme do agora versátil José Eduardo Belmonte (depois de criar dramas independentes como A Concepção e Se Nada Mais Der Certo e partir para comédia com o desastroso Billi Pig), Alemão é como um filho próximo de Tropa, investindo muito bem na possibilidade de contar histórias policias com um subtexto muito brasileiro.

O filme utiliza como contexto a iminente invasão do Morro do Alemão ocorrida em 2010, um dos complexos de favela mais perigosos do Brasil, localizada no Rio de Janeiro, tomada por uma estrutura pesada do tráfico de drogas. Há cinco policiais infiltrados na comunidade, estabelecidos ali há tempos como informantes e que agora correm risco de morte pois foram identificados pelos líderes do tráfego e precisam fugir o mais rápido possível.

Ainda que exista uma forte crítica contra a tomada de controle das favelas por parte da força policial, com a consequente instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), bem como contra a forma truculenta com que a policia comumente trata os moradores, o filme pouco se aprofunda nessas "reflexões" de caráter sócio-político (como faz o longa estrelado pelo Capitão Nascimento). É claro como o filme se assume como de gênero, utilizado como pano de fundo um momento da história recente do país, mas sem pretensões de fazer disso um tratado sobre uma dada situação contemporânea. O problema é que mesmo como filme de gênero ele se sai mal com um roteiro frouxo.

Embora consiga se resolver muito bem em termos de direção, especialmente na forma como estabelece a tensão que se cria entre personagens acuados em um espaço fechado, o filme possui uma estrutura dramática cheia de entraves e pontas soltas. Da metade em diante os conflitos se atropelam e as decisões e atitudes dos personagens são cada vez mais difíceis de aceitar; alguns diálogos são bem fracos e expositivos também. É como se o roteiro deixasse muitas questões no ar, atropelando informações que se não atrapalham o desenrolar da trama, dá impressão de descuido ou dificuldades mesmo de organizar os conflitos que surgem ali. 

Ainda assim, Belmonte reúne um grupo de atores qualificado. Caio Blat, Milhem Cortaz, Otavio Muller, Marcello Melo Jr. e Gabriel Braga Nunes vivem os cinco policias que desconfiam uns dos outros, possuem suas rixas internas, veem-se encurralados em situação limite, prezam por suas vidas, desconhecem as intenções e planos de seus superiores, discutem a própria condição de agentes da lei em situação de risco. Não é pouca coisa e o longa parece disposto a não colher respostas e conclusões para esses entraves. 

Os melhores momentos do filme são quando esse grupo tenta entender o que acontece ao redor, ainda que machucando uns aos outros. A câmera inquieta de Belmonte e o cuidado na construção das cenas é o que equilibra um roteiro que vai se tornando muito frouxo, ainda mais se observado com atenção e apuro. Mas como trama policial, Alemão pode ser uma boa escolha num roupagem muito incomum do que o cinema brasileiro nos oferece hoje.
 

quinta-feira, 13 de março de 2014

Clamor do sexo

Ninfomaníaca – Volume 2 (Nymphomaniac: Vol. II, Dinamarca/Alemanha/ França/Bélgica/Reino Unido, 2013)
Dir: Lars von Trier


O final pessimista e desolador da primeira parte de Ninfomaníaca ganha agora sua complementação para a história de Joe, viciada e aprisionada pelo sexo que nunca lhe satisfaz. Essa segunda metade do projeto “ambicioso” de Lars von Trier tem os mesmos ingredientes e cadência de quando começou. O filme continua se estendendo mais do que necessário, gastando muito palavreado solto, ainda que o percurso torto da protagonista ganhe mais nuances e chaves de interpretação.

O que mais incomoda aqui, como também acontecia na primeira metade, é que Joe e Seligman estão sempre prontos para encontrar respostas filosófico-científico-religioso-teóricas que expliquem os atos e atitudes de Joe no decorrer do seu percurso, agora já em fase adulta. No entanto, as metáforas das quais o diretor abusava antes aparecem com mais parcimônia aqui, deixando que a trajetória da protagonista ganhe mais destaque.

Nesse momento da história, Joe chega a um ponto em que nega a ninfomania como patologia e diz gostar de ser daquela forma, por mais que o mundo ao seu redor seja consumido por isso. As tentativas de levar uma vida “regular”, depois de ter encontrado Jerôme e superado a negação do amor, são frustradas pelo descontrole que sua condição lhe impõe e lhe exige cada vez mais, física e emocionalmente.

A ideia de família lhe volta constantemente, seja nas rememorações da companhia de seu pai e também na inclusão de uma personagem no fim do filme que vai retomar Joe à posição materna, ainda que numa situação (e ocupação) muito mais esquematizada e sexualmente controversa, para alguns. Curioso como a tragédia anunciada da família destruída surge aqui por meio de uma referência a uma cena importante de Anticristo, filme em que o pessimismo (e também a obsessão sexual) é levado a níveis intensos na obra do diretor.



É aí que entendemos toda a postura autodepreciativa que Joe apresenta desde o início do primeiro filme. Encontramos a protagonista aqui mais segura de si, de seu estado e se compreendendo mais. É como se encontrasse a maturidade de um descontrole, apesar de se questionar mais, buscando se entender melhor. Por mais que seja abrupto o momento em que Gainsbourg assume o protagonismo nas cenas de flashback, a partir de então o filme avança mais na psicologia conturbada da personagem. Vai ser o momento também que o homem Seligman revela-se (ou antes é revelado por Joe), ainda que modestamente. 

Por isso, por esse desnudamento maior dos personagens, que é uma grande pena como von Trier conduz da forma mais leviana possível o final dessa história. Sádico como sempre, o diretor não consegue permitir-se (e permitir a seus personagens, suas criaturas manipuladas) lampejos de reconforto, mesmo quando tudo já se revela tão triste, irreversível e doloroso. As atitudes finais de Seligman e Joe (e de outros dois personagens) traem tudo que vimos antes e o diretor perde assim uma oportunidade de parecer mais verdadeiro a troco de mais uma mensagem niilista da vida. Nada contra esse tipo de final, a menos que ela seja coerente com o que acabamos de ver.

domingo, 9 de março de 2014

Música de dentro

Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum (Inside Llewyn Davis, EUA/Reino Unido/França, 2013)
Dir: Joel Coen e Ethan Coen 



 
Inside Llewyn Davis, que recebeu no Brasil o apropriado subtítulo Balada de um Homem Comum (apesar do título original fazer muito sentido também), carrega esse espírito de tristeza que marca a trajetória cambaleante de seu protagonista. Ele é um cantor de folk music que vive nos Estados Unidos do início dos anos 1960 na era pré-Dylan. Quer fazer sucesso, mas não consegue.

Llewyn Davis (Oscar Isaac) é um ser errante. Seu olhar entristecido revela o homem que esbarra nas dificuldades de alavancar a carreira e também nos problemas cotidianos, com a habitual falta de grana e o fato de sempre precisar dormir na casa de alguém a cada noite. Vive como em um mundo paralelo, sempre se dando mal, à cata de pequenos trabalhos que o sustente e oportunidades que o faça deslanchar na carreira. A própria música que canta é reflexo de um estado de espírito carregado de tristeza, isso que vem lá de dentro dele, mas que nem sempre consegue se comunicar com o público.

É também com a bela (e por vezes assombrosa) fotografia de Bruno Delbonnel que o filme melhor consegue traduzir esse mundo soturno em que vive (ou vaga) o personagem. Vez ou outra há uma ponta luminosa de esperança, como o encontro que ele consegue com um importante dono de uma famosa casa de shows, mas no geral o ar lúgubre ronda esse músico talentoso, cuja vida lhe dá poucas chances.

Mas não seria um filme dos irmãos Coen se não houvesse nesse entremeio boas pitadas de humor negro. Llewyn se aproxima muito dos personagens idiotas que transitam na obra dos diretores, como que à mercê das circunstâncias fatídicas que fazem de suas vidas um emaranhado de caminhos desastrosos, embora haja aqui ainda uma grande dignidade para com esse artista tentando sobreviver na selva do mercado musical.

É aí que ganha força alguns personagens secundários, como elementos que interferem na vida do protagonista sem muita piedade. É o caso da enervante Jean (Carey Mulligan), a namorada de um amigo com quem ele teve um caso, quase esmagando o protagonista a cada frase que diz; ou o excêntrico Roland Turner, vivido por um inspiradíssimo John Goodman, com quem Llewyn pega uma surreal carona. Até mesmo o gato de um de seus amigos “inquilinos” se afeiçoa a ele, perfazendo quase como uma espécie de seu alter-ego, um animal que vive fugindo, mas sempre voltando para o mesmo lugar. 

O novo filme dos Coen é, portanto, mais um pilar sólido dentro de uma obra já madura. Aqui, por exemplo, os diretores brincam muito bem com a montagem, seja na decupagem das cenas, no timing exato de cada corte, seja na não-linearidade com que a narrativa é conduzida, especialmente na forma como a história volta ciclicamente ao ponto de partida. Tudo feito com muita segurança, apesar de não ser um filme de grandes momentos. Nem é um grande momento para Llewyn Davis, fadado a continuar apanhando da vida.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Preenchendo o vazio

Ninfomaníaca – Volume 1 (Nymphomaniac: Vol. I, Dinamarca/ Alemanha/França/Bélgica/Reino Unido, 2013)
Dir: Lars Von Trier


Não confies no contador, confies no conto”.
D. H. Lawrence

Justo por conhecer o imenso potencial marqueteiro que ultimamente passou a girar em torno dos filmes de Lars von Trier (e ao redor de sua própria persona), muitas vezes mais atrapalhando do que ajudando os próprios projetos (alô, Melancolia!), é preciso olhar muito cuidadosamente para seus trabalhos. Ninfomaníaca é exemplo dos mais curiosos porque muito do extra-fílmico já parecia antecipar a experiência do fílmico, o que nesse caso é um grande problema.

Isso porque não é um filme puramente sobre uma viciada em sexo, mas sobre uma mulher que descobre uma pulsão incontrolável, que culmina num desejo que nunca se concretiza. Existe certamente muita complexidade nisso, e essa primeira parte do longa consegue desenhar com muitos contornos e alguns tropeços pretensiosos a jornada dessa jovem que se deixa levar por seus instintos.

A frase de D. H. Lawrence, portanto, soa muito pertinente aos trabalhos do cineasta dinamarquês, especialmente nesse longa que veio cercado pela ideia de mostrar sexo explícito, num filme de cinco horas dividido em duas partes e que promete uma versão mais hardcore a ser lançada posteriormente. Toda essa conversa só parece eclipsar a própria história, para além do que o diretor já faz, no filme, para tirar atenção dela mesma.

Von Trier abusa de certas simbologias e teorias que surgem das conversas entre Joe (Charlotte Gainsbourg) e Seligman (Stellan Skarsgård). Ele encontra essa mulher toda machucada perto de casa, leva-a para dentro, cuida dela e depois ouve sua história de volúpia e desesperança, de como se moldou como uma jovem fria e sempre à busca de homens que possam aplacar seu apetite sexual. Há ainda os grafismos que o filme estampa na tela quase como traduções óbvias do que o espectador vê (como o itinerário de um carro ao estacionar, visto do alto).

Seligman, por exemplo, chega à brilhante conclusão que as estocadas que Joe recebeu, na frente e atrás, durante sua primeira transa (e que foram ideograficamente representação na tela em dígitos enormes) fazem parte da sequência numérica Fibonacci. Ok, bela observação, mas e daí? O que isso contribui para a narrativa, para o conto cruel e íntimo daquela mulher, para sua jornada de perdição?

Esses recursos acabam desviando a atenção da própria história, do próprio conflito da personagem que se desenha aqui na sua gênese. Por entre maneirismos e pretensões, von Trier esconde em seu filme a trajetória patológica de Joe, vivida enquanto jovem por Stacy Martin. A ninfomania manifesta-se nela, como em tantas mulheres, como um comportamento que atrapalha sua vida, sua convivência com os demais e a torna insensível, egoísta, amarga. Não à toa é uma desesperançosa Joe que vai chegar à casa de Seligman tempos depois.


Num dos encontros mais fortes do filme, Joe recebe a visita de Mrs. H, vivida intensamente (e talvez por demais acima do tom) por Uma Thurman. Ela e seus filhos vão à casa da mulher que fez a cabeça de seu marido e por quem ele quer largar tudo, a despeito da recusa da própria Joe em permanecer com ele. Ela é o pivô da destruição de uma família, mas no fundo, como ela mesma afirma, não dá a mínima para aquilo, pouco lhe importa quem irá sofrer por conta do seu “estilo de vida”. 

Nem quando o filme, lá no final, faz a protagonista retornar a uma peça importante de seu passado, prometendo um enlace amoroso que ela sempre se recusou a sentir, que Joe consegue se libertar. É quando ela diz ao homem: “preencha todos os meus buracos”. No entanto, por mais que ela transe, por mais que exista uma vontade de abraçar o amor, mesmo assim o vazio continua lá, emperrando a felicidade. Von Trier conclui muito bem, com uma ponta habitual de pessimismo, uma narrativa que, apesar de ser metade da história que quer contar, fecha-se com coesão, além de ainda prometer muito sexo (e dor) pela frente. O resultado bem que podia vir num filme mais sóbrio.

sábado, 1 de março de 2014

Palpites para o Oscar 2014



Mais uma vez vamos nos divertir com a sempre muito óbvia premiação do Oscar apontando aqui alguns palpites para os vencedores da noite de amanhã. Este ano, diferente de muitos, os filmes nas categorias principais me parecem, na maioria, bem bons, mas o melhor é que nenhum deles é vergonhoso, como já pintaram alguns assim em anos anteriores. Abaixo, em negrito, minha aposta para os vencedores das principais categorias, rápidos comentários e minha ordem de preferência dos indicados.

Melhor Filme

12 Anos de Escravidão
Capitão Phillips
Clube de Compras Dallas
Ela
Gravidade
O Lobo de Wall Street
Nebraska
Philomena
Trapaça

12 Anos de Escravidão, além da competência técnica e narrativa, vem com todo o peso da importância histórica, do tema contundente, numa embalagem clássica que parece ser ideal para o tipo de prêmio que a Academia outorga. Mas Gravidade cresceu bem nas últimas semanas, apesar da barreira do filme de gênero ainda parecer uma dificuldade a ser enfrentada. Trapaça é esse filme que tem tudo pra ser azarão, apesar do gosto dos americanos por esse produto sub-scorsesiano, além da paixão da Academia por David O. Russel. Pobre Martin Scorsese que fez um filme corajoso, despojado, cínico e sujo, mas que deve ser injustamente esnobado aqui.

Minha ordem de preferência: O Lobo de Wall Street, Nebraska, Gravidade, Ela, Capitão Phillips, Philomena, 12 Anos de Escravidão, Clube de Compras Dallas, Trapaça.


Direção

Alexander Payne (Nebraska)
Alfonso Cuarón (Gravidade)
David O. Russell (Trapaça)
Martin Scorsese (O Lobo de Wall Street)
Steve McQueen (12 Anos de Escravidão)

Aqui é o lugar de premiar o mexicano Cuarón, e merecidamente. O trabalho de mise-en-scène de Gravidade possui certa complexidade, como muita coisa no filme. Há de se dizer que Payne amadureceu bem aqui com Nebraska, mas difícil uma vitória pra ele. Pode até dar O. Russel com aquele filme sem personalidade dele. Ou McQueen com a direção clássica, mas seria um reconhecimento interessante caso Gravidade desponte mesmo como vencedor na categoria principal. Scorsese, que é bom, ninguém quer premiar.

Minha ordem de preferência: Martin Scorsese, Alfonso Cuarón, Alexander Payne, Steve McQueen, David O. Russell.


Ator

Bruce Dern (Nebraska)
Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão)
Christian Bale (Trapaça)
Leonardo DiCaprio (O Lobo de Wall Street)
Matthew McConaughey (Clube de Compras Dallas)

Não é só porque faz muito tempo que DiCaprio devia ter ganho um Oscar que ele merece dessa vez. É que a atuação dele é boa mesmo, a alma do filme, dono de um personagem escroto. Mas a transformação física de McConaughey, mais seus trejeitos interioranos, parecem imbatíveis, ainda mais agora que ele deu uma grande alavancada na carreira. Dern é espetacular em cena, mas é uma atuação minimalista demais pra vencer. E sinceramente não sei o que Bale faz aqui roubando a vaga que devia ser de Tom Hanks por Capitão Phillips.

Minha ordem de preferência: Leonardo DiCaprio, Bruce Dern, Matthew McConaughey, Chiwetel Ejiofor, Christian Bale.


Atriz

Amy Adams (Trapaça)
Cate Blanchett (Blue Jasmine)
Judi Dench (Philomena)
Meryl Streep (Álbum de Família)
Sandra Bullock (Gravidade)

Outra atuação imbatível para o gosto dos votantes é a de Blanchett. Ela é muito querida em Hollywood e pegou uma personagem que dá a uma grande atriz muito material dramático para trabalhar. E basta se lembrar do punhado de outros atores que já venceram por filmes de Woody Allen; mais um tá no papo. Mas essa é talvez a categoria mais forte. Streep mereceria muito mais aqui do que por sua encarnação de Margaret Tatcher. Adams é a melhor coisa de Trapaça, e Gravidade é a melhor atuação de Bullock (ou ainda a única grande atuação dela). Mas bem que Dench merecia mais pela simplicidade cheia de nuances de sua personagem.

Minha ordem de preferência: Judi Dench, Cate Blanchett, Meryl Streep, Sandra Bullock, Amy Adams.


Ator Coadjuvante

Barkhad Abdi (Capitão Phillips)
Bradley Cooper (Trapaça)
Jared Leto (Clube de Compras Dallas)
Jonah Hill (O Lobo de Wall Street)
Michael Fassbender (12 Anos de Escravidão)

Uma das grandes forças de Capitão Phillips é de não transformar o antagonista num vilão puramente maniqueísta; o pirata somali possui enfrentamentos dentro de seu próprio grupo e a atuação de Abdi é exemplar ao equilibrar força, crueza e vulnerabilidade. Mas Leto vem com tudo nessa temporada, mais beneficiado ainda pela transformação física; uma pena porque seu personagem serve como pura muleta no filme. Hill teria algumas boas chances aqui, principalmente para não deixar O Lobo de Wall Street sair de mãos abanando. Cooper é perfumaria.

Minha ordem de preferência: Barkhad Abdi, Jonah Hill, Michael Fassbender, Bradley Cooper, Jared Leto. 


Atriz Coadjuvante

Jennifer Lawrence (Trapaça)
June Squibb (Nebraska)
Julia Roberts (Álbum de Família)
Lupita Nyong'o (12 Anos de Escravidão)
Sally Hawkins (Blue Jasmine)

Aqui parece haver uma pequena disputa. A Academia adora Lawrence, sua persona sapeca, mas Nyong'o parece a grande favorita por uma atuação dura e sofrida, com uma carga dramática que gera atuações bem vistosas para os votantes. Parece irresistível. E quem diria, Roberts retorna com uma grande atuação, há tempos que ela nos devia algo assim. Há um belo reconhecimento para Hawkins aqui, mas não vai muito longe, assim como Squibb, ótimas sem seus respectivos filmes.

Minha ordem de preferência: June Squibb, Julia Roberts, Lupita Nyong'o, Sally Hawkins, Jennifer Lawrence.


Roteiro Original

Blue Jasmine
Clube de Compras Dallas
Ela
Nebraska
Trapaça

Seria uma grande injustiça Ela perder esse prêmio aqui. É o franco favorito, mas existem acusações de plágio rolando aí que podem prejudicar bastante o filme, mas acredito em sua vitória. Não seria nada mal a maturidade de Nebraska ser reconhecida, mas essa é uma chance difícil. Ruim é se Trapaça levar a melhor, caso percebam que não tem muitas chances em outras categorias. Ou Clube de Compras Dallas que desenha tão mal seus personagens, especialmente os coadjuvantes. Allen continua sendo Allen e sua indicação aqui já tá de bom tamanho.

Minha ordem de preferência: Nebraska, Ela, Blue Jasmine, Clube de Compras Dallas, Trapaça.


Roteiro Adaptado

12 Anos de Escravidão
Antes da Meia-Noite
Capitão Phillips
O Lobo de Wall Street
Philomena

Seria bem bonito ver o trio de Antes da Meia-Noite vencendo aqui, né? Ou o trabalho de adaptação de uma história cheia de insanidade como é O Lobo de Wall Street. Mas isso parece um sonho distante. 12 Anos de Escravidão confirmaria o favoritismo se vencesse aqui e parece a opção mais provável. Capitão Phillips perdeu muita força nos últimos tempos da temporada. Philomena, assim como sua protagonista, não ameaça ninguém.

Minha ordem de preferência: O Lobo de Wall Street, Antes da Meia-Noite, Capitão Phillips, Philomena, 12 Anos de Escravidão.


Filme em Língua Estrangeira

Alabama Monroe (Bélgica)
A Caça (Dinamarca)
A Grande Beleza (Itália)
A Imagem que Falta (Camboja)
Omar (Palestina)

Esse é uma categoria bem difícil de prever. A Grande Beleza vem ganhando muitos prêmios, parece favorito. Mas Alabama Monroe é o tipo de história tocante que o pessoal da Academia adora. A Caça também foi muito bem recebido e é dirigido por um cineasta conhecido da indústria americana, Thomas Vinterberg. A disputa está aí e eu apostaria no representante italiano e seus tom felliniano (sendo o próprio Fellini um diretor que a Academia já premiou nada mais do que quatro vezes antes nessa mesma categoria). A Imagem que Falta é um filmão, não faria feio se ganhasse. Omar é um azarão, apesar de seu diretor já ter levado seu filme anterior a concorrer nessa categoria.

Minha ordem de preferência: A Grande Beleza, A Imagem que Falta, A Caça, Omar, Alabama Monroe.


Animação

Os Croods
Ernest & Célestine
Frozen – Uma Aventura Congelante
Meu Malvado Favorito 2
Vidas ao Vento 

Não vi o filme do Miyazaki, assim como a maioria dos indicados, mas seria uma ótima oportunidade de premiar um grande diretor, que a Academia adora, por esse que é seu último filme como diretor. Mas Frozen tem sido uma unanimidade e desponta com favoritíssimo. 

Minha ordem de preferência: Ernest & Célestine, Os Croods, Frozen – Uma Aventura Congelante.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Dores e lamentos

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave, EUA/Reino Unido, 2013)
Dir: Steve McQueen 



Arriscado é tudo aquilo que 12 Anos de Escravidão não é. O diretor Steve McQueen escolheu a forma mais clássica e sem maneirismos estilísticos para contar a história de luta de um negro nos EUA, nascido liberto, mas sequestrado e vendido como escravo no sul dos Estados Unidos. No entanto, o filme trafega sob um risco: justamente por manter uma abordagem tradicional, o longa beira com muita facilidade o panfletarismo, o didático pelo choque e o puro tom de denúncia.

Não há dúvidas do horror, desumanidade e grotesquidão que existe no ato de subjulgamento de alguém pela cor da pele, escravizando-o, algo que possui razões muito complexas e que deixou marcas sociais profundas que perduram até os dias correntes. O risco do filme é justamente esse, passar pelas questões que envolvem um tipo de história injusta e dolorosa sem ter nada de muito novo para acrescentar, nem uma maneira diferente de contá-la.

O “risco”, porém, tem dado bons resultados. A história de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) tornou-se uma das francas favoritas a vencedor do Oscar. Além das críticas muito positivas que vem angariando, aliado a tantos outros prêmios nessa temporada americana. É o tipo de filme que ganha força pela nobreza do tema, principalmente pela opção clara por um certo realismo, porque não parece haver muito a dizer além de mostrar o quão dura e humilhante é a vida de um escravo.



É muito curioso olhar para os filmes anteriores de McQueen e perceber ali um cineasta sagaz, com personalidade, disposto a fugir do óbvio. Hunger e Shame, especialmente esse primeiro por envolver questões sócio-políticas, têm um traço forte de originalidade e inquietação. Com 12 Anos de Escravidão, o diretor preferiu o óbvio. Está tudo lá: todo tipo de violência sofrida pelos escravos, a brutalidade dos senhores (com uma pitada de generosidade por parte de uns outros, para mostrar que nem todos são maus), a insanidade cruel dos capatazes, o ciúme da senhora, a idoneidade do abolicionista, as humilhações e agressões físicas.

Daí que é possível suscitar a questão: como falar de escravatura sem tocar nesses assuntos, sem passar por essas constantes? Maneiras para se contar qualquer história existem aos montes, mas a opção de McQueen é a mais classicista possível. Apesar disso, existe um fator que muito favorece as escolhas narrativas do filme: ele nunca é autopiedoso, não está ali para pieguices, para simplesmente chocar. É doloroso, claro, inspira indignação, mas nunca falseia nada. 

Nesse sentido, talvez a cena mais forte do filme nem seja a sessão de açoite sofrida por Patsey, a escrava vivida por uma competentíssima Lupita Nyong’o, mas sim, na primeira parte do filme, quando Solomon confronta uma escrava que chora copiosamente por sua condição de escrava, pelos filhos que perdeu, e, mais ainda, clama pelo direito de se lamentar daquela forma. A dor e o pranto estão escancarados ali como espalhados por todo o filme. A escolha de McQueen é o confronto direto, sem máscaras. Mas não deixa de ser também um tanto conservador.