quarta-feira, 23 de julho de 2014

6º Paulínia Film Festival: Parte I

Não Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho (Idem, Brasil/Espanha, 2014)
Dir: Daniel Augusto


O suntuoso Theatro Municipal Paulo Gracindo recebeu ontem a cerimônia de abertura da 6ª edição do Paulínia Film Festival. Uma pena que tenham escolhido um filme tão frágil narrativamente para abrir os trabalhos. Não Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho, na melhor das hipóteses, é uma cinebiografia careta, que está ali para pontuar os fatos marcantes da vida de uma personalidade.

Paulo Coelho carrega o sucesso de vendas de seus livros, tem o “peso” de ser um dos escritores brasileiros mais traduzidos no mundo (perde só para Shakespeare, como insiste em afirmar um letreiro no final), a despeito de muitos torcerem o nariz para o tipo de literatura que ele faz. Mas o filme desvia dessa polêmica como um bom chapa-branca e nem chega a fazer um esforço para tentar entender o porquê de todo esse sucesso de público (numa sequência o vemos escrevendo o manuscrito de um livro; corte em elipse e ele já recebe em casa o livro impresso e publicado).

Daí que, na pior das hipóteses, esse é um longa anódino, intercalando várias fases de sua trajetória anárquica e transgressora, aura que o filme busca conferir ao personagem. A fase mais jovem marca os embates de Paulo (Ravel Andrade) com a família, especialmente com o pai linha dura, enquanto ele já sonha em se tornar um escritor. Júlio Andrade interpreta um momento intermediário em que Coelho busca novas experiências, com drogas ou viagens transcendentais espiritualistas. Há ainda o Paulo atual (Andrade de novo, sob maquiagem pesada), ranzinza, mas ainda dono de um espírito “libertário”.

É visível todo um cuidado de produção muito grande, em especial fotografia “arrojada”, que marca presença forte no filme como fator estético que salta aos olhos. Porém, esse exagero no visual só reforça a artificialidade de imagens que não se sustentam em conjunto na narrativa.

Estão lá momentos como o encontro e parceria de Coelho com o cantor e compositor baiano Raul Seixas (Lucci Ferreira), o quase suicídio que abre o filme, a aproximação com o satanismo e, claro, o percurso pelo famoso Caminho de Santiago de Compostela. Todos esses fatos estão ali acenando para o espectador para mostrar que existem, porém soam como figuras meramente ilustrativas. 

Certamente que na seara das cinebiografias é preciso lidar com a dificuldade de manejar esses elementos, o que não acontece aqui. O roteiro é primário em não só não conseguir amarrar as coisas, como falta originalidade nas próprias falas dos personagens, são clichês, sem apuro. Um filme que pareceu embarcar de cabeça nas viagens tresloucadas de seu biografado.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

6º Paulínia Film Festival


Desde quando o Festival de Paulínia surgiu, lá em 2008, sempre tive a impressão de um evento suntuoso, que já chegava com força no cenário de mostras e festivais de cinema, fenômeno em crescimento pelo Brasil. Curiosidade nunca faltou de poder participar de alguma edição. Desejo será atendido.

Desta vez e eu estarei lá, à convite do evento, para respirar cinema e traduzir em palavras o que me for oferecido em termos de imagens e sons em movimento. Este ano com uma novidade para os soteropolitanos: escreverei algumas matérias no Jornal A Tarde. Mas também manterei por aqui a cobertura crítica dos filmes, especialmente das mostras competitivas de longas e curtas nacionais. O evento começa nessa terça e vai até domingo, 27.

Nessa sexta edição, depois de estanque por dois anos por entraves políticos (na verdade, no final do ano passado houve um revival do festival, mas sem competição), o festival volta com grande força, pela sua premiação volumosa em dinheiro e pela atração de filmes nacionais inéditos de gente muito boa e interessante. Como diferencial, haverá, pela primeira vez, exibição de filmes internacionais, parceria com a distribuidora brasileira Imovision, que comemora em Paulínia aniversário de 25 anos na ativa. 

Portanto, vem aí mais uma maratona. Estou aberto aos filmes, veremos o que eles nos reservam. Para acessar a página oficial do evento, clica aqui.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Entre mistérios e apatias

O Homem Duplicado (Enemy, Canadá/Espanha, 2013)
Dir: Denis Villeneuve


Curioso pensar que existe uma personalidade cinematográfica forte nesse filme, adaptado da obra homônima de José Saramago, também ele senhor de uma escrita marcadamente pessoal. Numa transposição para o cinema, esse tipo de material exige um pulso firme. Villeneuve parece saber muito bem disso, dirige o longa com respeito aos mistérios que a história proporciona, muito próximo de seu universo de tensões e intrigas.

No entanto, isso não quer dizer que a obra, no cinema, seja necessariamente satisfatória. É certo que Villeneuve estabelece um clima de estranheza aqui, mas em grande parte do longa não parece haver muito o que fazer com isso, apostando o tempo todo numa cansativa atmosfera de desespero, para além do tom surreal mal ajambrado, pincelado aqui e ali na trama.

Ora, o professor de História Adam (Jake Gyllenhaal) descobre, por acaso, um duplo seu, homem idêntico que vive na mesma cidade. Segue-o e fica visivelmente desparafusado quando atesta a semelhança entre ambos, não sabe o que fazer depois disso. Tem um relacionamento levemente conturbado com a namorada (Mélanie Laurent); no outro polo, seu sósia Anthony trabalha como ator secundário em pequenas produções, possui comportamento mais arisco e lida com o ciúme constante da esposa grávida (Sarah Gadon).

São esses pequenos conflitos que permeiam a rotina já instável dos dois homens, o que só se agrava com a descoberta da estranha duplicidade. Há certa melancolia posta em cena, ajudada por uma trilha sonora soturna e bela, mais fotografia quente e não naturalista. Ainda que a história, não contente com essa atmosfera de um quase torpor, invista em alguns lances misteriosos envolvendo visões e sonhos que perturbam os protagonistas, a narrativa não abandona sua apatia.

Na terça parte do filme, a coisa ganha outros elementos porque alguém decide deixar de ficar estupefato com aquela situação e fazer algo. Mas é justo quando o roteiro desanda, as situações soam forçadas para que algo inevitável (e trágico) aconteça e uma curiosa reviravolta tome conta da história no seu final. Quando o filme resolve se mexer, é para pior.

Existe ainda uma impressão forte de que as enigmáticas imagens que envolvem uma chave, reuniões secretas numa casa misteriosa e (mulheres-)aranhas existam como algo de simbólico, tudo envolto numa névoa de segredos da qual o filme está pouco interessado em desvendar. Não oferece nem mesmo caminhos perceptivos mais direcionados, ainda que sem a pretensão de se revelar por completo (como acontece no melhor David Lynch, por exemplo); dificulta mais do que ajuda. 

Esse é o braço surrealista do filme, contribuindo muito pouco para uma já apática história, ou antes tem o objetivo de causar certa impressão no espectador, ainda que gratuita. Está tudo tão concentrado em parecer bizarro e insondável que acaba soando como mero capricho, chegando ao ápice numa cena final desconcertante. Pena que até aí muita coisa já ruiu em meio aos mistérios.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Sob o signo do fogo

Riocorrente (Idem, Brasil, 2013)
Dir: Paulo Sacramento



Há algo de positivo em ver num filme brasileiro vontade tão grande de registrar e dar conta da sensação de morar numa grande cidade de um país tão desigual quanto o Brasil. Riocorrente busca um retrato impetuoso dessa cidade cão que São Paulo pode ser, num filme que nos chega pela marca do simbolismo, exalando brutalidade a cada cena.

Por isso é uma pena enorme que uma proposta tão corajosa emperre num problema grave de roteiro: abundam ideias, falta história e faltam personagens. O discurso combativo do filme parece questionar a forma como lidamos com a imagem artística no mundo atual, fala do estado de violência, da rejeição dos oprimidos pela sociedade, da falência do cotidiano, dentre tantas outras questões que podem ser pinçadas/interpretadas por cada um. Tudo isso cuspido na tela em forma de imagens ao léu que se querem impactantes, mas que perdem sua força logo em seguida porque não encontram continuidade num discurso cinematográfico coeso.

No entanto, há uma dessas ideias a ganhar o mínimo de consistência no longa (ideia central?): a urgência de questionar o status quo, “incendiar” a cidade. Sacramento apresenta vigor interessante na forma como cria uma série de metáforas para representar a ebulição da cidade. Riocorrente rege-se pelo signo do fogo, a cena do carro incendiado em disparada na estrada é uma das imagens mais fortes do filme em termos simbólicos, fora a cena final que representa muito bem esse conceito.

A iminência da combustão parece guiar os protagonistas, sempre confrontados com situações que parecem exigir-lhes cada vez mais uma reação diante da simples angústia de estar no mundo (ou, mais especificamente, de estar em São Paulo). O problema é quando toda essa vontade de mostrar a cara bruta da cidade esbarra num mero preciosismo simbólico de cenas que gritam a “força” do filme. Daí que dispara cenas como a dos leões rugindo na jaula, cães raivosos ladrando um para o outro, ratos roendo pilhas de jornais, o sinal que insiste em permanecer vermelho. Metáforas não faltam ao filme.

Os tipos quase marginais que Sacramento escolhe para guiar sua narrativa são cheios de inquietações e angústias, mas é muito difícil dimensioná-las no filme. Renata (Simone Iliescu) divide-se num relacionamento com o namorado, o jornalista Marcelo (Roberto Audio) e o mecânico Carlos (Lee Taylor). Esse último, por sua vez, possui uma proximidade quase paternal com o menino de rua Exu (Vinicius dos Anjos), a marginalidade estampada em sua feição dura. Todos sujeitos à vibração esmagadora de São Paulo. 

Mas é difícil entender, se importar ou acreditar naquelas pessoas que se machucam, às vezes de forma a mais gratuita possível. O próprio filme nega seu passado, seu contexto, sua história; são impenetráveis. Parecem reféns de um estado de coisas socialmente conturbadas e brutais, cada um deles com seus demônios pessoais (sem que nunca tenhamos uma noção exata de quais são eles de fato). Riocorrente termina e não se sabe ao certo de onde vem e aonde quer chegar.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

André Setaro, pilar de uma cinefilia


Num ano que tem sido implacável para o cinema (e para a cinefilia baiana), acabamos de perder o crítico e professor André Setaro, mais um mentor, um apaixonado pelo cinema e um grande formador de plateias atentas. Uma perda pesada. Com seu jeitão peculiar e face dura, memória de ferro, um amor imenso pelo cinema clássico, de um passado que ele tanto venerava, o prof. Setaro certamente incentivou muitos a olharem para a 7ª arte de modo diferente, apaixonado, eu incluso no grupo. Na foto, ele comentava Hiroshima, Meu Amor, na última sessão do Cineclube Glauber Rocha. Mesmo com saúde enfraquecida, lá estava o professor, lúcido, espalhando sua paixão.

Curioso tratá-lo assim como professor já que nunca fui seu aluno. Não de sala de aula, mas todos que leram seus textos, todos que já o ouviram falar sobre cinema, aprenderam com ele a amar o que de melhor essa arte pode nos proporcionar. Aprendemos com ele a respeitar os clássicos, a não esquecer os filmes de outrora que construíram as bases da linguagem cinematográfica. E sorte daqueles que o tiveram como docente, foram muitos os que ele formou nas salas de aula da Faculdade de Comunicação da UFBA.

Minha admiração por Walter da Silveira, aliás, passa pelo prof. Setaro porque foi através dos escritos dele que eu vim conhecer Dr. Walter, sua importância como figura preponderante para a construção de uma cinefilia que se frutificou na Bahia.

O prof. Setaro possuía um blog que é referência fundamental para os amantes da 7ª arte, o Setaro’s Blog, além de manter uma coluna no Terra Magazine. Escreveu sobre cinema por mais de 30 anos no jornal Tribuna da Bahia. Alguns de seus textos foram editados nos três volumes da coleção "Escritos sobre Cinema – Trilogia de um Tempo Crítico", além de ter lançado uma revisão do cinema local com o Panorama do Cinema Baiano, reeditado em 2012 pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. 

Que no descanso encontre os mestres do cinema, serelepes, no paraíso, especialmente Dr. Walter que solidificou uma querida cinefilia na Bahia, tendo continuidade no trabalho e na paixão declarada do prof. Setaro.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Poética do amor bandido

Amor Fora da Lei (Ain’t Them Bodies Saints, EUA, 2013)
Dir: David Lowery 



Filme que causou certa sensação no Festival de Sundance em 2013, Amor Fora da Lei segue o padrão básico da produção indie com histórias pessoais de gente machucada, filmada de forma naturalista, câmera levemente trêmula e com certo ar de peninha. É uma fórmula já desgastada, que vez ou outra encontra um elemento que faz variar um pouco a equação.

Neste caso aqui, até que se ensaia um desses elementos, muito embora o resultado seja ainda um filme arrastado e mesmo genérico em termos de produção independente. O diretor e roteirista David Lowery utiliza a ambientação do western e do filme policial para tratar, no fundo, de uma história de amor entre um pequeno bandido e uma moça bonita que se sujeita a uma vida de fugas e fora dos padrões sociais.

Casey Affleck vive esse homem de fala mansa, olhar carinhoso, mas que guarda o gosto pelo perigo e o destemor à lei dos homens. Vive de pequenos roubos e vai ser preso numa emboscada em que ele, a amada e seu bando são acuados pela polícia. Ele vai para a cadeia. Enquanto isso, Ruth, personagem de Rooney Mara, vive à espera do retorno do príncipe, grávida e sozinha. Depois de quatro anos, perto de seu julgamento, ele consegue fugir.

As coisas complicam-se com a entrada em cena do policial Patrick (Ben Foster), sua queda por Ruth estampada no rosto tímido, responsável também pela busca ao foragido. A protagonista, então, vê-se cada vez mais dividida, caos e ordem surgindo como saídas possíveis.

Com tom melancólico, o filme busca uma iluminação natural que dê conta da paisagem árida e bucólica do Texas interiorano dos anos 1970. Os próprios personagens movimentam-se com certa vagarosidade, refletindo sobre sua condição, tentando achar o caminho certo entre a lei e a paixão. 

É nesse ponto que o filme mais parece estagnado do que necessariamente introspectivo, investindo em pequenos conflitos que pouco ajudam no todo, soam desinteressantes. Mas o que vale aqui é essa poética do amor bandido, colocando seus personagens presos a destinos incertos, cheios de armadilhas, perigosos, ainda que pareça pulsar um amor verdadeiro, uma bonita carga afetiva, entre eles. Nada de muito novo, nem mesmo uma história assim apaixonante.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Fale com eles

O que os Homens Falam (Una Pistola em Cada Mano, Espanha, 2014)
Dir: Cesc Gay 


Sabe aquele clichê da mulher que conversa pelos cotovelos? Mais do que personagens de um filme de Eric Rohmer? Pois bem, essa produção espanhola inverte um tanto a coisa e reúne um time de homens de meia idade com conflitos amorosos e pessoais os mais diversos, esbarrando na dificuldade de lidar e entender seus próprios anseios.

Daí que o título brasileiro parece bem mais direto e apropriado que o original em espanhol, mais enviesado. Isso porque o que esses personagens querem (e precisam) é expressar suas angústias, receios, tentar salvar um relacionamento (ou se salvar), começar outro (ou mesmo enganar alguém), superar obstáculos.

É a típica história episódica e de esquetes independentes que captura esses homens em situações chave de suas vidas amorosas (e sexuais), indo desde o cara que descobre a traição da mulher, outro com problemas de impotência, aquele que adoraria voltar para a ex-esposa, o garanhão casado que quer se dar bem com mulheres aparentemente fáceis, etc. São as faces da crise amorosa que acomete esses homens, temperada com um humor leve, sem pesar a mão.

A terapia encontrada é por em prática esse despejar de sentimentos, coisa que vai acontecendo aos poucos em cada situação, dada a retração natural do homem em expor seus problemas íntimos. Isso faz de O que os Homens Falam um filme devidamente masculino, no fim das contas, para além do fato de que cada episódio evolui muito bem, complexificando personagens aparentemente simples. 

Apoiado por um elenco masculino de primeira (ainda que as atrizes também deem um show) e um texto agradável que não estereotipa ninguém, O que os Homens Falam parece sempre em bom nível. Se não existe um grande momento, também não há cenas descartáveis porque sempre encontraremos personagens cativantes em meio a seus demônios.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Primeira classe

O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel, EUA/Alemanha, 2014)
Dir: Wes Anderson 


Wes Anderson alcançou um momento da carreira em que tem domínio pleno de um estilo e condições ideais para colocá-lo em prática. Corre o risco de soar repetitivo, mas seus filmes têm sempre um quê de delícia que nos faz degustar cada frame deles. O Grande Hotel Budapeste é mais um passo consistente nessa trajetória, talvez mais largo que o habitual, pois mira num certo tipo de inevitabilidade de enredo gostosa de acompanhar, sem necessariamente romper com nada de muito rígido em termos de narrativa que Anderson vem solidificando.

É um cinema classudo, apostando muito numa cenografia arrojada, exuberante, colorida e simétrica, fake até, com fotografia fina e berrante, figurinos que fazem questão de serem notados. Tudo isso responsável por entendermos o universo nonsense em que as mais variadas circunstâncias podem surgir, em que os mais diversos tipos emergem, cada qual dono de personalidade excêntrica e marcante.

É um passo amplo também pela gama de personagens que fazem parte do jogo de intrigas e reviravoltas dessa história, baseada nos textos do escritor austríaco Stefan Zweig. Consequentemente, Anderson tem à disposição não só um time colossal de grandes atores, mas um grupo de profissionais que parece entender muito bem a cabeça desse cineasta, até pela experiência que alguns acumulam por já terem trabalhado antes em filmes do diretor, projetos sempre esteticamente muito próximos.

O filme começa com o encontro entre o atual dono do Hotel Budapeste (F. Murray Abraham) e um hóspede escritor (Jude Law) no estabelecimento que intitula o filme, então um lugar imponente, mas sem o brilho de seus dias áureos. Ele relata como começou trabalhando no hotel como recepcionista (vivido em sua fase jovem por Tony Revolori), no período entreguerras, apadrinhado pelo competentíssimo concierge do lugar, M. Gustave (Ralph Fiennes). Da aventura que passam juntos, ao envolver a herança de uma rica anciã (Tilda Swinton) que deixou para Gustave uma rara peça de arte a contragosto de sua família, que então os persegue impiedosamente, nasce entre eles dois uma sincera amizade.

A narrativa ganha ares mais divertidos especialmente quando sai do hotel, algo talvez surpreendente caso desconheça-se a predileção de Anderson pelo filme de estrada, pela coisa da fuga ou de uma busca empreendida por seus personagens. O diretor sente-se livre para fazê-los percorrer cenários os mais diversos (até mesmo outros hotéis de luxo), esbarrando-os numa série de pessoas tão ou mais excêntricas quanto eles, angariando afetos e desamores.

Com esse intuito, entrega ao espectador uma história coesa, gostosa de acompanhar. Faz-nos torcer pelos mocinhos, e nem mesmo uma pitada de maniqueísmo (especialmente no retrato dos vilões que perseguem a dupla principal, os tipos nazistas interpretados por Willem Dafoe e Adrian Brody) soa problemática naquele ambiente assumidamente farsesco, mas muito cuidadoso com seus personagens e conflitos. 

Para além da embalagem bem embrulhada que acusa de cara a personalidade do diretor por trás da obra, O Grande Hotel Budapeste cativa via história aventuresca com muita facilidade. Algo assim já vinha equilibrado em alto nível no longa anterior, Moonrise Kingdom. Porém, ganha aqui, senão o filme mais maduro de Anderson, pelo menos mais uma de suas grandes realizações.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Vênus nua

Sob a Pele (Under the Skin, EUA/Reino Unido/Suíça, 2013)
Dir: Jonathan Glazer 


A impressão mais forte durante a exibição de Sob a Pele é de se estar, do início ao fim, diante não de uma obra que se utiliza dos elementos da ficção científica, mas sobretudo de um genuíno exemplar do gênero. O mais misterioso, mais intrigante, estimulante, cheio de interrogações que permanecem com o espectador e que o interpelam.

Glazer é dos cineastas raros que nunca busca o óbvio em seus trabalhos, realizando filmes com muita personalidade, mas diferentes entre si. Flertava com o pop e o filme de máfia em Sexy Beast, buscou a estranheza em Reencarnação, história muito realista apesar da impressão inicial, e agora se entrega à obscuridade de uma trama sem caminhos fáceis.

Sob a Pele acompanha uma personagem misteriosa (Scarlett Johansson), tudo indica ser uma alien que chega à Terra, assume corpo feminino e busca presas masculinas. Ela conta com a ajuda de um também misterioso personagem motoqueiro (terráqueo? um alien já estabelecido aqui? um escravo?). Mas sua maior arma é o próprio poder de sedução do qual tem plena consciência de possuir.

O grande trunfo do filme é nunca entregar suas artimanhas de badeja. É uma experiência de imersão, embora nem tudo seja indecifrável, tipo de coisa que exige participação do espectador para significar o que vê na tela. As cenas iniciais, por exemplo, banhadas em som e luz instigantes, apontam para a chegada desse ser na Terra, ganhando forma, enquanto aprende, não se sabe bem como, o inglês bretão para se comunicar com as pessoas na Escócia onde ela aporta e passa a atacar os homens desavisados. Para quê finalidade, não se sabe.

Aliás, há um trabalho de som e trilha sonora muito forte aqui, ajudando Glazer a estabelecer, desde o início, o tom soturno dessa história que vai ganhando ares cada vez mais bizarros. A cena do primeiro “ataque” é qualquer coisa de incomum (e fenomenal) pela inevitabilidade de como se dá, acrescida, na segundo investida, de outros detalhes peculiares.



Se a narrativa do filme é entregue a esse todo intrigante, interessante perceber como essa protagonista é fisgada pelo desconhecido dos segredos humanos. Ela vai descobrindo, aos poucos, seu novo corpo e também a gentileza de alguns homens (eles não são todos iguais, afinal!). Ela, que parecia senhora da situação, vacila e passa a questionar sua posição, buscando mesmo experimentar algo que lhe pareça novo, anormal, também misterioso para si.

Nesse momento, há uma cena quase banal, mas fundamental para tentar entender os descaminhos dessa personagem na Terra: depois de seduzir mais uma vítima (ou se fazer de seduzida), ela entra no jogo dele, vai para sua casa e aceita deitar-se com o gentil estranho. Mas no momento exato da penetração, afasta o homem, busca um abajur e ilumina o próprio sexo, como se questionasse o que de fato tem ali que aqueles homens tanto almejam. 

É o mistério de se descobrir mulher, e, especialmente, de ter um corpo que inspira (e busca?) satisfação em outro corpo, apesar dela não entender bem como e por que isso acontece. Johansson, desnudando-se para compor essa personagem com uma frieza exemplar, acaba, no fundo, revestindo-se de segredos, fisgada pelo enigma humano, perdendo-se nele.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Experimentando o mundo

O Menino e o Mundo (Idem, Brasil, 2013)
Dir: Alê Abreu


Há algo de muito arriscado em O Menino e o Mundo. Apesar do protagonismo infantil e atmosfera lúdica, trata-se de uma animação com muito de subjetivo, repleta de simbolismos, crítica social e aposta na sensibilidade e envolvimento do público para compreender os subtextos que são apresentados. Mas o risco tem gerado bons frutos: o filme é o atual vencedor do Festival Internacional de Animação de Annecy, o mais importante de todos nesse formato (depois de passagem por vários outros festivais no mundo) e volta em cartaz aos cinemas brasileiros depois dessa vitória.

É um grande passo para Alê Abreu já que seu novo trabalho distancia-se de seu longa anterior, Garoto Cósmico, de tom claramente mais infantil, apesar do traço de ludicidade marcar presença forte em ambos os filmes. Com pouquíssima tradição no campo da animação, Alê Abreu prova que o cinema brasileiro também tem vigor nessa seara.

Das escolhas narrativas que apelam para a subjetividade do público, O Menino e o Mundo configura-se como um trabalho belíssimo de imersão. É certo que o espectador vê e ouve através dos sentidos e da sensibilidade emocional do menino que descobre as coisas do mundo ao redor. Ele vive no interior, vida simples, mas repleta de pequenas alegrias que ele encontra nas belezas naturais à sua disposição, a despeito da pobreza da família. Vê seu pai ir embora tentar a vida na cidade grande. Inconformado, o garoto parte e se perde no mundo para achar o pai.

Em termos formais, existe claramente um desenho de produção e de personagens cuidadosíssimo, um espetáculo visual de encher os olhos com seu traço simples, mas certeiro e criativo. Porém é no trabalho fenomenal de som e música que o filme cresce. A própria escolha pela ausência de diálogos abre espaço para que a criação sonora dê vida e personalidade não só aos personagens, mas também aos cenários narrativos, muitas vezes com uma complexidade enorme de ruídos e sons. É uma experiência realmente agradável aguçar os ouvidos para um projeto em que o sensorial é tão bem explorado.

E mesmo a bela canção Aos Olhos de uma Criança, cantada pelo rapper Emicida nos créditos finais, é retrabalhada no decorrer do filme, mas com um detalhe: embaralhando as palavras. Isso porque no universo diegético da narrativa, as falas dos adultos não são compreensíveis pelo menino, soam estrangeiras. É mais uma forma de imergir nas percepções sensoriais do garoto diante de um mundo cheio de mistérios.

Há de se notar, no entanto, que o filme só perde quando resolve romper com o universo da animação, acrescentando algumas imagens reais de desmatamento (retiradas, na verdade, de longas brasileiros como Iracema – Uma Transa Amazônica). É o lado crítico-ambiental que se faz presente aqui, mas soa mesmo desnecessário porque, via ludicidade, o filme já consegue esse feito, sem a deixa de história panfletária. 

Ademais, existem outras questões de cunho social que se fazem presentes e nem por isso precisam de equivalentes live action: o contraponto entre campo e cidade; a exploração dos trabalhadores braçais, gente humilde em busca de oportunidades na selva de pedra; o capitalismo que padroniza produtos e segrega a sociedade, enquanto lucram os já poderosos. Tudo isso perpassa pelo caminho desse menino que experimenta o mundo, quase ingenuamente, mas que aprende muito com o que apreende das coisas da vida.