segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Abraço de urso

O Regresso (The Revenant, EUA, 2015) 
Dir: Alejandro G. Iñárritu


O mexicano Alejandro González Iñárritu tomou gosto por essa coisa de fazer estripulia com a câmera. Ganhou lugar cativo na indústria hollywodiana e, depois de ter engrossado o currículo com Oscar de filme, direção e roteiro por Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), quis repetir o feito apostando em algo suntuoso, com tom de “desafiador”.

Porém, uma simples transferência de conceito nem sempre tem os mesmos resultados. Aquilo que funciona em Birdman, por ser este um grande labirinto de descontroles emocionais, na maior parte das vezes torna-se mero capricho em O Regresso. O novo trabalho do diretor vem envolto em aura de “história de sofrimento” que parece ter o maior prazer em ver seu protagonista chegar ao limite da dor e provação, acrescido aqui da atmosfera de “visceralidade” que o filme busca imprimir em grande medida na narrativa.

É de fato uma jornada árdua, baseada em fatos verídicos vividos pelo aventureiro Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) lá pelos idos de 1820, no processo de entrada pelo noroeste americano. Ele integra um grupo de exploradores de pele que é atacado por uma tribo indígena e vê o grupo sendo dizimado impiedosamente, em meio aos perigos da região.

O maior esforço do roteiro está em fazer do (des)caminho do protagonista uma espécie de exercício de masoquismo – quanto mais sofrimento, melhor. Glass enfrenta desde os desafios da natureza, com sua paisagem gélida e inóspita, e infortúnios bestiais, como o já famoso ataque da ursa selvagem, até a impossibilidade de seus companheiros de cuidar dele, além da traição de um dos componentes, o oportunista John Fitzgerald (Tom Hardy).

No entanto, o maior incômodo em O Regresso reside mesmo na pretensão de Iñárritu e em certa obstinação sua em soar o tempo todo grandioso e imponente, quase religioso. A câmera prefere longos takes em movimento constante, música, um tom solene e os planos abertos buscam enquadrar toda a grandiloqüência da paisagem. Tudo isso para contar uma história muito simples de superação e vingança. É como se tomasse um grande fôlego para um mergulho bem superficial.

Se a história aqui parece simples é porque o roteiro não se preocupa em dimensionar algumas situações e personagens. Não se sabe ao certo, por exemplo, qual a relação de Glass com os povos nativos – ele viveu um tempo em alguma tribo, tendo até mesmo um filho com uma índia, jovem que inclusive o acompanha no batente –, nem sabemos por que Fitzgerald o odeia tanto, tornando-se ele o vilão natural e raso da história, acompanhado por uma atuação repleta de “caras de mau” de Hardy.

Curioso como se tem chamado tanta atenção para a beleza das imagens e para o excepcional trabalho técnico realizador pelo diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, especialmente pelo uso magnífico de luz natural em todo o filme. O resultado plástico é realmente evidente, mas ao mesmo tempo enche de beleza uma trajetória de dor e sofrimento, apesar da naturalidade da luz render algo de “sujo” na composição estética. Há certa pretensão aqui também porque a obstinação pelo valor visual parece valer mais que a própria história que está sendo contada. Nota-se isso nos flashbacks que tentam dar conta da vida pregressa de Glass – momentos em que ele agoniza no limiar da vida –, cheio de imagens que se querem “poéticas” ou “oníricas”, apoiadas num melodrama frágil, e menos interessadas em dar consistência à história pregressa desse personagem. Mais importante que isso é que as imagens soem “líricas”.

A composição visual do filme lembra muito os trabalhos de Terrence Malick – como quem Lubezki possui muitas parcerias anteriores – além de ecos de Tarkovsky, talvez as maiores referências aqui. No entanto, no caso desses diretores, a manipulação da luz e da imagem majestosa esteja a serviço da carga emocional dos personagens e não o contrário. Em O Regresso isso parte do perfeccionismo até soar muito gritante e, por isso, também gratuito. 

Na busca por essa construção imagética impressionável, o filme acaba por se arrastar mais do que merecia, salpicada por momentos dessa beleza plástica que destila prazer em se autoexibir. Quem melhor consegue se esquivar um pouco mais desse tom é o ator Leonardo DiCaprio, que só em alguns momentos abusa do exagero. Consegue dar a dimensão do martírio com poucas ou nenhuma palavra, revelando a maturidade que alcançou como ator. Uma pena que o filme precise de muito mais que isso para se impor como narrativa potente e arrebatadora, embora a tentativa extrema possa causar o efeito contrário.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Mostra de Tiradentes – Parte IV


Índios Zoró – Antes, Agora e Depois? (Idem, Brasil, 2016)
Dir: Luiz Paulino dos Santos



Figura por si só mítica e célebre, decano do cinema baiano e presença muito forte em certos momentos da história do cinema nacional (como no caso de Barravento, filme que começou a dirigir, mas por desavenças com o produtor, teve de ceder lugar ao jovem Glauber Rocha em seu primeiro longa-metragem ali; ou também no fundamental curta Um Dia na Rampa), Luiz Paulino dos Santos é um senhor de 83 anos, há muito afastado do cinema.

Surpreendentemente, a Mostra de Tiradentes descobre esse filme curioso e que lança outro olhar para a questão indígena. Se a competição principal do festival é destinada a filmes de realizadores iniciantes em seus primeiros longas-metragens, a presença de Luiz Paulino aqui é dessas apostas corajosas que são a marca de Tiradentes. Isso por que existe o privilégio do filme de risco, lugar que Índios Zoró – Agora, Antes e Depois? preenche muito bem.

Em 1983, Luiz Paulino filmou o curta Ikaténa – Vamos Caçar, sobre a tribo Zoró. Agora, o diretor retorna ao lugar e encontra os índios evangelizados. Se a comunidade indígena já sofreu uma série de modificações culturais e de modos de vida diante de uma sociedade “branca” bastante desafeita aos povos nativos, também Luiz Paulino já não é mais o mesmo.

E isso é importantíssimo no filme porque sua figura é central, a ponto dele ser pensado mesmo como personagem principal da narrativa. Mais espiritualizado e evocando referências xamânicas, Luiz Paulino é quem guia os caminhos do filme, olhando com atenção e carinho o deslocamento da figura indígena naquele lugar, oferecendo espaço para que o diretor posicione-se, mas com o traço da generosidade afetuosa que ele nutre por aquela comunidade, e nunca de modo meramente denuncista.

É bom ver – como também está em outro filme da competição em Tiradentes, Taego Ãwa – um olhar sobre os povos nativos que não passa pelo exotismo, pela observação antropológica/sociológica, muito menos pela condescendência. Luiz Paulino se insere com muita naturalidade naquele espaço, sente suas reconfigurações, mas continua disposto a gostar dele.

Índios Zoró – Antes, Agora e Depois? deixa que o diretor/personagem interaja com o ambiente e seus novos integrantes, mas flerta bastante com a memória, especialmente nas imagens que resgata do curta anterior de Luiz Paulino e as ressignificações que isso provoca, nele e no espectador. Seria uma experiência emocional muito forte - e não duvido que seja -, mas a preferência aqui é pela singeleza.


Aracati (Idem, Brasil, 2016)
Dir: Aline Portugal e Julia de Simone



Aracati atravessa tema muito caro às questões de (des)ocupação de espaço e que já tem sido abordado em alguns filmes: cidades e/ou pequenas comunidades que desaparecem para dar lugar a grandes empreendimentos, como represas ou fábricas. É o progresso chegando, e vem com ele os questionamentos de “para quem?” e “a custo de quê?” Apesar de apontar para essas proposições sociopolíticas, Aracati busca o registro da melancolia poética para dar conta de uma paisagem bruscamente ressignificada.

No caso aqui, estamos na região do interior do Ceará, o Vale do Jaguaribe. A ideia é perseguir a rota do vento Aracati, num movimento que sai do litoral e adentra o interior do Estado. E filmar o vento se torna aqui uma curioso, além de corajoso, ponto de partida, espécie de abstração que, mesmo na tentativa de ser seguida à risca, ganha outros propósitos porque o vento não aparece sozinho na paisagem.

Trata-se, talvez, e no bom sentido, de uma bela desculpa para olhar uma região e algumas de suas implicações na relação com outros elementos - tecnológicos, humanos. O filme se esclarece todo por imagens – não há narração ou letreiros explicativos – e a imagem surge aqui como força não só estética, mas como modo de expressão que interpela a observação.

A entrega a esse tipo de registro faz ver, para além da beleza – mesmo que à natureza se misturem máquinas e engrenagens, inseridos ali pelo homem – o espaço em modificação, sem que o filme soe de algum modo denuncista. Ao contrário, é muito plácido e guia o espectador por um caminho de contemplação e descoberta, ainda que também de questionamentos.

Existe um formalismo que se apresenta no enquadramento rígido, no plano longo e na contemplação dos espaços. De início, pode distanciar e parecer frio demais, excessivamente preocupado com a forma, mas aos poucos o filme te ganha não só pelas belas cenas, mas pela compreensão do tipo de mudança brusca que aquele lugar sofreu.

Quando o elemento humano entra de modo mais concreto na narrativa – penso que ele sempre esteve ali, pelo menos atrás da câmera, mesmo que como sujeito que vem de fora – o filme cresce um pouco mais. Os homens da terra, antigos moradores das redondezas que já parecem deslocados naquele espaço tão pouco afeito à presença humana, são interpelados pela equipe de filmagem e acrescentam novos componentes ao filme: desde as questões sobre o que seria real ou não, os limites da ficção, a possibilidade do surreal e mesmo o repensar do lugar do Ceará no mapa do Brasil, tudo isso com muita graça. São momentos de rara beleza e espontaneidade que surpreendem pela complexidade que trazem à narrativa. 

É como se essa presença natural do ser humano trouxesse consigo um componente fabular, pondo em questão a própria natureza realista daquele lugar – e todo aquele maquinário das fábricas e torres eólicas não seriam, justamente, marcas “de outro mundo”, alienígena? Dessa forma, Aracati torna-se uma bela experiência de despreendimentos e descobertas, ainda que sobre uma sensação de perda pelo o que aquele lugar se tornou.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Mostra de Tiradentes – Parte III


Jonas (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Lo Politi


Conflito social, com algo de embate de classes, regado com um pouco de drama familiar, disputas românticas e uma pitada de narrativa policialesca. Esse é Jonas, filme que envereda por uma profusão de acontecimentos, tipo de filme difícil de classificar. Fica mais complicado quando a trama se joga – ou joga seu protagonista – num emaranhado de situações equivocadas, sem saber muito bem trabalhar esses deslocamentos. O resultado é um filme narrativamente frágil e pavoroso.

Jonas (Jesuíta Barbosa) vive na periferia de São Paulo e é filho de empregada doméstica. Não parece esconder a paixonite pela filha da patroa da mãe, Branca (Laura Neiva), um passado de proximidades entre os dois na infância subtendido aí. Ele também ganha uns trocados entregando drogas para o chefe do tráfico do pedaço (interpretado pelo rapper Criolo). Num acesso de ciúme envolvendo o trio, Jonas acaba por cometer uma grande besteira e se vê obrigado a sequestrar Branca, escondendo-a na réplica gigante de uma baleia, carro alegórico da escola de samba da comunidade.

O filme concentra-se numa série de atitudes erradas do rapaz, visivelmente perdido sobre o que fazer dali em diante. A culpa poderia estar na infantilidade do personagem, na sua incapacidade de lidar com sentimentos tão humanos como ciúme e raiva. No entanto, é o roteiro que investe mesmo em situações difíceis de acreditar, inverossímeis, e que não nos dá a dimensão da paranoia e descontrole emocional do protagonista. Ele simplesmente não se adéqua a sua própria realidade naquela condição limite.

Isso não só enfraquece o longa, como o vai levando ladeira abaixo da metade em diante, culminando com uma cena final constrangedora. A diretora estreante Lo Politi também não é muito hábil em articular os elementos que tem em mãos e nem parece compreender a gravidade dos atos do protagonista.

Existe mesmo um belo esforço de Jesuíta Barbosa em conferir dignidade a esse personagem aéreo, quase que pertencente a uma realidade paralela, onde tudo parece que vai acabar bem, apesar das burradas constantes que faz (e o final do filme é bastante discutível). Também Neiva constrói uma garota esperta e atrevida. Há outros personagens carismáticos na trama, como o irmão mais novo de Jonas, Jander (Luam Marques), e outros mais caricatos, como o vilão vivido por Ariclenes Barroso. Mas nem assim a história consegue fazer surgir uma empatia com o espectador.


O Espelho (Idem, Brasil, 2015) 
Dir: Rodrigo Lima


O Espelho certamente parece habitar um lugar muito particular dos filmes de alta subjetividade capaz de fisgar espectadores pelos mistérios que vai deixando ao passar. O encantamento pelos enigmas de um protagonista em momento de autoquestionamento, empreendendo uma espécie de jornada de perdição, rende um filme no mínimo curioso, mas pujante enquanto força de imagens e sons. E há muitas chaves através das quais é possível contemplá-lo.

O filme faz parte do projeto Tela Brilhadora, que reúne nomes como Julio Bressane (que dirigiu Gartoto) e Bruno Safadi (que fez O Prefeito), cada qual responsável por dirigir um filme com pouquíssimos recursos, filmando num período de poucas semanas. O que poderiam ser limitações, acabam por se tornar força criativa. São todas obras riquíssimas em elementos, desafiando as percepções do espectador.

No caso de O Espelho, há ainda o fato de ser o primeiro longa-metragem do cineasta Rodrigo Lima. Ele demonstra mão segura para lidar com o aparente aspecto de surrealidade da narrativa, pelos meandros da introspecção fabular do protagonista. A história é baseada em conto de Machado de Assis, embora o filme, visto em conjunto com os outros do projeto, componham um conjunto coeso, compartilhando questões e posicionamentos formais muito mais próximos.

Tem-se um homem (Augusto Madeira) aparentemente sozinho numa casa de campo. Uma chave que se apresenta de início aparece numa cena rápida, mas significativa: dentro de um quarto cujas paredes estão cobertas de quadros, a maioria deles de retratos, de repente vemos a figura do protagonista refletida num espelho, como um autorretrato inconsciente. Uma ideia de posição de si mesmo parece perseguir o protagonista, inclusive na figura hipnótica de uma misteriosa mulher que emerge das águas turvas de um lago. 

Essa presença feminina, ao mesmo tempo bela e ameaçadora, quase dominadora na maneira como enfeitiça o homem e o faz seguir seus passos, é mais uma porta de entrada num mundo de encantamentos e perigos. Nesse jogo de reflexos e reflexões, O Espelho parece uma espécie de viagem ao centro da alma, com o risco dessa colocação soar um tanto clichê e aquém das próprias ambições do filme, ainda que pareça exatamente isso. É um filme a se descobrir, para fazer descobrir aquele que na tela se desdobra e vê sua imagem em outras coisas.
 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Mostra de Tiradentes – Parte II


Futuro Junho (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Maria Augusta Ramos


Se os movimentos de reivindicação e mobilização políticas, em grande parte encabeçada por jovens, ganharam as ruas de todo o Brasil nos últimos anos, marcando profundamente a sociedade brasileira mais engajada, no cinema esse mesmo movimento rendeu poucos registros realmente potentes como cinema (muito embora, enquanto imagem documental muitos deles são fortíssimos).

À primeira vista, Futuro Junho poderia ser esse filme, diante de tantas tentativas que ficaram somente na superfície. Mas no fundo extrapola essa espécie de classificação e acaba sendo o retrato de indivíduos díspares envoltos numa questão que engloba tudo isso: a vida financeira no Brasil.

Tem a mão segura e competente da documentarista Maria Augusta Ramos, cineasta brasileira que enveredou muito bem pelos caminhos do cinema documental direto em sua já consistente obra. Seu estilo está marcado pelo rigor formal e pela característica de encenação que existe na reprodução do real ali captado por sua câmera aparentemente invisível.

Com Futuro Junho, a diretora parte desse momento recente de efervescência mobilizadora da vida política para construir um filme mosaico com gente palpável, de carne e osso, multifacetada. Ela observa a rotina, familiar e profissional, de quatro personagens distintos em São Paulo: um economista, um operário de fábrica automobilística, um líder sindical e um motoboy, muito embora eles revelem mais de si mesmos do que essas simples denominações de cada um.

É uma maneira inteligente de lidar com um tipo de temática espinhosa que rende discussões acaloradas, muito reveladora da situação social, econômica e política do Brasil nesse momento conturbado. Alcança ainda um lado muito humano e afetuoso da situação, nas particularidades e contradições de cada um.

Mesmo sem ir fundo nas muitas questões que se deixam entrever ali, embora as muitas leituras possíveis de se fazer do rico material estão completamente abertas, Futuro Junho é o que se espera desse tipo de proposta. Aponta ainda para um olhar apurado e menos apressado sobre os imperativos econômicos em nossa vida prática.


Através da Sombra (Idem, Brasil, 2015) 
Dir: Walter Lima Jr.



Mesmo que muitos realizadores brasileiros contemporâneos sejam confessos admiradores do cinema de horror mais clássico, é curioso perceber que o horror o filme nacional tenha ganhado força a partir de construções mais conceituais (caso de Trabalhar Cansa e Quando Eu Era Vivo, para citar alguns). Mais recentemente algumas propostas mais convencionais têm surgido numa espécie de filão aberto (como O Amuleto e Isolados).

Por isso é tão curioso perceber como a proposta de Através da Sombra esteja em emular um tipo de narrativa de horror bastante clássica e mesmo elegante, fazendo mesmo questão de utilizar elementos tão comuns ao gênero (a casa mal assombrada, crianças como presenças que guardam segredos, limite entre a percepção da realidade versus a loucura, vultos e visões várias). Interessante também é pensar na figura de uma cineasta veterano como Walter Lima Jr. à frente desse tipo de filme.

Apesar de lidar com esses clichês, o filme assume um lugar de apropriação muito consciente dos cânones do filme de horror com muita classe. O casarão sombrio é parte de uma grande fazenda cafeeira, ainda na época escravocrata; o forte cheiro de café queimado empesteia o lugar e prenuncia maus agouros. É para lá que vai a professora Laura (Virgínia Cavendish), contratada para cuidar da educação de duas crianças, além de assumir a governança da propriedade.

Se o filme consegue ser feliz ao formatar uma atmosfera que culmina no horror psicológico, além de contar com um design de produção caprichadíssimo, o roteiro se abre a uma série de possibilidades que desencaminham a trama. Deixa escapar tantas arestas e questões que vão surgindo no caminho – e na mente – de Laura que parece mesmo um tanto perdido sobre onde quer chegar com seus muitos desdobramentos e reviravoltas.

É claro que a morte permeia o ambiente, assim como a figura recatada e enlutada de Laura é confrontada com certas pulsões sexuais retraídas. Mas o roteiro inchado acaba por levar o filme para caminhos pouco focados. Poderia ser uma maneira de abandonar o classicismo da coisa toda, mas resulta na perda de intensidade dramática da trama, e sobram meros sustos e aparições fantasmáticas nas janelas.


O Diabo Mora Aqui (Idem, Brasil, 2016) 
Dir: Dante Vescio e Rodrigo Gasparini


Delirante filme de terror nacional, O Diabo Mora Aqui é um achado dentro da produção recente que mira no horror como ponto de interesse resgatado nos últimos tempos (e a Mostra de Tiradentes se revela atenta ao gênero depois de ter exibido ano passado As Fábulas Negras, e ter iniciado sua edição de 2014 com Quando Eu Era Vivo).

O filme da dupla paulista aposta no terror macabro, com direito a grupo de adolescentes que viajam para uma casa no meio da floresta, além de toda a atmosfera de filme B trash. No entanto, seu maior trunfo é contar com um enredo bastante original que dialoga muito com certo passado brasileiro, mas surpreende por nunca se mostrar previsível e pelos estranhos detalhes que compõem seu universo mítico.

A grosso modo, há uma espécie de uma antiga lenda que dá conta da história do Barão do Mel, antigo senhor de escravos que tinha prazer em maltratar os negros que lhe serviam. Ele acaba sendo “derrotado” por conta de uma maldição antiga que envolve um bebê sacrificado e uma entidade macabra senhoril escondida nas entranhas da terra. A possibilidade de libertação desses seres é para onde convergem os episódios de pavor que veremos no longa, praticamente se passando no decorrer de uma noite.

O filme parece mesmo interessado em contar essa história, nos fazendo entender suas peças, enquanto os personagens vão se encontrando. E através dela, o filme dá vazão aos elementos do terror e não o contrário ao fazer do enredo mero subterfúgio para sustos e sangue jorrado.

Em determinados momentos certos detalhes e reviravoltas do roteiro podem até ser postos em questão, mas existe outra potência que sustenta o filme, para além do prazer pelo gore, sujeira e pelo macabro: consegue crescer em delírio e surto na medida em que nos rendemos aos terríveis desdobramentos que se desenrolam naquela casa, no embate de personagens tão bizarros e mesmo palpáveis em suas convicções e objetivos. 

O tom alucinado é fortalecido por um desenho de som que acrescenta camadas de horror e estranheza à trama na medida em que acompanha o fluxo insano de piração intensa que vai surgir da metade em diante (algo bastante visível no conjunto de atuações de todo o elenco, partindo do natural para o histriônico com ganho total de efeito dramático). O Diabo Mora Aqui é desses que dá gosto de ver surgir no panorama cinematográfico nacional.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Mostra de Tiradentes – Parte I


Serras da Desordem 
(Idem, Brasil, 2006)
Dir: Andrea Tonacci

O índio Awá, mais tarde conhecido como Carapirú, teve sua tribo dizimada. Fugido, foi parar numa pequena e pobre comunidade que o acolheu afetuosamente. Depois, foi apadrinhado pela Funai que cuidou da integridade do indígena. Pelas mãos do indigenista Sydney Possuelo, ele foi cuidado e teve um encontro inusitado com outro índio que se revelou ser seu filho, o bebê de quem ele foi separado quando a tribo foi atacada.

Essa história verídica é recontada num misto de encenação e documentário pelas mãos do mestre Andrea Tonacci, figura fundamental do chamado Cinema Marginal. 10 anos depois de aparecer para o público na Mostra de Cinema de Tiradentes, eis que Serras da Desordem ganha revisão no mesmo lugar, em espaço de honra. Andrea Tonacci é homenageado dessa edição da mostra e tem sua obra discutida e celebrada.

Serras da Desordem ganha lugar para mostrar por que é um filme tão forte de construção narrativa, para além de denunciar o genocídio do povo indígena no Brasil, algo que tantos outros filmes fizeram e têm feito recentemente. Mas nas mãos de Tonacci essa história ganha nuances mais ricas, como cinema, sem ranços de militância exacerbada.

Pelas frestas da encenação, surgem aqui, pelo menos, duas possibilidades muito potentes de representação do real: aquela como observação dos fatos ocorridos (como os momentos de placidez e rotina da tribo de Carapirú, em total harmonia com a natureza) e aquele do real fílmico da própria feitura do filme (o retorno de Carapirú a certos lugares por onde ele passou nesse trajeto, como na comunidade que o acolheu ou a convivência com a família de Possuelo).

Serras da Desordem abre-se para uma construção narrativa cheia de complexidades – como era de se esperar de um filme de Tonacci –, interpelando o espectador sobre a natureza das imagens enquanto construção fictícia ou documental, já que alterna essas duas chaves, sem, no entanto, chamar atenção para elas. Lança mão, inclusive, de uma fotografia que reveza entre o preto-e-branco e o colorida.

Algumas vezes o filme faz questão de revelar seu traço de ficcionalização, mas também mostra personagens dando depoimentos diretamente para a câmera. O filme de Tonacci pode servir mesmo como um paradigma precursor de uma tendência muito forte no cinema brasileiro em equilibrar o real e a encenação. Mas sem pretensões de reinventar a roda” (em certo momento, utiliza imagens de Iracema – Uma Transa Amazônica, filme que já continha esses elementos, isso em 1975). Há mesmo uma preocupação clássica em contar uma história por si incrível, sem grandes rodeios, mas com pitadas de criação formal.

O filme ganha força também por retomar a discussão sobre a situação indígena no país a partir de um escopo maior. Atravessa a História do Brasil, no seu avanço pela modernização e desenvolvimento técnico e social, para expor a crueza no retrocesso em lidar com os povos nativos, apontando para o caminho mesmo do extermínio. Tonacci faz esse apanhado resgatando uma série de imagens documentais de certo imaginário brasileiro que remetem a essa ideia de desenvolvimento, sem dizer uma palavra sobre isso. E, mais uma vez, sem parecer que está fazendo um tratado sociológico.

A própria figura de Carapirú no fim do processo de reintegração à sua tribo original – ou o que restou dela – não deixa de revelar um sujeito indígena que já carrega costumes do “homem branco” (veste roupas e come de colher, por exemplo). É como um processo irreversível que transparece pela feição harmoniosa do índio, mesmo quando narra suas desventuras. 

Serras da Desordem ainda chega ao ponto de colocar em evidência a própria manipulação da imagem cinematográfica como predestinada a contar histórias. No começo do filme, Carapirú, em sonho, repassa sua vida. Ao fim, o sonho revela-se narração fílmica. Cinema, portanto, é quimera, mas também realidade.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

19ª Mostra de Cinema de Tiradentes


Estou muito animado em poder voltar a Tiradentes para mais uma mostra de cinema das mais interessantes e desafiadoras de nosso calendário nacional. O filme brasileiro de maior risco e pulsão criativa tem em Tiradentes lugar cativo para se exibir para uma platéia atenta e exigente, crítica.

Será um prazer também pela homenagem mais que justíssima a Andrea Tonacci, um dos nossos cineastas mais importantes em atividade hoje, figura fundamental para a vitalidade do chamado cinema marginal que eclodiu depois do Cinema Novo. Não à toa o filme de abertura de Tiradentes será Serras da Desordem, obra-prima de Tonacci, precursora de muitas propostas atuais que mesclam documentário e ficção. O filme foi revelado justamente pela Mostra Tiradentes há exatos dez anos.

Há também a sempre intrigante Mostra Aurora, com longas-metragens de cineastas em seus primeiros trabalhos, aqueles com maior apelo alternativo e independente. Tem ainda uma série de outros filmes, curtas e longas, da safra atual que poderão ser conferidos aqui. A mostra promete oferecer uma maratona intensa não só de filmes, mas de debates e discussões. Vale também pelos bons encontros cinéfilos na acolhedora cidadezinha mineira.

Farei cobertura para o Jornal A Tarde, mas também escreverei sobre os filmes aqui no blog, na medida do possível. Mais uma vez estarei como júri do Prêmio de Aquisição de Curtas do Canal Brasil.

O site oficial do evento pode ser acessado aqui. Que venham os filmes.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Homem, animal sensível

Boi Neon (Idem, Brasil/Uruguai/Holanda, 2015) 
Dir: Gabriel Mascaro


O cinema de Gabriel Mascaro tem clara predileção pelo tom observacional, aquele menos das curvas dramáticas e mais do olhar atento sobre certa realidade e rotina, sobre gente palpável, extraindo dali certas pulsões de vida. Era assim desde Avenida Brasília Formosa, passando pelo rico estudo da servidão profissional que é Doméstica. Com Boi Neon não é diferente, mas encontramos aqui um cineasta mais maduro na maneira de construir a complexidade de seus personagens e do espaço onde eles trafegam.

Seguindo esse raciocínio, é possível fazer uma relação criativa com o ótimo filme anterior de Mascaro, Ventos de Agosto. Ali, começava-se com a observação atenta da rotina aprisionadora de uma vila de pescadores, mas que, de repente, abala-se com uma ruptura narrativa que joga o filme para outro lugar, aponta para outras direções, para a estranheza da vida comum.

Agora, Mascaro retorna à observação mais pura, aparentemente sem rupturas (narrativas), o que poderia ser visto como um passo para trás nesse tipo de proposta de contemplação. No entanto, olhado com atenção, Boi Neon revela um diretor mais apurado na formatação de personagens que, dentro de suas idiossincrasias, talvez revelem o equivalente de uma ruptura, só que agora na ordem da dramaturgia, da encenação dos corpos no espaço. No fundo, há pelo menos três questões que ele consegue engendrar nessa construção: a exposição de corpos desejosos, a reconfiguração dos espaços e a desconstrução do gênero.

Iremar (Juliano Cazarré) é um peão que trabalha por trás das vaquejadas, cuidando dos bois e os preparando para entrar na arena. É seguido de perto pela pequena Cacá (Alyne Santana) e outro peão, Zé (Carlos Pessoa). A garota é filha de Galega (Maeve Jinkings), caminhoneira que vez ou outra participa de shows performáticos. Quem prepara o figurino dela é Iremar, e logo o filme nos informa que aquele homem “chucro” é fascinado pelo mundo da costura.

É assim que os papeis canônicos previamente destinados a homens e mulheres ganham tratamento inusitado em Boi Neon. Iremar não tem inclinações homossexuais, assim como Galega não precisa assumir postura de “machona”. Mais à frente entram na trama um peão (Vinícius de Oliveira) com apelo metrossexual (cuida dos longos cabelos alisados com maior afinco) e também uma grávida, revendedora de cosméticos, que também é guarda noturno de uma fábrica.


É com naturalidade que o filme nos apresenta esses personagens naquilo que eles possuem de delicadeza e aridez, sem esconder os desejos – sexuais, matérias, sentimentais – que pulsam de seus corpos. O filme os põe à mostra, e nenhum deles tem receio de revelar essa essência. Boi Neon não esconde, apenas observa para melhor entender sua complexidade, justo nesse lugar que aparentemente afastaria certa sensibilidade que está, é claro, mais no olho de quem assim o vê.

E como acontecia no longa anterior de Mascaro, o universo ao redor é filmado sem pretensões de exotismo, vendendo imagens artificialmente belas. É o tipo de entendimento que está na incrível fotografia “cotidiana” captada pelo mexicano Diego García, capaz de revelar um Nordeste mais cru e mesmo melancólico. O ambiente serve ao filmes como lugar palpável e não como alento estético.

Mas o espaço ocupado aqui é também ele ressignificado, uma vez que àqueles personagens são reservados os bastidores do rentável agrobusiness. Toma-se banho num espaço improvisado de pano amarrado ao caminhão; descansa-se em redes arranjadas; come-se e cuida-se do corpo perto do pasto; Galega se depila ali mesmo na boleia do caminhão e quando consegue sexo, faz ali mesmo ao lado dos bois. 
É nesse microcosmo muito especial e singular que Boi Neon encontra lugar para aproximar a figura humana de uma essência animal, primitiva na forma de se mostrar e ocupar terreno. A cena de Iremar amansando um boi sob um filete de luz produz uma bela rima visual com a incrível e delicada cena de sexo dele com a mulher grávida; há delicadeza e tesão ali, ao mesmo tempo. É esse lugar da sensibilidade apurada para as coisas do homem animal que o filme traduz tão bem.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Nas bases do ódio

Os Oito Odiados (The Hateful Eight, EUA, 2015)
Dir: Quentin Tarantino


Depois de manter a mão solta em Django Livre (nunca um filme ruim, mas talvez o mais “fraco” do cineasta), Quentin Tarantino retorna ao controle do estilo depurado que ele forjou em sua curta, mas já rica trajetória. Está lá a inteligência de texto e encenação, mais as referências cinéfilas, embora Os Oito Odiados não esteja tão próximo dos filmes geniais que ele legou ao cinema.     

Em certo sentido, esse novo filme persegue propósitos estéticos e de discussão sociais muito próximos de Django Livre, mas agora em um escopo maior e com um tratamento apurado tanto quanto se espera do diretor, mas menos pop talvez. Tarantino faz um retrato metafórico sobre o estado de violência que forma a espinha dorsal de consolidação de seu país. Não à toa, o western serve aqui como suporte de gênero para contar essa história de violência, ainda que mais como demarcação de elementos do que como forma clássica de construção narrativa – como também acontecia em Django Livre.

Olhado de perto, Os Oito Odiados possui uma estrutura narrativa simples, sem invencionices ou grandes construções de cena. Talvez seja o filme mais clássico do diretor, que prefere apostar na criação de uma atmosfera de tensão que se dá pela reunião de tipos suspeitos num ambiente fechado, no meio do nada, abaixo de uma nevasca, até o limite do suportável (diferente de Bastardos Inglórios, por exemplo, em que essa tensão-explosão se dava em cada grande sequência do longa). O caçador de recompensas vivido por Samuel L. Jackson fica preso na estrada e pede ajuda à diligência que leva outro caçador de recompensas (Kurt Russel) e sua prisioneira, a perigosa e estranha Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh).

Eles acabam aportando na estalagem/armazém de um velho conhecido, ausente no momento, junto com outro “carona” que se diz homem da lei a assumir o cargo de xerife na cidade próxima (vivido por Walton Goggins). Nessa reunião de gente suspeita pairam desconfianças para todos os lados. O texto de Tarantino leva o espectador a acompanhar com um misto de apreensão e interesse não só o desfecho de tudo, mas de tentar entender a quem se afeiçoar, quais os segredos que cada um esconde. Mas encontrar os mocinhos nem sempre é tarefa fácil quando todos são odiados.

A junção de mais personagens na estalagem, tais como um velho general (Bruce Dern) e hóspedes casuais (Tim Roth e Michael Madsen), cria essa bolha de inimizades e discordâncias. Não demora muito para que os conflitos estabelecidos entre eles comecem a explodir de forma sangrenta dentro daquele ambiente cerrado que, explicitamente, torna-se um microcosmo da própria América como ideário de nação em formação.


A única mulher do grupo passa quase o tempo todo acorrentada, servindo de saco de pancadas, ainda que seja tida como uma perigosa bandida. O único negro ali reforça sua postura de autoridade como forma de imposição contra os que não o reconhecem como ser humano (ou cidadão americano). Os representantes da lei incorporam também esse lado conservador de rejeitar quem é tido como escória.

Mas é mesmo o ranço da violência o que impera como atitude diante dos problemas pessoais de todos os personagens. O ódio surge como mola propulsora de suas ações e comportamentos quando é preciso garantir sua própria sobrevivência, sua própria afirmação diante dos demais.

Possivelmente a violência, onipresente no cinema de Taratino, nunca teve na obra do cineasta um propósito maior do que a força estética de suas imagens de impacto gráfico. A violência ganha aqui força social que parece agregada a um povo, a um país, num momento mesmo em que ele se forma e se estabelece com independência. E vale lembrar que não por acaso o filme começa com a imagem de um Cristo crucificado no meio da estrada, solitário e quase coberto de neve.

Talvez por isso o conto moral de Os Oito Odiados receba tratamento menos “espetacular” como narrativa pop, ainda que visualmente bem trabalhado. A trilha sonora do mestre Ennio Morricone continua evocativa, a fotografia embebida de uma densidade que reforça a apreensão. E mesmo o trabalho de encenação do diretor se mostra mais preocupado em estabelecer bem cada elemento dentro do plano do que fazer piruetas com a câmera. É uma forma de estabelecer e se concentrar na gênese torta de um país acostumado a lidar com seus entraves nas bases do ódio.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Turma aplicada

Spotlight – Segredos Revelados (Spotlight, EUA, 2015) 
Dir: Tom McCarthy



Investigações jornalísticas já foram retratadas muitas vezes no cinema. Spotlight – Segredos Revelados vem a se somar àqueles filmes que olham para a profissão com menos cinismo, não caindo facilmente no discurso da derrocada do jornalismo, tão comum de se ver por aí.

O propósito é o oposto: mostrar a exemplar cobertura de uma equipe de jornalismo investigativo do jornal americano Boston Globe sobre o caso de padres católicos que abusavam sexualmente de jovens e crianças, mas que nunca foram punidos, acobertados pelo poder da igreja. É dos temas mais nobres e dignos de atenção e discussão, ainda que esteja a serviço da demonstração do bom jornalismo, o que interessa aqui ao filme.

A equipe é chefiada pelo editor Walter Robinson (Michael Keaton), formada por jornalistas super comprometidos com a ética da profissão, como os esforçados Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian D’Arcy James). Spotlight esforça-se para mostrar o comprometimento de todos em busca dos detalhes e minúcias que envolvem um escândalo que só faz aumentar em proporção e gravidade.

O filme acaba acompanhando essa competência e se formata de modo clássico, correto, eliminando possíveis excessos e com foco na história que quer contar. Acompanhamos com interesse as idas e vindas do caso e os agravantes da denúncia contra os pedófilos que vão se amontoando, a partir do trabalho competentíssimo daqueles profissionais.

Mas é justamente essa opção pelo jornalismo idealizado, detentor dos velhos e tido hoje, por muitos, perdidos ideais da profissão, que faz o filme soar como um defensor vibrante dessa prática. Não há espaço para oportunismos ou entraves de ordem profissional no trabalho que eles desenvolvem. Todos são íntegros e esforçados, a serviço de uma boa causa. Não deixa de ser uma visão pessimista essa a minha, corroída pelo estado atual do jornalismo, mas também se trata de uma celebração nostálgica de certos modus operandi da profissão que tem ficado para trás – e o filme se passa em 2001.

Mais de uma vez alguns personagens repetem a expressão “por um fim nisso”, como objetivo final do jornalismo em relação aos problemas sociais, e mais especificamente sobre o caso de abusos que eles têm em mãos. É mais uma maneira de sublinhar a dignidade da profissão, reforçando certo princípio questionável que ronda o exercício do jornalismo: o de sua função social como agente transformador de certos aspectos da vida prática. Certamente há uma importância do jornalismo nesse quesito, mas o filme faz crer numa atitude afirmativa e imediata demais, sem nunca se questionar sobre isso. 

De qualquer forma e apesar de um roteiro que incorpora, meio que à força, essa visão ideal, o diretor Thomas McCarthy tem nas mãos um material rico para orquestrar uma narrativa sólida em ritmo e continuidade, tendo bons atores que formam uma bela equipe juntos. Trilha sonora sutil também reforça a centralidade da história. 

Faz gosto ver aqueles homens e mulheres esforçando-se para encontrar as fontes e os dados certos, respeitando a dor do outro, enquanto tentam produzir um material de relevância. Uma pena que esse tipo de realidade parece estar fadada a ter mais espaço na ficção. E por mais que Spotlight – Segredos Revelados seja baseado em fatos verídicos, é preciso enxergá-lo como retrato ficcional construído – e não por acaso a palavra “story” (história) serve para designar, em inglês, o termo “reportagem”. Mesmo não fazendo nenhuma relação com a prática atual, o que o filme quer nos contar é como o jornalismo que já conhecemos prezava por sua integridade. Mas será que sempre foi assim?

domingo, 10 de janeiro de 2016

Melhores e piores de 2015

Sempre demoro um pouco para lançar essa lista de melhores e piores do ano anterior, mas ta aí. Valem somente os filmes lançados comercialmente no Brasil durante 2015. Ao todo, vi 183 filmes válidos. Tanto foi um ano super frutífero de boas estreias que resolvi fazer um top 30 de melhores pela incapacidade mesmo de ter de tirar alguns filmes. Vamos a eles:


1. Leviatã


Porque existem monstros bíblicos e forças maiores que o homem não consegue enfrentar.

2. O Segredo das Águas


Porque para os vivos ainda resta o conforto da água.

3. Branco Sai, Preto Fica


Porque é preciso explodir bombas, implodir regras, se lançar no futuro e no passado para dar conta da segregação racial.

4. Mad Max: Estrada da Fúria


Porque a busca pela liberdade nunca foi tão visceral, carnavalizada e apoteótica.   

5. A Visita


Porque o estatuto da imagem serve para, mais que tudo, revelar, mas também para fazer perdoar.

6. As Mil e Uma Noites: Volume 1, O Inquieto


Porque só se adentra pela crise de um país pela força da fabulação e da imaginação.

7. Norte, O Fim da História


Porque a vida ainda é capaz de castigar os nossos crimes, e também nossos não-crimes.

8. Dívida de Honra


Porque ainda dá tempo de caminharmos com nossa dignidade.

9. Força Maior


Porque somos aquilo que fazemos (ou deixamos de fazer).

10. Casa Grande


Porque há beleza em romper com as estruturas sociais que ainda resistem.


11. O Amor é Estranho

12. A Pele de Vênus

13. Táxi Teerã

14. Foxcatcher – O Crime que Chocou o Mundo

15. Depois da Chuva

16. Jauja

17. Que Horas Ela Volta?

18. Phoenix

19. Nostalgia da Luz

20. Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

21. Últimas Conversas

22. Winter Sleep

23. Adeus à Linguagem

24. O Clube

25. Ponte dos Espiões

26. O Conto da Princesa Kaguya

27. Whiplash – Em Busca da Perfeição

28. Star Wars – O Despertar da Força

29. Noites Brancas no Píer

30. Corrente do Mal


E como sempre, há as pedras no sapato:



1. A Teoria de Tudo

2. Invencível

3. Loucas pra Casar

4. O Duplo

5. Quarteto Fantástico

6. A Esperança é a Última que Morre

7. Caminhos da Floresta

8. A Forca

9. Linda de Morrer

10. Ricki and the Flash: De Volta para Casa